5 maio, 2011

Imposições de conduta

Posted in Educação, O pessoal é político tagged , , às 10:42 am por Deborah Sá

A última estrutura que tive medo de questionar foi D-uz, sendo uma das imposições de vigilância mais duras que enfrentei; nessa circunstancia uma autoridade cristã é um canal direto entre os desígnios celestiais e a vida prática. Para além de ser aceita em um determinado grupo, isso pode implicar na morte e tormento eternos. Só quem realmente já “temeu a D-uz” sabe o quão pungente é sua relevância.

Adentrei aos poucos e abracei as ideologias Feminista, Atéia e Vegana. É claro que ao identificar-se com um grupo se espera mais sincronia com outras lutas pessoalmente valiosas, embora nunca esperasse a perfeição (isso não existe) de movimentos que visam desconstruções, foi inevitável não deparar-me com posturas equivalentes as experimentadas em bancos de madeira e solenidade cristã.

O discurso presunçoso de alguns ativistas é minoria, falar desses “líderes” ou “modelos” pode de fato afastar novas aspirações, o que muita gente parece não entender é que buscamos referências e nos sentimos agraciados quando surge alguém disposto a esclarecer dúvidas. O medo que muitas mulheres sentem em assumirem-se Feministas/Veganas/Atéias é que não são “fortes o bastante”, já que não raro encontram verdadeiros baluartes:

”Onívoros são comedores de cadáveres”, “Ovo-lactos são nojentos”, “Mulheres Bi são lésbicas com medo de sair do armário”, “Vocês dormem com o inimigo”

Não estou defendendo discurso “cheiroso” que contemple Especistas, Racistas, Lesbo-Trans-Homo-Fóbicos, Classistas… Mas sim, o mínimo de reconhecimento do peso que as palavras podem refletir sobre outr@s. Perdi as contas de quant@s sentiram-se ultrajad@s solicitando auxílio em um momento de fragilidade quando sujeitos “com moral” depreciaram suas vivências. Quem desmerece outrem, tem grandes chances de carregar um discurso hipócrita e demagogo, simulando uma moral transcendente realizando o que tanto critica as escondidas, ou encobrindo um passado/recente não tão louvável.

Sentia certa timidez quando iniciei meus ativismos, por não ser acadêmica, não ter lido todos os livros referenciados ou compreender os termos, essa hierarquia é similar a eleger uma figura de embasamento teórico para nos tirar da escuridão rumo ao inóspito desconhecido. Sentar-nos e ouvirmos em silêncio uma missa em latim.
Toda contracultura estabelece padrões e nenhum deles é completamente original, embora seus agentes sejam seres sociais em permanente transformação, as bases são retiradas do “senso-comum”. E é nesse empirismo que baseio a busca por autonomia e quebra do classista “Discurso Válido”.
Sendo primordial reconhecer que grande parte dos ativistas está nas Universidades e/ou pertencem a classes abastadas (costumam ser os maiores “cagadores de regra”), amiúde consideram os demais como acéfalos indignos de contato, ridicularizando suas práticas. Em debates com o meio Universitário costumam enxergar-se em uma bolha, ignorando a presença de “intrusos”:  “Acredito que todo mundo aqui tem uma empregada que…”, ”Estou falando isso, porque todos têm o mesmo ‘nível’”.

Soberba

Vangloriar-se de “boas ações” não faz sentido uma vez que se encara a justiça parte fundamental na construção de uma sociedade justa, torno-me proeminente por ser branca e apoiar as reivindicações do Movimento Negro? Não, tampouco sou superior por enxergar (dentro das limitações do meu tempo), não-humanos enquanto detentores de liberdades básicas: Respirar, interagir com outros de sua espécie e morrer em uma cadeia alimentar cuja função é integrada ao todo (sob perspectiva holística).

A meu ver, comunidades urbanas e seu conforto (compras no supermercado, acesso a internet) poderiam dispensar o consumo de derivados de animais. Isso não ocorre por questões sociais, históricas e em alguma medida negligência, seja do Estado “neutro” que sustém as relações de poder até onde lucram, seja dos que cientes do processo, estão pouco dispostos a lançar mão de privilégios. Isto não significa que essa é a única forma de conduzir, perceber e lutar por um mundo melhor, ou que ao usar algumas dessas ferramentas me converterei em árbitro universal.

Ninguém opera em totalidade, isentad@ de mínima incoerência. Embora usemos de inspiração vez por outra determinada figura, não devemos atribuir a terceiros a validação ou autorização para autonomia.

Altivez daqueles que respeitamos/admiramos

Relevar humilhações e injúrias é tarefa aflitiva, em especial se considerarmos quem nos direciona tamanhos insultos, é necessário quebrar o silêncio e expor o desconforto diante da afronta e dialogar honestamente. Porém, em determinadas circunstancias após sucessivas negociações percebe-se que nem sempre há disposição em respeitar particularidades, sendo não raro, indiferença e réplica escarnecedora.

Somos restringid@s intermitentemente por figuras de poder: Religiosos, Médicos e “Especialistas” de toda sorte, com quem firmaremos alianças? Teremos de nos submeter diante de familiares, amig@os, teóric@s e companheir@s alheios aos danos que nos causam? Permitir desdéns por possuir “elos” biológicos, materiais, metafísicos? Parcerias ideológicas e afetivas são benéficas tão somente se recíprocas, romper vínculos com quem nos coage descativa os cárceres que mantemos hábito.