5 fevereiro, 2014

Woody Allen, masculinidade e violência

Posted in Gênero, Só falam nisso às 12:57 pm por Deborah Sá

Como um sujeito franzino conhecido por suas neuroses pode ser acusado de violência contra meninas? Teria moldado o comportamento da filha adotiva de 12 anos ao tirar fotos dela nua? Seria transtornado ao esperar a maioridade para casar-se com ela? A carta aberta de Dylan é a prova cabal de um predador sexual? Aliás, com quantos homicídios se faz um assassino? Com quantos abusos se constrói um estuprador? Quem passa por violência sexual pode criar memórias falsas? As produções de Woody Allen merecem a fogueira pública?

Não interessa se algo comportamental ou físico aparentemente inocenta ele das acusações. Não existe “cara” de estuprador. Esqueça os contos de fada onde os traços de um rosto dizem tudo sobre o caráter, não somos Dorian Gray. As projeções de um corpo ou postura criam caricaturas facilmente aderentes e demasiadamente precipitadas. Ademais, a maioria dos estupros acontece em ambientes “seguros”, embaixo do nariz de presentes. Quem consuma esse ato abusa da confiança dos familiares e da própria criança, a qual enxergava na figura mais velha uma autoridade. Mia Farrow, fez o que qualquer adulto responsável, faria: Ouviu a criança, seu modo de explicar o ocorrido, não acusou, deu um voto de confiança. Criança sofre, sente medo e embora sinta as estruturas não sabe como nomeá-las. Sejamos honestos, por vezes, nem nós adultos, conseguimos enxergar as linhas invisíveis nos tolhendo. Imagine então, compreender o sexo não consentido (estupro), quando se é criança. Não interessa se ele “só” fez isso com algumas crianças e não com outras. Um molestador sabe aproveitar vulnerabilidades. Quem estupra está em uma relação de poder coercitivo, é alguém que tem todas as cartas do jogo. E ele como homem, figura mais velha e paterna, aclamado cineasta, provedor econômico, tinha muitos elementos deixando a balança pender para o seu lado. A constituição franzina não diminui as outras esferas de poder. Ele ainda as tem.

Mia Farrow, pouco aparece nas manchetes, seus filhos idem. Eles só existem para a mídia atual em função de Woody Allen. São sombras de uma figura maior em primeiro plano. Não deixarei de assistir um filme produzido por esse homem, especialmente em casa, já que sinceramente, prefiro dar dinheiro para outro tipo de bilheteria (de tão insosso, Para Roma com Amor poderia ser filmado pela Globo Filmes). Faço diferenciação entre a obra e o autor, muito embora saiba que tudo o que tocamos carrega nossas impressões. Se ele “moldou” Soon yi com quem é casado cabe a ela quebrar o silêncio. Se ela vive em uma relação abusiva e não encontra forças para sair do relacionamento, espero que consiga romper. Tratá-la como incapaz e totalmente manipulável não parece o modo mais respeitável de protegê-la. Não conheço a dinâmica interna da relação, aparecer sorrindo nas fotos não diz absolutamente nada. Casamentos sem qualquer indício externo podem ser tempestuosos e opressores. Se Soon yi não denuncia a violência, não posso supor que é vulnerável. Dylan, ao contrário, diz com todas as letras que vivenciou um estupro, por isso, acredito nela. Encarcerar ou matar um acusado por um crime não encerra incesto e o estupro. Quem pratica homicídio ou outro tipo de violação similar não é doente, “gene defeituoso” ou algo que o valha. A violação não consensual é instrumento de guerra contra mulheres e crianças. Nossa sociedade produz pessoas violentas, em especial, homens violentos. Essa consideração não pode ser eclipsada por binarismos de bem e mal. Há de se ressaltar a importância de problematizar a masculinidade hegemônica, mecanismo dorsal de hierarquias generificadas dos agentes da violência. De acidentes de trânsito à violência doméstica, em grande maioria, quem porta a arma, é o homem. Por isso não gosto do slogan “Homem de verdade não bate em mulher”, não faz sentido elaborar uma campanha  onde não bater em mulheres afirme a própria masculinidade. Para quê confrontar um padrão conservando suas raízes?

Vítimas de estupro, em especial na infância, podem apresentar lacunas na memória e até imaginar novos trechos. Isso não invalida a experiência de horror. Tornar pública nos mínimos detalhes uma experiência dessa magnitude desgasta, expõe e estigmatiza a mulher violentada. Ela será sempre olhada com desconfiança ou pena, desequilibrada. Se optar pela continuidade da própria sexualidade será vista como mentirosa. Se optar pela assexualidade, chamarão frígida. Buscamos trejeitos enunciadores de virtudes ou falhas morais nos gestos mais banais.

Como sobrevivente de violência sexual infantil, sei que os flashes perturbadores nos tomam de assalto, por vezes, com riqueza de detalhes sórdidos e a primeira reação é sublimar, tentar focar a cabeça em outra coisa. Basta uma insegurança para a sensação de ser criança, daquela forma que eu era, tomar meu corpo. Me sinto pequena, vulnerável, com mãos indesejáveis passeando pelo corpo inerte. Ao escrever isso, meu corpo é invadido pelo medo gelado que passa do ventre para as costas. Minha cabeça fica muito, muito quente. Sinto misto de raiva e vergonha. Contei com o apoio de pessoas para expelir o refluxo desagradável amargando a boca. Essa é, a maior de minhas cicatrizes, sei que ela nunca sairá da minha memória, felizmente, não mais, ao ponto de me engolir. Enfrentei esse medo diversas vezes e hoje sei defletir o golpe, mesmo que vez ou outra cause um novo hematoma por estar distraída.

Fruto de minhas inseguranças mais basilares, é por meio dele que sinto estorvo, erva daninha a tudo que ousa esgueirar. O sentimento desumanizador de se sentir um monstro, forquilha do que há de mais perverso. Nó na garganta que tenho de enfrentar ao me aproximar de gente nova em um dia que nada vai bem. Pesar que invade quando tenho vontade de falar em público e uma voz desagradável diz que não vale a pena. Ao mostrar crises de choro inesperadas tudo fica do tamanho da minha dor. Imagino que me achem covarde. Depois que o choro cessa, respiro e consigo ver a panorâmica. Não estou presa, passei e é melhor deixar fruir do que engasgar. Aquilo, não me reduz. O corpo precisa de um tempo para expelir um corpo estranho, nesse ínterim, há sintomas desagradáveis, prefiro não mascará-los, escolho criar anticorpos. Porém, não é fácil, quase sempre, é preciso muito empenho. O descrédito de outrem leva à dúvida da percepção. Mesmo o personagem mais neurótico do cinema parece são mediante a palavra de uma mulher.

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4 dezembro, 2013

Estudos apontam: Pessoas inteligentes tem mentes inquietas

Posted in Só falam nisso às 2:15 pm por Deborah Sá

Entre gifs – de gatinhos às mulheres brancas de feições pouco à vontade – a rede mundial de computadores (é com você, Evaristo), apresenta intermináveis listas com as características de pessoas inteligentes. Quadris grandes? Inteligência. Dorme tarde? Inteligência. Ansioso? Pensa muito em sexo? Distração? Introversão? Uau! São sintomas da mais pura clareza mental. De fato, é divertido achar um pedaço de texto que nos descreve, cataloga em algum tipo bom de pessoa, de comportamento. Especialmente se é o da exceção superior. Contudo, não há nada de excepcional em ser impaciente considerando a pressão da perfeição que ninguém alcança. Nem aquele rapaz que já tem carro e casa própria aos 22 anos. Nem ser modelo de passarela. As imagens de sucesso alimentam a indústria de frustração por faltar pouco. Só perder uns quilos. Só comprar um carro novo. Só aumentar o pênis. Um quase lá.

O corpo, seja qual a forma assumida, é marcado pela trajetória, bolhas nos pés cansados, a coluna dobrada de acanhamento, o sotaque. Não se mede aí a inteligência. Uma alta pontuação de Q.I. pode indicar boa memória, escolarização voltada para a dinâmica dos vestibulares, treino. Mas não garante inteligência. Saber muitos idiomas, diferenciar um quadro de outro. Isso também não é inteligência. Ter uma mania, uma fobia, tampouco. Vivemos no império dos medíocres? Sim. Fazemos parte dele? Sem sombra de dúvidas. Um acúmulo de fórmulas, métricas e pontuações não responde tudo (para mais, ou para menos). Pode-se esperar a subversão “inteligente” de um aluno encrenqueiro. Dificilmente se espera uma postura transgressora do sujeito “engomadinho”. Prevemos o sangue frio dos “racionais”, nenhum remorso dos “casos perdidos” (Breaking Bad é solo fértil para discutir além disso, a masculinidade hegemônica e sua fragilidade). A inteligência, ao fim, é atenuante irrefutável. O sujeito é petulante, mas não se pode ignorar a genialidade. Parece viver em outro mundo, todavia é uma mente de fronteiras abertas. Não consegue ler um livro de literatura, é brilhante matemático. Não é um beberrão qualquer, é boêmio contemplativo. Não é uma prostituta de esquina, é articulada, escreve bem, vamos ouvir o que ela tem a dizer. A inteligência legitimada pode ser dissimulação de aceite, um pedido de desculpas. Um jogo de esconder. A permissividade de ser banal se antes for em alguma medida, extraordinário.

19 junho, 2013

“Conseguimos conquistar com braço forte”?

Posted in Atos, O pessoal é político, Só falam nisso às 1:42 am por Deborah Sá

Imaginei que a Copa despertaria união e as propagandas chamando pra rua nomeando a pátria de chuteiras, traria mais gente, despertaria um momento de junção. E despertou. Pensei que seria uma oportunidade de crescimento para todos por integrar mais gente. Errei. Não sou de partido político, mas entristeci ao quebrarem a bandeira de um manifestante hoje. Ao que parece, a única permitida nos atos é a verde e amarela, aquela com o slogan pavoroso de “Ordem e Progresso”.  Esse partidos com bandeiras vermelhas que muita gente chama de oportunista está aí há tempos tomando borrachada (antes de você ir pra rua essa semana) e pode notar, haviam bandeiras vermelhas diversas. Pois, embora esses movimentos tenham aproximações, possuem formas de organização distintas em um espaço para todos. Quando uma multidão reivindica que só sua bandeira pode ser hasteada é amostra clara de silenciamento, de pasteurizar. Saem as cores do arco-íris, entram os tons pesados e bicolores.

Não usaria nariz de palhaço, bandeira de manto. É genérico demais ser “contra a corrupção”, “contra o que acontece no Senado”. Os poderes estão diluídos, capilares, não tem essa de “é só tirar o fulano e tudo resolve em um passo de mágica”. Lembram do filme Tropa de Elite 2 onde a trama reforça que o sistema possui uma lógica própria e mesmo trocando as peças o “relógio” continua funcionando? Então.

O objetivo é paradoxal, pedem paz e um país sem violência através do Nacionalismo. Ah, o nacionalismo…inflou o peito de muita gente a favor da ditadura, mobiliza aparatos bélicos, assassinatos em massa, perseguições que invadem a casa de “possíveis subversivos”, acossam moradores da periferia, o  “Ame-o ou deixe-o”, o Hino Nacional obrigatório nas Escolas. A ordem em primeiro lugar e o progresso a qualquer custo, mesmo que isso implique “cortar o mal pela raiz”. Pedir um não envolvimento “partidário” e sim “brasileiro”, é ao contrário do que a precipitação indica, se posicionar politicamente. Não pela liberdade, autonomia e diversidade, mas pela vigilância assistida, a voz comedida, a clandestinidade aos olhos de um Estado controlador das liberdades individuais e coletivas. Precisamos caminhar, mas é realmente necessário lutar para bater continência?. Se esse é o gigante que acordou, que volte ao sono dos injustos.

Trilha sonora: Manchester England

18 junho, 2013

A tarifa baixou? Não? Então a luta continua!

Posted in Eventos, Só falam nisso às 11:27 am por Deborah Sá

Muito legal, rua cheia. E preciso reconhecer as pessoas que foram no ato de ontem em SP, elas compareceram para apanhar se fosse necessário. Louvável. Muitas pessoas que nunca saíram pra protestos na vida, saíram. Ótimo. Mas é preciso reconhecer algumas coisinhas:

  • O Brasil não acabou de acordar, os movimentos sociais se organizam há anos, não é porque você não vê na TV que não existe. Essa invisibilidade não é culpa dos movimentos sociais. Situações dessa grandeza não mudam da noite pro dia, essas pessoas não tem o poder da grande mídia nas mãos. Quer se informar para além dos veículos convencionais? Que tal começar a seguir outras pessoas virtualmente? Não precisa romper com atuais amigos, fazer voto de pobreza, usar camiseta do Che. Você só fará isso se e quando quiser. Tente se despir dos preconceitos. Há tempos essas pessoas lutam pra conseguir melhorias para todos, inclusive pra você. Essa luta é coletiva, não é pra conseguir privilégios, é pra tornar eles acessíveis, torná-los um direito.
  • Contra a corrupção todo mundo é. É como falar que “odeia falsidade e gente que se acha”, um termo genérico, sem foco, sem direção, que logo é diluído. Pautas são importantes, a primeira desse movimento é: Baixar o preço da passagem. Conseguimos? Não. Então é hora de ir pra rua novamente. Não faz sentido abandonar um movimento onde a ÚNICA pauta sequer foi modificada. Sim, não é só por vinte centavos, mas é o primeiro passo e é importantíssimo que seja atingido. Pode não fazer diferença pra alguns, mas pra pessoas com menos dinheiro, faz. E repetindo, essa luta é para melhorar a vida de todos.
  • Pobres e negros são agredidos de forma sistemática nas periferias. Isso não é vitimismo, é um dado estatístico. Foi horrível o que aconteceu na Paulista? Sim. Mas quanto mais longe das câmeras estão as pessoas e mais afastadas dos grandes centros, mais a borrachada come solta. Esse “basta” deve acontecer em toda parte, não só quando brancos de classe média são atingidos. Não sou eu que defino que uma dor e sofrimento é menor que o outro, é a desigualdade social que assim o faz.
  • Sabe quando você tem uma ideia e seu amigo a usa, leva a fama e fica com o mérito todinho pra ele? É esse meu medo. Os movimentos sociais lutam faz tempo e a imprensa responde com vista grossa¹. Quando são atingidos, mobilizam mundos e fundos pra reverter esse quadro. Agora até o Pondé², está do lado da mobilização. Não quero polarizar entre mocinhos x vilões, mas é como diz o ditado, quando a esmola é demais…
  • Sejam bem vindos, novos e antigos manifestantes. O movimento é sexy ; )


¹ O importante é vender notícia, então vamos focar naquela meia dúzia ali quebrando a cidade….
²  Se não conhece, é um cara que disfarça preconceitos com suposto sarcasmo que de inovador não tem nada.

Deborah Sá, nasceu na Periferia de São Paulo, concluiu o Ensino Médio no EJA e já se fudeu muito nessa vida. Hoje estuda Pedagogia na Universidade Federal de São Paulo. É feminista, vegana, atéia e de esquerda (sem filiação partidária). Tem certeza que só não tem medo de polícia quem nunca se manifestou contra o Estado.

Update: Há um ato hoje, ás 17:00 na Praça da Sé! Vem pra rua!

12 junho, 2013

Os últimos atos contra o aumento da passagem e o vandalismo

Posted in Eventos, Só falam nisso tagged às 12:46 am por Deborah Sá

Imagem

Imagem genial retirada do Facebook – Rolet 20Conto

Já participei de atos contra o aumento da passagem em SP e reitero: Só não tem medo de polícia quem nunca se manifestou contra o Estado. É lindo ter gente na rua, mais de 10 mil! Não fui nessa, nem sei se irei nas próximas. Não que não ache legítimo, mas tenho medo: Medo de polícia e medo de sobrar pra mim, medo de ter uma crise de ansiedade lá no meio (quem já viu eu nesse estado sabe que não é legal). Na multidão não há coesão, um grupo isolado pode decidir tacar ovos (ou algo mais explosivo) e acertar em qualquer um. Já fugi de polícia em ato, já estourou bomba no meu pé, já me acertaram ovo acidentalmente. E os atos de vandalismo, mesmo que pequenininhos (como chutar uma lixeira) são ampliados zilhões de vezes pela imprensa. Apoio fogo e enfrentamento em casos como Pinheirinho, quando as famílias defendem ocupações de espaços inutilizados que aguardam a próxima especulação imobiliária. Porém, não sei se apoio esse enfrentamento no momento em que vivemos. Não quero ser taxativa nem dizer como e onde as pessoas devem militar, talvez esse seja o momento de medidas mais extremas, talvez não, quem dirá é o tempo, não há como prever.

Fama de vândalo, desordeiro, caricato e brutal todo indivíduo não conservador tem, mesmo se “nos comportarmos direitinho”. Quem espera uma representação na mídia que dê voz, é melhor desistir. Ás vezes, medidas drásticas são necessárias, mas não sei se o pessoal dentro do busão que vê um monte de jovem pixando e balançando o ônibus pela janela, concorda com isso. Na verdade, não tem muito como saber. Quem faria uma pesquisa desse tipo? Quem realmente quer ouvir tais sujeitos? A única certeza que tenho é que as pessoas não são estúpidas, seja se informando pelas redes sociais ou pelos jornais, elas não são palermas. Sabem que a polícia é truculenta, que o preço da passagem é absurdo e esperar do Estado raramente resolve algo.

Querendo ou não, os policiais são parte da classe trabalhadora, assim como os seguranças de banco e de shopping. Alguns podem gostar da violência que exercem? Certamente. Da mesma forma uma mãe pode gostar de bater no filho pra extravasar a raiva às vezes. Isso não anula o fato de que eles tem a vantagem da força bruta, do cacetete, o maior porrete, além da permissão para agredir e até matar. Levanta menos suspeita matar nos confins da periferia do que um estudante branco na Paulista. Que fique evidente que acredito na empatia e que é justo que todos os incomodados se mobilizem, mas espero que fique mais evidente ainda que quanto mais escura a pele, mais o cacetete pesa. Já vi muito policial batendo “de graça”, sendo racista e abusivo na abordagem de negros que apenas caminhavam. Um absurdo atrás do outro. Contudo, mesmo com desconfiança, é um aparato que tem sua utilidade. Já vi casos de gente que tentou impedir denúncia de violência contra a mulher porque a “polícia é o braço armado do estado”. Sim, a polícia e o estado não são mil maravilhas, mas tem seu uso, quero dizer, o Estado e seus representantes deveriam antes de tudo, responder aos interesses democráticos e de justiça social. E no momento, não creio que a suspensão do Estado (desculpem, anarquistas), a criminalização dos que se manifestam ou a demonização de trabalhadores que fazem defesa de patrimônio, resolva algo.

E o trânsito? Fica tranqüilo, essa mobilização não findará, amanhã haverá horas e horas de congestionamento esperando por você.

20 agosto, 2012

É justo comparar escravidão humana com a servidão animal?

Posted in Animais, Só falam nisso tagged , , às 5:55 pm por Deborah Sá


Defensores de direito animal há tempos usam analogias entre a escravidão humana e animal, as palavras usadas variam para extermínio, holocausto, chacina e assassinato. Morrissey, líder da banda The Smiths, nos anos 80 lançou o emblemático “Meat is murder” (carne é assassinato).  Também não é recente que o uso de imagens ganhe mais destaque e impacto do que textos, ativistas tentam com materiais gráficos atingir um número maior de indivíduos, mas como cada um interpretará o conjunto de símbolos, letras e formas impressos é resultado do acúmulo de informação que se tem sobre determinado assunto. Um panfleto distribuído em via pública onde se vê lado a lado várias representações de casais LGBTTT com os dizeres “Toda forma de amor é válida” pode ser altamente ofensivo se visto por alguém que não entende o bê-á-bá sobre identidade de gênero, prática e orientação sexual, aos olhos de quem se ofende é completamente absurdo validar a afetividade não heterossexual. Similarmente um panfleto que compare um cão com uma vaca acompanhados da frase “Se você ama uns, por que come outros?” pode parecer um disparate para quem julga inconcebível colocar no mesmo patamar um animal de companhia e digno de cuidados com um animal de finalidade alimentícia. Mas se a distribuição é aleatória, não há como prever o acúmulo e consecutivamente a reação de quem tem acesso a esses materiais. Nesse processo os que dispõem de menos informação muitas vezes não estão dispostos a ouvir as argumentações de quem tenta disseminar o conteúdo, principalmente se isso vier em forma de um texto. Se o verso do panfleto trouxer mais de dez linhas poucos são os dispostos a correr os olhos por ali.

As pessoas tem preguiça de ler e não se trata de incapacidade, há pouco estímulo para esse hábito, talvez isso explique a imensa popularidade de pastores, eles dominam a linguagem das Escrituras interpretando em voz alta e em Libras, para os fiéis que se consideram inaptos para decifrar a Bíblia (o reconhecimento da própria pequenez é valor desejável para um rebanho). Ler demanda tempo, introspecção, reflexão e apuramento do conteúdo exposto e quem exerce essas competências possui um tipo de poder, de domínio. E a quem interessa um número expressivo de pessoas que tem medo de ler e escrever senão os que desejam manipula-los?

Se encararmos a compreensão de uma imagem como igual competência, recairemos no mesmo impasse, falta de estímulo e acúmulo para compreender a real intenção por trás da ilustração.  Embora seja uma forma distinta de transmitir conceitos, a ilustração é uma forma de expressão e linguagem. E isso nos leva há um ponto comum entre feministas, comunistas, socialistas e veganos: São de maioria branca, classe-média, com ensino superior, são letrados. Não importa se nas manifestações em ruas ou blogs, os integrantes majoritariamente têm rostos brancos devido a essa parcela tradicionalmente receber maior estímulo para leitura e produção de textos/imagens. Portanto, é imprescindível não se esquecer de qual lugar falamos, mas atentando para não cair no sofisma “se a maioria das veganas e feministas são brancas e de classe média, logo isso é uma ideologia de dominação”, uma inverdade quando o que se busca é diametralmente oposto, a autonomia, a liberdade, a não sujeição dos corpos. O esforço deve ser empregado para reformular essa afirmação: Sim, é evidente que a maioria nesses grupos é privilegiada pela classe social, raça e por vezes gênero, algumas das consequências diretas da desigualdade econômica são o baixo incentivo à escrita, leitura e produção de imagens. Isso não deslegitima a veracidade dos argumentos apresentados pelos grupos que detém os meios criativos, mas faz urgente a inclusão de outros indivíduos até então ignorados convertendo-se em agentes nesse processo.

Esperar que cada vegano fique prostrado diante de um quiosque em uma espécie de “Plantão de Dúvidas” frente às calçadas mais movimentadas aguardando por tempo indeterminado, para atender os curiosos, é exigir muito de alguém com vida social ativa. Devido ao impacto de mais rápida assimilação o uso de imagens é boa ferramenta para divulgação, porque faz uso de arquétipos significativos na cultura, símbolos praticamente universais em um só material.  Cada grupo se articula com uma ferramenta de divulgação, uns fazem o papel pedagógico de base respondendo as perguntas mais elementares, outros acham melhor partir para uma abordagem mais direta, por exemplo, dizer sem firulas que carne é assassinato e o sangue que suja o prato depois de um almoço não é a base de urucum e groselha, é o mesmo tipo de sangue que quando nos cortamos sem querer vemos brotar do indicador.

E por que alguns defensores de direito animal fazem o paralelo entre a escravidão? Vejamos a definição do seguinte verbete:

Escravo
adj. e s.m. Que ou quem está sob o poder absoluto de um senhor que o aprisionou ou o comprou.

Assim, escravos são aqueles que podem ser comprados, coisas medidas segundo a utilidade para seu senhor, eles não tem “alma’, podem ser machucados no manejo e transporte se isso for necessário para conter seus passos e direção, açoitados, aprisionados, trocados e substituídos por outro de igual valor. Com pistola de pressão ou machadada, propriedade privada. Ter um escravo humano já foi direito assegurado por lei. E com base na analogia entre o escravo humano de outrora e o escravo não-humano que persiste  até nossos dias, o movimento de direito animal pegou outra palavra emprestada, o Abolicionismo:

Abolicionismo
Sistema de princípios sociais que propugnava pela extinção do tráfico e da escravatura dos negros.

Quando se compara através de termos ou imagens a exploração animal e a escravidão hedionda pelos quais os negros foram submetidos historicamente, a intenção não é menosprezar ou rebaixar essa memória, mas evidenciar um subjugo na prática muito similar repetido com outras vítimas. O Judeu nascido na Polônia, Isaac Bashevis Singer, em The Letter Writer escreve: “Em relação (aos animais), todas as pessoas são nazistas; para os animais, é um eterno Treblinka

Ao contrário do que a dedução precipitada leva a crer, isso não é afirmar que todos os que comem carne e tomam leite são sádicos e assassinos, mas que estão inseridos em um registro onde animais são vistos como propriedade, com as carnes dependuradas na artificialidade das gôndolas de supermercados não residindo nenhum crime prescrito em lei, para quem adquire um peixe com os olhos saltados e inertes ao lado de seus pares sob uma bancada de gelo.

Desleal seria arranjar outro termo para degola e sangria para que o sofrimento dos não humanos parecesse mais justificado, arbitrário seria assumir que queimar com ferro quente uma numeração no corpo de um bovino para demarcar o domínio seja muito diferente de assinalar um escravo, absurdo é castrar sem anestesia um sujeito em cativeiro para que a loucura não seja responsável por canibalizar, oportuno é ignorar que por baixo da nossa pele humana guardamos músculos, gordura, tendões, cartilagem e ossos, a vulnerabilidade onde por baixo do couro guardamos um naco de carne.

15 agosto, 2012

Femen Brasil

Posted in Corpo, Gênero, Só falam nisso tagged às 2:30 pm por Deborah Sá


Para início de conversa, não tenho problema com nudez. É uma ótima forma de alimentar o amor-próprio e nem sempre há de se ter um caráter político, subversivo, chocante, a nudez pode ser plácida e descompromissada, como alguém que toma sol na varanda ou saltita pelado pelo corredor da casa. Minha prática nudista (pois é, adoro ficar pelada) tem muito mais a ver com conforto do que qualquer outra coisa. Não tiro a roupa porque quero ser agredida e despertar raiva, tiro a roupa porque gosto da sensação e os corpos são para si e para ser. Aprecio a coroa na cabeça das Femen (tenho uma tatuada no peito com um propósito não-feminista). Portanto minha oposição não tem a ver com o fato delas usarem a nudez, flores  ou serem bonitas.  Sempre há risco de uma ativista ser mau interpretada, com ou sem roupa.

Divergências: O rito de iniciação, a pré-seleção das candidatas, o alistamento, a idéia de se militarizar¹, Soldadinhos de Jesus, Soldadinhos do Capitalismo² agora aparecem as Soldadas do Neo-Feminismo?  Um dos valores que mais aprecio é autonomia e se essa depende de apadrinhamento, não me apraz. É saudável aprender com os outros, se inspirar em alguém para construir algo, mas a partir daí supor que é preciso hierarquizar ao transmitir conhecimento é presumir que a ação não se constrói coletivamente, vira reprodução de uma fórmula fechada.
Se apartar: “Você tem que abraçar essa idéia sabendo que pode perder amigos, família…” não me parece nada agradável demarcar essa diferença nas relações pessoais, a renúncia. Outra premissa para militar no Femen é ter peitos, não qualquer peito, mas peitos “de mulher” grandes o suficientes para fazerem o formato circular, símbolo do grupo. Seriam aceitos homens com peitos (siliconados, ou não)? Mulheres magras sem volume suficiente? Por que fugir da palavra “feminista”? Prezo por certas radicalizações, ser feminista, ser de esquerda, não deveria ser indecoroso, tornou-se uma necessidade em tempos onde a direita aparece descolada no programa do Bial enquanto os ícones da esquerda permanecem na academia. A meritocracia é uma das características do Feminismo burocrático onde existem pré-requisitos para ser promovido.

No meu entendimento as ativistas do Femen não são “inimigas”, elas só escolheram outros métodos para lutar contra coisas que também julgo importante defender, como o direito ao parto natural em casa, contra o turismo sexual e o machismo. Porém, me oponho fortemente a militarização implícita. Se você tem algum pensamento que destoa da maioria, esperarão uma boa explicação que o  justifique (a normalidade não precisa de motivo além de “é o que todo mundo faz”). Existem várias formas de divulgar uma causa, uma delas é “sê o exemplo” onde por via de um bom testemunho desperta-se a curiosidade alheia pela postura diferenciada, também dá para panfletar, colar cartazes e lambes, usar um megafone… O Femen acredita que em comparação com todas as tentativas anteriores o que trará mais visibilidade é tirar a roupa. Se isso será eficiente só o tempo dirá e para ser honesta, não acho que isso desgasta ou suja a imagem do feminismo. Isso é superestimar o Femen e subestimar a luta feminista construída por gerações, a história não funciona assim, do dia pra noite “puf”, uma ideologia é substituída por outra, as releituras e readaptações felizmente são imprevisíveis e incontroláveis. Não é preciso tanto afobamento. As pedras no sapato do feminismo permanecem as mesmas: O machismo, a ignorância, a misoginia, o patriarcado.

Discordo de quem diz que o Femen Brasil representa uma vertente “feliz” do Feminismo convencional, ao contrário, me parecem sérias e compenetradas (se preparam psicologicamente para apanhar de policiais, serem xingadas nas vias públicas e o rachaço social). Não compactuo com os métodos do Femen pelo fato de tudo que me parece rijo demais causa estranheza, e de bruto, basta o que rodeia,  dá pra lutar sem abrir mão do sorriso. E não quero entrar nas farpas de qual vertente feminista é mais “durona”. Curioso esse tempo onde escapar um prazer é sinônimo de sucumbir.

¹ Em momentos de tensão e ruptura, a barbárie costuma imperar com poucas alternativas diplomáticas. Reconheço que centenas de pessoas, principalmente negras e pobres morrem na periferia de SP e em tantos outros lugares por aparato bélico. Nas argumentações acima me refiro a um registro de mínima estabilidade democrática, onde as pessoas possam vivenciar um evento “pós-traumático” e superar, ao contrário de um lugar onde esse “pós” simplesmente não existe e a agressão intensa é recorrente, em exemplo, as experimentadas por mulheres no Congo.

² Funcionários que trabalham  e choram escondido pelo esporro do patrão premiados pela competitividade e o lamber de botas. É uma das coisas que mais me enojam no ambiente corporativo (e programas do tipo “O Aprendiz”): Pelo prestígio de manter uma profissão metem-se em roupas desconfortáveis, aguentam sorrisos falsos e tapinhas nas costas, cumprem metas e simulam personagens que não são.

24 maio, 2011

Quem ainda quer falar de amor?

Posted in Só falam nisso tagged , às 10:45 am por Deborah Sá

O amor transcende as relações que criamos em pares, trios e além. Com quem nos deitamos e dormimos de conchinha, traçamos o futuro fazendo de um beijo, sorriso, acolhimento e gozo. Há quem sustente que é perfeitamente possível viver em plenitude sem criar essas alianças pré-concebidas de uma casa com filhos, aliança no dedo, cabelos tornando grisalhos, beijinho na testa. E estão certos, em verdade, não importa qual nosso modelo de “amor” ele terá probabilidades de conflitos e êxito.

Em um mundo repleto de auguras e hostilidade há quem ouse sorrir. Algumas pessoas em suas razões preferem colocar e escolher mais cores ao redor, priorizando a ternura em detrimento da ira. Uma das suspeitas que recaem sobre quem manifesta publicamente seu regozijo e admiração diante do que é gentil e belo é a qualificação simplista de “Imaturidade Pueril”.
Porque a capacidade que temos de nos emocionar, verter lágrimas ou sentir um aperto no peito diante de determinadas ocasiões, parece vergonhoso. Enquanto entusiasta das canções, dos bons clichês, do afago, do carinho; sobretudo da empatia, reivindico maior doçura e complacência de quem porventura tenha acesso a essas linhas.

E se antes de atacarmos um ser em exercício de benevolência nos imaginássemos em seu lugar? E se alguém gosta de enfeitar-se com flores no cabelo? Dançar ciranda? Fazer cafuné? Me indigno e oponho ao que é cruel, mesquinho, tirânico, opressor, silenciador, truculento, ríspido. Muito espanta que tantos outros se ofendam com demonstrações públicas de afeto, desde quando o amor virou démodé? O nosso bem-querer deve permanecer entre quatro paredes apenas para os cônjuges terem acesso ao nosso lado mais cortês? Por que não estender essa possibilidade a quem se aproxima por entre as brechas que o cotidiano nos traz? É tão custoso acenar para uma criança que nos olha com curiosidade? Ou quem sabe acariciar um cão que se aproxima e expõe a barriga pedindo um afago?  Precisamos de mais resmungos e rigidez?

E nós, que sentimos em sobejo sofremos pelo desdém de nossa dor, de nossas pulsões, de nosso palavreado repleto de sentimentalismos. Porque todo e qualquer ato empático valerá a pena para aquel@s que aspiram por algo maior que a circunstância permite, defrontaremos pois, o ódio, com palavras de amor.


As emoções de um isopor

“Você irmão, que está aqui! Frio diante da presença de D-uz com vergonha de chorar. Ele está vendo que aqui você é duro, mas de frente para a caixa de isopor, está lá chorando, feito uma criança!”  Ouvi essa pregação há cerca de dez anos atrás, em uma CCB através de um Cooperador que seguia a linha “Malafaia” (não entendia porque raios um discurso tão ríspido lotava a igreja). Aquelas palavras me incomodaram, como alguém pode definir o que deve nos comover?

Nessa última semana ouvi uma música intitulada “Oração” da “Banda Mais Bonita da Cidade”, o vídeo mostra um grupo em clima amistoso em uma confraternização alegre onde celebram o amor e a amizade. É bonito. Contudo, em uma busca rápida nas redes sociais constata-se que os que se opõem a estética utilizada,  fazem por considerá-los “felizes” demais. Alegam também que a letra é simples e não revela nada de inovador,  não seria um discurso similar ao que ouvi na década anterior onde somente o que é “elevado” é digno de reconhecimento?  Prefiro o atrevimento de uma lágrima diante de um comercial de margarina, do que a apatia ao som dos violinos.

PS: Nenhuma banda é a “Salvação da MPB”, porque não há nada para salvar.

4 janeiro, 2011

O figurino de Dilma

Posted in Só falam nisso tagged , , , às 5:03 pm por Deborah Sá

A análise sobre Dilma na Cerimônia de Posse não se focou na eloqüência ou veracidade de seu discurso, a mídia preferiu usar outros parâmetros que mais pareciam uma releitura do Determinismo Biológico.

Dizem que a roupa não favoreceu um biotipo “que requer vários cuidados para que a pessoa pareça bem-vestida”, nem seus braços foram poupados de criticas. Antes de qualquer atribuição, Dilma é uma mulher que ocupa um cargo destinado quase que exclusivamente ao poderio masculino, acusações semelhantes eram vislumbradas no início de sua campanha e a tendência é que se intensifiquem.

Semana passada, vi um trecho do programa “Vanity Insanity” onde (no capítulo específico), homens contavam suas frustrações de cirurgias mal sucedidas, o primeiro era um lutador (luta livre) que tentou implantar silicone nas panturrilhas, o segundo um homem que gastou muito dinheiro para reparar danos capilares e no terceiro e último, um que aprendeu a lidar com a perda dos cabelos. Esse criou um site para promover a auto-estima de homens carecas e diz receber e-mails desesperados de jovens que cogitam suicídio aos primeiros sinais de calvície.

“As pessoas que tem cabelo não fazem idéia do quanto é impactante vê-los caindo, há uma indústria que fatura bilhões com implantes de cabelo, shampoos e outros acessórios que prometem mais fios. Esta mesma indústria vende a imagem do homem careca como alguém impotente e pouco atraente. Em verdade, não conheço um só homem careca que não seja charmoso” [Trecho sintetizado]

Não menosprezo o quanto deve ser doloroso perder os cabelos involuntariamente, mas esta pressão é sentida diariamente por mulheres em maior quantidade, qualquer revista feminina nos instrui a procurar minuciosamente novos defeitos. O candidato Serra ganhou um número expressivo de votos, vejamos o padrão estético dos candidatos do PSDB:

José Serra, Geraldo Alckmin e Aloysio Nunes

Não vi nenhuma reportagem que aborde este incontestável padrão: Os candidatos que uniram forças para arrecadar votos em São Paulo são do gênero masculino, brancos e com poucos cabelos. E essas camisas? Não são de pouca criatividade? Combinou com o tom de pele? Acham que a maquiagem aplicada foi adequada ao período diurno? É impressão, ou o candidato Serra não adequou os tons grisalhos de forma uniforme? As unhas estão feitas? Mesmo se Serra fosse eleito, esta abordagem não seria necessária já que o desempenho governamental independe do formato de um rosto ou um crânio. Quer dizer, a menos que você seja mulher.

Confundem-se normas de gênero com características biológicas e caráter, isso conduz uma linha tênue e perigosa que estipula padrões comportamentais de um grupo marginalizado. Cobram de Dilma coquetismos e disfarces de sua anatomia amparados na alegação arcaica: Uma mulher não pode ocupar a Presidência, pois não preenche um requisito anatômico/biológico.

No Brasil é tolerável ser negra contanto que alise os cabelos, ser pobre enquanto não freqüentar os mesmos espaços de quem tem dinheiro, ser mulher se dócil e podemos até ser gordas, mas o uso de biquíni é atestado esquizofrênico.

29 outubro, 2010

Rodeio de gordas

Posted in Corpo, Só falam nisso tagged , , , às 12:44 pm por Deborah Sá

Não importa onde uma gorda esteja alguém lembrará o quanto é inadequada ao convívio, nos negam o direito de viver, o amor próprio, a dignidade. A presença de uma mulher gorda incomoda e o simples caminhar leva ao murmúrio e dedos em riste. Castra-se o desejo e percepção da própria existência.

Dizem que o caso na universidade é isolado. Quão cruel é falar a uma criança de sete anos que não pode dançar se gorda?  Qualquer músculo pouco exercitado pode atrofiar e é isto que nos fazem crer em capacidade motora. Se ao sorrir todos te humilhassem deixando evidente o fato de ser “torto”, seria capaz de fazê-lo sem levar a mão à boca?

Assim gordas vivem, vendedor@s nos “medem” “Aqui não tem nada pra você”, ou prestativ@s alertam “Tenho um creminho ótimo para tirar essas estrias horrorosas da sua barriga, “Esse aqui é perfeito para esconder os pneus” . Em uma cultura que odeia o corpo feminino podemos assistir em qualquer horário as únicas mulheres que se assemelham a nós repreendidas por um homem com caneta e bisturi: “Gorrrrdurrrrinhas horrrrríveis”.

Quando tinha por volta de doze anos, um garoto da minha rua constantemente me denegria em público e na primeira oportunidade tentou me agarrar à força. São muitos os homens que negam publicamente a atração que sentem por mulheres gordas, ou que julgam “mais fácil” trepar em segredo com alguém de baixa auto-estima para encobrir o grande incompetente que é.

Mulher gorda

Descubra o prazer de celebrar suas dobrinhas, seja na língua por entre estrias e curvas, seja no balanço do quadril. Deleite-se, permita ao corpo qualquer movimento, não tenha medo do espelho, deslumbre-se nele. Busque sua força, aprenda alguma defesa pessoal, faça Yoga, fortaleça sua confiança. Não sejamos tolerantes e compreensivas quando nos depreciam e se necessário for, usemos os punhos.

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