26 outubro, 2014

Entre a pureza e a malícia, como percebemos a infância

Posted in Corpo, Educação, Sexo, Violência tagged , às 2:49 pm por Deborah Sá

Lolita, novinha, menina-moça, criança viada. Em virais e memes, na literatura, nos animes, nas telenovelas. São abundantes os exemplos de como retratamos a sexualidade na infância e começo da adolescência. Ora são mostrados como indivíduos ardilosos usando “seu poder de sedução” contra “escravos de suas pulsões”¹, ora como criaturas imaculadas, joguetes na mão de adultos. Acentuamos e desaceleramos essas interpretações conforme temos apreço (ou familiaridade), pela figura analisada, somando a isso, a própria categoria de infância num termo mais abrangente. Em linhas gerais, a duração da infância é bastante imprecisa, no senso comum algumas crianças são mais crianças que outras. O que faz a criança ser parte desse recorte temporal é a manutenção de sua docilidade, afabilidade, sujeição e assexualidade. Quanto mais uma criança não demonstra irritabilidade, sentimentos como vingança, agressividade, fúria e libido, mais “conservada” está em sua pureza, torna-se obrigação resguardar sua segurança. Aliás, esse é o argumento número um daqueles que defendem a redução da maioridade penal “Se já tem maturidade para cometer um crime, já pode responder por ele”. Desse modo, a infância é uma categoria que não corresponde determinada faixa etária, primordialmente, é visão moral sobre sujeitos, tão somente se não forem esses, capazes de atos sádicos ou sexuais. Os que cometem tais ações não “são mais inocentes”. Na continuidade dessa linha de raciocínio, passíveis de sanções e penalidades.

Em idêntica proporção ao julgo normativo esperado dos corpos adultos, as crianças que passam por algum tipo de assédio ou violência sexual, mas, não parecem  “puras como as outras” são acusadas de “provocarem” porque usam roupas, maquiagens, adereços ou se comportam de forma “inadequada para sua idade”. Portanto, se assume que há sujeitos passíveis de violência (inclusive sexual), como medida corretiva, o que é indubitavelmente autoritário e perverso. Para compreender esse fenômeno é imprescindível considerar o peso enorme da misoginia e demais heteronormatividades. A menina é considerada “menos pura” e “provocante” porque não é julgada como criança, é lida como mulher. O menino é considerado “malicioso” porque gesticula e fala de tal forma que “não parece viril” e assim, sucessivamente. Mesmo as crianças que se esforçam na radicalização do gênero designado, são menosprezadas: Alguns adultos podem até gostar de crianças “comportadas”, mas, na cultura de pares (isso é, o que acontece entre crianças quando nenhum adulto está vendo), são lidos como covardes e pouco autônomos. Já a criança que se envolve em brigas, pode ganhar certa imunidade em seu círculo. Se for um menino, provavelmente, até alguma admiração. Entretanto, será um “caso perdido” (especialmente se não branco), ao parecer de professores, diretores e não raro encarado como “um futuro delinquente”. Portanto, raça e classe social também operam nas impressões e prospecções que fazemos do destino de crianças. Exigimos que “se emendem”, sejam projeto de infância perfeita, um protótipo de obediência e mansidão. Elas precisam ser mini-mulheres e mini-homens perfeitamente ajustados em um dos pólos.

E se não se nasce mulher, torna-se, onde estão os exemplos de ser “mulher”? Onde está “ser homem”? A educação e os modelos de comportamento estão em todas as partes e as crianças, em constante interação com variadas plataformas (mídias e círculos sociais), contendo padrões. Assim, por mais que more em uma família nuclear tradicional e jamais briguem em sua frente, uma criança tem acesso aos meios de comunicação, frequenta a escola, o bairro, a igreja, percebe quando adultos mentem, o que chamam de bonito ou de feio, o que incentivam e o que desaprovam nos comportamentos, que tipo de modo de agir vira piada. A criança responderá aos estímulos tentando achar uma boa equação entre o que ela deseja (mesmo que seja um tanto destoante de onde pertence), e o que ela deve fazer para ser reconhecida, respeitada. As crianças duvidam das explicações dos adultos e aceitam sem pestanejar outras tantas, não são elas que fazem as regras. Participam de dinâmicas nas quais suas vontades são pouco consideradas e os limites físicos, bastante rígidos. Por exemplo, se uma criança pequena não quer tomar banho, pular a guia da calçada, ir para uma festa; os adultos escolhem por ela a roupa, colocam embaixo do chuveiro, tomam no colo e levam para qualquer canto. É o adulto que coloca de castigo. É o adulto que bate para repreender e dentro da vida privada, respaldado. É o adulto que define se ela já não é “mais tão criança” e deverá ser condenada.

A criança não é portanto, dona de seu corpo, uma vez que está a mercê de outros corpos adultos ou mais velhos, os quais não só podem proteger do mundo externo, dar carinho, alimento, abrigo, mas também, empregando persuasão e força, causar danos. Considerando desde o início do Séc. XV (onde as primeiras noções sobre infância ganham notoriedade), são inúmeros os casos de adultos e tutores que matam crianças. Os contos de fadas, canções de ninar, mesmo as notícias de telejornal recentes explicitam para as crianças que viver é perigoso. Muitas das que passam por situações de violência sentem-se impelidas em acatar como punição e castigo, “porque merecem, porque são crianças ruins/más”. A culpabilização da vítima atravessa a infância, seja porque não são “puras” o bastante para serem cuidadas, seja porque não atendem a intransigência dicotômica de “ser homem”, “ser mulher”. A legislação moral é severa e recai sobre os corpos, não importa se mal caíram os dentes de leite.

¹ Para explorar mais esse assunto: Doente, monstruoso, bestial: O pedófilo.

Referências: ARIÈS, Philippe. História social da criança e da família. 2. ed. Rio de Janeiro (RJ): Editora Guanabara, 1981

MULLER, Fernanda. Infâncias nas vozes das crianças: culturas infantis, trabalho e resistência. Educ. Soc., Campinas , v. 27, n. 95, Aug. 2006 . Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0101-73302006000200012&lng=en&nrm=iso&gt;. Acessado em 26 Oct. 2014.

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29 agosto, 2014

R.E.C.A.L.Q.U.E

Posted in Corpo, O pessoal é político, Sexo tagged , , , às 7:21 pm por Deborah Sá

É desnecessário dar pinta. Principalmente se for bissexual com cabelo esquisito, sapatão sem maquiagem, viado de short. É exagerado dar pinta se for não-monogâmico. Raso fazer sexo com amigos. É permitido conversar sobre gelzinho para oral, lingerie de colegial, chantilly com morangos e falar “pepeca” em conversas informais. É vulgar falar buceta, é doentio falar de podolatria, bondage ou algemas (que não sejam as de pelúcia). Feminismo é… okey. Porém, é despautério ser peluda e usar regata, gorda com roupa justa, esquerdistas e anarquistas e suas bandeirolas. Qual a necessidade de esfregar essas aberrações na cara dos outros? Porque tornar tão visível? Falta de etiqueta, compostura, discrição e principalmente, falta de tecido para esses rebeldes – oh, céus, literalmente! – sem calças.

Do mesmo modo que gordo não deve fazer gordice, viado não deve fazer viadagem, sapatão não precisa fazer rebuceteio. Concorda? Sua hora chegou! Filie-se a R.E.C.A.L.Q.U.E (Rede Examinatória de Cu Alheio por Liberdades Quadradas Universalizantes e Encarceramento)! É  bastante incômodo ver à luz do dia e na via pública esses comportamentos, como ação,  precisamos saber os mínimos detalhes do passado, presente e futuro desses esquisitões, não é mesmo? Esses são alguns dos benefícios de possuir a carteirinha: Hétero respeitável. Com ela você pode identificar e orientar taradices, ao mesmo tempo, descobrirá: Quais as posições praticadas e com quantas pessoas se fez sexo, ativa ou passivamente. Se pretende ter filhos. O quanto isso atrapalha o desempenho profissional. Qual evento traumático da família desestruturada ocasionou esses desejos. Se já usou drogas. Se encontram parceiros na rede mundial de computadores. Se já se envolveram com pessoas casadas (além de destruir a própria família para desgosto dos pais, destruíram outros lares). Se fazem uso de remédios controlados e muito mais! A triagem consiste em investigar quem possui gestos, entonações, roupas e outros indícios de dar pinta. O exame preliminar está disponível on-line no QUESTIONARIO_HETERO_de_RESPEITABILIDADE.

A detecção precoce de tais sintomas e intervenção adequada, permite uma vida de vigilância constante, auto-flagelo, culpa, vergonha e auto-ódio, levando em muitos casos ao suicídio, não é maravilhoso? Materiais em vídeo-aula possuem as seguintes temáticas: “Te coloco uma lupa pra sair do foco”, “Eu não sou preconceituoso, mas…“, Eu só quero o seu melhor, mas o que você faz é uma pouca vergonha”, “Faça entre quatro paredes, me conte detalhes”, “Falo isso para te proteger”, “Está na Bíblia Volume I, II e II”, “Está no DSM-IV”,  além do sucesso de vendas “Você é uma aberração, por isso vive triste”. Entre em contato com nossos associados! A R.E.C.A.L.Q.U.E tem imensa satisfação em agregar novos membros¹. Na busca por um mundo descafeinado, bege e com cheirinho de eucalipto! 

Organizações R.E.C.A.L.Q.U.E
Lavando as mãos e a sua consciência


 

¹ R.E.C.AL.Q.U.E possui parceria com setores religiosos, estatais, familiares, legislativos, além de humoristas e grandes emissoras de TV.

4 junho, 2013

O (raivoso) admirador secreto e a indiscrição

Posted in Corpo, Gênero, LGBT, Sexo às 10:38 pm por Deborah Sá

As pessoas gostam de fazer sexo. E elas fazem. Nem sempre entre quatro paredes, nem sempre de maneira não subversiva, ás vezes com palavras de baixo calão, outras vezes registrando em imagem ou vídeo. É de uma pequenez tremenda tratar de um tema tão natural como se fosse a polêmica do século. Se você acha humilhante tal prática, palavra ou atitude, não faça nem as diga, simples. Você tem o direito de ser uma pessoa reservada, mas nem todo mundo é assim. Tem quem não se contente, quem cansou de baixar o tom da voz pra não chocar, quem prefira usar dourado e gargalhar alto, quem faça mais sexo que você e não tenha problemas em falar disso. Outros sujeitos que também tem vida sexual: Seus avós, seus pais, o porteiro, a manicure, o advogado, a professora do maternal, a dona-de-casa, os líderes religiosos, os colegas de trabalho e da faculdade, bem, a lista é realmente grande. O mundo continua girando, as pessoas gozam, ficam peladas, introduzem coisas nos seus orifícios, usam suas línguas, dedos e tudo mais. Muito pesado o assunto? Dá tempo de pegar um copo d’água. Vai lá. Sério. Vai lá. O texto não sairá correndo. Pronto. Voltou? Está tudo bem? Espera o choque passar e prossiga a leitura:

Qual é o espanto de uma foto ou vídeo de sexo consensual cair na rede? Foi bom para os envolvidos e uma pica é uma pica, uma buceta é uma buceta e uma bunda, oras, é uma bunda. É tão difícil de entender? Já viu livros de anatomia? Já se olhou nu no espelho? Nunca viu outro corpo nu na vida? Parem de reagir como se não soubessem o que acontece quando as pessoas resolvem dar prazer uma pra outra. Por favor, parem. Está na hora de crescer e entender que o resto do mundo gosta de trepar, ache você absurdo ou não. Essa é outra prova que pornografia não torna as gerações mais esclarecidas, na realidade, ficam cada vez mais impressionáveis.

Tudo em nome de uma boa reputação… Quando se é jovem é a fase de construção, quando adulto e de vida ganha, surge o medo de arriscar tudo o que construiu, mas nem por isso o desejo morre. A maioria das prostitutas atendem homens casados, quantas mulheres tatuadas/modificadas não são assediadas por homens mais velhos e conservadores? Quantas travestis não recebem dezenas de investidas por e-mail com fotos de pintos que prometem uma foda? Quantos gays não recebem ofensivas pesadas daquele sujeito que adora ficar de quatro contanto que não saibam? Quantas gordas não foram assediadas por homens que as menosprezavam em público?

O  sujeito “no armário” que profere ódio em público mas se acaba de desejo (isso é, se masturba) pelas figuras que repudia, é um dos germes do próprio ódio. A inveja de quem pode viver o que desperta vontade, o que desperta tesão. A raiva de sentir um desejo assombroso por aquele que leva a vida que queria ter, quem o lembra o tamanho do medo que carrega nas costas. O furioso vive a admirar e praguejar em segredo. Além de ter a audácia de ser abertamente feliz em suas escolhas, o outro subversivo mantém o observador hipnotizado. Bastava estalar os dedinhos para ver o combatente lambendo botas com prazer suplicante (contanto que não saibam). Perturbador é o fascínio que qualquer outsider causa em alguém que teme a fronteira desconhecida,  o próprio desejo. Sendo a vontade mal digerida a que prevalece, bate como um tambor no peito, nas entranhas, nos genitais.

Essa fantasia secreta de “virar o jogo” (se sentir dominado, tentar dominar) nem é mesmo genuína, esse tesão coberto com três camadas de culpa e uma cereja de submissão só existe quando guardado. Os comentaristas coléricos e anônimos da internet não dão a cara a tapa. Os que vão mais longe e pixam a casa, mandam cartinhas, sequer mostram o rosto. Fazer a vida de alguém um inferno porque fez sexo e gostou é estratosfericamente provinciano. Condenar um sujeito por sexo consensual apenas por sair do esquadro das posições moralmente nobres (quais?) é arcaico. Diferindo de pessoas discretas e que não gostam de expor o que consideram de foro íntimo, os desleais esperam a vez de por os pés fora do armário para serem hipócritas, cruéis, mesquinhos, extremamente covardes. E desses, meu bem,  quero distância.

10 novembro, 2012

Está ouvindo os gemidos? São da engrenagem

Posted in Corpo, Sexo tagged , , às 6:04 pm por Deborah Sá


Das primeiras fantasias sexuais que me recordo, embora os cenários variassem, uma coisa era certa: Sentia tesão em imaginar alguém com tesão em mim. O que transformava qualquer material pornográfico em algo monótono e completamente sem graça. A fantasia era tátil, demandava olhar sincero, mãos firmes, corpos entrelaçados, cheiros, línguas, deslizes, sorrisos maliciosos, a imprevisibilidade, o frio na barriga.

Uma vez no Multishow de madrugada vi uma mulher em salto alto com as pernas abertas se esfregando em um pneu gigante (de caminhão?), como se a agonia não fosse o bastante, ela puxava e torcia os mamilos com a mesma emoção de quem lava uma louça, a diferença é que ela mordia os lábios e parecia raivosa. A cara dela não era de prazer, era tédio misturado com raiva e não entendi como alguém poderia se excitar com uma pessoa visivelmente insatisfeita. Nos sites de vídeos pornográficos, uma busca rápida por sexo oral levará a milhões de picas de caras feios igualmente raivosos, só que xingando. A impressão que dá é que nenhum deles parece feliz na cena, mas ao menos o cara extravasa com gritos enquanto a mulher só pode gemer e se beliscar. Masturbação feminina é coisa patética de se ver nesses sites, pra começar o que são aquelas unhas gigantes? E aqueles tapinhas na buceta? E a voz masculina comandando toda a ação mesmo quando são duas mulheres? E os gemidos mais forçados do que o sorriso que se dá para o chefe quando na verdade gostaríamos de mandá-lo pro quinto dos infernos? Porém, quando assumo que sou anti-pornografia a primeira acusação é de que sou frígida, anti-sexo, sex-negative, como dizem alguns.

Vamos às considerações básicas: A publicidade tem por função vender, se o produto é novo cria-se a necessidade dele, inventa-se um problema antes imperceptível, dá-se um jeito, o consumidor precisa ter certeza de que a vida dele não será mais a mesma se não tiver uma câmera com duzentos megapixels, um sabonete íntimo ou o novo boné de grife. Pela perspectiva histórica ou social também é crível admitirmos que os valores e conceitos modificam-se com o passar tempo. Somos seres culturais condicionados desde muito cedo, você não escolhe em que família nascer, o mundo já é mundo quando surgimos e nem pode-se desejar o que nunca foi apresentado como possibilidade. Não se pode vibrar com o Quadribol antes de Harry Potter, só desejamos e queremos o que sabemos que existe, ou o que nos dispomos a inventar.

A pornografia dita comportamentos e cria expectativas por isso mesmo é um prato cheio para as frustrações. Sabe a história de que mulheres lêem muitos contos de fada e esperam príncipes encantados se esforçando pra serem “princesas”? A atriz pornô encarna a “princesa encantada” de muitos homens, só que ao invés de estar montada em um cavalo branco está montada em um pau enquanto chupa outro. O que leva o sujeito a pensar que tem “algo de estranho” com sua parceira se aperta os mamilos dela como botões esperando que saia algo dali (um orgasmo barulhento) mas nada sai. Na pornografia não-hétero essas referências ativo/passivo também se manifestam aos montes e atire a primeira pedra quem nunca viu a mesmíssima reprodução de expectativas em casais de lésbicas e gays.

Após Linda Lovelace ser estuprada e espancada para fazer o filme Garganta Profunda, cafetões levavam suas prostitutas e namorados levavam suas namoradas para aprenderem como imitar a atriz. Reconheço que nem toda atriz passou por esse calvário, por ora, meu ponto é tão somente esse: É uma indústria que carrega forte caráter pedagógico de sexualidade normativa e como todo produto cultural, definitivamente não é neutro. Pelo bom senso, parem de sacralizar a pornografia e tirem dessa redoma inquestionável. Pornografia não surge do vácuo, não é o Santo Graal, não é sinônimo de sexo, é a apropriação e representação capitalista do erótico, é a mecanização em uma espécie de paralelo com a Revolução Industrial.

A Revolução Pornográfica converte a encenação sexual em saber sexual, por exemplo, quando se sugere para alguém que fantasie algo que não envolva os genitais, a cara é de total espanto porque esse saber foi depositado na pornografia, parafraseando a bíblia “Eu sou o caminho, e a verdade e a vida; ninguém vem ao Pai, senão por mim”. Concordar com isso é assumir que o prazer é tão complexo e burocrático que somos incapazes de exercer reflexão e criatividade, de inventar. Um produto com um marketing tão bem sucedido que se transformou em sinônimo de sexo.

A pornografia é o controle dos corpos, o que se deve, como e onde fazer. E não pense que isso faz das novas gerações mais esclarecidas, garotas ainda não são estimuladas a conhecer o próprio corpo, garotos aprendem de forma muito restrita sobre corporeidade e lésbicas são abordadas por sujeitos desagradáveis que acreditam que elas precisam de um pinto. Quem encara a pornografia como um enunciado de “sua primeira vez” tem grandes chances de se decepcionar, seja do que se espera do próprio corpo tanto quanto do corpo de quem se relacionará: Fluídos apoteóticos, posições que disfarçam “defeitos”, palavras de ordem que mais parecem a moça do Google Tradutor… A pornografia é como um álbum de fotos de uma rede social onde o importante é parecer feliz, na prática significa que é mais urgente tomar viagra e impressionar do que admitir que algo não anda bem, é mais essencial pagar mais de cinquenta reais em uma lingerie e fingir o orgasmo do que ter coragem de sugerir que a pessoa te toque de outra forma, ou ainda, que você está muito carente e só queria mesmo um abraço. A masturbação que pode ser incrível e divertida se reduz ao tédio de quem vê do outro lado da tela opaca seu reflexo mecânico.

Esse post faz parte da Blogagem Coletiva Anti-Pornografia

15 dezembro, 2011

Virgem aos _____ anos

Posted in Corpo, Sexo tagged , , às 3:56 pm por Deborah Sá


Há muitas maneiras de aproveitar o sexo, juntinho com carícias e juras de amor, com a emoção aflorando, um retorno após o desentendimento, aquele delicioso, escancarado, de peito aberto, gemidos, arranhões e até daqueles que tiram sua alma e a devolvem mais leve, trôpega e levemente desorientada. Sexo pode ser um pedaço de transcendência, sentir-se vivo, pulsando dos pés a cabeça ou ainda um fardo, a monotonia das paredes, a indiferença. Não há como renunciar que praticá-lo é expor além da anatomia: Mostramos nossa corporeidade, a languidez performática na realidade está mais próxima dos pés que se enroscam ao tirar a calça. Imaginar-se como sujeito e objeto do desejo pode gerar medo e constrangimento das incertezas nesse momento cercado por suposições fantasiosas (não raro, falaciosas). O despertar da minha sexualidade não ocorreu no tempo que esperavam de uma mulher comum, o primeiro beijo foi aos 17 (quase 18), não conseguia me aproximar de quem sentia atração temendo que o amor próprio já escasso fosse reduzido a pó. De passos cautelosos diante do piso que range apresentei-me despida…  e adorei.

Um dos temores que a virgindade desperta é a reação que a nudez causará, antes de fazer sexo acariciamos, abraçamos e aproximamos os corpos o que oferece dados para noção espacial tornando possível imaginar uma “prévia” da silhueta, portanto se você é um sujeito magro não pense que esperarão um torso musculoso ou que por baixo das roupas de uma Betty Ditto se esconde uma Twiggy.

Há contemplação em cada corpo que a sua maneira (pintas atrás das costas, estrias, celulites e cicatrizes), traz demarcações que contam seu trajeto. Esse silêncio aberto de suposições pode ser angustiante quando não sabemos o que passa na mente de quem nos vê, será que miram exatamente o que nos deixa embaraçados? Não há como garantir o que essa nudez despertará, pode ser que tire um pouco do fôlego, pode ser um arrepio, pode ser amor. E são variadas as formas de amar, inclusive por uma noite de quem sequer sabemos o nome. O momento correto é o de maior segurança e conforto (o mesmo vale para o local escolhido), não existe idade limite, há quem realize antes dos dezessete e quem espere mais algumas décadas. “Esperar” é um direito que deve ser respeitado, um dos lemas do Feminismo é a autonomia aos corpos, inclua aí a escolha do momento propício para iniciar, pausar ou interromper a vida sexual. Cabe avaliar o motivo desse adiamento e se trás algum sofrimento, qual sua origem, por exemplo, o medo da rejeição.

Ser virgem é passear pelo Éden enquanto a publicidade da maçã diz que aquele é o pedaço mais sagrado, suculento e indissolúvel da existência, porém, nossos vínculos afetivos ultrapassam a troca de fluidos, somos capazes de amar outras espécies, pessoas que conhecemos on-line e não sabemos o cheiro do corpo e a textura da mão, permanecemos sentinelas se companheir@s adoecem, inclusive se não puderem oferecer a mesma quantidade sexual (a qualidade é subjetiva e continuamente reinventada). Sexo é imaginação e com nossa permissão concretude, sua recusa, adiamento ou execução devem partir tão somente da prerrogativa pessoal, fazendo valer os desejos ao invés de emular comportamentos que atendam expectativas para que nos considerem dignos de afeição, não há nada mágico em “perder a virgindade”, seu corpo não mudará, não se tornará mais sábi@, não é isso que nos faz criaturas maduras e gentis. Trata-se de uma das possibilidades de sentir prazer, cabe a você usufruir.

OBS: Não há consenso científico sobre Asexualidade sendo variadas suas interpretações, práticas e identidade entre os que nela se identificam, por exemplo, alguns fantasiam o erótico sem inclinação a torná-lo real, outros se masturbam e há quem busque uma relação romântica sem sexo. Não considero patologia ser assexuado ou o celibatário (são diferentes), para mais informações consulte esse site.

22 setembro, 2010

Masturbação, Sexo Oral e Clitóris

Posted in Corpo, Sexo tagged , , , às 5:18 pm por Deborah Sá

A masturbação é o momento de viabilizar o desejo, um dos maiores equívocos femininos é não praticá-la na dependência sexual de terceiros. Se você não gosta de intercurso e adora estimulação clitoriana não há razões em “forçar” práticas que não lhe trarão satisfação.

Em meio a mitos e silenciamentos a vagina permanece um enigma para muitas, dizem que a “Revolução Sexual” permitiu maior liberdade. Basta conviver com mulheres para constatar que os padrões de beleza e comportamento cada vez mais rígidos nos “castram” psicologicamente.

“Não agüento tanta reclamação” ou “Ela é frígida”

Se sua companheira freqüentemente se queixa da própria aparência e isto te incomoda tenho de lhe informar: Megan Fox, Angelina Jolie e outras mulheres para as quais bate punheta interpretam personagens. Se sua namorada é franca, agradeça, converse e reveja seus conceitos, assim podem juntos construir um relacionamento.

Mas a culpa é dela, nunca me diz o que gosta

Ninguém gosta de trepada medíocre (daquela que dá na mesma fazer as unhas), há vários motivos que levam uma mulher a não explorar o próprio corpo: Educação religiosa, traumas, vergonha do próprio corpo…

Caso 1
Mulher por algum motivo perde o desejo

M: Ai desculpa. Não dá mais, vamos parar!.
H: Hum, acho que você é frígida, minha ex-namorada adorava isso. Sou homem, tenho as minhas necessidades, acho que vou trepar com outra. [Alguns tem coragem de verbalizar]

Pressioná-la a fazer sexo sem vontade só vai diminuir paulatinamente o desejo e deixá-la ainda mais insegura.

Caso 2
Homem por algum motivo perde o desejo

H:*Chuinf*
M: Tudo bem querido, não tem proble…(pensando: O que eu fiz de errado?).
H: Nunca me aconteceu antes. Estou cansado, vamos dormir?
M: Mas é claro, mas se quiser podemos tentar novamente.
H: Melhor não.
M: Pensando: – Preciso descobrir onde foi que errei.

São poucas as mulheres tão insensíveis ao ponto de dizer: “Você é brocha, sou mulher e tenho orgasmos mais intensos. Preciso de um amante”.

O que há de errado com a minha vagina?

Sem referenciais é de se esperar que a mulher questione o cheiro, gosto e aspecto de sua vagina, já que todas as associações são relacionadas a algo negativo.

Cheiro: Sempre ouvi que vaginas “cheiravam a bacalhau” o que me deixava intrigada, já que julgo o cheiro estimulante e convidativo. Há diversos produtos que prometem “mascarar” o odor como lenços umedecidos e sabonetes especiais.

Gosto: Se deseja que alguém lhe lamba, não seria importante saber se o sabor é realmente bom? Isso também vale para homens. A vagina é tão “invisível” que nossa “porra” é inominável.

Aspecto: O que é uma vagina “normal”? É aquela que te dá prazer, se seu método de comparação é com fotos e vídeos da internet, seria interessante conversar abertamente com mulheres reais (de maior variedade anatômica).

Como alcançar um orgasmo?

Se sua parceira for mulher, provavelmente não encontrará problemas na prática do sexo oral (afinal, ela sabe como é ter uma vagina). Já em um relacionamento hétero muitos homens não obtêm boas performances entre um dos motivos, as reproduções pornográficas.

Em qualquer site padrão, o maior número de visualizações é: Sexo anal, sexo oral (no homem) e Bukkake (gozar na cara), onde a força e pressa são mais importantes que a dedicação. Atire a primeira pedra a mulher que nunca teve de avisar “Ei, assim você me machuca” porque o parceiro realmente acreditou que aumentar a velocidade e “ir mais fundo” causaria prazer.
Isto explica o motivo de tantos homens não saberem como lamber* uma mulher, algumas dicas:

– Língua dura não é legal, principalmente quando insistem em usá-la da mesma forma que usam o pênis (em movimentos mecânicos).

Não morda o clítoris! Possuindo mais de oito mil nervos, o clítoris é a parte do corpo da mulher que contém mais terminações nervosas, inclusive mais do que a língua ou o pênis masculino. Então nada de apertá-lo como um botão do controle de videogame.

A ciência

Outrora responsabilizado por histeria e loucura, perversão demoníaca ou instabilidade emocional, o estudo do prazer feminino e sua anatomia é constantemente renegado a segundo plano. Muitos homens recusam-se a realizar um exame de próstata, mas o que é isso em comparação a uma Coloscopia, Vulvoscopia (com biópsia) e o Papanicolau?

Espéculo usado em exames ginecológicos

Excesso de força é o maior erro que os homens cometem no sexo oral, dizem as brasileiras

Documentário – O Clitóris
(vi na comunidade Feminismo e Libertação)

Parte 2Parte 3 Parte 4Parte 5Parte 6

*Lamber uma mulher: Dizer “chupar” pode levar à má interpretação que o modo “correto” é a sucção.