29 julho, 2013

Joguei meu véu no lixo (e jogaria novamente)

Posted in Crenças, O pessoal é político, Por um Estado Laico às 1:37 pm por Deborah Sá

Em um primeiro momento julguei o quebra-quebra de santos um erro estratégico. Uma peça de teatro, um filme, um videoclipe, uma fotografia com a mesma performance não traria essas dúvidas. A dúvida era, será que as pessoas entenderiam a mensagem? Francamente, o movimento feminista já tem o filme bem queimado, culpabilizar esse ato pela má impressão seria uma injustiça. Mas por que o feminismo não é mais divulgado? Porque não interessa a grande mídia, porque não faz aumentar a venda de cosméticos e cintas modeladoras, porque vai à contramão do sacrifício e da penitência, porque defende o respeito não só pra quem tem dinheiro e supostamente faz jus à dignidade. Aliás, o feminismo rasga em pedacinhos o lema “tem que se dar o respeito”, você não precisa falar baixo para ser respeitado, você não precisa usar uma roupa comportada para ser respeitado, você não precisa ter um diploma para ser alguém na vida. Você deve ter o direito de possuir iguais oportunidades para só então, escolher entre qual caminho escolher e como nem todo mundo tem o mesmo ponto de partida há distanciamentos onde cada um consegue chegar, são essas distâncias que o feminismo pretende encurtar.

Voltemos à santa, como qualquer espaço na grande mídia, ganha flash o que der mais ibope. Se você espera que a TV ou os jornais reportem os eventos como um todo, esqueça, o melhor é tentar ouvir dos envolvidos como as coisas aconteceram. Pesquise blogs, perfis no twitter, portais de notícia além dos tradicionais. Se as pessoas entenderão a mensagem daquela violência simbólica depende de muitos fatores, principalmente de quais são suas fontes de informação.

Tom Regan, em Jaulas Vazias, diz que o erro discursivo dos defensores Direito Animal é dizerem-se “sem violência” e apoiarem a ALF que ataca a propriedade privada (entram de capuz, libertam os animais, pixam e quebram laboratórios). Essa crítica é válida se pensarmos que alguns ativistas tem de fato uma prática de nunca revidar, nunca agredir. Mas eu não sou parte desse grupo, defendo algumas formas de violência, especialmente, as que envolvem grandes corporações e estruturas opressoras. Quando se quebra algumas imagens de santos católicos (comprados) é uma violência simbólica, um revide. Mas o que uma imagem de gesso representa? Representa a fé de muita gente, a bondade e a pureza da mulher, a virgindade. Ao quebrar a santa se pensou para além disso, foram considerados os casos de pedofilia acobertados pela igreja, nas mulheres queimadas em fogueiras, nas negras e pobres que morrem pelo não direito aos seus corpos, enquanto mulheres brancas (e até católicas!) pagam por uma clínica e acobertam o aborto. Por um amontoado de células valerem mais que uma mulher adulta, pela excomunhão de uma menina de nove anos vítima de estupro, pelos filhos jovens que apanham e são expulsos de casa por não ser hétero, pelos milhares de jovens suicidas que tentaram expurgar a culpa de seus desejos e corpos.  Contra a defesa do fiel cordeiro que vai ao abate em resignação ao seu destino.

Cresci em preceitos cristãos, mais precisamente evangélicos, meu destino foi traçado de muitas formas e interligado a esse fato. Somado aos dados de meu gênero e classe, a essa altura estaria com alguns filhos, muito provavelmente indo do culto para casa, limpando e zelando do lar, sem concluir o Ensino Médio, talvez sem nunca conhecer um orgasmo. Eu era infeliz, em Cristo. Mas havia algo pulsando dentro de mim que era sufocado pela religião e por grilhões psicológicos intensos. Tive medo de me soltar e do mundo me engolir, tive medo de buscar o meu prazer e do desconhecido, até onde seria capaz de chegar? Quem seria essa pessoa trancada no armário? Sentia olhos invisíveis pairando sobre o meu sexo, nas primeiras vezes que pratiquei de modo consentido (a minha primeira experiência sexual foi aos dez anos, não consentida, ele acreditava em Deus) tinha de olhar todos os cantinhos do espaço em que estávamos para ter a certeza de não ter câmeras. Aos poucos a vergonha foi trocada pelo orgulho e num dia de cortar laços, juntei as centenas de recitativos, a bíblia pequena e até o meu véu, embolei em uma sacola plástica, fiz o lacinho, desci as escadas e deixei para o lixeiro levar aquela aliança cortada, o pedaço que já não me pertencia. E encontrei um horizonte tão, tão grande, que às vezes me assusto o tanto que avancei e o tanto de carinho e amor que recebo, o quanto estou melhor. Não faço mais qualquer questão de ser barrada no mundo celestial onde flutuam fetos e almas de pessoas tão elevadas, cacos de gesso, tocos de crucifixos, leite e mel (até porque, sou vegan) e trilha sonora gospel. Prefiro extrair da minha breve estadia o máximo de prazer e aprendizado. Faço da minha prática a busca por igualdade, não por medo das labaredas de um carrasco a mando de Deus, mas porque é justo.

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6 outubro, 2010

Pronunciamento sobre a campanha da Dilma

Posted in Por um Estado Laico, Só falam nisso às 4:53 pm por Deborah Sá

Assuntos polêmicos devem ser discutidos, o erro é torná-los relevantes e de abordagem superficial apenas enquanto angariariam votos. Dizem que pessoas de “origem humilde” não poderiam votar por não discernirem o adequado para o país, meu receio nessas eleições é de que justamente essas pessoas “esclarecidas” articulem estratégias para fortalecer a candidatura de José Serra.

Este mesmo José Serra assinou norma técnica para o SUS (Sistema Único de Saúde), ordenando regras para realizar abortos previstos em lei, até o 5º mês de gravidez em 1998, já Mônica Serra (sua esposa) afirma para vendedor ambulante que “Ela é a favor de matar as criancinhas (sobre Dilma)”.

Não importa o quanto afirme ser “a favor da Vida” e realizada com o nascimento do neto, conservadores usarão contra ela todos os artifícios para remediar qualquer dano a classe média. Votarei na Dilma e não me iludo em crer que seus programas de governo trarão qualquer visibilidade para a Comunidade Negra, Feminista, LGBT ou de Direito Animal. O foco do PT é o trabalhador, do PSDB é manter a classe média dentro de uma bolha asséptica ignorando a má distribuição de renda que lhes é benéfica, afinal “precisam” de porteiros, pedreiros, manobristas e empregadas.

Para se eleger o PT abrirá mão de minorias já marginalizadas, priorizando os trabalhadores que sustentam a engrenagem do capital, deixando “O Segundo Sexo” silenciado, cerceado por Religião, Estado e Patriarcado.

Meu voto no primeiro turno foi para o PSOL.

28 setembro, 2010

Aborto

Posted in Corpo, Gênero, Por um Estado Laico tagged , às 4:20 pm por Deborah Sá

A intervenção religiosa nas diretrizes do Estado fere (entre outros direitos) a autonomia sobre o corpo, característica fundamental em uma democracia. Essas instituições reclamam para si maior representatividade no Congresso assumindo os dogmas de sua prática como infalível conduta, execrando as demais religiões (em especial as de origem Afro-Brasileiras) do debate.

É de extrema importância o reconhecimento do Aborto como constituinte das políticas públicas na Área da Saúde, não legalizar-lo é encobrir a morte de mulheres negras, pardas e pobres em situação vulnerável que arriscam suas vidas em clínicas clandestinas, ignoradas sob o estigma de “Malditas”. Quem possui recursos para tal, mantém a integridade física e reputação preservada.

Descriminalizar esta prática não ocasionaria mutirões abortivos por não se tratar de um processo simples e prever acompanhamento interdisciplinar. Enquanto aguardamos, centenas de mulheres engravidam na fila do SUS a espera de uma laqueadura.

Se uma mulher próxima a você (companheira, mãe ou irmã) apresentasse grandes chances de morrer no parto e houvesse a chance de optar pela vida do bebê ou a dela, quem escolheria?

Respeito é resguardar a autonomia, do contrário, não há qualquer opção de livre-arbítrio, restando à mulher subjugar- se aos mandamentos religiosos e estatais regidos por patriarcas. E como se sabe; patriarcas não engravidam.

[Hoje é o Dia pela Descriminalização do aborto na América e Caribe. Este dia foi criado durante o V Encontro Feminista Latino-americano e do Caribe, realizado na Argentina, em 1990, em função da enorme preocupação que o Encontro demonstrou com o tema. Fonte]

Trolls (e curiosos) possivelmente questionarão:

Defender o direito ao aborto e ser VEGetariANA?

Para começo de conversa, vacas são fecundadas contra vontade (na interferência humana) e não escolhem ter seus filhos arrancados do convívio. Esses “filhos” não vão para orfanatos ou assistentes sociais, eles viram Baby Beef. Sequer, foi descoberta uma horrível fábrica onde garotinhas são criadas unicamente para atingir a puberdade e inseminadas para gerar leite (vacas também só amamentam quando prenhas). A exploração de fêmeas não humanas é bem diferente, embora existam paralelos.

Ou seja, a autonomia dos corpos dos animais não é respeitada quando viram comida de humano, além disso, tal indivíduo geralmente pode comprar proteína não-animal no mercado. Nenhum animal não-humano voluntaria-se ao sacrifício. Defendo a autonomia dos corpos, de todos os que já estão fora do útero, ou do ovo.