26 outubro, 2014

Doente, monstruoso, bestial: O pedófilo

Posted in Corpo, Educação, Infância, O pessoal é político, Violência tagged , , às 2:13 pm por Deborah Sá

Escrevi durante vários anos priorizando a experiência de mulheres e crianças que passaram por violência sexual, o leitor mais antigo (ou mais paciente), encontrará pencas de materiais escritos em meus arquivos que passam das centenas. Ademais, preparei um escrito introdutório que subsidiará a leitura do presente texto. Talvez, um dos mais difíceis que produzi até o momento. Dada a alta densidade de envolvimento emocional com o tema, me reservo ao direito de desvelar esse assunto com descolamento de papéis em um exercício intelectual não neutro, uma vez que minhas convicções políticas afetam meu discurso, em uma relação dialógica entre passionalidade e o compromisso com a análise reflexiva.

Tratar o pedófilo como doente é individualizar um desejo legitimado socialmente. O desejo por crianças e meninas é construído. Sem necessariamente buscar por isso, é realmente fácil encontrar (mesmo em bancas de jornal), milhares de imagens de mulheres adultas usando adereços infantis com propósitos sexuais: Ursinhos de pelúcia, maria-chiquinha, chupeta, brinquedos. Há quem sinta prazer em encarnar “a criança” e quem sinta prazer em encarnar “o adulto”, a radicalização desses papéis em contextos sexuais seria o polêmico Infantilismo ou Age Play, neles, adultos mutuamente em acordo interpretam esses papéis. Mas não preciso ir aos extremos, a pornografia mais tradicional norte-americana usa muito o “Daddy” e em algumas regiões do Brasil, se chama carinhosamente o cônjuge masculino como “Papai”. Em várias representações de seriados, filmes, ou telenovelas encontramos a figura de uma garota realmente jovem iniciando e “provocando” homens maduros. Dito isso, reitero o quanto é danoso supor que o desejo por essas situações de poder muito específicas, brotaram de corações malévolos e mal intencionados. O desejo por crianças e pré-adolescdentes não é sintoma de uma doença, mas, manifestação de uma cultura etarista e patriarcal, por meio dela, crianças não são donas de seus corpos. Em padrões moralmente assentados “não são mais crianças”. Nessa cultura alguém mais forte, com mais dinheiro, adulto, preferencialmente homem, pode ser um tanque de guerra. O estupro, é um crime de guerra ideológica demarcando a vulnerabilidade daquele que é violentado. Guerra é história e territoriedade e embora bélica, não é necessariamente fálica.

Posso pressentir muitos que leem, torcer o nariz, como assim, não é relacionada diretamente ao pênis? Não é. Amarre um corpo que possua o referido genital de tal modo que apenas o dito cujo, fique exposto. Por si só, é bastante frágil e sensível, no máximo tem força para sustentar alguns objetos e se precisa de mais força, exige movimento da pelve, isolado não representa ameaça. Simbolicamente, é a virilidade masculina, portanto, sou completamente contrária a ideia de castração como medida punitiva de pedófilos e/ou estupradores. Mesmo se empregada como proposta de punição ao simbólico, se ataca, mais uma vez a ideia de masculinidade, pune-se com a “desmasculinização”. O mesmo vale para estupro de estupradores, ora, se o estupro é a reafirmação do poder com violação não consentida, quem estuprará o estuprador? Quem violará sua masculinidade? Quem “o fará de mulherzinha”, “menos homem”? Logo, combater a barbárie estuprando e emasculando é contraproducente, violentamente patriarcal e mantenedor de idênticos preceitos.

Outra sugestão dada no calor da emoção é o sistema carcerário. Pois bem, encarcerar é tirar da vista, apartar e mais uma vez, individualizar uma discussão bem mais complexa do que bandidos e mocinhos, entre gente “civilizada” e quem “não tem conserto”. Prefere-se dizer que não é “problema nosso”, mas de meia dúzia de “desajustados”. A maioria das pessoas que cometem crimes sexuais contra crianças são bastante próximas das vítimas, isso é, pais, mães, tias, babás, avós, avôs. Considerando o número elevadíssimo das estatísticas se for para levarmos a cabo essa sanção, seria raro uma pessoa em todas as classes sociais, que não tivesse ao menos algum grau de relação ou parentesco com alguém penalizado. Você, leitor, leu corretamente. Eu não acredito que a medida de intervenção aos pedófilos que concretizaram seus atos seja a prisão, a morte, a castração. Isso é endossar a caricatura dos filmes. O pedófilo não é um sujeito excêntrico, reservado, deslocado da vida social, com um sorriso perverso diante das crianças que brincam no parque. Quanto menos familiar esse rosto parecer, mais fácil exigir medidas drásticas de isolamento, tortura e privação da vida comum. Estatisticamente, assim como nos dados de violência contra mulher, quem agride não são desconhecidos, são namorados, amigos, familiares, maridos.

A acusação de pedofilia pode incitar linchamentos mesmo sem provas. Pessoalmente, já tive de intervir em um desses casos no começo de minha graduação. Durante uma assembléia estudantil, houve a denúncia: Um motorista de ônibus fretado foi acusado de ter realizado sexo com uma menor, no trajeto entre o ponto de chegada e partida. A história se amontoou em várias versões, desde o número de pessoas que presenciaram o fato mas nada fizeram para impedir, até supostos vestígios como um chinelo e uma camisinha usada (?), nunca realmente localizados. O resultado foi presenciar pessoas comovidas se jogando no chão (!), gritando, parte de um grupo saindo em busca de facas e demais objetos para matar o acusado. Depois de tentar argumentar fui taxada de “defender estuprador”, “de não perceber o quanto isso era machista”, ou ouvir “vamos estuprar o estuprador”, essa última frase, dita por um indivíduo que desprezo completamente por muitas razões. O fato é que a história minguou de um dia pro outro, mesmo entre as feministas que me acusaram (estavam ocupadas pintando cartazes para uma marcha). Fiquei surpresa e com uma carta nas mãos (contrária ao linchamento), sem saber como processar essa informação. Os anos passaram e a aspereza do tema me sobe como a bile, toda vez que a discussão retoma. Descrevo esse evento com riqueza de detalhes para ilustrar que nesse assunto febril, se faz necessário muita cautela para o debate. Correndo risco de ser colocada no mesmo patamar de quem faz o crime (mais uma vez), tomo a iniciativa de me posicionar. Indiferentemente se é centro-esquerda, centro-direita, anarquista, conservador ou liberal, quando a denúncia é o estupro “justiça pelas próprias mãos”, “meter na cadeia”, “capar”, são atitudes esperadas.

A retaliação aplaca muito pontualmente os ânimos de quem toma as dores do violentado. Não desfaz o crime ocorrido, não impede que novos crimes com a mesma motivação aconteçam. Porque não é isolado, o desejo é socialmente construído, inclusive por crianças. Costumeiramente fazemos vista grossa ou tratamos como algo “perigoso” a criança que se toca sozinha, repete gestos de danças de duplo sentido. As crianças não agem para atrair adultos, se movem porque é simplesmente divertido e “todo mundo faz”. Sejamos francos, “danças proibidas” que “são má influência” para jovens e crianças fazem parte da cultura popular há muito tempo e não é isso, que nos dá estreiteza ética. Julgar alguém passível de morte e estupro por gestos e vestuário, sim. Voltando ao pedófilo que dá vazão ao seu desejo: Os adultos que assediam crianças o fazem porque possuem respaldo social para isso, implicitamente. Aos que sentem desejo por crianças e nunca concretizaram, recomendo que busquem ajuda profissional para reinterpretar e encontrar outras formas de lidar com a libido. Nesse assunto de imensa complexidade, especulo algumas alternativas e além das citadas acima, apresento outra, a educação. Não assumo nesse pressuposto, que os humanos tenham uma natureza boa e são corrompidos por um mundo decadente, em verdade, nascemos e somos frutos de nosso tempo histórico com valores e impressões demarcadas. Ao mesmo tempo, somos capazes de vislumbrar algumas possibilidades, rejeitando conjecturas apontadas como absolutas. Por educação, não me encerro nos bancos escolares, considero também a indústria cultural, a linguagem, os discursos, os saberes científicos, jurídicos, as instituições, a heteronorma, o capitalismo, o etarismo. As raízes estão parte expostas, parte enterradas e com ramos bastante firmes. É mais fácil pintar o outro em tons grotescos do que assumir os respingos de nossas cores primárias.

29 agosto, 2014

R.E.C.A.L.Q.U.E

Posted in Corpo, O pessoal é político, Sexo tagged , , , às 7:21 pm por Deborah Sá

É desnecessário dar pinta. Principalmente se for bissexual com cabelo esquisito, sapatão sem maquiagem, viado de short. É exagerado dar pinta se for não-monogâmico. Raso fazer sexo com amigos. É permitido conversar sobre gelzinho para oral, lingerie de colegial, chantilly com morangos e falar “pepeca” em conversas informais. É vulgar falar buceta, é doentio falar de podolatria, bondage ou algemas (que não sejam as de pelúcia). Feminismo é… okey. Porém, é despautério ser peluda e usar regata, gorda com roupa justa, esquerdistas e anarquistas e suas bandeirolas. Qual a necessidade de esfregar essas aberrações na cara dos outros? Porque tornar tão visível? Falta de etiqueta, compostura, discrição e principalmente, falta de tecido para esses rebeldes – oh, céus, literalmente! – sem calças.

Do mesmo modo que gordo não deve fazer gordice, viado não deve fazer viadagem, sapatão não precisa fazer rebuceteio. Concorda? Sua hora chegou! Filie-se a R.E.C.A.L.Q.U.E (Rede Examinatória de Cu Alheio por Liberdades Quadradas Universalizantes e Encarceramento)! É  bastante incômodo ver à luz do dia e na via pública esses comportamentos, como ação,  precisamos saber os mínimos detalhes do passado, presente e futuro desses esquisitões, não é mesmo? Esses são alguns dos benefícios de possuir a carteirinha: Hétero respeitável. Com ela você pode identificar e orientar taradices, ao mesmo tempo, descobrirá: Quais as posições praticadas e com quantas pessoas se fez sexo, ativa ou passivamente. Se pretende ter filhos. O quanto isso atrapalha o desempenho profissional. Qual evento traumático da família desestruturada ocasionou esses desejos. Se já usou drogas. Se encontram parceiros na rede mundial de computadores. Se já se envolveram com pessoas casadas (além de destruir a própria família para desgosto dos pais, destruíram outros lares). Se fazem uso de remédios controlados e muito mais! A triagem consiste em investigar quem possui gestos, entonações, roupas e outros indícios de dar pinta. O exame preliminar está disponível on-line no QUESTIONARIO_HETERO_de_RESPEITABILIDADE.

A detecção precoce de tais sintomas e intervenção adequada, permite uma vida de vigilância constante, auto-flagelo, culpa, vergonha e auto-ódio, levando em muitos casos ao suicídio, não é maravilhoso? Materiais em vídeo-aula possuem as seguintes temáticas: “Te coloco uma lupa pra sair do foco”, “Eu não sou preconceituoso, mas…“, Eu só quero o seu melhor, mas o que você faz é uma pouca vergonha”, “Faça entre quatro paredes, me conte detalhes”, “Falo isso para te proteger”, “Está na Bíblia Volume I, II e II”, “Está no DSM-IV”,  além do sucesso de vendas “Você é uma aberração, por isso vive triste”. Entre em contato com nossos associados! A R.E.C.A.L.Q.U.E tem imensa satisfação em agregar novos membros¹. Na busca por um mundo descafeinado, bege e com cheirinho de eucalipto! 

Organizações R.E.C.A.L.Q.U.E
Lavando as mãos e a sua consciência


 

¹ R.E.C.AL.Q.U.E possui parceria com setores religiosos, estatais, familiares, legislativos, além de humoristas e grandes emissoras de TV.

7 agosto, 2014

Fala pouco e bem…ter-te-ão por alguém

Posted in Gênero, O pessoal é político tagged , às 12:47 pm por Deborah Sá

Caríssimo leitor. Que saudade de contar meus dias! Feliz estou que ainda retorne para ter notícia dessa pequena ilhota, a qual faço questão de não fincar bandeiras, deixando vestígios propositais de meu regresso. Fiquei tantos dias sem tal ofício prazeroso… Temi ter enferrujado. Escrever sem valer nota, escrever para mostrar. Dilemas literalmente tomaram meu sono e roubaram algumas lágrimas de olhos facilmente umedecidos. Eu criei segredos, muito mal guardados como é de meu feitio. Segredos de amor. E de temor. E de prazer. E de dor. Mais que isso não posso apontar, além do que já disse para as orelhas sadias ao derramar minhas suposições. Voltei, não conseguiria me sentir bem ocultando isso de um velho conhecido: Aquele que me lê. Transcorri minhas pálpebras em muita coisa esse ano. Além das centenas de páginas xerocadas para a faculdade, faço questão de reservar um tempo, pequeno que for, para ler algo que realmente escolhi. O livro Infância de Graciliano Ramos tem aquecido por dentro, recobrando a responsabilidade em narrar. O Terteão me assombra por outras razões.

Dizer pouco e bem nunca foi meu forte. Se falo pouco me entrego: A cabeça pesa e congestiono feito sinusite. Os sintomas são parecidos, meus olhos perdem algum brilho, ganho ares de preocupação e apatia. Não raro, a imunidade desce e uma infecçãozinha aqui, um resfriadinho ali, coriza.  Dias atrás, uma amiga citou o termo oversharing, o primeiro movimento foi acatar. É isso mesmo, se deixar exponho demais, conto mais do que devia, é quase fisiológico. Pois bem, instantes depois um moço no twitter emendou com um artigo excelente sobre como isso é mais pesado para as mulheres. As que escrevem seus anseios e dúvidas de modo biográfico e confessional, são facilmente desacreditadas. Um homem que fala de suas dores e mergulha nas entranhas para mostrar para ao mundo, é um cronista. Uma mulher que faz o mesmo é mandada para o privado. Mulheres tem diários, homens tem livros publicados e colunas. Se uma tirinha desenhada por uma mulher tem uma piroca ou um cu, podem julgar pesado ou imaturo. Informações demais, ninguém quer saber das auguras em não encontrar a cordinha do absorvente interno. Se quero ser professora ou mesmo uma pesquisadora, preciso parecer minimamente respeitável, não? E se quero proteger as pessoas que amo das ideias controversas que me habitam e podem respingar nelas, devo andar na miúda, correto? Posso ouvir as vozes que já me foram ditas outras vezes (e nem faz tanto tempo): Qual a necessidade de se expor tanto? Poderia ser mais uma mulher de gestos contidos, ambições pequenas, bater cartão, sentindo-me bem com cabelos comportados e roupas mais ainda? Sim. Eu poderia. Mas eu não sou. E como feminista, essas coisas martelam. Esse é o medo em ser mulher e me expressar além das expectativas de meu gênero. Quer escrever? Mas cuide bem para não mostrar mais do que devia. A escrita é fenda e decote e sabem o que dizem de mulheres que se expõem. Não se dão o respeito. Concordo com as memórias infantis de Graciliano, Terteão é um homem. Ele escreve, anda, veste, ama, se move, fotografa, ao passo que fala somente o necessário.

10 dezembro, 2013

A certeza mora dentro de uma gaiola

Posted in O pessoal é político às 10:29 am por Deborah Sá

Todo movimento, por mais bem-intencionado, pode acreditar que basta resolver sua pauta para um mundo perfeito. O patriarcado. A monogamia. A propriedade privada. O capitalismo. O racismo. O especismo. A hegemonia heterossexual. As igrejas. A escola. Porém, essas estruturas são gigantescas e estão diluídas em nossas práticas, nossos hábitos, nos nossos afetos, na organização do tempo, na vivência. A militância não pode ser um estágio finalizado como quem diz “Pronto, já pensei nessas questões, agora estou imune”, não dá para ser isento, se você não revê suas práticas, se não faz uma análise constante de suas certezas, se não se refaz, você é dogmático. Acomodou, solapou o discurso, colocou ponto final, estagnou. Se a prática é a mesmíssima de anos atrás, sem crises, sem rupturas, a militância virou caminho sem surpresas, a rota de sempre, o piloto automático. Tais estruturas e as respectivas especificidades são atreladas umas nas outras, é relacionamento dialógico, eleger única proposição é dormir e cobrir os braços -por vezes, a cabeça- deixando os pés do lado de fora.

22 agosto, 2013

Que tipo de feminista sou

Posted in Gênero, LGBT, O pessoal é político às 1:18 am por Deborah Sá

Antes, acreditava ser uma feminista radical, por ser anti-pornografia, por ter críticas a prostituição como simples escolha (os grupos vulneráveis que as exercem não tem muita alternativa), por defender espaços exclusivos. De um tempo pra cá, minha visão sobre esses assuntos ganhou outras matizes: Sim, a pornografia é a apropriação capitalista da sexualidade e dos corpos, sim, a prostituição também é um mercado que lucra com a vulnerabilidade social, qual é a cor da pele dessas pessoas? Qual a escolaridade? A quais riscos estão expostas cotidianamente? Que profissões gostariam de seguir se lhes fosse dada outra chance? E não estou falando de ensinar prostitutas a fazer eco-bag de garrafa pet ou bordar pano de prato, não estou falando de “salvar” alguém, me refiro a articulação de dentro pra fora, de ouvir primeiramente o que as prostitutas tem a dizer sobre sua própria vivência. Do respeito incondicional que devemos ter por todos os humanos (os não-humanos não são foco nesse post, muito embora resguardar somente respeito antropocêntrico, é especismo ). E os espaços exclusivos? Sim, eu ainda os defendo. Mas como um momento de empoderamento no sentido mais clássico da palavra, para fortalecer a auto-estima de quem está tão fraco para lutar e se amar que mal consegue dizer “não” para o que aflige, para aquelas que entram em relacionamentos abusivos por sentir que o outro fez um grande favor em aceitar as “imperfeições”, para todas as vítimas de violência sexual. Eu já fiz parte de grupos assim, foi fantástico.

Antes, eu acreditava que as disparidades entre feministas radicais e queers eram tretas americanas, o melhor era ter foco no nosso movimento aqui. E bem, nosso movimento está fervilhando on-line e nas ruas e isso respinga em uma imagem de um feminismo sempre acolhedor e fofinho. Algumas feministas negras denunciaram silenciamento dentro de um feminismo branco. Algumas feministas não universitárias reclamaram do academicismo em discursos grandes e pouco práticos. Algumas feministas reclamaram de transfobia. Algumas feministas denunciaram o quanto é cômodo ter empregada doméstica e fazer vista grossa pro recorte de classe implícito ali. E tudo isso é muito justo e tem de ser feito, realizado por quem está se sentindo pouco representada, coagida, silenciada. Doeu? Ofendeu? Fale. Não acoberte em nome da camaradagem, o movimento feminista já nasceu com má-fama, o que podemos fazer agora, no mínimo, é agir com honestidade e isso significa ir além do próprio umbigo.

Onde me localizo nesse mundaréu de termos e posicionamentos? Não em palavras como sororidade e irmandade, misandria e male-tears (usadas por algumas feministas radicais): Se vale ridicularizar o privilégio do outro, porque não cis-tears? (termo que também me desagrada, usado por alguns Queers) e mais além, human-tears? Ter privilégios não nos impede de sofrer em outras dimensões, ricos também sofrem? É, sofrem. O fulano não precisa se preocupar com fatura do cartão de crédito? A cicrana não tem calo nas mãos? Você sabe ler e escrever? Você concluiu o ensino médio? Você já teve que dormir na rua? Você ouve, fala, enxerga, anda sem ajuda de próteses? Você já passou fome? Você já teve de se prostituir? A vida pode ser muito, muito dura, em níveis escabrosos, mas sempre há privilégios para serem revistos, há opressões cometidas mesmo sem querer. Reconhecer privilégios não significa sufocar as próprias dores e mágoas, admitir facilitadores é democratizar a liberdade e o amor-próprio. É desprivilegiar o direito. E agora, se não me sinto totalmente incluída nessa ou naquela vertente, que tipo de feminista eu sou? Oras, a disposta a “ouvir”.

29 julho, 2013

Joguei meu véu no lixo (e jogaria novamente)

Posted in Crenças, O pessoal é político, Por um Estado Laico às 1:37 pm por Deborah Sá

Em um primeiro momento julguei o quebra-quebra de santos um erro estratégico. Uma peça de teatro, um filme, um videoclipe, uma fotografia com a mesma performance não traria essas dúvidas. A dúvida era, será que as pessoas entenderiam a mensagem? Francamente, o movimento feminista já tem o filme bem queimado, culpabilizar esse ato pela má impressão seria uma injustiça. Mas por que o feminismo não é mais divulgado? Porque não interessa a grande mídia, porque não faz aumentar a venda de cosméticos e cintas modeladoras, porque vai à contramão do sacrifício e da penitência, porque defende o respeito não só pra quem tem dinheiro e supostamente faz jus à dignidade. Aliás, o feminismo rasga em pedacinhos o lema “tem que se dar o respeito”, você não precisa falar baixo para ser respeitado, você não precisa usar uma roupa comportada para ser respeitado, você não precisa ter um diploma para ser alguém na vida. Você deve ter o direito de possuir iguais oportunidades para só então, escolher entre qual caminho escolher e como nem todo mundo tem o mesmo ponto de partida há distanciamentos onde cada um consegue chegar, são essas distâncias que o feminismo pretende encurtar.

Voltemos à santa, como qualquer espaço na grande mídia, ganha flash o que der mais ibope. Se você espera que a TV ou os jornais reportem os eventos como um todo, esqueça, o melhor é tentar ouvir dos envolvidos como as coisas aconteceram. Pesquise blogs, perfis no twitter, portais de notícia além dos tradicionais. Se as pessoas entenderão a mensagem daquela violência simbólica depende de muitos fatores, principalmente de quais são suas fontes de informação.

Tom Regan, em Jaulas Vazias, diz que o erro discursivo dos defensores Direito Animal é dizerem-se “sem violência” e apoiarem a ALF que ataca a propriedade privada (entram de capuz, libertam os animais, pixam e quebram laboratórios). Essa crítica é válida se pensarmos que alguns ativistas tem de fato uma prática de nunca revidar, nunca agredir. Mas eu não sou parte desse grupo, defendo algumas formas de violência, especialmente, as que envolvem grandes corporações e estruturas opressoras. Quando se quebra algumas imagens de santos católicos (comprados) é uma violência simbólica, um revide. Mas o que uma imagem de gesso representa? Representa a fé de muita gente, a bondade e a pureza da mulher, a virgindade. Ao quebrar a santa se pensou para além disso, foram considerados os casos de pedofilia acobertados pela igreja, nas mulheres queimadas em fogueiras, nas negras e pobres que morrem pelo não direito aos seus corpos, enquanto mulheres brancas (e até católicas!) pagam por uma clínica e acobertam o aborto. Por um amontoado de células valerem mais que uma mulher adulta, pela excomunhão de uma menina de nove anos vítima de estupro, pelos filhos jovens que apanham e são expulsos de casa por não ser hétero, pelos milhares de jovens suicidas que tentaram expurgar a culpa de seus desejos e corpos.  Contra a defesa do fiel cordeiro que vai ao abate em resignação ao seu destino.

Cresci em preceitos cristãos, mais precisamente evangélicos, meu destino foi traçado de muitas formas e interligado a esse fato. Somado aos dados de meu gênero e classe, a essa altura estaria com alguns filhos, muito provavelmente indo do culto para casa, limpando e zelando do lar, sem concluir o Ensino Médio, talvez sem nunca conhecer um orgasmo. Eu era infeliz, em Cristo. Mas havia algo pulsando dentro de mim que era sufocado pela religião e por grilhões psicológicos intensos. Tive medo de me soltar e do mundo me engolir, tive medo de buscar o meu prazer e do desconhecido, até onde seria capaz de chegar? Quem seria essa pessoa trancada no armário? Sentia olhos invisíveis pairando sobre o meu sexo, nas primeiras vezes que pratiquei de modo consentido (a minha primeira experiência sexual foi aos dez anos, não consentida, ele acreditava em Deus) tinha de olhar todos os cantinhos do espaço em que estávamos para ter a certeza de não ter câmeras. Aos poucos a vergonha foi trocada pelo orgulho e num dia de cortar laços, juntei as centenas de recitativos, a bíblia pequena e até o meu véu, embolei em uma sacola plástica, fiz o lacinho, desci as escadas e deixei para o lixeiro levar aquela aliança cortada, o pedaço que já não me pertencia. E encontrei um horizonte tão, tão grande, que às vezes me assusto o tanto que avancei e o tanto de carinho e amor que recebo, o quanto estou melhor. Não faço mais qualquer questão de ser barrada no mundo celestial onde flutuam fetos e almas de pessoas tão elevadas, cacos de gesso, tocos de crucifixos, leite e mel (até porque, sou vegan) e trilha sonora gospel. Prefiro extrair da minha breve estadia o máximo de prazer e aprendizado. Faço da minha prática a busca por igualdade, não por medo das labaredas de um carrasco a mando de Deus, mas porque é justo.

26 julho, 2013

Lágrimas masculinas – Aos homens de coração partido

Posted in Gênero, O pessoal é político às 3:16 am por Deborah Sá

Ela não quis mais ficar com você, te traiu ou nem deu bola, terminou a relação. A rejeição machuca, se sentir de alguma forma enganado, idem.  Os pombinhos criaram laços e juras de amor eterno e uma hora a coisa se rompeu. Ela não fez isso “na maldade”, “porque é uma vaca”, “porque mulheres são interesseiras”, pelo prazer sádico de quebrar seu coração em pedacinhos. Pelo acaso e uma série de fatores que talvez nem ela fosse capaz de antever com precisão, as coisas mudaram. Sabe esse sentimento de “porque esse outro e não eu?”, “o que ele tem que eu não tenho?”, “fui trocado!”. As mulheres sentem e com freqüência toleram várias formas de violência pelo medo de rejeição. O quanto você aguentaria por dependência financeira, medo da solidão e falta de perspectivas? Muitas mulheres entram em depressão profunda, tentam suicídio, flagelam o corpo.

No entanto, se um homem tem o coração quebrado costuma escutar duas razões básicas e interligadas para a fatalidade: a) A primeira, que a culpa é dele por se entregar “mulher não gosta homem bonzinho”, a segunda, b) responsabiliza mulheres por brincar com o sentimento alheio. Ou seja, de todo modo a culpa deságua na mulher num carma bíblico. As soluções para não quebrar mais a cara e o peito enveredam por dois caminhos: c) Malhar muito, enriquecer e sair com as cocotas sem se apegar ou d) procurar uma moça virgem e submissa para casar.

O primeiro fator (a) supõe que indivíduos não gostam de gentileza e cordialidade (tolice), o que difere de alguém inseguro e controlador que usa sua “fraqueza” de escudo para manter a posse sobre terceiros (o que Nietzsche denomina “moral de escravo” [1]). Todos buscam prazer, satisfação e extrair alguma vantagem, isso é, somos interesseiros em quaisquer relações interpessoais [2]. O segundo tópico (b), ignora o fato das pessoas mudarem de ideia e se afastarem por muitas razões, ao encontrar alguém mais interessante, sentir um forte desejo e satisfazer o impulso, precisar de um tempo para repensar a vida, enfim, a melhor forma de saber o motivo é perguntando para a outra parte envolvida e nem isso garante plena honestidade. Talvez dizer o real motivo magoaria demais (por exemplo, não te achar mais atraente).  O plano de ação (c) pode trazer muita satisfação se é seu referencial de aproveitar a vida, mas nada assegura que não se apaixone ou que se apaixonem por você. O fatídico erro é julgar mulheres com as mesmíssimas expectativas (dinheiro, malhar, ostentação) como inferiores. O que nos leva ao plano (d), a mulher casta e honrada.

A mulher valorosa ou a que traiu o namorado podem se apaixonar e desapaixonar, ferir sentimentos e pedir desculpas, partir sem deixar ao menos um bilhete. É um risco que corremos ao nos relacionarmos com sujeitos em constante movimento, eles repensam a própria história, buscam novos ares, ficam de saco cheio, se decepcionam, querem algo emocionante. Exatamente como você. Um homem de coração partido tem sua raiva e rancor direcionado para todas as mulheres e sufoca ainda mais emoções tão difíceis de exprimir. Sinto informar, te passaram as informações erradas, é o machismo que te impede de chorar e experimentar o próprio corpo, é esse padrão rígido que obriga sua vestimenta ser assim ou assado, o machismo alimenta a vergonha da calvície, o medo de ficar broxa e ser abandonado, proíbe de declamar o amor pela mulher promíscua, gorda e/ou fora dos padrões em nome da sua reputação e virilidade, te faz inseguro. Uma piroca sem qualquer raciocínio e complexidade, sem sentimentos. E para que não reste dúvida, quem dita a regra na qual sem dinheiro você vale menos que merda, é o capitalismo. Remendar seu coração com misoginia é uma bala perdida.


[1]  Os termos “Moral de senhor” e “moral de escravo” detalho melhor aqui

[2]  Que tipo de capital valoriza? Econômico, escolar, cultural? E por que um vale mais que outro? Há esse post onde abordo o tema.

19 junho, 2013

“Conseguimos conquistar com braço forte”?

Posted in Atos, O pessoal é político, Só falam nisso às 1:42 am por Deborah Sá

Imaginei que a Copa despertaria união e as propagandas chamando pra rua nomeando a pátria de chuteiras, traria mais gente, despertaria um momento de junção. E despertou. Pensei que seria uma oportunidade de crescimento para todos por integrar mais gente. Errei. Não sou de partido político, mas entristeci ao quebrarem a bandeira de um manifestante hoje. Ao que parece, a única permitida nos atos é a verde e amarela, aquela com o slogan pavoroso de “Ordem e Progresso”.  Esse partidos com bandeiras vermelhas que muita gente chama de oportunista está aí há tempos tomando borrachada (antes de você ir pra rua essa semana) e pode notar, haviam bandeiras vermelhas diversas. Pois, embora esses movimentos tenham aproximações, possuem formas de organização distintas em um espaço para todos. Quando uma multidão reivindica que só sua bandeira pode ser hasteada é amostra clara de silenciamento, de pasteurizar. Saem as cores do arco-íris, entram os tons pesados e bicolores.

Não usaria nariz de palhaço, bandeira de manto. É genérico demais ser “contra a corrupção”, “contra o que acontece no Senado”. Os poderes estão diluídos, capilares, não tem essa de “é só tirar o fulano e tudo resolve em um passo de mágica”. Lembram do filme Tropa de Elite 2 onde a trama reforça que o sistema possui uma lógica própria e mesmo trocando as peças o “relógio” continua funcionando? Então.

O objetivo é paradoxal, pedem paz e um país sem violência através do Nacionalismo. Ah, o nacionalismo…inflou o peito de muita gente a favor da ditadura, mobiliza aparatos bélicos, assassinatos em massa, perseguições que invadem a casa de “possíveis subversivos”, acossam moradores da periferia, o  “Ame-o ou deixe-o”, o Hino Nacional obrigatório nas Escolas. A ordem em primeiro lugar e o progresso a qualquer custo, mesmo que isso implique “cortar o mal pela raiz”. Pedir um não envolvimento “partidário” e sim “brasileiro”, é ao contrário do que a precipitação indica, se posicionar politicamente. Não pela liberdade, autonomia e diversidade, mas pela vigilância assistida, a voz comedida, a clandestinidade aos olhos de um Estado controlador das liberdades individuais e coletivas. Precisamos caminhar, mas é realmente necessário lutar para bater continência?. Se esse é o gigante que acordou, que volte ao sono dos injustos.

Trilha sonora: Manchester England

15 junho, 2013

Medo de multidões – Do lado de dentro, para o lado de fora.

Posted in Desabafos, Eventos, O pessoal é político tagged , às 10:42 am por Deborah Sá

A faculdade é meu novo trabalho, isso consome meus dias mais do que qualquer outra profissão que executei antes e recebo muito menos por isso. Mesmo com o crucial apoio do meu companheiro, familiares e da bolsa auxílio, minha renda mensal teve uma queda de 70%. Isso significa repensar minha relação com o dinheiro, como por exemplo, não comprar um presente para o Yuri no nosso sétimo ano de namoro.

Ainda estou em processo de adaptação, consegui uma orientadora (recebi duas propostas no semestre passado, aceitei uma). O tema é bacana, assim que concluir o relatório final, compartilho com vocês. Segunda-feira terá um evento obrigatório na faculdade, além de um procedimento pré-agendado com a coordenadora pedagógica na escola que acompanho, são compromissos inadiáveis na minha agenda. Porém, sou mais do que uma namorada, amiga, filha e estudante. Sou alguém com medos e inseguranças, uma porção, uns maiores, outros nem tanto. O período que vivo tenciona todos eles. O medo de reprovar nas matérias está no grupo de medos médios, porque embora aprenda na faculdade que avaliações são um meio e não um fim, um bom desempenho acadêmico é o que garantirá bolsas de estudo e pesquisa, o que aliviaria as ajudas de custo que meu namorado oferece (se o patriarcado dá um limão, faço uma limonada). No grupo dos medos maiores, está o maior de todos meus medos: O medo de multidões.

Ele não veio do vácuo, tive uma trajetória de contenções, de represar tudo o que sinto. Talvez por isso não lembre nenhuma ocasião onde senti fúria, só das que deram medo, tristeza, vontade de sumir, culpa. Determino as regras do jogo até certo ponto, mas admito minhas limitações. Uma delas é que ás vezes quando sinto muito medo (como em uma multidão) paraliso e choro, as pernas ficam pesadas, me sinto vulnerável e imagino a cidade engolindo. Tudo começa com um linchamento, por alguma razão absurda todos se voltam contra mim e esse crescente de violência bárbara com direito a estupro e esquartejamento continua com o chão rompendo, os prédios de metros e metros dobrando com o ranger de suas gigantescas estruturas, tudo implode, esse é meu fim. Não alucino enxergando esse cenário aterrador, ele está na minha imaginação, sei que não é realidade. Isso não impede de sentir o coração batendo, a boca seca, o suor, as pernas duras ao ponto de doer quando me movo. Fui incapaz de reagir à violência direta na infância, a violência sexual que passei ocorria no silêncio. Aguentava aquilo pra proteger a família, imaginava meu pai matando meu avô com um instrumento da cozinha que parecia uma machadinha de carne (ou seria um martelo?).  Atacando aquele que como outros indivíduos, humilhava em público como maneira de me controlar. Imagine a tensão que é ter de fingir não demonstrar medo para não causar uma morte, um colapso da estrutura que mantém não só a si, aos dez anos de idade.

A onda de protestos toma o país, não estou lá, mas gostaria. Todas as noites em que ocorrem os atos, choro e torço para que fiquem bem as pessoas que quero bem e as que nem conheço. Fogem de balas de borracha, da tropa de choque, da cavalaria, enfrentam o próprio medo. Armados até os dentes, línguas e gargantas, a imensa maioria dos manifestantes usa apenas a voz como escudo e ataque. Para mim, é um impasse á cada convocação, sinto que meu coração está ali, assisto ás aulas na faculdade com o celular próximo, durmo impaciente. A implosão de sentimentos que desperta esse fantasma e faz regredir sensações de impotência no corpo, tem ligação direta com a implosão violenta imaginada que me mantém rígida. A assimilação ocorreu agora no período de três horas e meia redigindo esse texto, dada todas as pausas necessárias para chorar e retomar a escrita. Só tenho a agradecer a quem toma as ruas. Vocês me enchem de orgulho e deram munição em palavras para racionalizar. É um dos estilhaços brilhantes que saltam da ferida que me fizeram por dentro e agora, posso retirar.

23 abril, 2013

Material girl – A mulher interesseira, sexo e capital

Posted in Corpo, Desejo, Gênero, LGBT, O pessoal é político tagged às 12:08 pm por Deborah Sá

Sexo (como entendido) é performático, genitalizado, heteronormativo, cis-sexual. As revistas femininas e o incentivo ao sexo da mulher é sempre nos moldes de “esse é o meu poder e dele faço uso pra conseguir o que quero”. Os sujeitos são estimulados a fazerem mais sexo, ao ponto de mentirem a freqüência nas pesquisas: “ dou duas sem tirar”, “eu tenho cinco orgasmos múltiplos”. Não pega bem dizer que gosta de sexo no escuro, aquela coisa ao som de Barry White. Ninguém gosta de ser considerado morno sexualmente porque morno não mela calcinha nem levanta pau. A coisa precisa pegar fogo.

E pode pegar de várias maneiras, depende do que você busca e com quem se relaciona. Não há sexo desinteressado se feito além de dois integrantes, veja bem, se quero sexo só comigo, me masturbo. Quando estimulo outro corpo além do meu (de forma consentida é óbvio), tocando, lambendo, chupando e beijando estou pensando no outro. Gosto de ver a cara contorcendo ao gozar, é uma massagem no ego, faz bem. Aí as relações de poder ficam complicadas de discernir, ou como alguns preferem, mais fluidas. No sexo oral, por exemplo, quando uma mulher chupa um homem a reação é “Ele está se dando bem, quem é chupado está no comando”, mas quando um homem chupa uma mulher dificilmente se diz: “Ela está no comando, ela está se dando bem”. Porventura não teria maior “controle” a boca que conduz movimentos ritmados? As mãos que deslizam e enrugam os dedos na umidade? Que estremecem pernas, arrepiam braços, produzem gemidos e a vontade de quase implorar para que aquilo não pare e dure por todo o sempre?

Essa dualidade (quem manda, quem obedece), é imprecisa. Se entregar abertamente demanda confiança plena, confiamos em quem está a nossa frente, confiamos em deixar o corpo soltar o que tiver de deixar sair no tempo que necessita. Ou seja, se gozo maravilhosamente é por permitir a mim e permitir-me ao outro. Se ele controla com a língua, eu controlo com os quadris e é de movimento que somos feitos. Somos corpo, dentro e fora do sexo, somos corpo e sentido. Sexo não é desinteressado também por outro motivo, nós buscamos capital. Sim, até os anarquistas. E que tipo de capital? Isso cada um dirá por si. Meu capital estético de interesse é um pouco fora do comum (eu digo um pouco, porque se Jennifer Lawrence quiser meu corpo nu é só ligar), mas claro que há uma série de características físicas que facilmente me fazem sucumbir. Também tenho interesse pelo tamanho do capital cultural aliado a sensibilidade, adora literatura? Musicais? É vegano e sabe cozinhar? Muitos pontinhos. Ainda por cima não bebe e não fuma? Por favor, mande currículo com foto. É, com foto. E quer saber? Mesmo com todos esses requisitos pode ser que não role a chamada química (menos com você, Jennifer, tenho certeza que daríamos certo).

“Não mostre o que tem na carteira,  mostre o que tem na cabeça”, “Cubra seus peitos e mostre sua personalidade, mulher”  é só um modo de dizer que não se faz tanta questão do que carregam na carteira, mas no coração, nas idéias, no tamanho do capital cultural. Na apropriação de uma cultura legítima e quem sabe até, ver o filme esloveno e a última animação da Pixar com o mesmo gosto e olhos embotados de lágrimas.

Fazer uma cirurgia plástica pra conseguir um homem rico que banque é se desvalorizar? É ser nada feminista? Bem, alguém que julgue esse tipo de capital importante precisa literalmente investir no corpo, com malhação, dieta balanceada, cirurgias e toda a parafernália possível, esse alguém, pode realmente julgar que estabilidade financeira é algo mais importante do que ser colunista da revista Piauí, Caros Amigos ou ganhar um Jabuti. E essas pessoas não são imbecis, elas não “sofrem de baixa auto estima”, elas não precisam ser ”iluminadas”. Uma patricinha, uma piriguete ou um rapaz gay que é bancado em troca de sexo não merecem desprezo. É muito fácil sentar a bunda e escrever usando vinte e dois teóricos sobre o assunto quando na vida isso não enche barriga. É totalmente diferente da prostituta que trabalha na rua com discriminação e o perigo da violência, mas mesmo assim, há uma aproximação: Não adianta oferecer curso de fazer bolsa em garrafa PET ou dar um livro teórico achando que isso afastará mulheres, travestis e transexuais desse mercado. É preciso ouvir, construir políticas públicas, lutar para que sejam respeitadas.

Os sujeitos tem o direito de ter acesso ao patrimônio intelectual da humanidade, mas julgar que trabalho ou o gosto por atividades ditas intelectuais são mais nobres que as do corpo, especialmente as que envolvem sexo como moeda de troca, é esquecer que sexo é interesse. Fazer sexo por interesse financeiro é apenas um dos vários tipos de capital (estético, cultural). Isso não nos transforma em um objeto, isso não é “contribuir para que não respeitem”, as pessoas tem o direito de buscar a forma que acharem mais conveniente de se sustentarem. “E quando essas mulheres começarem a ficar velhas? Não serão trocadas?”  pode ser que sim, pode ser que não. Igualmente, ser feminista ou ativista não impede que as pessoas pisem na bola, troquem parceiros, encontrem “alguém melhor”. Assim como o marido não tem poder sobre a esposa, a namorada não pode mandar na namorada, um cliente (ou um mantenedor) não pode bater em quem fez sexo com ele (ou quem dele depende economicamente). Não é porque há um contrato implícito e uma das partes tem um maior capital – ou prestígio – cultural, econômico, estético, que poderá ditar as regras sobre o corpo de quem está ao lado. Usar o sexo como moeda de troca não é se transformar em mercadoria e nem sempre é sintoma de vulnerabilidade econômica, muito embora, existam tais aproximações; além da evidente segregação de quem tem faz dessa a maior fonte de renda. Ao mesmo tempo em que é importante frisar que nada é neutro, é bom que saibamos que essa liberdade irrestrita e sem fronteiras simplesmente não existe.

Se o relacionamento é aberto ou fechado, se é papai e mamãe ou orgia, se é assim ou assado sempre há paredes de contenções, o mundo sempre nos supera, criam-se combinados, modos de entrar e sair, formas de convivência. Alguns tem muros maiores, outros menores. Não me cabe aqui gritar aos quatro ventos o quanto a minha água é mais limpa que a de meus vizinhos, o céu não tem cobertura e se chove me molho tanto quanto quem me lê.

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