16 janeiro, 2013

Então quem vai te ver morrendo?

Posted in Baú, Memórias às 9:21 pm por Deborah Sá

:: Quarta-feira, Janeiro 31, 2007 ::

Me resta o caminho solitário nesta vida
Meus prazeres foram substituídos
Admiro um algodão-doce
Mas ele não tem o mesmo sabor de antes
Meu sorriso já é mais amargo
Minha tristeza mais tímida
E minha força sai devagarinho entre os troncos
Os pássaros ainda cantam
Mas nem é tão mais doce
A mesma melodia que ouvia
Quietinha na barriga da minha mãe
Um mundo tão incerto
Mas que pelas dores que eu sentia
Sabia que era maior que tudo isso
Talvez eu ainda esteja neste útero
E quando o mundo sofre
Eu sofro um pouquinho também
Pois é muito difícil não sofrer
Com algo que intimamente faço parte
Eu não tenho saudades não
E as que tenho são cada vez menores
Talvez porque quando perco
A lembrança nem é mais tão doce assim
E acostumar com a ausência é tão natural
Que chega uma hora que a gente nem sente mais
E os prazeres desta vida são como dependência
E deles eu me alimento
E corro, arranho e amasso
Todos os velhos desenhos que fiz
Principalmente os cor-de-rosa
Tamanha ingenuidade…
Nem tempo perdido
Muito menos ganho
Pois provar do amargo pode sim
Ter uma pitada de não sei o que
E esse não sei o que é assim
Desse modo mesmo
Encarar-se por alguns minutos pode ser perturbador
Desconfio que Narciso afogou-se ao tentar fugir de si mesmo
O tempo maldito sacerdote
Rasga todas as estrelas
Sentir seus braços presos
Cair no chão novamente
E todos os que te olham
Vêem como você se sente aqui
E como eles vivem ali
Mas o que não percebem
É que mais do que nunca
Você está tentando sair daqui
Sempre me faltou coragem
Mas não vontade
Sempre me faltou decência
Mas não verdade
Sempre me faltou sanidade
Mas não bondade
Sempre quis explodir o mundo
Porque assim me fez
E não adiantou nada
Pois eu descobri que me fiz
Me faço
Me escondo
Sentir uma mente aprisionada
Pelo simples medo de se aceitar
Medo da palavra a seguir
Se vai te chocar
E me trair
E se chover eu nem vou sentir
E se me chamar eu não vou sair
E se sorrir eu vou chorar
E quando chorar vou olhar meus pulsos
E eles estarão lá
E quando eu abrir meus olhos
Continuarei aqui
Precisamos todos!
Desesperadamente acreditar em nossa imortalidade
Esquecer da morte na próxima esquina
Riscar todos os rostos velhos
Os olhos velhos irão morrer
Os ossos velhos vão doer
E quando o velho estender a mão
Eu vou ignorar
Quando o velho me pedir perdão eu vou chorar
Eu vou correr mais uma vez
Pois minha mente não consegue ser liberta
E onde ela se sente a vontade é na palma da minha mão
Eu tenho uma mente que quer se trancar aqui dentro
Eu tenho um corpo teimoso que pesa muito
Eu sou um engodo
Eu sou um fardo, enfadonho e repetitivo
Eu sou a birra e a artimanha
O que questiona e discorda de tudo
Eu sou o que é idiota
Eu sou o que pensa errado
Eu sou alguém que está do seu lado
Alguém que por mais que você tente
Nunca ficará calado
Esse mundo todo tá todo fudido
E eu fico pregando em uma praça pública vazia
E os que passam me olham com desdém
Tem vezes que passam uns loucos
Eles sentam e me ouvem
Conversam comigo
Há alguém que me conheça só pelo meu olhar
E esse alguém sabe ver como esta cabeça confusa
Está sempre correndo atrás da própria cauda
E este alguém tem o maior valor
Se você puder me ouvir eu gostaria que soubesse
Muitas vezes eu até tento gritar
Mas a voz não sai

Esse é um dos textos do meu antigo blog do qual fiz backup

Sobe um senhor no ônibus

Posted in Baú, Memórias às 9:15 pm por Deborah Sá

:: Quarta-feira, Março 28, 2007 ::

Ele precisa de 33,00 reais pra comprar o remédio
Eu preciso de um remédio pra me livrar do tédio
Ele precisa de um pouco de sorte
Eu preciso de mentiras pra enganar a morte
Ele precisa de só mais cinco centavos
Eu preciso saber quem são os escravos
Ele tenta não chorar na minha frente
Eu finjo ser indiferente
“Desculpa atrapalhar vocês”
Tento aumentar meu MP3
A luz do lado de fora da janela
Passa passa passa
Coitada dela
Ele precisa de um cobertor
Com essa dose acaba minha dor
Ele quer só uma chance de tentar
A mãe dele o ensinou a rezar
Vem a cada segundo
Joga na minha cara que esse é meu mundo
Que é por culpa minha
Que você não tem dinheiro pra sua filha
Sua jaqueta já é gasta
Não me diga nada a imagem me basta
Tome o seu rumo
Ative a fumaça
Diga-me que eu não sei como é
Perder tudo o que se deseja
Pelos caprichos de uma mulher
Com a hipnose constante
Vejo no porta-luvas uma porção de diamantes
Com dentes e cabelos escovados
A moça sorri ao meu lado
“É vagabundo aquele”
É solitário aquele
É desesperado aquele
É sujo aquele
Aquela colher de 5 dias
Dentro do bolso flanelado
Com farrapos soltos e um sol abafado
Um vende paçoca
Um tapa na cara pelos malabares mal feitos
Um plax na mão da prostituta
Relapsa, insana, sozinha ela luta.
Engraxate pivete
Ameaça-me no farol com o seu canivete
Menina descalça do cabelo amarrado.
É chamada pra dentro do carro
Que depois fica com o vidro embaçado
O tio é todo aquele que não precisa da gente
Mas precisamos muito dele
O tio é aquele que bate na gente e quando é noite
Procura aquela avenida sozinha
É aquele que chora e gosta
O fulano que não sei o nome
Alguém que nem de perto o reconheço
E muito menos passa fome

Autoria: Deborah Sá

Esse é um dos textos do meu antigo blog do qual fiz backup

(Sem título)

Posted in Baú, Memórias às 9:03 pm por Deborah Sá

:: Quarta-feira, Agosto 02, 2006 ::

Sinto que todos se acomodam, mas que pena. Sinto que não há opções, apenas escolher o que seria “menos mal” Que as crianças continuam chorando, eu continuo aqui sem fazer nada, sem ganhar um salário mínimo, morando na periferia querendo ajudar minha família, meus contentamentos são sombras de desejos consumistas de uma classe média, perdoem-me todos, mas não posso ser parte deste mundo, não me sinto parte dele. Sinto-me maquiada para agradar a um fantasma que nem sequer conheço o rosto, sinto-me manipulada, sozinha, triste, não sinto pena de mim, só sinto um grande pesar, pois nada do que o mundo me dá trás contentamento, a não ser fazer coisas que independem da matéria.  O pior é que preciso do dinheiro, pra fazer a faculdade que quero mesmo sabendo que manipulam meu sonho, quando aprenderei quiçá, mais sobre a vida observando ao meu redor. Ajudaria a todos com o mesmo câncer que os mata.
Minhas idéias são muito além de linhas digitadas por um desejo altruísta, já que todas as boas idéias são corrompidas por mentes sagazes. Toda a hipocrisia exageradamente escondida, onde todos somos parte de um teatro sádico, quem nos manipula então? Senão nós mesmos? Presos em armadilhas que criamos.  Criamos uma prisão, perdemos a chave.
Não quero seguir estas regras de conduta, mas para viver neste mundo tão estranho tenho de me adaptar não é mesmo? Veremos até quando minha mente aceitará tudo isto.

Esse é um dos textos do meu antigo blog do qual fiz backup.

Carta para Deus (se é que ele lerá isso aqui)

Posted in Baú, Crenças, Memórias às 8:56 pm por Deborah Sá

::Sexta-feira, Janeiro 19, 2007 ::

Caro papai-noe…ops!

Caro Deus!
Espero que tenha bom humor!
Aliás, creio que se você existir deve ser bem legal…
Não é o que todos espalham por aí…
Que você torra todo mundo, criou um inferno…
Colocou alguém que ia contra seus ideais lá…
Deus…você joga The Sims?
Se você olha por nós…porque sofremos tanto?
Já que não posso proteger todos as crianças
Você pode fazer isso por mim?
Você me ajudou a passar de ano!
Mas porque não protegeu a morte do meu irmão?
Qual o seu critério para solução de preces?
Deus…
É justo aprisionar uma alma a um corpo?
Um corpo que ela não controla?
E que ainda será ele que determinará
Se a prisioneira merece paz ou um castigo?
Deus…
Você é sádico?
Se alguém não aguenta mais viver aqui…
Ela não pode acabar com tudo?
A bíblia veio por sedex?
Você não gosta de sexo?
Porque temos tesão?
Você é surdo?
Você é mudo?
Eu não tenho sensibilidade em te sentir?
E você?
Tem comigo?
Pra mim você não é santo
Você tem sentimentos bem humanos até…
Raiva, arrependimento, amor…
No fundo não acho que somos tão diferentes
Se eu nascer em outro corpo depois
Até me tornar perfeita…
Quando poderei ser perfeita se nem você é?
Se deseja me castigar por isso
Onde está o defendido livre-arbítrio?
Cada boca te prega de um modo
Em cada morte está feita tua vontade?
Viva sua roleta-russa!
E condene os que lutam pela liberdade

Solenemente
O pequeno pontinho aqui no universo
Deborah Sá

Esse é um dos textos do meu antigo blog do qual fiz backup.

Eu peço desculpa

Posted in Baú, Memórias tagged , às 8:42 pm por Deborah Sá

:: Quarta-feira, Junho 27, 2007 ::

Eu peço desculpa

Sinceramente eu peço desculpa
Eu não sou de todo obrigada
Mas assim fui educada
Talvez você não entenda
E talvez saiba melhor que eu
Mas lhe peço desculpa caro amigo
Eu peço desculpa por ser tão hipócrita
Eu peço desculpa por te fatiar
Eu peço desculpa por te dar tanto amor
E me corta o peito ver sua carinha sorridente
E me dói saber o quanto eu sou má
Sim, justo pra quem nunca me fez nada.
Eu sinto muito, mas eu nem sei como.
Acho que é mal da minha espécie
Eu não sei prolongar a paz
Eu não sei viver em harmonia
Eu consigo apunhalar as costas e achar bom
Sinceramente me desculpa
Eu não consigo ver sua carne temperada e não salivar
Eu não me sentiria tão mal em comer meu semelhante
Nem tão mal assim
Comer você me mostra o quanto não importa
Não importa que você sofra
Não importa que você sangre
Não importa que você grite
Não, não vou ouvir.
Eu não ouço o mendigo
Mas eu olho o cachorro
E ainda me chamam de insensível!
Não, o mendigo não é vagabundo.
Nem o cachorro
Mas o cachorro já foi meu amigo
Bah! Não aquele, mas outro!
O humano se corrompeu
O cachorro não
O cachorro vive da vontade dele
Ele vive talvez da melhor maneira
O cachorro é o impulso
E o homem é o medo
O cachorro é tão bonito na vitrine
Tão bonito que quase me faz chorar
Como um pôr do sol
Só que o cão eu posso tocar
Eu posso ganhar carinho e até me faz rir
O cão mais levado o mais inquieto
Este é o melhor cão
Mas preferem os castrados
E porque preferir estes?
Pois estes se transformam em humanos
O humano é um bicho castrado
E o bicho cão pula
E pede atenção
E o bicho homem está bravo
E bate no cachorro porque está bravo
E grita porque está bravo
E se o cachorro late bravo
O humano não gosta e manda calar a boca
E coloca uma focinheira que custou um trocado
Assim o bicho sossega e dorme
Depois o dono abre a geladeira e frita bife no fogão
Assiste a TV
Pra ver o mundo injusto não é preciso ligar a TV
Basta nascer

Escrito por: Deborah Sá

Esse é um dos textos do meu antigo blog do qual fiz backup. Em 2007 foi o ano em que me tornei vegetariana.

5 setembro, 2012

Não é moda, quem pensa incomoda

Posted in Educação, Memórias tagged às 5:09 pm por Deborah Sá

Sem prazer em estudar para as provas de escola, preferia ler e pesquisar onde a curiosidade levava. A ânsia de saber mais, somada a uma postura insegura e uma silhueta rechonchuda me fizeram piada pronta. Há pouco tempo percebi que de algum modo, aquele posicionamento representava uma afronta ao lugar que pertencia.

Ia aos mesmos mercados, não andava de carro, assistia aos mesmos programas na TV, ria das mesmas piadas, tinha pais divorciados, acreditava em Deus, ia até a Belmira Marin tomar um sorvete na loja de um real, até a Cidade Dutra pagar uma conta, comer o churrasquinho de gato na calçada do Carlos Ayres. Ou seja, o espaço físico era compartilhado.  Quando comecei a fazer uma lista dos filmes que queria ver mas não os encontrava nas locadoras do bairro, tive de  pegar ônibus para ir até o Shopping Interlagos ver se achava por lá. Um dos que me deu mais felicidade foi alugar O Fabuloso Destino de Amélie Poulain. Anos mais tarde, meu pai comprou um jornal na banca que vinha com esse DVD e me presenteou. Era solitário assistir sozinha, ter esses gostos um tanto diferentes sem ninguém para comentar, então insistia bastante para que minha irmã  acompanhasse, ás vezes ela tinha paciência, outras vezes não. Sei que para algumas pessoas parecia petulância “como é que ela gosta desses filmes chatos, demorados, “cabeça”?”. Não sabiam quantas vezes  os versos Olhos abertos fixados no céu, perguntando a Deus qual será o meu papel. Fechar a boca e não expor meus pensamentos, com receio que eles possam causar constrangimentos. Será que é isso? Não cumprir compromisso abaixar a cabeça e se manter omisso.”, fizeram arrepiar.

Passaram-se alguns anos e entrei no supletivo, um dos moços, começou a me tratar com a gentileza própria de quem flerta, não dei bola. Até perceber que ele era um tremendo homofóbico e a antipatia só cresceu. Quando um professor fazia perguntas demorava a levantar a mão (detesto monopolizar os espaços), mas a sala sabia, ou eu, ou ele, falaríamos algo a respeito. Por educação, esperava ele se pronunciar e em seguida me posicionava, na maior parte dos casos, me opondo, não pelo simples prazer de discordar, mas porque eram opiniões preconceituosas.  Revoltado, convenceu seus amigos:  Se abria minha boca na sala de aula rompiam palmas do fundo da sala, assovios, barulhos.  A reação era esperar terminar, fazer uma reverência, continuar a fala. Uma hora eles cansaram. A gota d’água foi o dia em que cheguei na sala de aula e vi um aluno que eu gostava de conversar, fã de RAP, segregado por ter a fala mais lenta (era seqüela de um aneurisma), encolhido, sentado, enquanto o tal homofóbico, de pé, apontava o dedo o acusando de ser louco por tomar remédios psiquiátricos. Ao intervir ele se defendeu com aquela ladainha de “você acha que sabe-tudo”, quando expliquei que além de não saber de tudo (senão não estaria no EJA, continuando os estudos), jamais usei o conhecimento pra humilhar alguém, ao contrário dele, que se achava muito superior por nunca consultar um psicólogo tornando evidente o quanto era um ignorante sobre (mais esse) assunto.

No ambiente de trabalho formal convivi com provocações diárias, zombavam das minhas caixas de chá, me chamavam de madame, dos absurdos que ouvi estão as frases “Tem um gato sujando meu carro, o que acha de eu mata-lo?” e a máxima “Tudo o que você sabe da vida é porque viu na internet (sobre defender cotas, LGBTTT minorias em geral)”. Ou seja, compreender e fazer uso da linguagem, arranhar no inglês, é indicativo de que estou em um recorte de dominância mesmo que não tenha o objetivo de fazer uso pra oprimir, é isso que a tensão entre classes sociais faz. Por mais que vivesse na periferia, a música que ouvia, o gosto para filmes, ser vegetariana, destoava. Compreendo que a barbárie é intrínseca na criação em todos extratos econômicos, nesse mesmo emprego já ouvi pessoas aos risos contando como era divertido participar de um linchamento, o dia que bateram em uma “mulher-macho”, como matariam suas esposas se descobrissem uma traição… Analogamente, mas dessa vez em um emprego em uma avenida chique de SP, ouvi que a polícia tinha de ser mais dura e piadas machistas surgiram uma após outra.

Por ocupar essa posição singular (nova classe média?), saliento o quão ingênuo é o mito de que na classe trabalhadora só existem espertalhões (como pensam certos funcionários dos escritórios nas avenidas caras), ou quem crê que na periferia todo mundo só curte pagode, funk, usa chinelo de dedo com um sorriso no rosto e o coração puro, uma versão atualizada do bom selvagem (como pensam alguns universitários de faculdades federais e públicas). Gente sádica, mal intencionada e intransigente há em toda parte. Ser machista, arcaico e preconceituoso não é um dado de classe, entrementes é fator cultural e o que antecede a ruptura é o estrondo da colisão.

13 agosto, 2012

Niemi

Posted in Memórias às 12:06 pm por Deborah Sá


Fui avisada pela leitora Deborah Meira na caixa dos comentários que Niemi (uma moça bacana, que já comentou aqui no blog algumas vezes), faleceu. Ela era mais ativa no blog da Lola e foi através de lá que conheceu meu blog. Era muito simpática. Eu não sabia que estava doente. Ela também era atéia. E pediu que não chorássemos, não ficássemos tristes. Sou uma manteiga derretida e por incrível que pareça, não chorei. Não por falta de sensibilidade, eu respeito muito “a partida”, mesmo sendo atéia. Mas acho que especialmente para quem estava sofrendo, deve ser um alívio, um descanso. Tenho muito respeito pelos mortos, por quem se vai. Procuro respeitar as memórias. E acho que ela desejaria ser lembrada assim, com respeito. E assim como ela se sentiu grata pelo o que aprendeu nesse período de vida, a recíproca é verdadeira para os que aprenderam com ela e eu a agradeço pelo que ela compartilhou aqui. Uma tia minha também morreu esse ano, a mãe do meu sogro idem. Desejo consolo e boas lembranças para os ficam e sentem saudade, desejo a dança na poeira do universo para os que se vão e o meu profundo respeito, se por ventura nesse trajeto esbarrarem com a minha finada avó, ou os finados cães, mandem um abraço.

16 julho, 2012

Amores não consumados, entre livros e monitores

Posted in Egotrip, Memórias às 4:48 pm por Deborah Sá

Não faz assim que eu posso até me apaixonar

Atípicos no bairro (além de sermos uma família “crente”), tínhamos um computador comprado com dinheiro suado, mas nenhum carro na garagem. Lembro a primeira vez que vi um scanner de mão funcionar, achei o ápice da tecnologia o gibi da Magali com balões na capa digitalizado em preto e branco para a tela do computador, parecia mágica. Ainda mais remota é a recordação das escadas da empresa do meu tio, era um corredor que dava para o computador do meu pai e eu pedia para colocar o jogo do “mata mushquito” (como eu chamava Space Invaders). A tela preta do DOS com letras verdes, os disquetes grandes, o barulho de impressoras matriciais, usar como papel de rascunho para desenho aquele monte de papel com rebarbas e furinhos nas laterais, são partes de minhas memórias de infância.

Por volta dos nove-dez anos fazia um “show” para minha irmã, era “Da pulguinha alegre e saltitante”, consistia em recortar uma pulga cor de rosa desenhada no Paint Brush e mexe-la para cima e para baixo, com voz e personagens que nem lembro. Um dia matei simbolicamente a tal pulguinha em um episódio Season Finale porque estava com raiva, o que fez a minha irmã chorar. Será que minha irmã (agora com vinte anos), lembra disso?  As crianças do bairro brincavam muito na rua, eu e minha irmã não éramos muito fãs de sair para brincar, na verdade, a gente evitava sempre que possível. Uma vez minha irmã levou um tombo tão feio…Caiu de ombros e foi ralando no chão. Tudo bem que ela se machucava em casa de todo modo, pois gostava de correr pela casa toda e não era raro cair da escada. Ela tentava escalar com uma perna em cada parede do corredor, fazendo dessas coisas que sempre me meteram medo, “adulta” e “destemida” . Enfim, voltando a tecnologia…Ao invés de brincar na rua, preferia brincar no Word e no Paint Brush.

Eu gostava de borboletas e golfinhos, bem na época que minha mãe comprou uma enciclopédia onde aprendi um pouco mais sobre eles, com isso palavras novas, por exemplo, “inócuo”, a enciclopédia dizia que borboletas eram seres inócuos, agora tinha mais que um dicionário para aprender (me divertia lendo o dicionário). Logo veio meu desejo por conhecer algum clássico e li Memórias Póstumas, foi quando me apaixonei por Machado de Assis, queria que um garoto me considerasse inspiradora o suficiente para dedicar um soneto, algo como até um anjo cala, quando ela fala . Ele era um zé ninguém, como eu, ele era alguém que parecia inadequado, eu desejava o Machado para mim. Como um namorado, um amante em outra época, eu tinha braços bonitos (talvez um pouco mais gorduchos do que minha época exigia), ele gostava de braços e possivelmente gostaria dos meus, sabia que ele já estava morto, mas a narrativa dele, o modo de falar com o leitor, era algo que eu não havia sentido antes. E claro que era embaraçosa essa admiração secreta por um cara morto. Ainda mais quando o outro cara que me fazia suspirar de amores, tempos depois, era o John Lennon. Lembro de um dia sentar nos degraus da quadra, na oitava série e desabafar com um grupo de rapazes : “Parece brincadeira, mas os homens que eu queria pra mim, já estão mortos antes mesmo de eu nascer”.

Outro amor platônico foi o Brian dos BSB, dediquei metade de um diário para ele, mas depois me senti culpada por não ter dedicado esse espaço para Deus, rasguei, joguei fora. Criei um para registrar minha santa ceia anual na igreja, nunca teve mais que duas folhas preenchidas.
Com o Word fazia protótipos de um blog com traduções de músicas do Radiohead, criei um blog virtual, deletei, criei um com a minha irmã, chamado “O NormalMente”.  Também deletei.  Criei o blog “É mais isso”, tive um namorado virtual (digamos que um amor não concretizado não tenha sido uma novidade), depois no Orkut tive outro “rolo virtual”, escrevíamos poesias um para o outro, como se nesse espaço das letras fosse o único para que nosso amor desaguasse, sabíamos que seria só isso, foi como uma espécie de sexo casual, mas romântico e cibernético.  Também tive um namoro virtual “sério”, desses que moram em outro estado, você conta para seus familiares (e é chamada de imbecil), trocam fotos de infância um com outro, promessas, e tem de terminar porque sabe que ele nunca virá para te ver, termina por amor próprio e vai curtir a dor de cotovelo ouvindo Maria Rita enquanto assiste slides de fotos dele.

Em um momento as coisas se misturaram, passei a encontrar “na vida real” os rostos e avatares de quem conversava comigo “virtualmente”, assim vieram amizades em abraços sinceros, ombros que amparam, meu companheiro há seis anos, minhas companheiras de luta, também ativistas.  Me sinto um pouquinho na Zona Sul, no Centro, até na Zona Leste, mas sem a cobrança de sentir um ponto fixo demarcado. Caminho por ainda mais livros, com um relógio que substituiu o tic-tac dos ponteiros, para marcar as horas em duplo clique.

18 março, 2011

Percalços de uma boa moça

Posted in Desabafos, Memórias tagged às 7:05 pm por Deborah Sá

Quando cursava a Sétima Série houve uma seqüência de trotes para minha casa, não sei como conseguiram o telefone (talvez da contracapa do meu caderno), mas o fato é que durante algumas semanas era comum ouvir:

– Aquele rapaz que se diz seu namorado, ligou novamente.

Qual o propósito de ligar para a casa de uma adolescente retraída e provocar seu Pai? Talvez esperassem que fosse repreendida, mal sabiam que minha família não julgava inapropriado namorar. Certa vez, enquanto limpava a casa, o telefone tocou e atendi:

– Alô?
– Quem fala?
– É o namorado da Deborah.
– É a Deborah quem está falando, que história é essa? Não tenho namorado nenhum! Vá cuidar da sua vida!
– Calma… Você tem uma voz tão bonita… Vamos nos conhecer melhor…
– Não quero saber!

Ao subir as escadas para continuar a faxina, o telefone voltava a tocar, tornei-me cada vez mais nervosa ao ouvir os assédios, que encerraram após meu pedido com voz embargada: “Por favor… Me deixa em paz!”
Nesse mesmo período um aluno me perseguia na escola – e fora dela, acompanhando diariamente até o ponto de ônibus- tecendo comentários amedrontadores:

– Fica ligada hein? Se vier um cara “do nada” e te beijar, pode saber que fui eu quem pagou!

Eu era dessas que os adultos adoravam e crianças/adolescentes desprezavam, nunca tive grande aptidão para o Esporte, se obrigada a jogar futebol faziam sinal da cruz ao chutarem na minha direção e era alvo fácil no jogo de Queimada. Nunca escalei uma árvore, não sei andar de bicicleta e só falei palavrão depois dos dezoito, o primeiro beijo veio idem.

Já fui chamada de “Autista”, “Burra pra Matemática”, “Virginal” e certamente outros adjetivos não declarados que tolheram meu desenvolvimento social.

Autista

Enquanto minha Mãe estendia roupas no varal entregava o cesto dos pregadores para brincar, o entretenimento consistia em tirá-los um a um e depois os guardar individualmente, fazia isso por horas. Em um desses dias um menino mais velho acidentalmente (?) colocou o carrinho de fricção na minha cabeça. Meu pai conta que pareci um frade.

Adorava observar insetos no jardim em especial tatus-bola e formiguinhas deixando que andassem pela minha mão, em determinada ocasião, resolvi que adotaria uma formiga que julguei mais bonita (não perguntem, não sei o que tinha de especial). Idealizei que a fortificaria com folhas e um pote de maionese limpo (daria uma boa casa), me acompanharia cronologicamente e talvez morrêssemos juntas (imaginação fértil, eu sei).
Feliz, resolvi beijá-la, me mordeu e quando a tirei puxando dos lábios estava morta, chorei muito.

Enquanto outras crianças corriam e brincavam, gostava de ficar sozinha “no meu mundinho” fazendo chá de bonecas – que foram poucas, preferia bichinhos de pelúcia- ou “conversando sozinha”. Tive amigo e até “monstro” imaginário.

A vida é difícil, Tommy/Ás vezes penso que essa é a coisa mais díficil

Burra para Matemática

Ir a escola era uma oportunidade interessante (até a Terceira Série) de conversar com pessoas diferentes, principalmente os adultos (Coordenadoras, Inspetoras, Pessoal da Limpeza), minhas Redações eram sempre de maior pontuação, em compensação, era a pior em Matemática.
Nunca esfreguei na cara de ninguém minhas notas, mas os elogios públicos dos professores fizeram enaltecer meu déficit:
“Então você não é tão inteligente assim!”
“Se é esperta, porque é tão burra para matemática?”
“Você tem algum problema pessoal comigo? Então porque tira notas tão baixas só na minha matéria?”

Na Sétima Série indaguei a Professora se passaria de ano (meu boletim era repleto de “D” nessa matéria), ela disse que sentia muito e reprovaria. Entrei em desespero, pensei em me matar, chorei e voltei para casa pedindo ajuda a D-uz com toda minha fé. Ela não reprovou, não sei se mudou de opinião ou mentiu.

Era humilhante ano após ano ir até o Professor de Matemática explicar essa dificuldade tão “primária” e jurar que não, não era um problema pessoal. “Vai! Tem mais gente para ir à lousa! Corrige logo essa conta” e eu ia ás lágrimas, molhando a manga da blusa e passando na lousa para apagar falhas.

Não sabe resolver uma conta?

Virginal

Não gostava da comparação com a Sandy, porque sabia o que falavam dela.
Sonsa, não sexy, dependente e risível e é duro ouvir tudo isso, a Sandy ao menos tinha fãs e dinheiro. Imagino que houve empenho para ganhar o reconhecimento das “pessoas comuns” que pouco a conhecem e fazem uso de uma imagem que a mídia reforçou.

Ledo engano supor que “boas moças” não sejam depreciadas, poucos estão dispostos a ouvir o que têm a dizer, infantilizam seu discurso, rejeitam sua sexualidade e se exercerem qualquer aptidão, dificilmente serão “levadas a sério”.
Sentir-se abjeta, incapaz de despertar o desejo, insípida, desinteressante, é isso que nos levam a crer, sugestionam roupas novas, posturas extravagantes.

É claro que ocupar o lado oposto da dicotomia Santa x Puta trás repressões diferenciadas, mas perdi as contas do quanto ouvi de mulheres “bem resolvidas”: – Se eu fosse certinha como a Fulana seria simples, é fácil se enquadrar.

Embora falar em profusão nunca me foi dificultoso, pouco expunha conflitos. Ao passo que com sinceridade admiti motivações e temperamento, encontrei outro dilema: Se me sacudiam, beliscavam e agrediam em inércia até onde iriam por me conhecer “de verdade”?

Se não me abria com ninguém além de D-uz (minha consciência) e havia poucas pessoas confiáveis ao redor, seria necessário me reapresentar diante de conhecidos? Três amigas dos tempos de colégio receberam a notificação via e-mail: Havia escondido durante todo esse tempo o que realmente era, não por incapacidade delas em amparar, mas por não conseguir verbalizar e compreender tudo o que passei durante esse período soturno, vivido em silêncio enquanto próximas.

Não obstante, sentia falta de desabafar entre “iguais” e na internet me aproximei (timidamente) das mulheres que admirava; se outrora fui um livro trancado a sete chaves ao redigir gerei páginas translúcidas, sem perder a Capa Dura.

20 janeiro, 2011

Ganidos

Posted in Animais, Memórias tagged , às 3:09 pm por Deborah Sá

Era corriqueiro o abandono de filhotes próximos aos colégios onde estudei, em grande pesar (acompanhado de lágrimas), colegas narravam a recusa de seus pais ao amparo daquela criatura felpuda. O mundo das crianças e dos cães é similar, são os adultos que ditam as regras e interagem em etiquetas, detendo o poder e autoridade.

A comunicação entre humanos e animais é excepcional, se aprendemos a falar para interagir com adultos, essa forma é (quase totalmente) dispensada na interação com não-humanos, o contentamento, a saudade e a travessura são entendidas por nós, mas o silêncio que permeia por anos essa relação é de difícil esclarecimento verbal e escrito.

Como descrever um gracejo de felino? Aproximam-se pé ante pé e quando nos encontram, correm em disparada com os braços ao alto, impossível não sorrir quando nos imploram atenção mordendo os cadarços. Há cães que se aproximam se a dor nos abate, a cumplicidade em sentinela. Pode parecer supérfluo a quem nunca vivenciou tais experiências,  jamais amando além da própria espécie.

Terça-feira, 16 de  Novembro de 2004

Me desculpem. Não estou nada bem, no domingo o Snoopy comeu algo errado, ou alguém deu chumbinho a ele, teve convulsões, passou muito mal, eu chorei muito, levamos as pressas ao veterinário 24 hrs, ele ficou a noite lá, levou soro, oxigênio… Ontem a veterinária deixou ele vir a minha casa para que eu pudesse cuidar dele, esvaziamos um cômodo da casa, meu pai colocou minha cama no cômodo para que eu pudesse dormir perto dele e ele não se sentisse sozinho, acordei várias vezes de madrugada para dar as doses, dos diversos remédios (tinha até para o cérebro), quando eram quase 5:00 am de hoje, acordei com o choro dele, ele tentava pular na minha cama pra ficar comigo, eu disse: Não vai pular na cama não, eu fico aí com você. Sentei no chão, coloquei ele nos braços, e fiquei fazendo carinho, até que a respiração ofegante foi diminuindo e ele morreu em meus braços, foi bom ele ter morrido em casa, assim ele não pensa que o abandonei, foram muito bons esses três anos, de muitas alegrias, o importante é ele saber, que eu o amei, e sei que ele também me amava! Eu até falava com ele. Todos sabem como sou apegada a todos meus animais, já chorei bastante, mas estou melhorando… O que resta agora são as boas lembranças do meu Fuço.

Aos 15 ganhei um buquê de margaridas da minha mãe e havia um cartãozinho cor de rosa desejando “Felicidades”, era estampado o desenho de uma moça magra e loira com vestido de alça descendo uma escada. Ao mesmo tempo em que me senti feliz (foi meu primeiro buquê), fui extremamente desafortunada por não ser aquela moça magra e no auge de uma beleza que nunca alcançaria.

Naquela mesma semana:

– Parabéns, filha! Você ganhou um Beagle!
– Jura? Você está brincando?!
– Sua boba! Eu não brincaria com isso! Vamos buscar!

E lá fomos eu, minha irmã (com 9 anos) e minha mãe no Fusca bege para comprar o cãozinho, escolhi o maior e com manchas pretas, era muito pequeno e descoordenado, logo cresceu e tornou-se o mais endiabrado do quintal. Meu maior confidente, pouco importava não ser popular, ser gorda, não ter roupa de marca, medo do inferno… Era certo que colocaria as patas sobre meus ombros em um abraço.

Ele fugiu, o encontrei na laje de casa passando mal, hospital, soro, ver aquele cão cheio de energia tremendo e ofegante, não querer que ninguém removesse seu corpo além de mim: Dois lençóis para cobrir, peso nos ombros, descer a escada, entregar para o moço que levaria para uma geladeira e depois cremaria (o corpo contaminaria o solo). Recebi um vaso de violetas e uma Carta de Condolências da Clínica Veterinária. Naquele ano decidi cancelar a escola, concluí a 8ª e parei. O resto vocês já sabem.

Em ambiente urbano não sabemos de onde vem as frutas, o leite ou a carne e poucos seriam aqueles que empunhariam uma faca na jugular de um porco ou decapitariam uma galinha sem forte perturbação, posto que só exista desespero em um grito capaz de romper a ligação silenciosa na comunicação entre nós e não-humanos.

Debruçar-se diante de vozes inaudíveis (um peixe não produz “som” ao morrer), é permitir que outros co-existam e suas necessidades sejam minimamente garantidas, isso não nos torna especiais, apenas justos. Qual o propósito de infringir ou persuadir quem anatomicamente e intelectualmente opera em níveis de consciência distintos?

Não compre, adote

Por que devo castrar meu cão e gato?

Update: Encontrei foto do Snoopy

Próxima página