22 agosto, 2013

Que tipo de feminista sou

Posted in Gênero, LGBT, O pessoal é político às 1:18 am por Deborah Sá

Antes, acreditava ser uma feminista radical, por ser anti-pornografia, por ter críticas a prostituição como simples escolha (os grupos vulneráveis que as exercem não tem muita alternativa), por defender espaços exclusivos. De um tempo pra cá, minha visão sobre esses assuntos ganhou outras matizes: Sim, a pornografia é a apropriação capitalista da sexualidade e dos corpos, sim, a prostituição também é um mercado que lucra com a vulnerabilidade social, qual é a cor da pele dessas pessoas? Qual a escolaridade? A quais riscos estão expostas cotidianamente? Que profissões gostariam de seguir se lhes fosse dada outra chance? E não estou falando de ensinar prostitutas a fazer eco-bag de garrafa pet ou bordar pano de prato, não estou falando de “salvar” alguém, me refiro a articulação de dentro pra fora, de ouvir primeiramente o que as prostitutas tem a dizer sobre sua própria vivência. Do respeito incondicional que devemos ter por todos os humanos (os não-humanos não são foco nesse post, muito embora resguardar somente respeito antropocêntrico, é especismo ). E os espaços exclusivos? Sim, eu ainda os defendo. Mas como um momento de empoderamento no sentido mais clássico da palavra, para fortalecer a auto-estima de quem está tão fraco para lutar e se amar que mal consegue dizer “não” para o que aflige, para aquelas que entram em relacionamentos abusivos por sentir que o outro fez um grande favor em aceitar as “imperfeições”, para todas as vítimas de violência sexual. Eu já fiz parte de grupos assim, foi fantástico.

Antes, eu acreditava que as disparidades entre feministas radicais e queers eram tretas americanas, o melhor era ter foco no nosso movimento aqui. E bem, nosso movimento está fervilhando on-line e nas ruas e isso respinga em uma imagem de um feminismo sempre acolhedor e fofinho. Algumas feministas negras denunciaram silenciamento dentro de um feminismo branco. Algumas feministas não universitárias reclamaram do academicismo em discursos grandes e pouco práticos. Algumas feministas reclamaram de transfobia. Algumas feministas denunciaram o quanto é cômodo ter empregada doméstica e fazer vista grossa pro recorte de classe implícito ali. E tudo isso é muito justo e tem de ser feito, realizado por quem está se sentindo pouco representada, coagida, silenciada. Doeu? Ofendeu? Fale. Não acoberte em nome da camaradagem, o movimento feminista já nasceu com má-fama, o que podemos fazer agora, no mínimo, é agir com honestidade e isso significa ir além do próprio umbigo.

Onde me localizo nesse mundaréu de termos e posicionamentos? Não em palavras como sororidade e irmandade, misandria e male-tears (usadas por algumas feministas radicais): Se vale ridicularizar o privilégio do outro, porque não cis-tears? (termo que também me desagrada, usado por alguns Queers) e mais além, human-tears? Ter privilégios não nos impede de sofrer em outras dimensões, ricos também sofrem? É, sofrem. O fulano não precisa se preocupar com fatura do cartão de crédito? A cicrana não tem calo nas mãos? Você sabe ler e escrever? Você concluiu o ensino médio? Você já teve que dormir na rua? Você ouve, fala, enxerga, anda sem ajuda de próteses? Você já passou fome? Você já teve de se prostituir? A vida pode ser muito, muito dura, em níveis escabrosos, mas sempre há privilégios para serem revistos, há opressões cometidas mesmo sem querer. Reconhecer privilégios não significa sufocar as próprias dores e mágoas, admitir facilitadores é democratizar a liberdade e o amor-próprio. É desprivilegiar o direito. E agora, se não me sinto totalmente incluída nessa ou naquela vertente, que tipo de feminista eu sou? Oras, a disposta a “ouvir”.

4 junho, 2013

O (raivoso) admirador secreto e a indiscrição

Posted in Corpo, Gênero, LGBT, Sexo às 10:38 pm por Deborah Sá

As pessoas gostam de fazer sexo. E elas fazem. Nem sempre entre quatro paredes, nem sempre de maneira não subversiva, ás vezes com palavras de baixo calão, outras vezes registrando em imagem ou vídeo. É de uma pequenez tremenda tratar de um tema tão natural como se fosse a polêmica do século. Se você acha humilhante tal prática, palavra ou atitude, não faça nem as diga, simples. Você tem o direito de ser uma pessoa reservada, mas nem todo mundo é assim. Tem quem não se contente, quem cansou de baixar o tom da voz pra não chocar, quem prefira usar dourado e gargalhar alto, quem faça mais sexo que você e não tenha problemas em falar disso. Outros sujeitos que também tem vida sexual: Seus avós, seus pais, o porteiro, a manicure, o advogado, a professora do maternal, a dona-de-casa, os líderes religiosos, os colegas de trabalho e da faculdade, bem, a lista é realmente grande. O mundo continua girando, as pessoas gozam, ficam peladas, introduzem coisas nos seus orifícios, usam suas línguas, dedos e tudo mais. Muito pesado o assunto? Dá tempo de pegar um copo d’água. Vai lá. Sério. Vai lá. O texto não sairá correndo. Pronto. Voltou? Está tudo bem? Espera o choque passar e prossiga a leitura:

Qual é o espanto de uma foto ou vídeo de sexo consensual cair na rede? Foi bom para os envolvidos e uma pica é uma pica, uma buceta é uma buceta e uma bunda, oras, é uma bunda. É tão difícil de entender? Já viu livros de anatomia? Já se olhou nu no espelho? Nunca viu outro corpo nu na vida? Parem de reagir como se não soubessem o que acontece quando as pessoas resolvem dar prazer uma pra outra. Por favor, parem. Está na hora de crescer e entender que o resto do mundo gosta de trepar, ache você absurdo ou não. Essa é outra prova que pornografia não torna as gerações mais esclarecidas, na realidade, ficam cada vez mais impressionáveis.

Tudo em nome de uma boa reputação… Quando se é jovem é a fase de construção, quando adulto e de vida ganha, surge o medo de arriscar tudo o que construiu, mas nem por isso o desejo morre. A maioria das prostitutas atendem homens casados, quantas mulheres tatuadas/modificadas não são assediadas por homens mais velhos e conservadores? Quantas travestis não recebem dezenas de investidas por e-mail com fotos de pintos que prometem uma foda? Quantos gays não recebem ofensivas pesadas daquele sujeito que adora ficar de quatro contanto que não saibam? Quantas gordas não foram assediadas por homens que as menosprezavam em público?

O  sujeito “no armário” que profere ódio em público mas se acaba de desejo (isso é, se masturba) pelas figuras que repudia, é um dos germes do próprio ódio. A inveja de quem pode viver o que desperta vontade, o que desperta tesão. A raiva de sentir um desejo assombroso por aquele que leva a vida que queria ter, quem o lembra o tamanho do medo que carrega nas costas. O furioso vive a admirar e praguejar em segredo. Além de ter a audácia de ser abertamente feliz em suas escolhas, o outro subversivo mantém o observador hipnotizado. Bastava estalar os dedinhos para ver o combatente lambendo botas com prazer suplicante (contanto que não saibam). Perturbador é o fascínio que qualquer outsider causa em alguém que teme a fronteira desconhecida,  o próprio desejo. Sendo a vontade mal digerida a que prevalece, bate como um tambor no peito, nas entranhas, nos genitais.

Essa fantasia secreta de “virar o jogo” (se sentir dominado, tentar dominar) nem é mesmo genuína, esse tesão coberto com três camadas de culpa e uma cereja de submissão só existe quando guardado. Os comentaristas coléricos e anônimos da internet não dão a cara a tapa. Os que vão mais longe e pixam a casa, mandam cartinhas, sequer mostram o rosto. Fazer a vida de alguém um inferno porque fez sexo e gostou é estratosfericamente provinciano. Condenar um sujeito por sexo consensual apenas por sair do esquadro das posições moralmente nobres (quais?) é arcaico. Diferindo de pessoas discretas e que não gostam de expor o que consideram de foro íntimo, os desleais esperam a vez de por os pés fora do armário para serem hipócritas, cruéis, mesquinhos, extremamente covardes. E desses, meu bem,  quero distância.

23 abril, 2013

Material girl – A mulher interesseira, sexo e capital

Posted in Corpo, Desejo, Gênero, LGBT, O pessoal é político tagged às 12:08 pm por Deborah Sá

Sexo (como entendido) é performático, genitalizado, heteronormativo, cis-sexual. As revistas femininas e o incentivo ao sexo da mulher é sempre nos moldes de “esse é o meu poder e dele faço uso pra conseguir o que quero”. Os sujeitos são estimulados a fazerem mais sexo, ao ponto de mentirem a freqüência nas pesquisas: “ dou duas sem tirar”, “eu tenho cinco orgasmos múltiplos”. Não pega bem dizer que gosta de sexo no escuro, aquela coisa ao som de Barry White. Ninguém gosta de ser considerado morno sexualmente porque morno não mela calcinha nem levanta pau. A coisa precisa pegar fogo.

E pode pegar de várias maneiras, depende do que você busca e com quem se relaciona. Não há sexo desinteressado se feito além de dois integrantes, veja bem, se quero sexo só comigo, me masturbo. Quando estimulo outro corpo além do meu (de forma consentida é óbvio), tocando, lambendo, chupando e beijando estou pensando no outro. Gosto de ver a cara contorcendo ao gozar, é uma massagem no ego, faz bem. Aí as relações de poder ficam complicadas de discernir, ou como alguns preferem, mais fluidas. No sexo oral, por exemplo, quando uma mulher chupa um homem a reação é “Ele está se dando bem, quem é chupado está no comando”, mas quando um homem chupa uma mulher dificilmente se diz: “Ela está no comando, ela está se dando bem”. Porventura não teria maior “controle” a boca que conduz movimentos ritmados? As mãos que deslizam e enrugam os dedos na umidade? Que estremecem pernas, arrepiam braços, produzem gemidos e a vontade de quase implorar para que aquilo não pare e dure por todo o sempre?

Essa dualidade (quem manda, quem obedece), é imprecisa. Se entregar abertamente demanda confiança plena, confiamos em quem está a nossa frente, confiamos em deixar o corpo soltar o que tiver de deixar sair no tempo que necessita. Ou seja, se gozo maravilhosamente é por permitir a mim e permitir-me ao outro. Se ele controla com a língua, eu controlo com os quadris e é de movimento que somos feitos. Somos corpo, dentro e fora do sexo, somos corpo e sentido. Sexo não é desinteressado também por outro motivo, nós buscamos capital. Sim, até os anarquistas. E que tipo de capital? Isso cada um dirá por si. Meu capital estético de interesse é um pouco fora do comum (eu digo um pouco, porque se Jennifer Lawrence quiser meu corpo nu é só ligar), mas claro que há uma série de características físicas que facilmente me fazem sucumbir. Também tenho interesse pelo tamanho do capital cultural aliado a sensibilidade, adora literatura? Musicais? É vegano e sabe cozinhar? Muitos pontinhos. Ainda por cima não bebe e não fuma? Por favor, mande currículo com foto. É, com foto. E quer saber? Mesmo com todos esses requisitos pode ser que não role a chamada química (menos com você, Jennifer, tenho certeza que daríamos certo).

“Não mostre o que tem na carteira,  mostre o que tem na cabeça”, “Cubra seus peitos e mostre sua personalidade, mulher”  é só um modo de dizer que não se faz tanta questão do que carregam na carteira, mas no coração, nas idéias, no tamanho do capital cultural. Na apropriação de uma cultura legítima e quem sabe até, ver o filme esloveno e a última animação da Pixar com o mesmo gosto e olhos embotados de lágrimas.

Fazer uma cirurgia plástica pra conseguir um homem rico que banque é se desvalorizar? É ser nada feminista? Bem, alguém que julgue esse tipo de capital importante precisa literalmente investir no corpo, com malhação, dieta balanceada, cirurgias e toda a parafernália possível, esse alguém, pode realmente julgar que estabilidade financeira é algo mais importante do que ser colunista da revista Piauí, Caros Amigos ou ganhar um Jabuti. E essas pessoas não são imbecis, elas não “sofrem de baixa auto estima”, elas não precisam ser ”iluminadas”. Uma patricinha, uma piriguete ou um rapaz gay que é bancado em troca de sexo não merecem desprezo. É muito fácil sentar a bunda e escrever usando vinte e dois teóricos sobre o assunto quando na vida isso não enche barriga. É totalmente diferente da prostituta que trabalha na rua com discriminação e o perigo da violência, mas mesmo assim, há uma aproximação: Não adianta oferecer curso de fazer bolsa em garrafa PET ou dar um livro teórico achando que isso afastará mulheres, travestis e transexuais desse mercado. É preciso ouvir, construir políticas públicas, lutar para que sejam respeitadas.

Os sujeitos tem o direito de ter acesso ao patrimônio intelectual da humanidade, mas julgar que trabalho ou o gosto por atividades ditas intelectuais são mais nobres que as do corpo, especialmente as que envolvem sexo como moeda de troca, é esquecer que sexo é interesse. Fazer sexo por interesse financeiro é apenas um dos vários tipos de capital (estético, cultural). Isso não nos transforma em um objeto, isso não é “contribuir para que não respeitem”, as pessoas tem o direito de buscar a forma que acharem mais conveniente de se sustentarem. “E quando essas mulheres começarem a ficar velhas? Não serão trocadas?”  pode ser que sim, pode ser que não. Igualmente, ser feminista ou ativista não impede que as pessoas pisem na bola, troquem parceiros, encontrem “alguém melhor”. Assim como o marido não tem poder sobre a esposa, a namorada não pode mandar na namorada, um cliente (ou um mantenedor) não pode bater em quem fez sexo com ele (ou quem dele depende economicamente). Não é porque há um contrato implícito e uma das partes tem um maior capital – ou prestígio – cultural, econômico, estético, que poderá ditar as regras sobre o corpo de quem está ao lado. Usar o sexo como moeda de troca não é se transformar em mercadoria e nem sempre é sintoma de vulnerabilidade econômica, muito embora, existam tais aproximações; além da evidente segregação de quem tem faz dessa a maior fonte de renda. Ao mesmo tempo em que é importante frisar que nada é neutro, é bom que saibamos que essa liberdade irrestrita e sem fronteiras simplesmente não existe.

Se o relacionamento é aberto ou fechado, se é papai e mamãe ou orgia, se é assim ou assado sempre há paredes de contenções, o mundo sempre nos supera, criam-se combinados, modos de entrar e sair, formas de convivência. Alguns tem muros maiores, outros menores. Não me cabe aqui gritar aos quatro ventos o quanto a minha água é mais limpa que a de meus vizinhos, o céu não tem cobertura e se chove me molho tanto quanto quem me lê.

29 agosto, 2012

A Feminista Perfeita

Posted in Corpo, Gênero, LGBT tagged , , às 11:01 am por Deborah Sá

A feminista perfeita não leva desaforo pra casa, ela rebate todas as cantadas que ouve na rua. A feminista perfeita  não usa maquiagem, não sente ciúmes, não é romântica, não usa vestidinhos floridos, ela quase não sorri. A feminista perfeita, nasceu na família com tradição política e tem fotos dela quando bebê no colo da mãe socialista durante a passeata do PT. A feminista perfeita tem um irmão gay, um pai trotskista e uma vira-lata chamada Pagu. A feminista perfeita não ouve música comercial, ela samba não qualquer samba, mas um de raiz com os companheiros de luta. A feminista perfeita não faz dieta, nunca fez chapinha e não pensa em mudar o próprio corpo, aliás, ela não precisa se sentir bonita pois o corpo é instrumento de luta, basta ser forte pra aguentar a vida. A feminista perfeita não usa brincos, não usa sutiã e jamais depila a virilha. A feminista perfeita só tem música de mulher no mp3, cantoras com letras politizadas. A feminista perfeita bebe cerveja que não faz comercial machista. A feminista perfeita só ri da Mafalda, das tiradas sarcásticas de Persépolis e do brilhantismo da Beauvoir. A feminista perfeita não fala palavrão de forma convencional, ela está de útero cheio. A feminista perfeita só frequenta bares lésbicos e a exposição no oito de Março sobre as mulheres no Irã. A feminista perfeita não assiste novela, não usa roupas curtas, justas ou decotadas. Não gosta de moda, as únicas cores do seu guarda roupa são cinza, preto e no máximo um roxo da camiseta do coletivo.

A feminista perfeita não desabafa com outra pessoa sobre como o trabalho dela anda uma merda,  ela não sofre do cotidiano, das pequenezas. Ela dorme e acorda pensando em lutar, diversão é para os alienados e o amor é uma construção social de controle. A feminista perfeita não é simpática, isso é fazer o jogo do mercado, se algo ganha destaque obviamente é porque vendeu a alma.  A feminista perfeita não quer ser mãe, casar, não gosta de cozinhar e nem de dormir de conchinha. A feminista perfeita tem a cara amarrada, a postura altiva e a língua ferina. A feminista perfeita não tem medo da solidão, porque as amizades vem e vão mas a peleja fica. A feminista perfeita jamais é tímida, não tem medo do escuro, nem de barata. A feminista perfeita fala inglês, alemão e francês para traduzir textos imensos das outras feministas. Se você se identificou com ao menos três dos itens acima, parabéns! Isso é completamente irrelevante!  Mas se você, cara feminista, se sente triste por não atender os parâmetros da “feministabilidade” recomendo que se aproxime mais de “seus ícones”. No começo de minhas pesquisas sobre feminismo tive receio de conhecer as moças que admirava, me pareciam boas demais, politizadas demais, que pularam do ventre assim, formadas, contestadoras e seguras. Ao me aproximar o que comprovei é que feministas choram com poesia e gostam de histórias de amor, feministas sabem dar um soco e também sabem carinhar, costurar, cozinhar. Feministas se derretem ao ver filhotes de gato e adoram chocolate, feministas são livres para construir e desconstruir.  Feministas também pisam na bola, podem ser insensíveis e tolher a liberdade alheia. Elas tem crise com o namorado que dá mancadas consideráveis, pode apostar. Há feminista que não consegue sair de casa sem maquiagem e feminista que gasta dinheiro com sapatos e bolsas. Desmistifique a feminista padrão que está no imaginário, não ame a liberdade de quebrar uma fôrma lustrando outra com tanto esmero.

16 novembro, 2011

Feminismo biológico (ou uterino) e Transfobia

Posted in Corpo, Gênero, LGBT tagged , às 4:34 pm por Deborah Sá


Homem pode ser Feminista? Sim. A confusão se dá porque no caso do Feminismo o vocábulo é diferente de quem simpatiza com o Movimento Negro, não existe termo para “branca-que-defende-as-bandeiras-do-movimento-negro-mesmo-não-sendo-diretamente-afetada-por-ele”, já no caso do Feminismo é uma expressão usada por quem trás consigo a certeza de que mulheres são indivíduos, algumas Feministas defendem que o máximo que um homem pode ser é pró-Feminista. “Feminista de verdade”, é quem tem corpo de mulher, vivência de mulher etcetera, etcetera. Reduzindo muito a empatia de terceiros, por que a palavra de um homem ou um@ trans# que são feministas tem menor valia se comparada a uma mulher# não feminista? Isso é biologizante.

Por ventura uma transexual# deve ser silenciada em seus posicionamentos feministas porque concluiu sua transformação corporal após os 20 anos, alinhando seu gênero aos contornos de corpo? Se uma mulher nasceu biologicamente do gênero feminino, mas pede que o tratamento seja por nome social masculino, altera suas roupas, modifica/muda seu corpo (usando faixas nos seios, tomando hormônios), não o chame por ela e sim ele. Isso não é misoginia, não é ódio ao próprio corpo. A defesa do feminismo é que o nosso corpo é nossa escolha está mais do que na hora de entender que nosso gênero também. Se você tem um amigo ou amiga que passa por essa dolorosa situação culpá-l@ e forçar algo (que é quase em totalidade o já realizado pela sociedade), não auxilia em nada além do desamparo. Oferecer apoio e compreensão é o mínimo esperado se amamos quem enfrenta esse embaraço, qual o intento de adicionar mais pensamentos tacanhos de um misticismo biológico?

O que me faz mulher não é o que tenho entre as pernas, as cólicas ou menstruação, não sou sagrada e alterar o corpo não é profano. O Feminismo que me representa não é esse que policia outras ativistas e enxerga companheiras de luta como “marionetes do patriarcado” ou “inimigas”, que corta laços e manda mensagens quilométricas para quem não segue a risca os mandamentos que brotam em alguma pedra medieval (a La Avalon), talhada por imaginação, menosprezando bissexuais as encarando como indecisas e temerosas em assumir a própria sexualidade, reduzindo ser Feminista a viver em uma bolha virtual (um Lesbos cibernético e impraticável). Aprecio e apoio elos e fortalecimentos entre mulheres, mas não é apenas a elas que chamo de irmãs.

Deborah Sá é Feminista autônoma, Vegana sem ser vaca e defende negr@s e suas ações afirmativas sendo branca, não importando se picotam sua carteirinha de feminista em pedacinhos.

Update 21/08/2013:

As inquietações e desconfortos sobre determinismos biológicos ainda me incomodam dentro do feminismo. Porém, em alguns momentos de meu próprio texto identificados com o símbolo # passo a idéia errônea e dicotômica entre ser mulher. Escolhi não apagar a publicação, mas colocar esse adendo. Ademais, escrevi esse texto por em diversos discursos e espaços feministas (sobretudo virtuais) notar silenciadores de outras identidades.

16 dezembro, 2010

Bissexualidade

Posted in LGBT às 5:49 pm por Deborah Sá

Hoje passou por mim uma mulher muito bonita e agradeci a Deusa por eu não ter um pênis, caso contrário a ereção seria evidente, o primeiro pensamento que ocorreu foi “PORRA, SAPATÃO”.  Em um daqueles instantes que a excitação te toma de súbito e você olha para os lados para conferir se alguém notou seu estado, atônita.

Digo entre @s mais próxim@s: “Acordei Sapatão” ou “Ando muito Sapatão”, creio que Bissexuais passam freqüentemente por isso, em determinadas épocas sentir sua orientação “puxar para algum lado” (além de mulher/homem/temos Trans é bom não esquecer).
Na Caminhada Lésbica a Dri Quedas me perguntou quem sofria mais discriminação: Lésbicas ou Bi. Embora não seja lésbica, noto minhas amigas sofrerem mais: São invisibilizadas, hostilizadas e motivo de chacota.

O mundo LGBTTT também tem ciúme, pressões estéticas (gays “bombados” e “másculos”, lésbicas depiladas e “femininas”), mito do amor romântico, traição, entregas e corações partidos. Nossa matriz é a mesma e é impossível criar um “novo mundo” sem resquícios do anterior.

O lado “ruim” de ser Bissexual é o preconceito duplo: Acham-te indecisa que não sai do armário ou uma “depravada”. A Bissexualidade não é medida em porcentagem, tampouco é indicativo de ausência criteriosa (muita gente julga ser Bi equivalente a trepar-com-@-primeir@-que-aparecer).  Não somos levadas a sério enquanto não somos (ou parecemos) hétero, neste sentido não aprovo as rivalidades que se colocam entre mulheres de orientações sexuais diversas, pois só torna ainda mais substancial a misoginia que o patriarcado nos prega. As militâncias convergem ao passo que o mundo nos vê, sobretudo como mulheres, e devemos usar isto em nosso favor.

25 novembro, 2010

It Gets Better

Posted in LGBT tagged , , às 2:10 pm por Deborah Sá

A campanha It Gets Better (algo como “Vai Ficar Melhor”) procura mostrar aos adolescentes que eles devem dar mais atenção ao seu futuro e à exemplos de gays bem sucedidos, do que aos preconceituosos valentões da escola ou da rua.

Porque eu chorei, achei bonito e quero compartilhar com vocês! E se pudesse, também @s abraçaria :)

Fonte

23 novembro, 2010

Com Quem tu Andas?

Posted in Corpo, Gênero, LGBT tagged , às 1:50 pm por Deborah Sá

Ser perigosa no patriarcado é dizer que busquem seus reais desejos, viverem segundo o próprio ritmo, não só reproduzir o que terceiros esperam. Incentivo a quebra de armários, soltar a franga, ser asexuad@ ou trepar por simples tesão.

Incito:

01) O amor próprio e a reciprocidade.

02) A reflexão de todas as formas de pensamento, em especial das ideologias que sigo. “Fé cega” nunca fez bem.

03) O direito de mudar de idéia, de dançar até o chão, de desconstruções e aprendizagem mútua.

04)
Que toda mulher tenha o direito de gozar.

05)
Que toda minoria social saiba se defender fisicamente.

06)
A possibilidade de encontrar beleza e empoderamento sem usar salto, alisar os cabelos ou fazer dieta.

07)
A escolha ética partir da empatia.

08)
Não se encaixar em “macho” ou “fêmea” e mesclar qualquer elemento estético que julgar propício.

09)
Conviver com pessoas de realidades sociais distintas, respeitá-las e ouvi-las.

10) Não menosprezar a dor ou o medo de alguém.

Se disserem que lhe faço mal, talvez seja o medo de perder os privilégios de seu silêncio.

"Somos as mulheres que os homens lhe alertaram sobre"

Dedicado a sua mãe, seu pastor, seu pai, companheir@ e amig@s que alertam o quanto “Aquela sapatão careca, atéia, feminista, libidinosa e vegetariana, faz mal!”

20 setembro, 2010

Beijaço – 19 de Setembro

Posted in Eventos, LGBT às 6:13 pm por Deborah Sá

Com menor repercussão na grande mídia (em vista do primeiro), este Beijaço contou com apoio de ativistas que reivindicaram:

* Propostas de Políticas Públicas voltadas para a equiparação dos Direitos Civis entre héteros e LGBT.
* Apoio a Carta aberta aos candidatos brasileiros – Manifesto Pró-Casamento Igualitário no Brasil ( @gaycasamento )
* Aprovação do PLC-122, que criminaliza a homofobia.

Atraindo a atenção de quem passava pelo local, lésbicas (em maioria), gays, bissexuais e héteros finalizaram o ato por volta das 18:00.

Zaíra

Márcio

Gutto

Zaíra e Kamila


Fernanda

Márcio, no carão


O único candidato destas eleições a comparecer foi o Sargento Fernando Alcântara.

Quem é Fernando Alcântara de Figueiredo?

Nasceu em Recife (PE) em 19 de setembro de 1973. De 1992 a 1995 foi Soldado da Aeronáutica. Em fevereiro de 1995 ingressou no Exército como aluno do curso de Sargentos, formando-se em novembro daquele ano e permanecendo na Arma até junho de 2008. Escritor, personagem da história recente do país por protagonizar com seu companheiro, também Sargento, Laci, emblemática exposição pública do relacionamento íntimo que possuem a mais de dez anos e os desdobramentos da perseguição que ambos sofreram. São o primeiro casal gay a declarar publicamente esta condição, ainda na ativa no Brasil e no mundo. Hoje preside o Instituto SER de Direitos Humanos cuja missão é a proteção a vítimas do preconceito. Atua também no Grupo Tortura Nunca Mais do estado de São Paulo.

Blog dele e o Twitter

Mais fotos

Por Mike_Wino aqui

13 setembro, 2010

Lesbo/Trans/Homo Normatividades

Posted in Corpo, Gênero, LGBT tagged , , às 4:42 pm por Deborah Sá

É um direito viver (e se relacionar) entre quem partilha dos mesmos ideais

A aproximação se desenvolve basicamente por identificação e diálogo, assuntos e interesses em comum aprofundam este processo, divertindo e fortalecendo a auto-estima (afinal, ninguém considera amig@ aquel@ que despreza). Mesmo visando o amor próprio e a convicção de ser reconhecid@ como sujeito, a cultura nos lembra diariamente qual é “o nosso lugar” e onde “devemos estar” na manutenção do status-quo.

Grupos marginalizados criam maneiras de subverter sua exclusão e isto se dá de várias maneiras: Vestuário, vocabulário, locais para interação (os também denominados “guetos”) e assim criam sua própria norma de conduta.

Meu intento não é “culpar” qualquer grupo, nem acentuar desavenças entre minorias. Isto desviaria o foco da opressão heterossexual, branca, cristã e  de classe média (dentro dos recortes de Raça, Gênero e Classe).

Lanço um olhar crítico sobre qualquer assunto ou conduta que pareça interessante (isto inclui as ideologias que sigo). No mais, a ferramenta de comentários é aberta a tod@s que se depõem ao diálogo.

Lesbo-Normatividades X Bi-Normatividades

Lésbicas são mais descriminadas que bi?

Certamente lésbicas correm maiores chances de atentados físicos e são “invisíveis” a diversos setores, incluindo o da saúde pública. Ou alguém já viu protetor para sexo oral distribuído gratuitamente?

Bissexuais são indecisas/confusas/covardes, ou as lésbicas “não se soltam” para conhecer “homens que prestam”?

A orientação e prática bissexual não implicam caráter.  Se uma lésbica opta por não se relacionar com bissexuais é um direito, já classificá-las em “covardes e nojentas” enfraquece a luta feminista. Se você bissexual não entende o porquê de uma lésbica sentir-se confortável e satisfeita leia isto aqui.

Trans

A feminilidade é a marca da subversão, transcender os conceitos corporais e ressignificar estes objetos é uma afronta ao senso comum. Ao mesmo tempo não é tão raro ouvir travestis criticando mulheres “pouco femininas” e repelindo aqueles que optam por manter certos aspectos “masculinos” quando “montados”.

Homo

Há subcategorias LGBT: Dykes e Ladies, Travestis e Crossdressers, Barbies e Ursos… Neste último, os padrões de masculinidade são exaltados, geralmente censurando comportamentos “femininos” (nada de se jogar no Waka Waka, Bee).

Festividade

Pornografia gay? Prostitutas contratadas por lésbicas? Submissão e dominação nos padrões Feminino/Masculino? Padrão de beleza caucasiano?  O ativismo LGBT não deve limitar-se a festividade. Queremos aproveitar todas as possibilidades sem recriminação, mas não podemos dispensar o questionamento de nossas “normatividades” e a apropriação delas como constituintes de nossa identidade.