7 agosto, 2014

Fala pouco e bem…ter-te-ão por alguém

Posted in Gênero, O pessoal é político tagged , às 12:47 pm por Deborah Sá

Caríssimo leitor. Que saudade de contar meus dias! Feliz estou que ainda retorne para ter notícia dessa pequena ilhota, a qual faço questão de não fincar bandeiras, deixando vestígios propositais de meu regresso. Fiquei tantos dias sem tal ofício prazeroso… Temi ter enferrujado. Escrever sem valer nota, escrever para mostrar. Dilemas literalmente tomaram meu sono e roubaram algumas lágrimas de olhos facilmente umedecidos. Eu criei segredos, muito mal guardados como é de meu feitio. Segredos de amor. E de temor. E de prazer. E de dor. Mais que isso não posso apontar, além do que já disse para as orelhas sadias ao derramar minhas suposições. Voltei, não conseguiria me sentir bem ocultando isso de um velho conhecido: Aquele que me lê. Transcorri minhas pálpebras em muita coisa esse ano. Além das centenas de páginas xerocadas para a faculdade, faço questão de reservar um tempo, pequeno que for, para ler algo que realmente escolhi. O livro Infância de Graciliano Ramos tem aquecido por dentro, recobrando a responsabilidade em narrar. O Terteão me assombra por outras razões.

Dizer pouco e bem nunca foi meu forte. Se falo pouco me entrego: A cabeça pesa e congestiono feito sinusite. Os sintomas são parecidos, meus olhos perdem algum brilho, ganho ares de preocupação e apatia. Não raro, a imunidade desce e uma infecçãozinha aqui, um resfriadinho ali, coriza.  Dias atrás, uma amiga citou o termo oversharing, o primeiro movimento foi acatar. É isso mesmo, se deixar exponho demais, conto mais do que devia, é quase fisiológico. Pois bem, instantes depois um moço no twitter emendou com um artigo excelente sobre como isso é mais pesado para as mulheres. As que escrevem seus anseios e dúvidas de modo biográfico e confessional, são facilmente desacreditadas. Um homem que fala de suas dores e mergulha nas entranhas para mostrar para ao mundo, é um cronista. Uma mulher que faz o mesmo é mandada para o privado. Mulheres tem diários, homens tem livros publicados e colunas. Se uma tirinha desenhada por uma mulher tem uma piroca ou um cu, podem julgar pesado ou imaturo. Informações demais, ninguém quer saber das auguras em não encontrar a cordinha do absorvente interno. Se quero ser professora ou mesmo uma pesquisadora, preciso parecer minimamente respeitável, não? E se quero proteger as pessoas que amo das ideias controversas que me habitam e podem respingar nelas, devo andar na miúda, correto? Posso ouvir as vozes que já me foram ditas outras vezes (e nem faz tanto tempo): Qual a necessidade de se expor tanto? Poderia ser mais uma mulher de gestos contidos, ambições pequenas, bater cartão, sentindo-me bem com cabelos comportados e roupas mais ainda? Sim. Eu poderia. Mas eu não sou. E como feminista, essas coisas martelam. Esse é o medo em ser mulher e me expressar além das expectativas de meu gênero. Quer escrever? Mas cuide bem para não mostrar mais do que devia. A escrita é fenda e decote e sabem o que dizem de mulheres que se expõem. Não se dão o respeito. Concordo com as memórias infantis de Graciliano, Terteão é um homem. Ele escreve, anda, veste, ama, se move, fotografa, ao passo que fala somente o necessário.

7 março, 2014

Dia das mulheres: Pedra, lâmina ou papel?

Posted in Gênero tagged , às 1:29 pm por Deborah Sá

PowerPoint

Pra comemorar essa semana em grande estilo, que tal um PowerPoint?: dia-das-mulheres-pedra-lamina-ou-papel

5 fevereiro, 2014

Woody Allen, masculinidade e violência

Posted in Gênero, Só falam nisso às 12:57 pm por Deborah Sá

Como um sujeito franzino conhecido por suas neuroses pode ser acusado de violência contra meninas? Teria moldado o comportamento da filha adotiva de 12 anos ao tirar fotos dela nua? Seria transtornado ao esperar a maioridade para casar-se com ela? A carta aberta de Dylan é a prova cabal de um predador sexual? Aliás, com quantos homicídios se faz um assassino? Com quantos abusos se constrói um estuprador? Quem passa por violência sexual pode criar memórias falsas? As produções de Woody Allen merecem a fogueira pública?

Não interessa se algo comportamental ou físico aparentemente inocenta ele das acusações. Não existe “cara” de estuprador. Esqueça os contos de fada onde os traços de um rosto dizem tudo sobre o caráter, não somos Dorian Gray. As projeções de um corpo ou postura criam caricaturas facilmente aderentes e demasiadamente precipitadas. Ademais, a maioria dos estupros acontece em ambientes “seguros”, embaixo do nariz de presentes. Quem consuma esse ato abusa da confiança dos familiares e da própria criança, a qual enxergava na figura mais velha uma autoridade. Mia Farrow, fez o que qualquer adulto responsável, faria: Ouviu a criança, seu modo de explicar o ocorrido, não acusou, deu um voto de confiança. Criança sofre, sente medo e embora sinta as estruturas não sabe como nomeá-las. Sejamos honestos, por vezes, nem nós adultos, conseguimos enxergar as linhas invisíveis nos tolhendo. Imagine então, compreender o sexo não consentido (estupro), quando se é criança. Não interessa se ele “só” fez isso com algumas crianças e não com outras. Um molestador sabe aproveitar vulnerabilidades. Quem estupra está em uma relação de poder coercitivo, é alguém que tem todas as cartas do jogo. E ele como homem, figura mais velha e paterna, aclamado cineasta, provedor econômico, tinha muitos elementos deixando a balança pender para o seu lado. A constituição franzina não diminui as outras esferas de poder. Ele ainda as tem.

Mia Farrow, pouco aparece nas manchetes, seus filhos idem. Eles só existem para a mídia atual em função de Woody Allen. São sombras de uma figura maior em primeiro plano. Não deixarei de assistir um filme produzido por esse homem, especialmente em casa, já que sinceramente, prefiro dar dinheiro para outro tipo de bilheteria (de tão insosso, Para Roma com Amor poderia ser filmado pela Globo Filmes). Faço diferenciação entre a obra e o autor, muito embora saiba que tudo o que tocamos carrega nossas impressões. Se ele “moldou” Soon yi com quem é casado cabe a ela quebrar o silêncio. Se ela vive em uma relação abusiva e não encontra forças para sair do relacionamento, espero que consiga romper. Tratá-la como incapaz e totalmente manipulável não parece o modo mais respeitável de protegê-la. Não conheço a dinâmica interna da relação, aparecer sorrindo nas fotos não diz absolutamente nada. Casamentos sem qualquer indício externo podem ser tempestuosos e opressores. Se Soon yi não denuncia a violência, não posso supor que é vulnerável. Dylan, ao contrário, diz com todas as letras que vivenciou um estupro, por isso, acredito nela. Encarcerar ou matar um acusado por um crime não encerra incesto e o estupro. Quem pratica homicídio ou outro tipo de violação similar não é doente, “gene defeituoso” ou algo que o valha. A violação não consensual é instrumento de guerra contra mulheres e crianças. Nossa sociedade produz pessoas violentas, em especial, homens violentos. Essa consideração não pode ser eclipsada por binarismos de bem e mal. Há de se ressaltar a importância de problematizar a masculinidade hegemônica, mecanismo dorsal de hierarquias generificadas dos agentes da violência. De acidentes de trânsito à violência doméstica, em grande maioria, quem porta a arma, é o homem. Por isso não gosto do slogan “Homem de verdade não bate em mulher”, não faz sentido elaborar uma campanha  onde não bater em mulheres afirme a própria masculinidade. Para quê confrontar um padrão conservando suas raízes?

Vítimas de estupro, em especial na infância, podem apresentar lacunas na memória e até imaginar novos trechos. Isso não invalida a experiência de horror. Tornar pública nos mínimos detalhes uma experiência dessa magnitude desgasta, expõe e estigmatiza a mulher violentada. Ela será sempre olhada com desconfiança ou pena, desequilibrada. Se optar pela continuidade da própria sexualidade será vista como mentirosa. Se optar pela assexualidade, chamarão frígida. Buscamos trejeitos enunciadores de virtudes ou falhas morais nos gestos mais banais.

Como sobrevivente de violência sexual infantil, sei que os flashes perturbadores nos tomam de assalto, por vezes, com riqueza de detalhes sórdidos e a primeira reação é sublimar, tentar focar a cabeça em outra coisa. Basta uma insegurança para a sensação de ser criança, daquela forma que eu era, tomar meu corpo. Me sinto pequena, vulnerável, com mãos indesejáveis passeando pelo corpo inerte. Ao escrever isso, meu corpo é invadido pelo medo gelado que passa do ventre para as costas. Minha cabeça fica muito, muito quente. Sinto misto de raiva e vergonha. Contei com o apoio de pessoas para expelir o refluxo desagradável amargando a boca. Essa é, a maior de minhas cicatrizes, sei que ela nunca sairá da minha memória, felizmente, não mais, ao ponto de me engolir. Enfrentei esse medo diversas vezes e hoje sei defletir o golpe, mesmo que vez ou outra cause um novo hematoma por estar distraída.

Fruto de minhas inseguranças mais basilares, é por meio dele que sinto estorvo, erva daninha a tudo que ousa esgueirar. O sentimento desumanizador de se sentir um monstro, forquilha do que há de mais perverso. Nó na garganta que tenho de enfrentar ao me aproximar de gente nova em um dia que nada vai bem. Pesar que invade quando tenho vontade de falar em público e uma voz desagradável diz que não vale a pena. Ao mostrar crises de choro inesperadas tudo fica do tamanho da minha dor. Imagino que me achem covarde. Depois que o choro cessa, respiro e consigo ver a panorâmica. Não estou presa, passei e é melhor deixar fruir do que engasgar. Aquilo, não me reduz. O corpo precisa de um tempo para expelir um corpo estranho, nesse ínterim, há sintomas desagradáveis, prefiro não mascará-los, escolho criar anticorpos. Porém, não é fácil, quase sempre, é preciso muito empenho. O descrédito de outrem leva à dúvida da percepção. Mesmo o personagem mais neurótico do cinema parece são mediante a palavra de uma mulher.

22 agosto, 2013

Que tipo de feminista sou

Posted in Gênero, LGBT, O pessoal é político às 1:18 am por Deborah Sá

Antes, acreditava ser uma feminista radical, por ser anti-pornografia, por ter críticas a prostituição como simples escolha (os grupos vulneráveis que as exercem não tem muita alternativa), por defender espaços exclusivos. De um tempo pra cá, minha visão sobre esses assuntos ganhou outras matizes: Sim, a pornografia é a apropriação capitalista da sexualidade e dos corpos, sim, a prostituição também é um mercado que lucra com a vulnerabilidade social, qual é a cor da pele dessas pessoas? Qual a escolaridade? A quais riscos estão expostas cotidianamente? Que profissões gostariam de seguir se lhes fosse dada outra chance? E não estou falando de ensinar prostitutas a fazer eco-bag de garrafa pet ou bordar pano de prato, não estou falando de “salvar” alguém, me refiro a articulação de dentro pra fora, de ouvir primeiramente o que as prostitutas tem a dizer sobre sua própria vivência. Do respeito incondicional que devemos ter por todos os humanos (os não-humanos não são foco nesse post, muito embora resguardar somente respeito antropocêntrico, é especismo ). E os espaços exclusivos? Sim, eu ainda os defendo. Mas como um momento de empoderamento no sentido mais clássico da palavra, para fortalecer a auto-estima de quem está tão fraco para lutar e se amar que mal consegue dizer “não” para o que aflige, para aquelas que entram em relacionamentos abusivos por sentir que o outro fez um grande favor em aceitar as “imperfeições”, para todas as vítimas de violência sexual. Eu já fiz parte de grupos assim, foi fantástico.

Antes, eu acreditava que as disparidades entre feministas radicais e queers eram tretas americanas, o melhor era ter foco no nosso movimento aqui. E bem, nosso movimento está fervilhando on-line e nas ruas e isso respinga em uma imagem de um feminismo sempre acolhedor e fofinho. Algumas feministas negras denunciaram silenciamento dentro de um feminismo branco. Algumas feministas não universitárias reclamaram do academicismo em discursos grandes e pouco práticos. Algumas feministas reclamaram de transfobia. Algumas feministas denunciaram o quanto é cômodo ter empregada doméstica e fazer vista grossa pro recorte de classe implícito ali. E tudo isso é muito justo e tem de ser feito, realizado por quem está se sentindo pouco representada, coagida, silenciada. Doeu? Ofendeu? Fale. Não acoberte em nome da camaradagem, o movimento feminista já nasceu com má-fama, o que podemos fazer agora, no mínimo, é agir com honestidade e isso significa ir além do próprio umbigo.

Onde me localizo nesse mundaréu de termos e posicionamentos? Não em palavras como sororidade e irmandade, misandria e male-tears (usadas por algumas feministas radicais): Se vale ridicularizar o privilégio do outro, porque não cis-tears? (termo que também me desagrada, usado por alguns Queers) e mais além, human-tears? Ter privilégios não nos impede de sofrer em outras dimensões, ricos também sofrem? É, sofrem. O fulano não precisa se preocupar com fatura do cartão de crédito? A cicrana não tem calo nas mãos? Você sabe ler e escrever? Você concluiu o ensino médio? Você já teve que dormir na rua? Você ouve, fala, enxerga, anda sem ajuda de próteses? Você já passou fome? Você já teve de se prostituir? A vida pode ser muito, muito dura, em níveis escabrosos, mas sempre há privilégios para serem revistos, há opressões cometidas mesmo sem querer. Reconhecer privilégios não significa sufocar as próprias dores e mágoas, admitir facilitadores é democratizar a liberdade e o amor-próprio. É desprivilegiar o direito. E agora, se não me sinto totalmente incluída nessa ou naquela vertente, que tipo de feminista eu sou? Oras, a disposta a “ouvir”.

26 julho, 2013

Lágrimas masculinas – Aos homens de coração partido

Posted in Gênero, O pessoal é político às 3:16 am por Deborah Sá

Ela não quis mais ficar com você, te traiu ou nem deu bola, terminou a relação. A rejeição machuca, se sentir de alguma forma enganado, idem.  Os pombinhos criaram laços e juras de amor eterno e uma hora a coisa se rompeu. Ela não fez isso “na maldade”, “porque é uma vaca”, “porque mulheres são interesseiras”, pelo prazer sádico de quebrar seu coração em pedacinhos. Pelo acaso e uma série de fatores que talvez nem ela fosse capaz de antever com precisão, as coisas mudaram. Sabe esse sentimento de “porque esse outro e não eu?”, “o que ele tem que eu não tenho?”, “fui trocado!”. As mulheres sentem e com freqüência toleram várias formas de violência pelo medo de rejeição. O quanto você aguentaria por dependência financeira, medo da solidão e falta de perspectivas? Muitas mulheres entram em depressão profunda, tentam suicídio, flagelam o corpo.

No entanto, se um homem tem o coração quebrado costuma escutar duas razões básicas e interligadas para a fatalidade: a) A primeira, que a culpa é dele por se entregar “mulher não gosta homem bonzinho”, a segunda, b) responsabiliza mulheres por brincar com o sentimento alheio. Ou seja, de todo modo a culpa deságua na mulher num carma bíblico. As soluções para não quebrar mais a cara e o peito enveredam por dois caminhos: c) Malhar muito, enriquecer e sair com as cocotas sem se apegar ou d) procurar uma moça virgem e submissa para casar.

O primeiro fator (a) supõe que indivíduos não gostam de gentileza e cordialidade (tolice), o que difere de alguém inseguro e controlador que usa sua “fraqueza” de escudo para manter a posse sobre terceiros (o que Nietzsche denomina “moral de escravo” [1]). Todos buscam prazer, satisfação e extrair alguma vantagem, isso é, somos interesseiros em quaisquer relações interpessoais [2]. O segundo tópico (b), ignora o fato das pessoas mudarem de ideia e se afastarem por muitas razões, ao encontrar alguém mais interessante, sentir um forte desejo e satisfazer o impulso, precisar de um tempo para repensar a vida, enfim, a melhor forma de saber o motivo é perguntando para a outra parte envolvida e nem isso garante plena honestidade. Talvez dizer o real motivo magoaria demais (por exemplo, não te achar mais atraente).  O plano de ação (c) pode trazer muita satisfação se é seu referencial de aproveitar a vida, mas nada assegura que não se apaixone ou que se apaixonem por você. O fatídico erro é julgar mulheres com as mesmíssimas expectativas (dinheiro, malhar, ostentação) como inferiores. O que nos leva ao plano (d), a mulher casta e honrada.

A mulher valorosa ou a que traiu o namorado podem se apaixonar e desapaixonar, ferir sentimentos e pedir desculpas, partir sem deixar ao menos um bilhete. É um risco que corremos ao nos relacionarmos com sujeitos em constante movimento, eles repensam a própria história, buscam novos ares, ficam de saco cheio, se decepcionam, querem algo emocionante. Exatamente como você. Um homem de coração partido tem sua raiva e rancor direcionado para todas as mulheres e sufoca ainda mais emoções tão difíceis de exprimir. Sinto informar, te passaram as informações erradas, é o machismo que te impede de chorar e experimentar o próprio corpo, é esse padrão rígido que obriga sua vestimenta ser assim ou assado, o machismo alimenta a vergonha da calvície, o medo de ficar broxa e ser abandonado, proíbe de declamar o amor pela mulher promíscua, gorda e/ou fora dos padrões em nome da sua reputação e virilidade, te faz inseguro. Uma piroca sem qualquer raciocínio e complexidade, sem sentimentos. E para que não reste dúvida, quem dita a regra na qual sem dinheiro você vale menos que merda, é o capitalismo. Remendar seu coração com misoginia é uma bala perdida.


[1]  Os termos “Moral de senhor” e “moral de escravo” detalho melhor aqui

[2]  Que tipo de capital valoriza? Econômico, escolar, cultural? E por que um vale mais que outro? Há esse post onde abordo o tema.

15 julho, 2013

Dia do homem

Posted in Corpo, Gênero tagged às 1:20 pm por Deborah Sá

Se acha justo comemorar um dia desse não indicaria uma enxurrada de leituras teóricas, essas, embora úteis, ficam a seu critério. Para além disso, recomendaria uma boa dose de empatia e sensibilidade, pois se todo mundo tem suas dores, igualmente tem seus privilégios, facilitadores sociais dos mais diversos. Portas que se abrem mais facilmente seja pelo que você tem na carteira, sua cor de pele, porque não precisa provar mais intensamente que é “homem/mulher” “de verdade”, porque as pessoas não te consideram uma aberração por sua forma de amar, sentir, se expressar, vestir, gesticular. Você não é melhor do que alguém por ter estudado em colégios “melhores”, frequentado restaurantes caros, saber mais que o idioma materno, fazer cálculos difíceis, ser bom em oratória ou escrita, ter olhos azuis, pela espessura de seus cabelos, por sua genitália, então, em nome do reconhecimento de sua humanidade (isso é, suas virtudes, seus percalços, seus entraves ou facilitadores), deixe uma data como essa cair no ostracismo.

4 junho, 2013

O (raivoso) admirador secreto e a indiscrição

Posted in Corpo, Gênero, LGBT, Sexo às 10:38 pm por Deborah Sá

As pessoas gostam de fazer sexo. E elas fazem. Nem sempre entre quatro paredes, nem sempre de maneira não subversiva, ás vezes com palavras de baixo calão, outras vezes registrando em imagem ou vídeo. É de uma pequenez tremenda tratar de um tema tão natural como se fosse a polêmica do século. Se você acha humilhante tal prática, palavra ou atitude, não faça nem as diga, simples. Você tem o direito de ser uma pessoa reservada, mas nem todo mundo é assim. Tem quem não se contente, quem cansou de baixar o tom da voz pra não chocar, quem prefira usar dourado e gargalhar alto, quem faça mais sexo que você e não tenha problemas em falar disso. Outros sujeitos que também tem vida sexual: Seus avós, seus pais, o porteiro, a manicure, o advogado, a professora do maternal, a dona-de-casa, os líderes religiosos, os colegas de trabalho e da faculdade, bem, a lista é realmente grande. O mundo continua girando, as pessoas gozam, ficam peladas, introduzem coisas nos seus orifícios, usam suas línguas, dedos e tudo mais. Muito pesado o assunto? Dá tempo de pegar um copo d’água. Vai lá. Sério. Vai lá. O texto não sairá correndo. Pronto. Voltou? Está tudo bem? Espera o choque passar e prossiga a leitura:

Qual é o espanto de uma foto ou vídeo de sexo consensual cair na rede? Foi bom para os envolvidos e uma pica é uma pica, uma buceta é uma buceta e uma bunda, oras, é uma bunda. É tão difícil de entender? Já viu livros de anatomia? Já se olhou nu no espelho? Nunca viu outro corpo nu na vida? Parem de reagir como se não soubessem o que acontece quando as pessoas resolvem dar prazer uma pra outra. Por favor, parem. Está na hora de crescer e entender que o resto do mundo gosta de trepar, ache você absurdo ou não. Essa é outra prova que pornografia não torna as gerações mais esclarecidas, na realidade, ficam cada vez mais impressionáveis.

Tudo em nome de uma boa reputação… Quando se é jovem é a fase de construção, quando adulto e de vida ganha, surge o medo de arriscar tudo o que construiu, mas nem por isso o desejo morre. A maioria das prostitutas atendem homens casados, quantas mulheres tatuadas/modificadas não são assediadas por homens mais velhos e conservadores? Quantas travestis não recebem dezenas de investidas por e-mail com fotos de pintos que prometem uma foda? Quantos gays não recebem ofensivas pesadas daquele sujeito que adora ficar de quatro contanto que não saibam? Quantas gordas não foram assediadas por homens que as menosprezavam em público?

O  sujeito “no armário” que profere ódio em público mas se acaba de desejo (isso é, se masturba) pelas figuras que repudia, é um dos germes do próprio ódio. A inveja de quem pode viver o que desperta vontade, o que desperta tesão. A raiva de sentir um desejo assombroso por aquele que leva a vida que queria ter, quem o lembra o tamanho do medo que carrega nas costas. O furioso vive a admirar e praguejar em segredo. Além de ter a audácia de ser abertamente feliz em suas escolhas, o outro subversivo mantém o observador hipnotizado. Bastava estalar os dedinhos para ver o combatente lambendo botas com prazer suplicante (contanto que não saibam). Perturbador é o fascínio que qualquer outsider causa em alguém que teme a fronteira desconhecida,  o próprio desejo. Sendo a vontade mal digerida a que prevalece, bate como um tambor no peito, nas entranhas, nos genitais.

Essa fantasia secreta de “virar o jogo” (se sentir dominado, tentar dominar) nem é mesmo genuína, esse tesão coberto com três camadas de culpa e uma cereja de submissão só existe quando guardado. Os comentaristas coléricos e anônimos da internet não dão a cara a tapa. Os que vão mais longe e pixam a casa, mandam cartinhas, sequer mostram o rosto. Fazer a vida de alguém um inferno porque fez sexo e gostou é estratosfericamente provinciano. Condenar um sujeito por sexo consensual apenas por sair do esquadro das posições moralmente nobres (quais?) é arcaico. Diferindo de pessoas discretas e que não gostam de expor o que consideram de foro íntimo, os desleais esperam a vez de por os pés fora do armário para serem hipócritas, cruéis, mesquinhos, extremamente covardes. E desses, meu bem,  quero distância.

10 maio, 2013

Misandria não serve nem pra piada

Posted in Gênero às 2:09 am por Deborah Sá

Eu, de pijama. Desenhada pela minha irmã

O feminismo e outros movimentos fazem isso há muito tempo, pegam um termo e dão um novo significado. Falar em “feminazi” e “misandria” por brincadeira é o mesmo que dizer que é um soldado da ditadura gay, mostrar o absurdo de não ter conjuntura política, histórica ou social quando se é acusado de promover um regime ditatorial. Simples. Faz alguns anos que não entendo essa brincadeira de “feminazi”, “sou misândrica”, imagens de ~odeio homens~. Quando li  SCUM Manifesto pela primeira vez, ri (conheço alguns homens feministas que também se divertiram), foi o momento de revolta da Solanas. Ela estava “pelas tampas” e resolveu dar um touché no discurso patriarcal mascarado de ciência. Como entretenimento, ótimo, pra levar á sério? Nunca. Compreendo a ironia e o propósito de se dizer misândrica na internet enquanto namora homens, gosta de intercurso, ama o filho, o pai, o irmão, o avô, faz parte da graça da piada, mostrar o disparate. Entre um caminhão de palavras pra ressignificar por que diabos vamos atrelar nossa identidade á esses parâmetros de interpretação obtusa do feminismo? Empoderamento, igualdade, empatia, pluralidade, união são termos que não dão mais conta? “Le Freak, C’est Chic?”

Não sei se é tendência, mas semana passada rolou um texto na internet sobre se assumir feia, parece um movimento similar a apropriação do discurso misândrico “de mentirinha” : Vestirei a carapuça. Percebo a ação mas não acho graça nem vejo o objetivo político. Por exemplo, se a feminista conseguir de fato se apropriar desse discurso e não ter preocupação com a aparência, ótimo. Porém, tenho a intuição de que apenas uma parcela ínfima ficaria satisfeita nesse esquema, se é que alguém realmente ficaria. Detesto ser repetitiva (digo isso há algumas postagens), todavia vejo necessidade de reiterar: Isso é separar mente e corpo. Ademais, saber do Mito da Beleza não implica na obrigação de jogar maquiagens fora, a própria Naomi Wolf usa brincos dourados e batom vermelho, a bunda da Simone de Beauvoir e seus pés em salto alto são de muito bom gosto no sentido mais comum da palavra. Não entendo esse “faz de conta” de “não me importo com beleza”, “odeio homens” e similares porque a maioria das mulheres que conheço que faz esse discurso tem problemas sérios de insegurança e de auto-estima. Não porque são fracas, mas porque são humanas e todo mundo se sente assim ás vezes. Então por que mentir pra si mesma assim? Pra quê passar essa imagem que foge tanto do amorzinho que vocês são na vida real? Qual o alívio de dizer “Ufa, não preciso me sentir linda”, esse não é um dos discursos mais fortes desde a segunda onda do feminismo? Que cada uma tem o direito de se reinventar? De mandar á merda os padrões e descobrir sua forma de ser feliz? Gente, cadê a historicidade?

Outra coisa, se não querem ser chamadas de lindas, deixem isso claro, as pessoas tem de respeitar, mas não é porque alguém te acha linda que está te reduzindo a um pedaço de corpo. Aproveitando a postagem, deixa eu falar uma coisa que mudei e muito de opinião sobre uma interpretação feminista corrente: Ninguém se objetifica. Uma postura corporal, uma roupa, uma dança, nada, nem ninguém, se objetifica, porque acreditar nessa possibilidade é dizer que a culpa do alvo de preconceito é ele mesmo, igual fazem com gay que dá pinta. Quem quer ser fabuloso e se jogar no vestidinho flúor ótimo, quem quer se jogar no xadrez e deixar a perna peluda, idem. Mas voltando ao papo anterior, se “misândricas” usam maquiagem, a maioria se relacionou (ou se relaciona) com homens e obtém prazer disso, qual a finalidade desse discurso? Aproximar uma panelinha como em uma piada interna? É um código interno de uma festa que não me convidaram (vai que…)?.

23 abril, 2013

Material girl – A mulher interesseira, sexo e capital

Posted in Corpo, Desejo, Gênero, LGBT, O pessoal é político tagged às 12:08 pm por Deborah Sá

Sexo (como entendido) é performático, genitalizado, heteronormativo, cis-sexual. As revistas femininas e o incentivo ao sexo da mulher é sempre nos moldes de “esse é o meu poder e dele faço uso pra conseguir o que quero”. Os sujeitos são estimulados a fazerem mais sexo, ao ponto de mentirem a freqüência nas pesquisas: “ dou duas sem tirar”, “eu tenho cinco orgasmos múltiplos”. Não pega bem dizer que gosta de sexo no escuro, aquela coisa ao som de Barry White. Ninguém gosta de ser considerado morno sexualmente porque morno não mela calcinha nem levanta pau. A coisa precisa pegar fogo.

E pode pegar de várias maneiras, depende do que você busca e com quem se relaciona. Não há sexo desinteressado se feito além de dois integrantes, veja bem, se quero sexo só comigo, me masturbo. Quando estimulo outro corpo além do meu (de forma consentida é óbvio), tocando, lambendo, chupando e beijando estou pensando no outro. Gosto de ver a cara contorcendo ao gozar, é uma massagem no ego, faz bem. Aí as relações de poder ficam complicadas de discernir, ou como alguns preferem, mais fluidas. No sexo oral, por exemplo, quando uma mulher chupa um homem a reação é “Ele está se dando bem, quem é chupado está no comando”, mas quando um homem chupa uma mulher dificilmente se diz: “Ela está no comando, ela está se dando bem”. Porventura não teria maior “controle” a boca que conduz movimentos ritmados? As mãos que deslizam e enrugam os dedos na umidade? Que estremecem pernas, arrepiam braços, produzem gemidos e a vontade de quase implorar para que aquilo não pare e dure por todo o sempre?

Essa dualidade (quem manda, quem obedece), é imprecisa. Se entregar abertamente demanda confiança plena, confiamos em quem está a nossa frente, confiamos em deixar o corpo soltar o que tiver de deixar sair no tempo que necessita. Ou seja, se gozo maravilhosamente é por permitir a mim e permitir-me ao outro. Se ele controla com a língua, eu controlo com os quadris e é de movimento que somos feitos. Somos corpo, dentro e fora do sexo, somos corpo e sentido. Sexo não é desinteressado também por outro motivo, nós buscamos capital. Sim, até os anarquistas. E que tipo de capital? Isso cada um dirá por si. Meu capital estético de interesse é um pouco fora do comum (eu digo um pouco, porque se Jennifer Lawrence quiser meu corpo nu é só ligar), mas claro que há uma série de características físicas que facilmente me fazem sucumbir. Também tenho interesse pelo tamanho do capital cultural aliado a sensibilidade, adora literatura? Musicais? É vegano e sabe cozinhar? Muitos pontinhos. Ainda por cima não bebe e não fuma? Por favor, mande currículo com foto. É, com foto. E quer saber? Mesmo com todos esses requisitos pode ser que não role a chamada química (menos com você, Jennifer, tenho certeza que daríamos certo).

“Não mostre o que tem na carteira,  mostre o que tem na cabeça”, “Cubra seus peitos e mostre sua personalidade, mulher”  é só um modo de dizer que não se faz tanta questão do que carregam na carteira, mas no coração, nas idéias, no tamanho do capital cultural. Na apropriação de uma cultura legítima e quem sabe até, ver o filme esloveno e a última animação da Pixar com o mesmo gosto e olhos embotados de lágrimas.

Fazer uma cirurgia plástica pra conseguir um homem rico que banque é se desvalorizar? É ser nada feminista? Bem, alguém que julgue esse tipo de capital importante precisa literalmente investir no corpo, com malhação, dieta balanceada, cirurgias e toda a parafernália possível, esse alguém, pode realmente julgar que estabilidade financeira é algo mais importante do que ser colunista da revista Piauí, Caros Amigos ou ganhar um Jabuti. E essas pessoas não são imbecis, elas não “sofrem de baixa auto estima”, elas não precisam ser ”iluminadas”. Uma patricinha, uma piriguete ou um rapaz gay que é bancado em troca de sexo não merecem desprezo. É muito fácil sentar a bunda e escrever usando vinte e dois teóricos sobre o assunto quando na vida isso não enche barriga. É totalmente diferente da prostituta que trabalha na rua com discriminação e o perigo da violência, mas mesmo assim, há uma aproximação: Não adianta oferecer curso de fazer bolsa em garrafa PET ou dar um livro teórico achando que isso afastará mulheres, travestis e transexuais desse mercado. É preciso ouvir, construir políticas públicas, lutar para que sejam respeitadas.

Os sujeitos tem o direito de ter acesso ao patrimônio intelectual da humanidade, mas julgar que trabalho ou o gosto por atividades ditas intelectuais são mais nobres que as do corpo, especialmente as que envolvem sexo como moeda de troca, é esquecer que sexo é interesse. Fazer sexo por interesse financeiro é apenas um dos vários tipos de capital (estético, cultural). Isso não nos transforma em um objeto, isso não é “contribuir para que não respeitem”, as pessoas tem o direito de buscar a forma que acharem mais conveniente de se sustentarem. “E quando essas mulheres começarem a ficar velhas? Não serão trocadas?”  pode ser que sim, pode ser que não. Igualmente, ser feminista ou ativista não impede que as pessoas pisem na bola, troquem parceiros, encontrem “alguém melhor”. Assim como o marido não tem poder sobre a esposa, a namorada não pode mandar na namorada, um cliente (ou um mantenedor) não pode bater em quem fez sexo com ele (ou quem dele depende economicamente). Não é porque há um contrato implícito e uma das partes tem um maior capital – ou prestígio – cultural, econômico, estético, que poderá ditar as regras sobre o corpo de quem está ao lado. Usar o sexo como moeda de troca não é se transformar em mercadoria e nem sempre é sintoma de vulnerabilidade econômica, muito embora, existam tais aproximações; além da evidente segregação de quem tem faz dessa a maior fonte de renda. Ao mesmo tempo em que é importante frisar que nada é neutro, é bom que saibamos que essa liberdade irrestrita e sem fronteiras simplesmente não existe.

Se o relacionamento é aberto ou fechado, se é papai e mamãe ou orgia, se é assim ou assado sempre há paredes de contenções, o mundo sempre nos supera, criam-se combinados, modos de entrar e sair, formas de convivência. Alguns tem muros maiores, outros menores. Não me cabe aqui gritar aos quatro ventos o quanto a minha água é mais limpa que a de meus vizinhos, o céu não tem cobertura e se chove me molho tanto quanto quem me lê.

11 fevereiro, 2013

Um feminismo de sangue?

Posted in Corpo, Gênero às 12:09 am por Deborah Sá

A escrita é uma espécie de ensaio pra vida pública, o momento de admitir pra nós mesmos o que borbulha do lado de dentro. E o que estoura nessa ampola são discordâncias com certas concepções do feminismo. Por exemplo, a busca por um retorno matriarcal idílico, como na citação de Monique Wittig:

Houve um tempo em que tu não eras escrava… lembra-te disso. Um tempo em que caminhavas sozinha, cheia de riso, em que te banhavas nua no mar… Podes ter perdido a lembrança desse tempo, mas procura lembrar-te… Podes dizer que não há palavras que descrevam esse tempo, podes dizer que ele não existe. Mas recorda. Faz um esforço para o relembrares, ou, se não conseguires, inventa-o!

Embora reconheça a beleza de imaginar um tempo de liberdade, isso não me basta. Assim como não basta existir em busca de um paraíso além-matéria. Desanima viver com os pés no passado em um saudosismo de um tempo onde a opressão inexistiu. Até porque, duvido que houve um momento de comunhão unânime, a Age of Aquarius¹ não parece factível. Da mesma forma é improvável uma origem ou produção “pura” sem intervenção do meio. Em uma metáfora, faço uso do embate Cultura Dominada X Cultura Dominante² levantada por Cuche. É um erro supor que a Cultura Popular (feita pelas massas), é um simulacro mal acabado da classe dominante, porém, também é ato falho acreditar que tudo o que é produzido pelas massas não possui certa margem de autonomia e contestação. Dentro de um feminismo mais maniqueísta, o que é produzido por homens é naturalmente ruim e perverso enquanto o que produzido por mulheres é praticamente… Mágico! Ao ponto insólito de enxergarem em um ato não-humano (um leão mordendo a leoa ao acasalarem, por exemplo), como amostra clara do desejo natural de homens dominarem mulheres. Entra o sentimento essencialista de “ser mulher”, como se uma mulher que um dia possuiu (ou ainda possui) um pênis fosse de alguma forma “menos mulher”. Como se “ser mulher” fosse uma espécie de qualidade hereditária e  tivéssemos o tal “sangue azul” ou como prefiro chamar o “sangue roxo”. Quando pensei em cursar História (nem faz tanto tempo assim)³, foi pra realizar pesquisas na área de gênero e combater a idéia da História considerada relevante, aquela que vira estátua (como a pavorosa de Borba Gato, incrustada em SP). Essa percepção é parcialmente verdade, em linhas gerais, as pessoas tem uma visão de que “grandes nomes” compõem a História, mas qualquer Historiador(a) minimamente comprometido(a) sabe que novas concepções não são rompantes que brotam de mentes “iluminadas” do dia para a noite. Os valores do Século XVIII não mudaram instantaneamente com o raiar do Século XIX. Percebendo que já havia um número considerável de produções acerca do tema, desisti de estudar as mulheres (que mulheres? De qual período?), não invalido quem trilha esses caminhos na Universidade, nem desdenho do Feminismo que se faz muito pertinente, mas não o vejo com os mesmos olhos de antes.

Ainda há muito o que conquistar: Os índices de violência contra mulher permanecem altos, os salários baixos, ainda vivemos, oras, em um patriarcado que limita a todos. Por essa mesma razão, defendo espaços exclusivamente femininos, ainda há mulheres que não se fortaleceram em sua condição, que precisam de espaços de segurança para desabafar e se fortalecer. Todavia, não considero essa ancestralidade, a sisterhood feita de sangue roxo (herdado) e de sangue uterino (binário e biológico). O feminismo por si só, não basta para explicar a opressão que atinge a cada grupo minoritário de forma específica, ser cis-mulher tem suas desvantagens, porém, se levarmos em conta a vivência de uma mulher transexual percebemos que terá dificuldades distintas, a começar por conseguir um emprego de carteira assinada, ser apresentada para os pais como namorada, ter um círculo de amigos para se relacionar e andar em via pública sem ser importunada 4, etc. Isso não pode ser desconsiderado. Já que as estruturas de poder são múltiplas não podem ser sintetizadas em um ponto de vista somente. Não se trata de uma olimpíada pra ver quem sofre mais, por vezes é o mesmo peso que nos esmaga, mas nos fere produzindo marcas diferentes. Fazer parte de uma estrutura dominante não nos converte imediatamente em calhordas da pior espécie, se pode não compactuar com o modo como os privilégios são distribuídos socialmente, ou ainda, se sensibilizar e reverter posturas. No primeiro caso temos o Dr. King Schultz de “Django Livre” e no segundo, Wiesler do excelente “A vida dos Outros”. Ou seja, refutar um argumento com “claro que você não achou machista, você é homem”,  é encerrar a discussão ali. Pois se a relevância for um parâmetro essencialista, é como se não existissem mulheres mal intencionadas e sádicas, como se todo proletariado fosse o bom selvagem que não despertou seu senso de coletividade, é imaginar que a arte e a música “em seu estado puro” só podem surgir desses grupos como flor de lótus. Essa distinção polarizada, essencialista e saudosista não me comove. Meu feminismo não se ancora em Éden passado ou futuro, ele é feito da construção permanente daqueles que se levantam contra a injustiça que fere a própria carne, mas também por meio dos que renunciam o comodismo para estender a mão.

Fontes

¹ Me refiro a Era de Aquário, a idéia de que uma nova era de alinhamento entre os planetas culminará na fraternidade de todas as nações. Como a presente no ótimo musical Hair

² CUCHE, D. Cap. 5 – Hierarquias sociais e hierarquias culturais. In: A noção de cultura nas ciências sociais. Bauru, EDUSC, 2002

³ Guest Post que escrevi em 2011 para a Lola – Invadindo um espaço que não me pertence

4 Há esse vídeo excelente sobre a Invisibilidade Trans e o mercado de trabalho

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