6 dezembro, 2013

A galinha que burlou o sistema

Posted in Animais, Curtas/Documentários, Filmes às 12:02 pm por Deborah Sá

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Dirigido por Quico Meirelles, o curta-metragem mostra uma galinha que se encontra numa granja industrial e toma consciência, numa espécie de iluminação, de toda a engrenagem integrante de sua vida.  Assista na íntegra clicando aqui.

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5 dezembro, 2012

Humor politicamente correto?

Posted in Filmes, Gênero tagged , , , às 1:42 pm por Deborah Sá

Meu amigo Elias, recomendou o ótimo documentário sobre humor: “O Riso dos Outros”. Comediantes, cartunistas e ativistas falam sobre os limites e formas de elaborar o humor.

Ao terminar lembrei imediatamente de um texto de 2009 que gosto muito, do Antônio Prata (que também está no documentário):

PC

O politicamente incorreto está na moda nos meios de comunicação. (Fora deles, não, pois não pode estar na moda o que nunca caiu em desuso). Colunistas, jornalistas e blogueiros enchem o peito e, como se fossem os paladinos da liberdade de expressão, desancam os movimentos sociais, o feminismo, maio de 68, os quilombolas, os índios e tudo mais que tiver um ar de correção política ou cheire a idéias de esquerda. Tá legal, eu aceito os argumentos, mas não levantem as vozes tanto assim: não há ousadia nenhuma em ser politicamente incorreto no Brasil; aqui, a realidade já o é.

Imagine uma escola religiosa na Dinamarca. Flores nas janelas, cheiro de lavanda no ar, vinte alunos loiros, com cristo no coração e leite A correndo pelas veias, respondendo a uma chamada oral sobre o Pequeno Príncipe. Ali, o garoto que se levantar e cuspir no chão será ousado. Mostrará que a despeito do aroma de lavanda, o ser humano é áspero, é contraditório, é violento. Quando a realidade fica muito Saint-Exupéry, é importante que surjam uns Sex Pistols para equilibrar. Agora, cuspir no chão de uma escola municipal em São Paulo, diante da professora assustada que não consegue fazer com que os alunos, analfabetos aos dez anos, fiquem quietos, não tem nenhuma valentia. Quando a realidade da polis é o caos, o som e a fúria são a correção política.

O sarcasmo dirigido aos intelectuais de esquerda seria audaz e iconoclasta caso o Brasil tivesse vivido de 37 a 45 e de 64 a 85 sob as ditaduras de Antonio Candido e Paulo Freire. Se antropólogos de pochete e índios com camisa do Flamengo estivessem ameaçando o agronegócio, devastando lavouras de soja para plantar urucum e cabaça para fazer berimbau. Se durante o carnaval as feministas pusessem no lugar da Globeleza drops de filosofia com Marilena Chauí e Susan Sontag. Se a guitarra elétrica fosse banida da MPB pela banda de pífanos de Caruaru. Do jeito que as coisas são, contudo, o neoconservadorismo faz sucesso não porque choca a burguesia, ao cuspir no solo de onde brotam seus nobres valores, mas porque assina embaixo da barbárie vigente – e ri dela.

Nos EUA, o politicamente correto está tão entranhado nas relações que eles até o chamam pelo apelido: PC. Aqui, as duas letras ainda nos remetem ao tesoureiro do Collor, o ex-presidente que caiu após escândalos de corrupção e apareceu na capa dos jornais essa semana depois de ser eleito para chefiar uma comissão no senado. Enquanto não substituirmos um PC pelo outro, em nosso imaginário e nas manchetes, quem quiser cuspir no chão pode continuar cuspindo, mas deixe de lado esse tom varonil de quem está pegando touro à unha, quando não faz mais do que chutar cachorro morto.

30 julho, 2012

Você fala isso porque é jovem…

Posted in Filmes tagged , às 8:47 pm por Deborah Sá

Eu só confio nas pessoas loucas, aquelas que são loucas pra viver, loucas para falar, loucas para serem salvas, desejosas de tudo ao mesmo tempo, que nunca bocejam ou dizem uma coisa corriqueira,mas queimam, queimam, queimam, como fabulosas velas amarelas romanas explodindo como aranhas através das estrelas.

Semana passada assisti On the Road, passados alguns dias, pude perceber o que realmente me ateve foi o retrato de uma juventude não tão diferente da minha. A juventude com hora para acabar. A mocidade de meu tempo ainda fuma, o charme do artista mal compreendido persiste no jeans surrado com chinelos de dedo, um sambinha, a barba por fazer, um baseadinho. A maioria dos jovens que me cercam não tem caderneta de poupança, não se poupa muito dinheiro, alguns porque não sobra, outros porque o futuro pode esperar mais um pouco. Outra parte, porque viu os avós e os pais amargurados de trabalhar feito loucos para conquistar quase nada. Sobre as lutas por igualdade, vejo mudanças gradativas e gosto de reconhece-las para não ruminar o amargor de quem está sempre alardeando as tragédias, os retrocessos conservadores, como quem não sabe colher os pequenos frutos que nascem em tempos cinzentos de fuligem.

Catarse de criança é girar-se até a visão embaralhar, a do jovem é a embriaguez que tira a verdade da língua amortecida, enquanto  a catarse do velho é contar o terço em reza alta. Esse cadenciado é permitido por assumir que somos criaturas alheias, ora cientes, ora distraídas, de nossa desorientação. Se pequenos somos, nos permitem imaginar, posto que o fardo adiante cessará o encantamento. Se jovens somos, bebemos para soltar o que nos proíbem de ser, para demonstrarmos o afeto de desejo entreaberto emergindo a coragem de saltar, vencer a nós mesmos. E por fim, quando velhos somos, permitem que roguemos preces e pragas para a solidão. O apego a juventude é para afastar o medo da morte, do isolamento, do silêncio, do abandono. O tempo que corre indiscriminado nos aproxima dia após o outro do inadiável. Crer na possibilidade de mudança (e no prazer), como característica única da juventude e da meninice, é assumir que chega um ponto onde não há mais o que se fazer, restando lamentar os sonhos pueris de uma juventude que mal sabia do sabor azedo que o futuro reservava.

Teme envelhecer, quem acredita que a rebeldia, o aprendizado, o gozo, a transformação, o amor e a contestação sobrevivem até o despontar do primeiro pé de galinha, do primeiro fio de cabelo branco. Teme envelhecer, quem acha que chegará o tempo em que não haverá mais nada pra aprender e que as ambições da juventude são ilusões. É não acreditar na autonomia do sujeito com décadas para mais ou para menos.

Admitir-se forasteiro é estar aberto a cada peregrino que cruzar o caminho, ouvir a nova melodia, sentir outra forma de amar, aprender o novo idioma sem  medo de alterar o sotaque. Me atraio pela chama de quem irradia, de quem pulsa e faz vibrar em sua presença, dos que me apresentam sóbrios desatinos. Provavelmente isso explique a aproximação e empatia quase imediata que sinto pelos que estão do lado de fora, pela maior chance de compreender o desvario.

22 maio, 2012

Videodrome e outras vias para o método perigoso

Posted in Corpo, Filmes tagged , às 12:41 pm por Deborah Sá

Videodrome (1983) e A Dangerous Method (2011) são dirigidos por David Cronenberg e perpassam a temática do prazer e da dor, a descoberta e culpa em novas formas de expressar a sexualidade e a conseqüência irreparável que sucede.

Acenar para o vizinho, ir ao ambiente de trabalho, interagir com quem em nosso íntimo repudiamos por aspirações medíocres e concepções ingênuas. Somos atores em maior ou menor medida e os lençóis não se distanciam em hesitação. Max Renn, assim como Jung são personagens dos quais esperamos o não envolvimento em condutas que colidam com sua racionalidade, o primeiro, é um indivíduo que com zombaria retransmite em um canal de televisão obscuro conteúdos violentos e pornográficos, o segundo, um grande nome da psicanálise.

No despenhadeiro vertiginoso entre o que compreendem e o que o desejo exige, são lançados em absorta perplexidade e para tornar a proposta ainda mais irrecusável, encontram assistentes que prontificam seus corpos ao açoite, fivela e a punição. Rendem-se e enquanto cedem, experimentam a desorientada excitação embebida de um ato impulsivo e pouco racional. Desejosas mulheres gozam sem remorso no alívio aterrorizante diante dos olhos incrédulos da blasfêmia que pedem repetidamente, assim, o paradoxo está nos homens atormentados pelas mulheres que seguras pedem o corpo marcado, sendo a mão que apanha a que constrange seu carrasco pela bestialidade ascendente.

Essas pulsões “pouco nobres” podem encontrar caminho fértil na literatura, nos videogames, nas canções, esquinas, pocilgas e orquestras, na fotografia detalhista de um aclamado diretor e na batida do baile funk. Mas por que atividades intelectuais e abstratas recebem maior prestígio do que as habilidades corporais? Porque são nossos trunfos enquanto espécie, a racionalidade, a compostura. E onde está a compostura quando em movimentos repetidos a masturbação nos faz ofegantes e com feições distorcidas? Onde está a racionalidade quando desejamos uma prática sexual que tantos classificam como humilhante, ao passo que nos excita com rubor?  O referido método se faz perigoso para os que temem a possessão completa de sua identidade e que ao abrir uma porta, será pisoteada por elementos que jamais viram a luz. Porém, tomar consciência de nossos desejos controversos e secretamente deliciosos é evidenciar a vulgaridade que poucos admitem.

Desejos fortuitos nos tomam de assalto, podemos extrair um prazer mais intenso da resistência do que da prática, o trunfo dos virtuosos, ou deixarmos que gemidos entoem as melodias que precedem o sorriso tolo. Assombram-se os que abafam tão vigorosamente suas entranhas que enquanto dormem, por precaução lançam mais uma camada de tecido sobre seus retratos morais desfigurados como os de Dorian Gray, todavia, para o pano há traça, para a porta, cupim e para a chave, ferrugem.

12 abril, 2011

Um estranho no ninho

Posted in Filmes tagged às 4:36 pm por Deborah Sá

Randle Patrick McMurphy foi preso por estupro (em verdade, fez sexo consentido com uma garota de 15 anos), na prisão não era disposto em colaborar com as tarefas e a solução foi simular algum desvio mental.

Atenção: Se pretende ver o filme sem surpresas, recomendo que encerre sua leitura aqui.

No Manicômio a rotina seguia tranqüila e aos poucos Randle criava laços com os internos, sua extrema camaradagem masculina ganhava algum reconhecimento seja pela leveza que os conduzia, seja pelo baralho Pornô que compartilha. A primeira figura feminina apresentada é a sisuda enfermeira Mildred Ratched, representando o arquétipo da Matriarca castradora.

As terapias gerenciadas por Mildred amedrontavam o grupo por expor publicamente o que os levou ali: Dificuldades de interação social e evidente impotência diante de mães controladoras, namoradas promíscuas e conseqüente repressão sexual. Rumo ao resgate da virilidade perdida, Randle inicia providências: Invade a cabine das enfermeiras pedindo por um som mais baixo, questiona os métodos terapêuticos e solicita uma nova televisão para assistir ao Campeonato com os companheiros. A enfermeira responde as provocações com ironia análoga ao Hal 9000.

Não vamos transferi-lo a prisão, é mudar o problema de lugar. O melhor é deixá-lo conosco.

Nesse raciocínio a tristeza, apatia ou violência na qual os pacientes são subordinados, não são responsabilidades do Estado ou da equipe interdisciplinar, o único pretexto para esses eventos é o autoritarismo de uma mulher que ocupa dissimuladamente um cargo de chefia.

Entediado, Randle executa a primeira fuga em grupo e os leva para pescar, antes de chegar ao destino buscam Candy, companheira de Harding (um intelectual com fama de “frouxo”), após distribui afazeres, Randle ocupa-se em levar Candy para um local reservado gerando a cena cômica na qual largam o timão para observar o ato (semelhantemente, a garotos que olham pela fechadura).

A segunda fuga planejada tem sentido inverso trazendo para o local “diversão externa”. Randle liga para Candy e essa leva dinheiro, bebidas e uma amiga, o Vigia noturno não gosta muito da idéia, mas com suborno e uma mulher (a amiga de Candy é oferecida em “moeda de troca”), a celebração é acobertada.

Billy Bibbit, o virgem, tímido e gago, encanta-se por Candy e pergunta a Randle se pretende casar-se com ela (aos 3:00 min. No vídeo abaixo) , Randle não só entrega-lhe a mão:

– Você quer um encontro? Tem de ser rápido…
– Não agora!
– Então quando?
– Em um fim de semana livre.
– Você está ocupado agora? Tem algo pra fazer nesse momento? Não? Que bom. Candy venha aqui um instante. Quero que conheça o famoso Billy Bibbit. Tem que fazer isso por mim, ok? É só um garoto.
– Sim
– Billy? Aposto vinte e quatro dólares que vai “incendiar” essa mulher.
– Minha nossa…
– Candy, querida. Eu te amo. Dê conta dele.

A sádica enfermeira Mildred descobre na manhã seguinte o ambiente devastado e pune severamente Billy, tornando-o ciente que sua mãe, amiga e companheira de fé,  ficará profundamente desapontada ao ouvir a transcrição do ocorrido. Desesperado, Billy tenta o suicídio e Randle em resposta, estrangula a enfermeira quase lhe dando fim.

É o momento de vingança “pelas próprias mãos” onde se pode vibrar por um homem defensor da “boa vida”, asfixiar a vilã. O que antes poderia tornar-se uma excelente crítica ao cárcere ou a patologização humana reduziu-se a enaltecer a forma despretensiosa em que homens desenvolvem-se, e os propósitos femininos; encerram-se em servir de entretenimento ou restringir esses “impulsos naturais”.

Criticar um clássico do cinema (vencedor de cinco Oscars e seis Globos de Ouro), por seu conteúdo misógino é não relevar o teor das representações femininas onde quer que estejam: Na Bíblia, em um quadro, ou uma obra de arte, atentando para as limitações que a mentalidade de cada década produz, obviamente.

Um Estranho no Ninho de 1975 é incontestavelmente mais retrógrado (sob o aspecto da autonomia sexual feminina) do que o musical Cabaret de 1972. O intuito feminista não é “queimar” obras de valor histórico, mas evidenciar o quão injustificável é isentá-las de seu machismo introjetado.

28 fevereiro, 2011

Bruna Surfistinha

Posted in Filmes tagged , , às 3:52 pm por Deborah Sá

Não li “O Doce Veneno do Escorpião”, em grande parte porque superficialmente o descreviam como um manual de dicas de sedução. O relato cine-biográfico de Bruna Surfistinha (pseudônimo usado por Raquel Pacheco, quando garota de programa), despertou-me o interesse. É enriquecedor ter acesso aos relatos de quem vivencia realidades distintas não para o emprego do olhar de presunção antropológica diante daquele que julgamos “não-civilizado”, mas sim, como uma oportunidade de diversificar o modo no qual experimentamos a vida.

Meu ponto de vista sobre prostituição permanece, é uma indústria que lucra com o infortúnio feminino borrando-lhes a identidade (o corpo fora de foco é um recurso usado nas filmagens), esvaziando o sentido dos sujeitos.

Raquel foi adotada por uma família de classe média, hostilizada no colégio por não ser popular (ou “bonita”), esperam dela uma profunda gratidão pelos benefícios que teve acesso, entretanto, tudo o que Raquel desejava era o que jovens comuns aspiram: Carinho, atenção e respeito. Destratam sua experiência por ser abastada focando em sua condição financeira, silenciam-se seus percalços, a gênese de Bruna Surfistinha é seu gênero.
Semelhantemente a Séverine em “A Bela da Tarde” é mal interpretada por buscar independência na prostituição, análoga a “Geni” não fazia acepção no trato e com um sorriso alcançava vez ou outra algum prazer nesse altruísmo.

Há acusações de que Raquel incentiva a prostituição e a glamuriza ao publicar um livro de relatos cômicos, ou, a linha de acessórios eróticos que pretende lançar. O blog da Surfistinha foi uma ferramenta para redigir (ela sempre gostou de escrever), além de um canal de comunicação entre seus clientes. Quem estaria disposto a escutar Raquel? Apoiá-la? A rejeição foi uma constante em sua vida, não restaram amizades, familiares ou qualquer amparo, sob qual justificativa devemos cobrar-lhe posturas morais?
Raquel ergueu-se em solidão e silêncio, nas entrevistas deixa claro que ao verem o filme não buscarão recriar sua história. Seus clientes queriam Bruna, a moça com aparência de “Surfistinha”, despir-se da segunda identidade não seria uma boa publicidade, o público não iria ao filme intitulado “Raquel Pacheco”.

É de admirável coragem se expor (foi necessário dar voz a Bruna, para que Raquel fosse ouvida), ciente que muito provavelmente a família não a perdoará e os intelectuais continuarão a dar de ombros para quem não tem diploma e abriu mão de “regalias” por uma vida “fácil”. Raquel não quer piedade, não desdenha das prostitutas que ganham menos, anônimas, ela respeita suas histórias, só espera que respeitem a sua.

A audiência que espera a nudez de Deborah Secco e excitação sem esforço se decepcionará. Claro, há quem por anestesia empática enxergará uma figura para dar vazão à misoginia (a música que encerra sua narrativa elucida o quão áspera foi sua trajetória)

Nesse vídeo, uma senhora de 74 anos que se prostitui desde os 17, ainda exerce a profissão na Praça da Sé, desamparada e entregue as circunstâncias. Nos camelôs próximos ao local, é possível adquirir o vídeo Pornô de Elisa Samudio.

Há quem sustente a excitação sob a pilastra do ódio, isso não engloba apenas aqueles que deliberadamente buscam vídeos de teor “violento”: Quem contrata prostitutas, travestis ou jovens para entretenimento sexual são homens brancos, casados, comuns.
Patologizar essa “clientela” (“doentes”, “loucos”, “pervertidos”) foge do cerne da questão, há um respaldo social para o homem que paga pelo sexo. Devido à fixação em debates de cunho sexual e grande parte deles, serem atrelados aos valores religiosos, acreditamos que qualquer fantasia é promovida por uma natureza impulsiva.

Ou seja, como os conceitos eróticos são categorizados em “fantasias”, temos a falsa impressão que tudo o que for experimentado é “primitivo”, a Pornografia tem o status que se alcançou enquanto é enxergada como um reflexo “cru” das identidades e práticas sexuais. Todavia, como qualquer indústria, dita tendências, construindo ídolos e estigmatizando minorias.

9 novembro, 2010

Tropa de Elite 2

Posted in Filmes às 1:18 pm por Deborah Sá

No primeiro filme, telespectadores vibraram com o método antiético que Capitão Nascimento exercia sua função no estilo “os fins justificam os meios”. Sob a couraça incorruptível de bravura moral e prezando a manutenção da paz social (aos cidadãos de bem, que fique claro), saudavam este anti-herói que seria o “Presidente Ideal”. Parece que alguns espectadores alienariam sua privacidade para saudar câmeras e policiamento maciço nas ruas. V de Vingança?

[Atenção: Contém Spoilers]

O que difere Tropa de Elite de sua seqüência são os desmembramentos da mentalidade Libertária e Conservadora, sendo Lado A para a torcida de Direita e o Lado B para nós (pois me incluo), os vermelhinhos. O Professor de História Diogo Fraga (no início tratado como um vilão ingênuo) defende os Direitos Humanos diante de uma platéia de universitários ludibriados por um discurso utópico (lembrando que a narrativa é conduzida por Capitão Nascimento).

O personagem Fortunato me arrancou gargalhadas, fazendo rir também o Yuri (Vilão Aluno de História) e minha mãe (que faz faculdade de Serviço Social). O resto do cinema não achou tanta graça das “ibagens”.

Capitão Nascimento é “sujeito homem” da forma mais visível que poderia: Cumpre suas funções como dever cívico e busca a proximidade entre o filho quando lutam juntos, insinuando em descontração que o favor que o filho fez à amiga, deve ao fato de ser “Muito gostosa”.

Para os fãs que buscam referências ao primeiro encontrarão além do objeto-fetiche “Saco Plástico”, um aprendiz que segue a risca seu instrutor e por não ter a proteção que só mesmo os protagonistas possuem, vira mártir. Proteção esta que Nascimento parece esbanjar em uma cena digna dos anos oitenta onde um só homem enfrenta projéteis em profusão.

O discurso de Fraga ganha legitimidade na medida em que Nascimento constata que seus esforços não alteram a lógica da corrupção e o sistema opera de forma indireta, impessoal e auto-sustentável.

18 outubro, 2010

Como Esquecer

Posted in Filmes tagged , , , às 12:56 pm por Deborah Sá

O que é o contrário do amor?

Notei nos primeiros instantes que talvez não fosse simples tarefa escrever ou mesmo falar de como impactou. Por encontrar um pouco de mim em cada personagem, reconhecer na tela grande meus defeitos tornou-se uma inusitada autocrítica. Tal qual Júlia me desdobro em equações racionais para lidar com conflitos e metáforas corporais (nem sempre compreendidas), “Mas do que você está falando? Está maluca?”. O sentimento de corpo aprisionado me rondou em maior parte da vida e a ironia é idêntica quando mal humorada. Júlia tenta superar o término de seu relacionamento com Antônia e ao contrário de Hugo não crê que um envolvimento resolveria sua frustração, ligar-se a uma linha invisível geralmente leva a dependência e ao longo da trama Júlia busca o desprendimento.

Hugo tenta acolhê-la enquanto lida com a morte do companheiro e propõe a Lisa (amiga), dividir uma casa a três. Júlia possui uma amargura que não me pertence levando a uma identificação absurda com Helena, seu modo franco e suas frases poderiam ser facilmente ditos por mim. Mas o que fez gostar tanto deste filme vai além da identificação.

Os personagens não são imbatíveis e plenos, o foco é justamente a fragilidade transitória que tod@s passamos, quer seja comendo biscoitos em frente à TV ou bebendo pra esquecer lidamos de forma distinta com o cotidiano. Não se faz qualquer questão de apontar direções e talvez este seja o grande mérito da narrativa: Permitir que caminhemos por destinos incertos.

Prudentemente as cenas lesbianas não se enveredam por clichês para “Hétero Ver“, tornando as imagens de sexo fluídas de aspecto “sem retoque”, o que pode decepcionar homens que esperam uma Ana Paula Arósio de “Hilda Furacão”, ao invés de uma mulher “comum”. Aprecio quando o cinema consegue mostrar estas mulheres tão palpáveis a nossa realidade, uma das minhas atrizes preferidas Kate Winslet (*suspiro*) geralmente interpreta papéis do gênero.

Embora o Cinema Nacional tente trazer luz a pluralidade, infelizmente estas produções são restritas a poucas salas de exibição, se na programação televisiva as insinuações de sexo oral mulher/homem são freqüentes, ao que tudo indica, falta muito para que em rede nacional uma mulher faça sexo oral em outra.

Nesse ínterim, o Capitão Re-Nascimento da Testosterona encobre qualquer estréia e revive um Nacionalismo bizarro típico de quem espera que a Ditadura retorne para manter o Cidadão de Bem na bolha TFP.

30 julho, 2010

Toy Story 3

Posted in Filmes às 4:51 pm por Deborah Sá

Algumas pessoas defendem o cinema como puro entretenimento. Dizem que o ideal é entregar-se a trama despretensiosamente deixando qualquer ideologia da sala pra fora. Acreditar que qualquer produção cinematográfica não tenha em sua trama conceitos morais beira a ingenuidade, em especial as direcionadas ao público infantil. Mães, pais e educadores certificam previamente a classificação etária e a proposta pedagógica do que será exibido.

Toy Story mostra a amizade entre dois bonecos: Woody e Buzz (um cowboy e um astronauta – ambos brancos), enfatizando o aspecto lúdico de brinquedos não virtuais e a valorização de crianças bem comportadas. Enfoco aqui, a última produção da trilogia.

[Se pretende ver o filme, não prossiga a leitura contém spoilers]

Dia e noite

A animação que precede o filme intitulada “Dia e Noite” usa dois personagens em um fundo preto, representando o “cenário” noturno e o outro diurno. Deste modo:


Não se engane pelo arco-íris

Defendendo as belezas de seu tempo, o “dia” reflete a imagem de uma moça em seu banho de sol, despertando na “noite” comportamentos galanteadores. O enfoque cômico normatiza a observação imperceptível de mulheres (chamo isso de “Buraco da Fechadura”). Ao término da animação de seis minutos, há um discurso em voz grave contra a intolerância e preconceito.

Casamento?

Andy (dono dos brinquedos) irá para faculdade levando além de sua bagagem, Woody. Os demais teriam como destino o sótão, ressentidos, tentam convencer o cowboy a mudar-se para uma creche. Woody os chama de “egoístas” argumentando: – Não podem fazer isso! Olhem nos seus pés! (há a inscrição “Andy” em todos) Nós somos do Andy, os brinquedos dele!

Fraternidade entre quem é reconhecido como sujeito

Homofobia

Na creche, Barbie (recém-chegada) encontra Ken (efeminado) e formam um casal. São muitas as cenas onde personagens demonstram reprovação aos modos de Ken, nenhuma piada ou insinuação homofóbica é repreendida.

Tortura

Após ser torturado, Buzz enfrenta seus amigos sendo resetado no modo “espanhol” (em cenas de estereótipos latino-americanos). Qual a relevância pedagógica de inserir a tortura? “Vilões torturam?“ Já ouvi uma criança que no contexto de uma brincadeira em que era vilã encenou uma cena de tortura com um coleguinha. Crianças não devem ser privadas sobre o mundo que as cerca, adultos devem falar abertamente sobre o real significado das palavras (sejam quais forem).

Onde está o discurso igualitário de “Dia e Noite”? A música tema de Toy Story “Amigo estou aqui” aplica-se a camaradagem de um universo que embora colorido, ainda é masculino, branco e hétero.

15 março, 2010

Chicago

Posted in Filmes tagged às 3:58 pm por Deborah Sá

O filme mais recente que me deu vontade de dançar é Chicago. Vi um trecho de Cell Block Tango na casa do meu pai, como era tarde da noite e precisava trabalhar fui dormir. Aluguei semanas depois e confirmei as expectativas.

Roxie Heart (Renee Zellweger) sonha em ser vedete, enganada pelo amante que promete contato na área pede explicações, jogada contra a parede abre a gaveta, saca a arma e o mata.  Na prisão conhece outras mulheres.

Entre elas está Velma Kelly (Catherine Zeta-Jones), uma arrogante vedete e a carcereira Matron “Mama” Morton (Queen Latifah).

A rivalidade entre Roxie e Velma mostra-se como saída para a sobrevivência de ambas em uma cidade como Chicago.

Mulheres optam por casar-se com um homem (mesmo o achando um imbecil) como conseqüência das opções que restam a elas.

Qual é a saída mais próxima de rebelião nestes casos? Adultério?
Isto também é bem claro nas Brumas de Avalon, a própria Morgana vê-se forçada a casar com um homem que não ama graças aos desígnios da Deusa.
As mulheres não estarão libertas destes inconvenientes enquanto as oportunidades econômicas não forem equiparadas aos homens, um casal hétero terá mais chances de ter dinheiro do que um casal de lésbicas.

Saiba entrar na dança

Roxie não seria facilmente inocentada por um Júri que valoriza uma esposa recatada e de bons modos, para que sua defesa contrata o melhor advogado de Chicago. Com sua credibilidade jurídico-masculina dá uma nova voz a Roxie durante a comitiva da imprensa.

Chicago não culpa

A imprensa local e os populares de Chicago buscam imagens chocantes da punição de mulheres como as mostradas no presídio, mas quem vê as histórias das personagens torce para que elas saiam vivas dali… De preferência em posse de outra arma.


OBS: É infinitamente melhor que Nine.

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