13 dezembro, 2013

2013 – Mortificação

Posted in Egotrip às 12:37 am por Deborah Sá

A vivência universitária me transformou. Permeou os dias, tomou o juízo, mexeu nos afetos, engoliu meus domingos, jogou no olho do furacão. 2013 foi um eclipse. Houve momentos ensolarados, os que alegraram, sabem. Eu os disse. E essa é a resolução do próximo ano, eu direi. A raiz do cristianismo me cooptou na mortificação, no silenciamento. Isso significa, em outras palavras que peço desculpas demais, me justifico demais, aproximo cheia de cuidados. O ano em que puxei raízes para fora, mas ao menos disse, ao menos não engasguei, não rodou na mesa um único vintém de arrependimento.

There’ll be days when I’ll stray
I may appear to be constantly out of reach
I give in to sin
Because I like to practice what I preach
I’m not trying to say, I’ll have it all my way
I’m always willing to learn
When you’ve got something to teach
And I’ll make it all worthwhile

 

25 novembro, 2013

Troublemaker

Posted in Egotrip às 1:18 pm por Deborah Sá

Outro tempo. Outra forma de levantar, de sentar, de respirar, de cuidar de si. Outra forma de sentir a ansiedade. Outra forma de distribuir o peso. Outra forma de se perdoar. Outra forma de doação. Eu, outra. Eu discordo. Eu sou a antítese. Para que haja síntese. Para que haja tese. Para que nunca pare. Para que aja o incompleto sem preenchimento. O vazio. Naive. É uma das palavras em inglês que mais gosto, faz o som de navegar. Ela alonga o pescoço, empina o queixo. Ingenuidade, um pedaço de desconhecimento e fé no que virá sem precisão. Eu não busco a verdade, eu busco potência. Não esquentava banco de escola, por isso saí. Não esquentava banco de igreja, por isso. Não esquentava escritórios. Saí. Eu leio, eu devoro, eu conjugo, eu escrevo. Movendo de lugar em lugar. Eu largo. Eu não esquento. Minhas mãos, meus pés, meus quadris, arrefecem sem o calor do outro. Julgava ser espécie de repelente, ser gelada, ser das extremidades. Mas é frescor da mudança, novos ares. O cabelo muda nas próprias mãos e tesouras cegas. E vou. E vamos. E se vir, será, bem vindo.

6 setembro, 2013

Tem alguém aí?

Posted in Egotrip às 9:58 am por Deborah Sá

No último post não entenderam que se tratava de um pedido de ajuda. Como a maioria das coisas que gosto, sigo, acredito, elas se tornam um mistério até que pense, escreva, ouça bastante os outros. Por isso compartilho cada pormenor, se tem gente que bebe pra que a verdade saia, sento diante das letras. Lá (e aqui) não tem escapatória, psicografo no barulho de teclas, ordeno ideias, assombro com o que sai e quase sempre está de mudança. Por esses dias escrevi versos a caneta, me envergonhei deles, amassei, rasguei, joguei no lixo. Fazia tempo que não sentia vergonha de meus escritos, foram eles os ajudantes até então, na coragem pra levantar da cama por anos a fio, vislumbrar as inclinações mais sinceras e apaixonadas. Contudo, se busco explicações, os resultados são não lineares e fogem de respostas simples.

Enquanto trânsfuga de classe há um desenraizamento do meu local de origem (que nunca me senti realmente parte), para viver em outro não lugar: A faculdade. É final de semestre, minha pesquisa tem de estar pronta até fevereiro (e ainda faltam muitas entrevistas, leituras, relatórios), meu relacionamento teve a primeira crise (mas estamos nos acertando, acho <3), mês passado menstruei duas vezes, a dentista tem forte suspeita de que eu esteja com bruxismo (os dentes da frente estavam com pontinhas quebradas), nas últimas semanas o horário de dormir tem passado das duas e meia da manhã, não tenho conseguido comer muito bem, experimentado fortes dores de cabeça, não lido muitos textos das aulas. Faço um esforço terrível para contar para os outros que estou sofrendo pra valer. Sinto que meus problemas são pequenos, a minha saúde e paz de espírito estão mostrando que não.

Senti-me por vezes um estorvo na vida de familiares, amigos, amantes. Pensei que ao me abrir os silenciava, ao calar, não me reconhecia no espelho. É nó na garganta. Complicada até pra mim, pensei em jogar tudo para o alto. Porém, havia um fiozinho de esperança, se esse é o ano mais difícil é também o que me trouxe mais descoberta, mexeu com as minhas certezas, coisas que a faculdade faz com a gente. Tenho medo de pontes, não passo nem da linha amarela do metrô e se estou triste assim, procuro evitar passar perto, pensamentos que colocam muito abaixo fazem o corpo puxar de vertigem. Logo recordo das minhas avós não terminarem nem o ensino fundamental, sou a primeira da família na faculdade pública, enfrentei a escola, enfrentei e enfrento o passado do meu avô, enfrento a vergonha pra me aproximar de gente que acho interessante, passei por cima de uma série de convenções pela honestidade com pulsões não convencionais. Estou aqui. Contrariando todas as expectativas, eis me aqui. Dei e dou (amém, imãos!) com muito gosto.

Ter uma boa autoestima (nem cabe nos dedos das mãos as vezes que olhar no espelho e ver meu cabelo fabuloso foi o que me fez ter forças de sair de cabeça erguida de casa) não significa que eu não fique insegura, basta buscar nos arquivos do blog para ver que eu fico desolada e “em crise” nesses novos ambientes (faculdade, troca de emprego).  Ao conviver um pouquinho comigo off-line dá para perceber que digo muito “com licença”, “por favor”, “obrigado”, ”me desculpe”, polidez ás vezes é interpretada como timidez. Tenho um profundo respeito e admiração pelas pessoas das quais me aproximo, queria fazer se sentirem ótimas e lindas como as fotografo nas minhas retinas, as fazer saber a felicidade e a empolgação de ganhar seus abraços, suas palavras de afeto, seu apoio, me sinto tremendamente grata pelo que dizem e pelo que ouvem. O soco no estômago nesse período de cobranças foi vislumbrar que talvez esteja atrapalhando demais os outros e dá-lhe implosão, raiva e mais implosão.

Meu orgulho, esse que lutei tanto pra construir não impede em nada de sofrer, a troça que faço da relação harmoniosa com o espelho não esconde uma insegurança latente. Não é proteção e escudo. É a mais brutal sinceridade. Se amar não merece castigo, nem solidão, é direito conquistado a duras penas e não, não abrirei mão dele. Isso não me tira o senso de realidade, sei que minha beleza passa longe dos padrões, nunca fui e provavelmente não serei uma aluna nota dez (minhas notas se aproximavam de oito). Tenho dias bons e ruins, mudo de rumo e cometo erros. Da mesma forma que gosto de ser venerada, adoro venerar (um clichê leonino). Amo interagir e me devotar aos semi-deuses que todos somos, declamar apreciações, dedicar versos. Uso as palavras veneração, dedicação, apreço e orgulho uma vez que não gosto de eufemismos e quando se escreve, nenhuma palavra é despropositada. As letras são os recursos na minha dispensa e tal e qual as emoções, preciso de você pra tornar o escambo possível.

5 setembro, 2013

Escorrendo

Posted in Egotrip às 2:48 am por Deborah Sá

As sessões no psicólogo duravam cerca de duas horas e meia. Ele era bem camarada e cobrava o preço de uma sessão comum. Quando comecei a menstruar foi aquela loucura, dois absorventes, lençóis e roupas manchadas. Fiz exames, nada de errado. Em termos sexuais também tudo é muito intenso e molhado. Sou um grande fluxo, seja nas palavras ou nos gestos. Acordo assim, tagarelando.  Se cada pessoa tem uma cota de palavras por dia a minha deve no mínimo, ser o triplo. Faço esforço pra escrever pouco, falar pouco. Meu estado natural é: Empolgado, sorridente, afetivo, típico das criaturas efusivas e expansivas.

Um incômodo me tomou por esses dias, não que não houvesse pensado a respeito antes, mas agora foi possível enxergar um padrão. Sinto que por ser essa torrente algumas pessoas ficam inseguras. Por exemplo, uma moça com que trabalhei ao se despedir disse “Que pena que está saindo, gostei tanto de você! Aprendi tanto!”. E eu respondi “Eu também! Você me ensinou muito”. Ela respondeu de volta “Mas não tem nem comparação! Você tem tanta informação!”.  Já ouvi “Sinto que se faço trabalho (em grupo) com você, estou te segurando” e em outro momento “Você transborda e eu…me sinto desinteressante”. São coisas que doem ouvir. Me aproximo de quem gosto e me desperta o interesse, mas algumas vezes são tímidas ou bem menos expansivas, detesto sentir que estou as silenciando. Quero que enxerguem o quanto são incríveis e se o palco é grande, meu coração é maior ainda.

Entra em cena o recorte de gênero tradicional e dicotômico. Se fosse um homem galanteador, seguro, “cheio de informação”, escritor, bonito e até um pouquinho petulante, seria considerado  charmoso, provavelmente cobiçado, mas não ameaçador. Não teria de pensar “podem se afastar de mim por se sentirem intimidados”, mas abriria braços e alas para passar. Élisabeth Rousset, Geni, Maléna, Capitu, a figura feminina que honra os brios não costuma ter final feliz, acaba por ficar sozinha ou cair em emboscadas, os demais personagens não levam a sério por descrédito moral. O que explica o roteiro clássico dos meus pesadelos (quem sabe até, meu medo de multidões). E só pra contrariar, como é de meu feitio, prefiro ser manga. Grande, perfumada, suculenta, com um caroço enorme no meio e convenhamos, para os que gostam mesmo, pouco importa os fiapos.

19 agosto, 2013

E-mail dos leitores e os últimos acontecimentos

Posted in Egotrip às 3:26 pm por Deborah Sá

Há uma porção de coisas boas na minha vida nesse momento. A bolsa da pesquisa saiu, estou conhecendo mais gente bacana, revendo posicionamentos e em período de transformações internas, isso traz um pouco de incertezas e no fundo isso me dá prazer. Tem sido importantíssimo todo o apoio e o carinho que recebo por várias vias nesses últimos dias, inclusive por e-mail, como dessa leitora:

Oi Deborah tudo bem? meu nome é X eu acompanho seu blog fazem uns dois anos. Há alguns meses você comentou sobre um sonho em que você interrompia uma reunião de baratas. Depois de morrer de rir lendo a história eu comecei imaginar uma cena um pouco diferente da montagem que você utilizou para ilustrar o post e resolvi desenhar,o problema e que depois que eu terminei eu não fazia ideia de como te mostrar ,considerando que você é uma pessoa sensata que não dá o seu endereço domiciliar para uma completa estranha que diz ter feito um desenho sobre um sonho maluco seu, bom como eu não tenho nenhuma rede social o email era a única alternativa, mas minha impressora/scanner tá estragada e só semana passada foi que meu vô, que ganhou uma impressora/scanner nova, deu a velha dele para a minha familia. Hoje eu consegui scannear e te escrever este email,espero que você goste bjs.

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Obrigada, moça! Esse é o tipo de surpresa que me faz sorrir :)
Me vou e assim que der, mando mais notícias desse vasto mundo off-line!

7 junho, 2013

Mover

Posted in Egotrip às 6:08 pm por Deborah Sá

Me exercito porque amo meu corpo, não porque quero muda-lo. Dele não me envergonho ou escondo. Não quero secar, rasgar, doer. Eu quero sentir o coração batendo por toda sua extensão, eu quero que toda parte dele ganhe mais autonomia e movimento. Amo meu corpo pela sua capacidade, em todas as marcas, em toda sua inteireza. Ele é completamente funcional e atende as minhas necessidades. É através dele que existo, experimento, vibro, provo. Por que hei de odiar a matéria da qual sou feita?

27 maio, 2013

Onírico e fudido

Posted in Egotrip às 12:19 am por Deborah Sá

Queria saber qual a lógica por trás dos meus sonhos que repetidamente insistem em frustrar, se é sonho, tenho grande chance de me fuder. Nem em sonhos as coisas caem no colo, é sempre uma odisseia com muitos obstáculos. Geralmente aceito os poucos recursos mesmo sem muita empolgação, fazer o que? Dentro daquele cenário é assim que as coisas acontecem. Uma vez sonhei com uma paisagem rochosa (como aquelas que grupos de leões marinhos descansam) cheia de Cacos Ciocler apenas vestindo jeans, eles estavam lá, esperando por mim, só me restava chegar até cada um deles e opa! As pedras eram escorregadias e se eu caísse, bateria a cabeça. Acordei assustada. E rindo. Teve o dia que interrompi uma reunião de baratas, estava realmente encrencada. Nos meus sonhos vivo em um ambiente hostil e a vida dos outros depende das minhas escolhas, são questionários com luz na cara e uma resposta errada, zás, tudo pode dar errado. Isso, se não sou perseguida por um desconhecido sem rosto. A parte boa é que agora sonho com maior riqueza de detalhes, quando sexuais (e até neles, faço sexo seguro). Em algum momento aproveito aquela realidade com a adrenalina do sexo furtivo (pois quando se trata dos meus sonhos, é assim que as coisas são). Por sorte, ao abrir os olhos e sair daquele mundo a realidade me é mais generosa.

5 outubro, 2012

Do que são feitas as pintas

Posted in Egotrip às 3:27 pm por Deborah Sá

O diabo com a cabeça fervilhando cozinhava no caldeirão
Precisou de agridoce colocou açúcar e mexeu, mexeu até ficar bom
Deus pra não deixar barato colocou um quadradinho de tempero
Transparente e áspero, porque ele é um tantinho sádico e sem vergonha
O diabo que é competitivo e muito sagaz jogou pimenta
Pra mostrar como é que se faz
Com uma manga dessas perfumadas e inteiras
Polpa e caroço no borbulhar pulavam:
Frutas cítricas, cardamomo, raiz de gengibre
Deus, flambou com conhaque ás favas de baunilha
Pra encerrar, de mãos dadas
Enterraram com cuidado um botão de cravo
Bem acima da boca

4 outubro, 2012

Ser gauche na vida

Posted in Egotrip às 4:39 pm por Deborah Sá

Estender os véus no varal, as mãos enrrugadas de lavar quintal, hinos tocando ao alisar a barriga que espera mais um, aguardar o marido enquanto pensa o que será o jantar. É onde estaria nessa quinta-feira se tivesse seguido o que o destino colocava como única saída. Não me satisfazia, mas também não sabia o que desejar, já que sonhos germinam em terra úmida e fizeram-me semi-árido do querer. Foi de escrita que fiz lágrima, foi de tinta que fiz raiz, foi de tempestade que fiz cais. Trabalhei em escritórios, desses pequenos e improvisados, desses no fundos das casas, desses de ar-condicionado e de prestigiosa avenida. Todos quantos tentei, não fui feliz.

Auxiliar Administrativa, Secretária, Telemarketing, é disso que é feito meu CV, e uma carteira de trabalho com o primeiro carimbo de quatro anos atrás: Seiscentos e sessenta e oito reais. Comprar um Gol pra lavar no fim de semana, ter orgulho de limpar pneus com escova de dente, era esse o referencial de vida ganha. Recusei o saber técnico de um cargo burocrático, feminino, mão-de-obra barata, substituível. O que me cativa está no pensamento, nas letras impressas e nas telas, nas conversas de bar, no diálogo com o recém-conhecido, nas cartas trocadas, no amor que não cessa, no silêncio que acompanha o reinventar, no som das palavras e da música, na excitação de uma conversa boa o suficiente pra terminar em sexo, no movimento dos corpos. Perder-se pra achar alguém diferente logo adiante, outro de mim. E hoje enquanto cobria os olhos para proteger do sol uma frase me soprou ao pé do ouvido “Vai! Ser gauche na vida”.

16 julho, 2012

Amores não consumados, entre livros e monitores

Posted in Egotrip, Memórias às 4:48 pm por Deborah Sá

Não faz assim que eu posso até me apaixonar

Atípicos no bairro (além de sermos uma família “crente”), tínhamos um computador comprado com dinheiro suado, mas nenhum carro na garagem. Lembro a primeira vez que vi um scanner de mão funcionar, achei o ápice da tecnologia o gibi da Magali com balões na capa digitalizado em preto e branco para a tela do computador, parecia mágica. Ainda mais remota é a recordação das escadas da empresa do meu tio, era um corredor que dava para o computador do meu pai e eu pedia para colocar o jogo do “mata mushquito” (como eu chamava Space Invaders). A tela preta do DOS com letras verdes, os disquetes grandes, o barulho de impressoras matriciais, usar como papel de rascunho para desenho aquele monte de papel com rebarbas e furinhos nas laterais, são partes de minhas memórias de infância.

Por volta dos nove-dez anos fazia um “show” para minha irmã, era “Da pulguinha alegre e saltitante”, consistia em recortar uma pulga cor de rosa desenhada no Paint Brush e mexe-la para cima e para baixo, com voz e personagens que nem lembro. Um dia matei simbolicamente a tal pulguinha em um episódio Season Finale porque estava com raiva, o que fez a minha irmã chorar. Será que minha irmã (agora com vinte anos), lembra disso?  As crianças do bairro brincavam muito na rua, eu e minha irmã não éramos muito fãs de sair para brincar, na verdade, a gente evitava sempre que possível. Uma vez minha irmã levou um tombo tão feio…Caiu de ombros e foi ralando no chão. Tudo bem que ela se machucava em casa de todo modo, pois gostava de correr pela casa toda e não era raro cair da escada. Ela tentava escalar com uma perna em cada parede do corredor, fazendo dessas coisas que sempre me meteram medo, “adulta” e “destemida” . Enfim, voltando a tecnologia…Ao invés de brincar na rua, preferia brincar no Word e no Paint Brush.

Eu gostava de borboletas e golfinhos, bem na época que minha mãe comprou uma enciclopédia onde aprendi um pouco mais sobre eles, com isso palavras novas, por exemplo, “inócuo”, a enciclopédia dizia que borboletas eram seres inócuos, agora tinha mais que um dicionário para aprender (me divertia lendo o dicionário). Logo veio meu desejo por conhecer algum clássico e li Memórias Póstumas, foi quando me apaixonei por Machado de Assis, queria que um garoto me considerasse inspiradora o suficiente para dedicar um soneto, algo como até um anjo cala, quando ela fala . Ele era um zé ninguém, como eu, ele era alguém que parecia inadequado, eu desejava o Machado para mim. Como um namorado, um amante em outra época, eu tinha braços bonitos (talvez um pouco mais gorduchos do que minha época exigia), ele gostava de braços e possivelmente gostaria dos meus, sabia que ele já estava morto, mas a narrativa dele, o modo de falar com o leitor, era algo que eu não havia sentido antes. E claro que era embaraçosa essa admiração secreta por um cara morto. Ainda mais quando o outro cara que me fazia suspirar de amores, tempos depois, era o John Lennon. Lembro de um dia sentar nos degraus da quadra, na oitava série e desabafar com um grupo de rapazes : “Parece brincadeira, mas os homens que eu queria pra mim, já estão mortos antes mesmo de eu nascer”.

Outro amor platônico foi o Brian dos BSB, dediquei metade de um diário para ele, mas depois me senti culpada por não ter dedicado esse espaço para Deus, rasguei, joguei fora. Criei um para registrar minha santa ceia anual na igreja, nunca teve mais que duas folhas preenchidas.
Com o Word fazia protótipos de um blog com traduções de músicas do Radiohead, criei um blog virtual, deletei, criei um com a minha irmã, chamado “O NormalMente”.  Também deletei.  Criei o blog “É mais isso”, tive um namorado virtual (digamos que um amor não concretizado não tenha sido uma novidade), depois no Orkut tive outro “rolo virtual”, escrevíamos poesias um para o outro, como se nesse espaço das letras fosse o único para que nosso amor desaguasse, sabíamos que seria só isso, foi como uma espécie de sexo casual, mas romântico e cibernético.  Também tive um namoro virtual “sério”, desses que moram em outro estado, você conta para seus familiares (e é chamada de imbecil), trocam fotos de infância um com outro, promessas, e tem de terminar porque sabe que ele nunca virá para te ver, termina por amor próprio e vai curtir a dor de cotovelo ouvindo Maria Rita enquanto assiste slides de fotos dele.

Em um momento as coisas se misturaram, passei a encontrar “na vida real” os rostos e avatares de quem conversava comigo “virtualmente”, assim vieram amizades em abraços sinceros, ombros que amparam, meu companheiro há seis anos, minhas companheiras de luta, também ativistas.  Me sinto um pouquinho na Zona Sul, no Centro, até na Zona Leste, mas sem a cobrança de sentir um ponto fixo demarcado. Caminho por ainda mais livros, com um relógio que substituiu o tic-tac dos ponteiros, para marcar as horas em duplo clique.

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