26 outubro, 2014

Entre a pureza e a malícia, como percebemos a infância

Posted in Corpo, Educação, Sexo, Violência tagged , às 2:49 pm por Deborah Sá

Lolita, novinha, menina-moça, criança viada. Em virais e memes, na literatura, nos animes, nas telenovelas. São abundantes os exemplos de como retratamos a sexualidade na infância e começo da adolescência. Ora são mostrados como indivíduos ardilosos usando “seu poder de sedução” contra “escravos de suas pulsões”¹, ora como criaturas imaculadas, joguetes na mão de adultos. Acentuamos e desaceleramos essas interpretações conforme temos apreço (ou familiaridade), pela figura analisada, somando a isso, a própria categoria de infância num termo mais abrangente. Em linhas gerais, a duração da infância é bastante imprecisa, no senso comum algumas crianças são mais crianças que outras. O que faz a criança ser parte desse recorte temporal é a manutenção de sua docilidade, afabilidade, sujeição e assexualidade. Quanto mais uma criança não demonstra irritabilidade, sentimentos como vingança, agressividade, fúria e libido, mais “conservada” está em sua pureza, torna-se obrigação resguardar sua segurança. Aliás, esse é o argumento número um daqueles que defendem a redução da maioridade penal “Se já tem maturidade para cometer um crime, já pode responder por ele”. Desse modo, a infância é uma categoria que não corresponde determinada faixa etária, primordialmente, é visão moral sobre sujeitos, tão somente se não forem esses, capazes de atos sádicos ou sexuais. Os que cometem tais ações não “são mais inocentes”. Na continuidade dessa linha de raciocínio, passíveis de sanções e penalidades.

Em idêntica proporção ao julgo normativo esperado dos corpos adultos, as crianças que passam por algum tipo de assédio ou violência sexual, mas, não parecem  “puras como as outras” são acusadas de “provocarem” porque usam roupas, maquiagens, adereços ou se comportam de forma “inadequada para sua idade”. Portanto, se assume que há sujeitos passíveis de violência (inclusive sexual), como medida corretiva, o que é indubitavelmente autoritário e perverso. Para compreender esse fenômeno é imprescindível considerar o peso enorme da misoginia e demais heteronormatividades. A menina é considerada “menos pura” e “provocante” porque não é julgada como criança, é lida como mulher. O menino é considerado “malicioso” porque gesticula e fala de tal forma que “não parece viril” e assim, sucessivamente. Mesmo as crianças que se esforçam na radicalização do gênero designado, são menosprezadas: Alguns adultos podem até gostar de crianças “comportadas”, mas, na cultura de pares (isso é, o que acontece entre crianças quando nenhum adulto está vendo), são lidos como covardes e pouco autônomos. Já a criança que se envolve em brigas, pode ganhar certa imunidade em seu círculo. Se for um menino, provavelmente, até alguma admiração. Entretanto, será um “caso perdido” (especialmente se não branco), ao parecer de professores, diretores e não raro encarado como “um futuro delinquente”. Portanto, raça e classe social também operam nas impressões e prospecções que fazemos do destino de crianças. Exigimos que “se emendem”, sejam projeto de infância perfeita, um protótipo de obediência e mansidão. Elas precisam ser mini-mulheres e mini-homens perfeitamente ajustados em um dos pólos.

E se não se nasce mulher, torna-se, onde estão os exemplos de ser “mulher”? Onde está “ser homem”? A educação e os modelos de comportamento estão em todas as partes e as crianças, em constante interação com variadas plataformas (mídias e círculos sociais), contendo padrões. Assim, por mais que more em uma família nuclear tradicional e jamais briguem em sua frente, uma criança tem acesso aos meios de comunicação, frequenta a escola, o bairro, a igreja, percebe quando adultos mentem, o que chamam de bonito ou de feio, o que incentivam e o que desaprovam nos comportamentos, que tipo de modo de agir vira piada. A criança responderá aos estímulos tentando achar uma boa equação entre o que ela deseja (mesmo que seja um tanto destoante de onde pertence), e o que ela deve fazer para ser reconhecida, respeitada. As crianças duvidam das explicações dos adultos e aceitam sem pestanejar outras tantas, não são elas que fazem as regras. Participam de dinâmicas nas quais suas vontades são pouco consideradas e os limites físicos, bastante rígidos. Por exemplo, se uma criança pequena não quer tomar banho, pular a guia da calçada, ir para uma festa; os adultos escolhem por ela a roupa, colocam embaixo do chuveiro, tomam no colo e levam para qualquer canto. É o adulto que coloca de castigo. É o adulto que bate para repreender e dentro da vida privada, respaldado. É o adulto que define se ela já não é “mais tão criança” e deverá ser condenada.

A criança não é portanto, dona de seu corpo, uma vez que está a mercê de outros corpos adultos ou mais velhos, os quais não só podem proteger do mundo externo, dar carinho, alimento, abrigo, mas também, empregando persuasão e força, causar danos. Considerando desde o início do Séc. XV (onde as primeiras noções sobre infância ganham notoriedade), são inúmeros os casos de adultos e tutores que matam crianças. Os contos de fadas, canções de ninar, mesmo as notícias de telejornal recentes explicitam para as crianças que viver é perigoso. Muitas das que passam por situações de violência sentem-se impelidas em acatar como punição e castigo, “porque merecem, porque são crianças ruins/más”. A culpabilização da vítima atravessa a infância, seja porque não são “puras” o bastante para serem cuidadas, seja porque não atendem a intransigência dicotômica de “ser homem”, “ser mulher”. A legislação moral é severa e recai sobre os corpos, não importa se mal caíram os dentes de leite.

¹ Para explorar mais esse assunto: Doente, monstruoso, bestial: O pedófilo.

Referências: ARIÈS, Philippe. História social da criança e da família. 2. ed. Rio de Janeiro (RJ): Editora Guanabara, 1981

MULLER, Fernanda. Infâncias nas vozes das crianças: culturas infantis, trabalho e resistência. Educ. Soc., Campinas , v. 27, n. 95, Aug. 2006 . Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0101-73302006000200012&lng=en&nrm=iso&gt;. Acessado em 26 Oct. 2014.

Doente, monstruoso, bestial: O pedófilo

Posted in Corpo, Educação, Infância, O pessoal é político, Violência tagged , , às 2:13 pm por Deborah Sá

Escrevi durante vários anos priorizando a experiência de mulheres e crianças que passaram por violência sexual, o leitor mais antigo (ou mais paciente), encontrará pencas de materiais escritos em meus arquivos que passam das centenas. Ademais, preparei um escrito introdutório que subsidiará a leitura do presente texto. Talvez, um dos mais difíceis que produzi até o momento. Dada a alta densidade de envolvimento emocional com o tema, me reservo ao direito de desvelar esse assunto com descolamento de papéis em um exercício intelectual não neutro, uma vez que minhas convicções políticas afetam meu discurso, em uma relação dialógica entre passionalidade e o compromisso com a análise reflexiva.

Tratar o pedófilo como doente é individualizar um desejo legitimado socialmente. O desejo por crianças e meninas é construído. Sem necessariamente buscar por isso, é realmente fácil encontrar (mesmo em bancas de jornal), milhares de imagens de mulheres adultas usando adereços infantis com propósitos sexuais: Ursinhos de pelúcia, maria-chiquinha, chupeta, brinquedos. Há quem sinta prazer em encarnar “a criança” e quem sinta prazer em encarnar “o adulto”, a radicalização desses papéis em contextos sexuais seria o polêmico Infantilismo ou Age Play, neles, adultos mutuamente em acordo interpretam esses papéis. Mas não preciso ir aos extremos, a pornografia mais tradicional norte-americana usa muito o “Daddy” e em algumas regiões do Brasil, se chama carinhosamente o cônjuge masculino como “Papai”. Em várias representações de seriados, filmes, ou telenovelas encontramos a figura de uma garota realmente jovem iniciando e “provocando” homens maduros. Dito isso, reitero o quanto é danoso supor que o desejo por essas situações de poder muito específicas, brotaram de corações malévolos e mal intencionados. O desejo por crianças e pré-adolescdentes não é sintoma de uma doença, mas, manifestação de uma cultura etarista e patriarcal, por meio dela, crianças não são donas de seus corpos. Em padrões moralmente assentados “não são mais crianças”. Nessa cultura alguém mais forte, com mais dinheiro, adulto, preferencialmente homem, pode ser um tanque de guerra. O estupro, é um crime de guerra ideológica demarcando a vulnerabilidade daquele que é violentado. Guerra é história e territoriedade e embora bélica, não é necessariamente fálica.

Posso pressentir muitos que leem, torcer o nariz, como assim, não é relacionada diretamente ao pênis? Não é. Amarre um corpo que possua o referido genital de tal modo que apenas o dito cujo, fique exposto. Por si só, é bastante frágil e sensível, no máximo tem força para sustentar alguns objetos e se precisa de mais força, exige movimento da pelve, isolado não representa ameaça. Simbolicamente, é a virilidade masculina, portanto, sou completamente contrária a ideia de castração como medida punitiva de pedófilos e/ou estupradores. Mesmo se empregada como proposta de punição ao simbólico, se ataca, mais uma vez a ideia de masculinidade, pune-se com a “desmasculinização”. O mesmo vale para estupro de estupradores, ora, se o estupro é a reafirmação do poder com violação não consentida, quem estuprará o estuprador? Quem violará sua masculinidade? Quem “o fará de mulherzinha”, “menos homem”? Logo, combater a barbárie estuprando e emasculando é contraproducente, violentamente patriarcal e mantenedor de idênticos preceitos.

Outra sugestão dada no calor da emoção é o sistema carcerário. Pois bem, encarcerar é tirar da vista, apartar e mais uma vez, individualizar uma discussão bem mais complexa do que bandidos e mocinhos, entre gente “civilizada” e quem “não tem conserto”. Prefere-se dizer que não é “problema nosso”, mas de meia dúzia de “desajustados”. A maioria das pessoas que cometem crimes sexuais contra crianças são bastante próximas das vítimas, isso é, pais, mães, tias, babás, avós, avôs. Considerando o número elevadíssimo das estatísticas se for para levarmos a cabo essa sanção, seria raro uma pessoa em todas as classes sociais, que não tivesse ao menos algum grau de relação ou parentesco com alguém penalizado. Você, leitor, leu corretamente. Eu não acredito que a medida de intervenção aos pedófilos que concretizaram seus atos seja a prisão, a morte, a castração. Isso é endossar a caricatura dos filmes. O pedófilo não é um sujeito excêntrico, reservado, deslocado da vida social, com um sorriso perverso diante das crianças que brincam no parque. Quanto menos familiar esse rosto parecer, mais fácil exigir medidas drásticas de isolamento, tortura e privação da vida comum. Estatisticamente, assim como nos dados de violência contra mulher, quem agride não são desconhecidos, são namorados, amigos, familiares, maridos.

A acusação de pedofilia pode incitar linchamentos mesmo sem provas. Pessoalmente, já tive de intervir em um desses casos no começo de minha graduação. Durante uma assembléia estudantil, houve a denúncia: Um motorista de ônibus fretado foi acusado de ter realizado sexo com uma menor, no trajeto entre o ponto de chegada e partida. A história se amontoou em várias versões, desde o número de pessoas que presenciaram o fato mas nada fizeram para impedir, até supostos vestígios como um chinelo e uma camisinha usada (?), nunca realmente localizados. O resultado foi presenciar pessoas comovidas se jogando no chão (!), gritando, parte de um grupo saindo em busca de facas e demais objetos para matar o acusado. Depois de tentar argumentar fui taxada de “defender estuprador”, “de não perceber o quanto isso era machista”, ou ouvir “vamos estuprar o estuprador”, essa última frase, dita por um indivíduo que desprezo completamente por muitas razões. O fato é que a história minguou de um dia pro outro, mesmo entre as feministas que me acusaram (estavam ocupadas pintando cartazes para uma marcha). Fiquei surpresa e com uma carta nas mãos (contrária ao linchamento), sem saber como processar essa informação. Os anos passaram e a aspereza do tema me sobe como a bile, toda vez que a discussão retoma. Descrevo esse evento com riqueza de detalhes para ilustrar que nesse assunto febril, se faz necessário muita cautela para o debate. Correndo risco de ser colocada no mesmo patamar de quem faz o crime (mais uma vez), tomo a iniciativa de me posicionar. Indiferentemente se é centro-esquerda, centro-direita, anarquista, conservador ou liberal, quando a denúncia é o estupro “justiça pelas próprias mãos”, “meter na cadeia”, “capar”, são atitudes esperadas.

A retaliação aplaca muito pontualmente os ânimos de quem toma as dores do violentado. Não desfaz o crime ocorrido, não impede que novos crimes com a mesma motivação aconteçam. Porque não é isolado, o desejo é socialmente construído, inclusive por crianças. Costumeiramente fazemos vista grossa ou tratamos como algo “perigoso” a criança que se toca sozinha, repete gestos de danças de duplo sentido. As crianças não agem para atrair adultos, se movem porque é simplesmente divertido e “todo mundo faz”. Sejamos francos, “danças proibidas” que “são má influência” para jovens e crianças fazem parte da cultura popular há muito tempo e não é isso, que nos dá estreiteza ética. Julgar alguém passível de morte e estupro por gestos e vestuário, sim. Voltando ao pedófilo que dá vazão ao seu desejo: Os adultos que assediam crianças o fazem porque possuem respaldo social para isso, implicitamente. Aos que sentem desejo por crianças e nunca concretizaram, recomendo que busquem ajuda profissional para reinterpretar e encontrar outras formas de lidar com a libido. Nesse assunto de imensa complexidade, especulo algumas alternativas e além das citadas acima, apresento outra, a educação. Não assumo nesse pressuposto, que os humanos tenham uma natureza boa e são corrompidos por um mundo decadente, em verdade, nascemos e somos frutos de nosso tempo histórico com valores e impressões demarcadas. Ao mesmo tempo, somos capazes de vislumbrar algumas possibilidades, rejeitando conjecturas apontadas como absolutas. Por educação, não me encerro nos bancos escolares, considero também a indústria cultural, a linguagem, os discursos, os saberes científicos, jurídicos, as instituições, a heteronorma, o capitalismo, o etarismo. As raízes estão parte expostas, parte enterradas e com ramos bastante firmes. É mais fácil pintar o outro em tons grotescos do que assumir os respingos de nossas cores primárias.

22 julho, 2013

Mudar a educação! Mas em qual direção?

Posted in Educação às 10:10 am por Deborah Sá

Dizem que a Educação no país é uma merda. Okey, tem muito que melhorar, mesmo. Mas essa crítica é feita em um discurso vazio como “todo político é corrupto”?. Para estar na escola é preciso, de fato, certa dose de submissão para cumprir prazos, ficar sentado, falar pouco. Porém também é possível defender uma pedagogia ativa, transformadora, que dá mais voz aos sujeitos, pra isso precisamos de menos alunos em sala de aula, saber quem são os professores e além disso, lembrar que são humanos e nem sempre estão a fim de trabalhar em condições tão precárias. Historicamente o Brasil associa a docência ao sacerdócio e a figura do missionário (Jesuítas, lembram?). Esperam um professor de inclinação moral, que ame todos os alunos de forma gratuita, que dê sempre a outra face, seja assexuado, um santo (imagine o furor de vazar o vídeo de uma professora dançando funk no baile). Para lecionar é preciso semi-castidade?

Crianças (na perspectiva do Piaget) se apegam muito as regras que oferecemos a elas, baseada nisso, creio ser fator que contribui para a dificuldade em abordar bullying com os pequenos, são indivíduos e estão sujeitos a transformações, claro (beijos, Vygotsky), mas é difícil pra eles ouvir uma coisa em casa, na rua, no mundo todo (coisas de menino x coisas de menina, pra ficar em um exemplo “menor”) e na escola outra (pode brincar de boneca/carrinho). Se militante que já saiu das fraldas faz tempo tem crise de identidade e auto-estima, imagina uma criança! A escola é um ambiente que passamos vários anos, nos transforma, molda, altera, mas também pode ser a oportunidade para acessar conteúdos que de outra forma não teríamos acesso (nem todo mundo tem família escolarizada, internet – pode parecer bobagem, mas é na escola que as crianças aprendem a respeitar a margem do caderno, escrever na linha…), nos fortificar. E por ser um micro-mundo, não se engane, as brigas nos pegam na saída.

Esse artigo é interessantíssimo e levanta algumas dessas questões.

20 junho, 2013

A universidade lembrando meu recorte de classe

Posted in Educação às 2:33 pm por Deborah Sá

AFFF
A internet pode ser espaço de leitura e reflexão e muitos acessos não significam participação. Esse blog, por exemplo, recebe centenas de visitas diárias e em alguns posts não há sequer um comentário. Isso significa que as pessoas não querem escrever, só ler, ou ainda, fazem parte do grupo que prefere comunicar por outros meios a não participação devido a “digerir” as  publicações. Isso é, existem mil razões particulares para se manifestar, observar ou intervir. Isso também é uma ação, escolher o momento de se pronunciar.

A diluição não tão recente entre o espaço público e o privado tem conexão direta com a vida on-line. Nela, as mobilizações se articulam, amizades e amores começam, qualquer um com acesso a internet pode escrever seu relato, criando uma nova roupagem para a aquisição da linguagem e a construção das identidades. Isso também é participação popular. A chamada que faço agora é com o pessoal universitário e/ou com faniquitos ao encontrar erros ortográficos: É frieza desmerecer o relato de alguém em nome da gramática. Ao contrário do que o cartaz da manifestante diz, não há impedimento ao sujeito fora da norma culta em articular e ser entendido. Isso não é aberração e uma vida condenada a falta de “bom-gosto”, impedimento a sensibilidade. A aquisição da escrita  é um poder e um privilégio, não precisa  fazer piada dos que não “sabem”, eles ouvem isso desde a infância e mesmo assim escrevem. Isso é enfrentamento.

Se um morador do Tatuapé (bairro tradicionalmente de classe média) com formação universitária ouve funk proibidão, isso o torna divertido e exótico. Um lelek ao compartilhar o mesmo vídeo no Facebook tem fama de alienado. Para alguém que já viajou de avião e foi ao exterior, isso parece irrelevante, para quem no máximo viajou de ônibus e carro, não. O canudo universitário é dispensável para aqueles que já se afirmam e legitimam como sujeitos “pensantes”. Se você detém esses poderes não parecerá artificial, por isso me enerva ouvir “não precisa forçar colocando palavras bonitas/difíceis”. Não forço, parece mesmo impossível que uma palavra ou uma ordem delas, sejam refinadas demais pra serem ditas ou oriundas da minha cachola?  Sem medo das letras, as coloco na ordem que apraz. Ponto final.  Mas é desse mesmo germe que nasce a insegurança universitária, as demarcações simbólicas.

Ás vezes penso em desistir da Iniciação Científica tamanha ansiedade, até o mês que vem tenho de ler uma porrada de textos para uma espécie de conversa com minha orientadora, nela, saberá se o tema está na ponta da língua. Pode me dar um branco, não conseguir falar nada. Ainda sou uma Outsider. Tenho o pressentimento de que alguém pode não ir com minha cara e estragar a carreira acadêmica, como a atriz que se queima com um diretor e nunca mais consegue papel. Me sinto na mão desses avaliadores, os professores. Muitos são ótimos e gentis, mas eles detém esse outro poder, o sotaque, os doutorados, as nomenclaturas, livros publicados. Abro o jornal e está lá, entrevista com uma professora, gente referência na área. Na disciplina de Filosofia semestre passado, o professor disse “Parsifal” e eu entendi “Percival”. Anotei no caderno. Achei estranho, engraçadinho, joguei no Google, descobri a grafia “certa”. Li mês passado meu primeiro livro em Espanhol para um grupo de estudos, fiquei orgulhosa e feliz (nunca fiz curso de idiomas), mas para minhas professoras isso deve ser muito, muito trivial. Sou a nova rica sentada na mesa de jantar sem saber por qual talher começar, por via das dúvidas aproveito a cara de pau e pergunto em voz alta: É esse?

12 maio, 2013

Lógicas socializadoras e expectativas de aprendizagem nas classes populares

Posted in Educação, Produzidos para faculdade tagged às 11:22 pm por Deborah Sá

O que pais e tutores esperam ao deixarem seus filhos e tutelados na escola? Que tipos de características desejam ressaltar, modificar, aperfeiçoar ou ainda, erradicar em comportamentos de crianças e jovens? Seriam essas as mesmas expectativas de professores? E o modo pelo qual docentes exercem sua autoridade vai de encontro com o modelo parental, ou, sobretudo, o tenciona? Verifica-se que quanto mais se têm acúmulo de capital cultural (isso é, maior familiaridade e apropriação da cultura legítima[1]) em uma família, maiores são as chances de seus membros corresponderem a expectativas de aprendizagem e atenderem a hexis corporal (corporificação do habitus [2]) exigida pela escola. Sobre isso, Thin (2006), ressalta:

[…] Não é, portanto, somente o capital cultural ou o capital escolar que estão em jogo; é o conjunto das práticas socializadoras das famílias que estão implicadas nas relações entre os pais e os professores, e essas práticas devem ser compreendidas por sua distância do modo escolar de socialização, mais do que pelo capital escolar dos pais. Nossas pesquisas sobre as relações entre famílias populares e escola […] nos levaram a entender essas relações naquilo em que elas são urdidas por dissonâncias e tensões entre lógicas socializadoras divergentes, até mesmo contraditórias, e, finalmente, como o lugar de uma confrontação desigual entre dois modos de socialização: um escolar e dominante; o outro, popular e dominado.

Portanto, na medida em que educadores constatam indisciplina em seus alunos, julgam que exista uma suposta falta de comprometimento dos pais em acompanhar esse desenvolvimento, há uma associação de causa e efeito onde a culpa pela indisciplina recai sobre os pais “que pouco se importam”. Em verdade, o educar de pais das camadas populares não é vazio de sentido nem contraditório, tal divergência só existe quando comparada com a cultura escolar, suas práticas e seu modo específico de gestionar o tempo. Em geral, pais das camadas populares esperam que seus filhos adentrem o universo letrado e tenham acesso a saberes que muitas vezes não tiveram na própria trajetória escolar. Porém, isso significa admitir em alguma medida seu insucesso enquanto aluno, a inabilidade para esse exercício intelectual e até mesmo, envergonhar-se do modo brutalizado de exercer a autoridade ao agredir fisicamente os filhos. Conforme Thin:                                                                              

Além do fato de que a ação física corresponde mais à intenção de interromper rapidamente o ato repreensível, seria preciso levar em conta tudo aquilo que os castigos corporais implicam em relação ao corpo das classes populares, que devem sua existência no plano econômico à sua força física de trabalho.

Assim, o modo escolar de socialização (baseado em sujeitos auto-regulados – sem a necessidade de intervenção constante), colide diretamente com os modos de socialização no âmbito familiar (baseado em sujeitos repreendidos pela vigia e intervenção constante). Para a classe trabalhadora, o tempo do lazer não é associado a práticas educativas, mas, ao descanso do tempo do trabalho. Dessa forma, as atividades lúdicas ou interpretadas como demasiadamente abstratas, parecem de pouca aplicação na vida cotidiana (como aulas de Artes, Filosofia e História); e vistas com menor relevância se comparadas a Português e Matemática, ferramentas para o mercado de trabalho (ler, escrever, contar). A importância de exercer um ofício é fundamental para a valorização de toda identidade de classe. Embora esse grupo específico tenha ciência de sua posição desfavorável socialmente, reafirmar-se como um trabalhador é motivo de orgulho, conforme Sarti (1996) “é através do trabalho, então, que demonstram não serem apenas pobres. Ao lado da negatividade contida a noção de ser pobre, a noção de ser trabalhador dá ao pobre uma dimensão positiva” (p.66-67).

Em 2005, Paixão pesquisou o significado da escolarização para um grupo de catadoras de um lixão no RJ, apontando além dos embates econômicos, entraves simbólicos. Em geral, essas mulheres são a principal fonte de renda da família e aprendem o ofício acompanhando familiares que exerciam essa ocupação, sua renda é variável e com o benefício de um horário de trabalho mais flexível quando comparado aos empregos formais nos quais já atuaram (domésticas, babás e faxineiras), com rendimento mensal igual ou superior. Queixam-se da representação negativa na mídia e reclamavam para si o reconhecimento de sua função como labor digno, valor esse, de extrema importância na afirmação da identidade. As que aprenderam a escrever o próprio nome sentem-se aliviadas de escapar da violência simbólica que é assinar documentos com a marca do polegar, sentiam-se limitadas no ambiente escolar e não raro, apanhavam por não atender expectativas disciplinares e de aprendizagem. Esperam que seus filhos aprendam na escola um comportamento polido e ocupem cargos de maior prestigio social, tal desejo de ascensão para a prole é realista: Se desejariam filhos doutores, médicos, advogados? Certamente, mas sabem que esse anseio dificilmente se concretizará. Precipitadamente, a falta de ambição escolar pode ser vista como desinteresse,  no entanto, essas mães mobilizam-se dentro do possível para que seu destino social e o sentimento de inferioridade não atravessem as gerações seguintes, como é explicitado na palavra de uma entrevistada “não quer os filhos burros como a mãe” (Paixão p. 162).

Muitas constituíram família precocemente e valorizam a maternidade como símbolo de estatuto de maioridade. Seu lazer é reservado aos domingos e entre os programas preferidos está assistir TV, receber visitas e ir à igreja, visto como um lugar alegre e evidentemente, repleto de exortações: “Ensinam como lidar com a família, para quem tem esposo, como lidar com o marido; são umas coisas, assim… legal! Às vezes, engraçadas também” (41 anos, dois filhos, 4ª série do ensino fundamental). Segundo Giddens, a alta modernidade conta com sistemas especializados, trata-se de um conjunto de especialistas que dizem como devemos nos comportar e agir em diferentes espaços da vida: Psicólogos, Nutricionistas e livros de auto-ajuda, por exemplo. Entrementes, a igreja e seus líderes cumprem o papel de orientar e instruir seus fiéis no campo afetivo, civil, moral e espiritual, além de reforçarem a importância do trabalho para uma vida mais próspera.

A dificuldade em vislumbrar um futuro que transcenda tais condições materiais, sociais e econômicas não é estreiteza de raciocínio, antes disso, é o pragmatismo da sobrevivência no cotidiano.


[1]Para Cuche (2002), a cultura é histórica e se dá na relação dos grupos sociais entre si. “As culturas de diferentes grupos se encontram em maior ou menor posição de força”. Lembrando que nem o mais fraco está totalmente submetido, a dominância cultural nunca é total e definitivamente garantida.

[2] Ato de um estrutura social ser incorporada pelos seus integrantes e naturalizada no modo de viver, sentir, agir. Nesse caso, um bom aluno é aquele que sabe “se portar” de forma disciplinada.

Referências Bibliográficas:

CUCHE, D. CAP. 5 – Hierarquias sociais e hierarquias culturais; CAP 6. – Cultura e identidade. A noção de cultura nas ciências sociais. Bauru, EDUSC, 2002.

GIDDENS, A. Apresentação; Os contornos da Alta modernidade. Modernidade e identidade, Rio de Janeiro, Jorge Zahar. Ed, 2002

PAIXÃO, L.P.Socialização na escola IN: PAIXÃO, L.P. & ZAGO, N (org.) Sociologia da Educação: Pesquisa e realidade brasileira. Petrópolis. Editora Vozes, 2007.

SARTI, C.A. A família como espelho: um estudo sobre a moral dos pobres. Campinas: Autores Associados, 1996.

PAIXÃO, L.P.Significado da escolarização para um grupo de catadoras de um lixão. Cad. Pesquisa. [online]. 2005, vol.35, n.124, pp. 141-170.  http://www.scielo.br/pdf/cp/v35n124/a0835124.pdfAcessado em 31 de Março de 2013

THIN, D. Para uma análise das relações entre famílias populares e escola: Confrontação entre lógicas socializadoras. In: Revista Brasileira de Educação, vol. 11, n. 32, maio-ago. 2006

25 março, 2013

O aluno não sabe fazer “O” com o copo?

Posted in Educação tagged , às 1:05 pm por Deborah Sá

A escola que já era vazia de sentido para alunos e um trabalho pesadíssimo para professores estende seu expediente. Imagine um emprego estafante onde você se sente apenas um número e as tarefas propostas (em sua grande maioria) são completamente monótonas, uma cantilena sem fim e então, é aumentada a carga horária. Você que me lê, certamente passou décadas dentro dessa instituição então diga com sinceridade: Você não se sentia um lixo nos bancos escolares? E você, educador comprometido, também não se sente um lixo pela péssima infra-estrutura, pela pressão em fazer mágica em 12 meses com a tarefa hercúlea de “melhorar” a “bagagem do aluno” (ou seja, o acúmulo até aquele momento específico da vida), ao mesmo tempo em que prepara ele para os anos seguintes?

As escolas de tempo integral se forem apenas uma extensão do que a escola já é, pioram o quadro geral. É preciso investir na formação de professores, tornar esse trabalho mais valorizado, fazer o professor se sentir menos vulnerável. Sim, porque o professor em muitos momentos se sente extremamente vulnerável. Ele “tem que” responder as recomendações da Diretora, da Coordenadora Pedagógica, do Plano Nacional de Educação, dos alunos com cara de bunda (quando sacrificou o fim de semana planejando aula e corrigindo provas), dos pais dos alunos que acham que fariam o trabalho melhor que ele (mesmo que malemá aguentem dois filhos em casa por algumas horinhas, quem dirá prender atenção de dezenas de crianças).

Explicando melhor o tamanho da bucha: Os alunos chegam e é necessário traçar um perfil para saber “em que pé está” essa formação. Nada garante que o que você ensinou será “reaproveitado” pelos professores que receberão esses alunos nos anos seguintes. Há evasão, eles mudam de estado, de escola, enfim, muitos são os motivos para que talvez você não veja boa parte deles nos anos que seguem. Recentemente, Alckimin acabou com aulas de Geografia, História e Ciências no Ensino Fundamental. O que isso significa? Que os índices de desempenho estão baixíssimos. A escola cada vez mais explicitamente é feita para o escrever-ler-contar. Esse déficit é culpa de quem? Certamente não é só do professor, nem dos alunos, nem só dos pais. É da forma escolar como um todo. Mas uma coisa é certa, professores e tutores não são idiotas, mais ainda, sei que isso pode chocar alguns mais sensíveis por isso peço licença para ir mais fundo: Sequer os alunos são estúpidos.

Nem aquele aluno que escreve “alfasse”? Pois é, nem o aluno que escreve “derrepente”. Digo mais, os erros ortográficos dizem muito sobre como estruturamos nossa língua, sobre sua fluidez e uso, prosódia, fonética e fonologia. Um erro de grafia ou uma série deles, não é um ato de preguiça, antes disso, é reflexão que busca dentro de todas as variantes possíveis uma resposta mais adequada para a escrita de um enunciado. Isso significa que temos de abolir o ensino da “forma culta”? Não. Mas tratar o aluno como alguém que precisa ser medicado, que vê espelhado, que não sabe processar informações, não ouve corretamente, enfim, que é um sujeito torto e que o problema é de uma suposta estreiteza de raciocínio categoriza como patologia, além de ser uma inverdade. As pessoas têm que perder o medo das palavras, elas não mordem. Se você não sabe escrever tão bem quanto gostaria não importa. Coloque no papel, na tela do computador, na máquina de escrever, no papel de pão, no guardanapo.

As palavras estão aí para ser usadas e corremos atrás delas todas as vezes que tentamos dizer o que sentimos, seja em uma conversa de bar, seja na sala de aula. Ou seja, não tenha medo porque você já faz uso das palavras e de uma maneira refinada o suficiente para que ao receber sua mensagem, terceiros sejam capazes de te entender. A escrita e a leitura devem ser instrumentos para a autonomia e desenvolvimento, inclusive para o mercado de trabalho, mas não só para ele.

O perigo do discurso de uma educação voltada principalmente para o mercado de trabalho; é de que tudo que importa é ser produtivo. A produtividade em sua maioria quando para filhos da classe trabalhadora, é sinônimo de um trabalho mecânico, manual ou braçal, mau remunerado e de fácil substituição. O aluno da classe trabalhadora tem o direito de ter acesso a bens culturais diversos, música, leitura, escrita, arte, atividade física que vá além de “futebol para os meninos, vôlei para as meninas”. Ele precisa ter acesso a Filosofia, História, Ciências, Geografia, Biologia, Literatura, porque talvez esse seja o único momento que ele tenha acesso aos livros e a esse tipo de discussão. É patrimônio intelectual que deve ser oferecido não só a quem tem dinheiro a pagar por ele. A educação não deve bastar quando “ao menos um” presta atenção na aula, a educação de qualidade é um direito para todos, sem exceção (e um entre quarenta e cinco é “A” exceção).

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Erro ortográfico, irreflexão do emissor ou do leitor?

Posted in Educação, Produzidos para faculdade tagged , às 12:39 pm por Deborah Sá

Invariavelmente somos expostos a erros ortográficos, quer seja em letreiros, livros ou até mesmo em mídias impressas. Toda manifestação da escrita é passível de conter tais “deslizes”. Usualmente, a primeira reação diante desses “atos falhos” é um misto de perplexidade e curiosidade. Quem será o emissor da mensagem? Por que troca, omite, inventa, inverte as letras? Será que transcreve apenas o modo de falar? Por que insere ou suprime espaços em branco na construção de frases? É mais fácil se precipitar na suposição dessas respostas quando, antes de atentar para a mensagem escrita, se faz juízo de valor de quem a escreve. Dessa maneira, infelizmente, muitos professores subestimam e taxam alfabetizandos de um suposto “déficit” ou de uma “incapacidade generalizada” de estar, sentir e perceber o mundo. Debruçar-se sobre um texto e analisar esses “porquês” demanda o empenho de despir-se de tais pré concepções. Segundo Cagliari (1999, p. 121):

 “[…] Uma outra maneira de “ver” tais “erros” é considerá-los não uma mera transcrição dos sons da fala, mas o resultado de uma reflexão produtiva (e construtiva) a respeito de fatos do próprio sistema de escrita com o qual se está começando a lidar”.

Ainda de acordo com Cagliari, o princípio acrofônico (no qual cada letra corresponde tão somente a um som) é insuficiente para analisar um texto produzido por alfabetizandos, isso porque, outro fator é detectado: A busca pela forma congelada das palavras. Trata-se do acúmulo ortográfico que cada um desenvolve ao longo da vida e uma vez munidos dessa “gramática internalizada”, o processo de alfabetização e da linguagem como um todo, estará em constante atualização. Ou seja, ao escrever temos uma intuição (resultado do acúmulo da gramática internalizada) de como determinadas palavras devem ser escritas independentemente do seu som. A palavra “carrossel”, por exemplo, poderia ser escrita como “carrocéu”, “carrosel” (nem sempre a tonicidade é grafada com acentuação, em exemplo, a palavra “mel”). Contudo, a escrita é uma representação da fala, logo, muitas dúvidas podem surgir na combinação desses dois fatores (o que ouvimos e como registramos a escrita).

Certa vez, notei em um anúncio de almoço a seguinte expressão “Macarrão alho e olheo”, ambas as palavras são similares na sonoridade, porém, com distintas formas congeladas de escrita. “Alho” não possui acento no “a”, mas “Óleo” possui em “o”. Com base no som poderia se escrever igualmente “Áleo e Óleo”, “Alho e Olho” ou ainda “Alhio e Olhio”. Essa pluralidade de opções é disponibilizada toda vez que vamos escrever, como uma paleta de cores que se expande em dezenas de combinações quando solicitada, levando em consideração, inclusive, a ortografia como neutralizadora das variações linguísticas. Portanto, isso não significa que quem escreveu na lousa do restaurante não soubesse diferenciar um macarrão de condimentos e demais ingredientes. O que fez foi escolher uma única combinação dentre tantas outras, se aproximando do que acreditava representar mais assertivamente a escrita do prato do dia. Nosso sistema de escrita demanda a separação entre uma frase e outra pelo uso do espaço em branco. Isso nem sempre é fácil perceber, dado o modo que falamos devido à prosódia. Segundo Tenani (2011, p. 94):

A segmentação não-convencional de palavra gráfica é definida quer a partir da ausência, quer a partir da presença do espaço em branco que delimita a palavra em local não previsto pelas convenções ortográficas. Quando há ausência do espaço em branco, trata-se de hiposegmentação, como em “ajudime”, “porfavor”. Quando há presença do espaço em branco, trata-se de hipersegmentação, como em “na quela”, “cava lo”.

É preciso cautela para analisar hiposegmentações, hipersegmentações e a mescla dessas categorias (híbridos), quando o texto é manuscrito. A caligrafia, por exemplo, mesmo quando realizada sem esse propósito, pode separar letras, uma das outras. A segmentação não-convencional ocorre com recursos gráficos como espaçamentos e hifens. Divergindo do que ocorre na translineação sem hífen (a passagem de uma palavra entre uma linha e outra), uma vez que a ausência nesse caso, não se trata de segmentação não-convencional das palavras. Assim, cada palavra do texto deve ser interpretada como um signo que existe em relação com as demais partes da estrutura. Para tanto, cabe analisar como a grafia dessas mesmas letras bem como seus espaçamentos se desenvolvem ao longo do texto.

Uma hipótese levantada por Tenani, é que tais registros gráficos são motivados por possíveis estruturas prosódicas da língua, como a palavra prosódica, o grupo clítico e o pé métrico. Sendo que: “[…] Nas hipersegmentações, há evidência do pé troqueu dissílabo e, nas hipossegmentações, do grupo clítico (com predomínio de próclise)” . São, portanto, indícios de uma prática dialética entre fala e escrita onde um elemento não se sobrepõe a outro, mas em verdade, se constituem enquanto peças imbricadas e suplementares. Superficialmente, essas segmentações não-convencionais podem levar a crer que seu emissor possui uma espécie de “iletramento”, o que é uma inverdade, pois, ao construir esses enunciados, quem escreve demonstra repertório fonológico e como esse se manifesta e desenvolve.

A partir da amostra realizada por Chacon (2005, p. 86), com hipersegmentações extraídas de 451 textos produzidos por alunos da primeira série de uma escola municipal de ensino fundamental do interior de São Paulo, constatou-se que dos 136 trissílabos hipersegmentados ocorreram: ”[…] ou em limites de sílabas (e só nesses limites) ou em limites de sílabas e pés […] a ruptura promoveu uma curiosa e bastante recorrente combinação entre uma sílaba e um pé, ou entre um pé e uma sílaba”.

Esse exercício demanda uma reflexão sobre a correspondência entre grafema e fonema. Constatou-se em algumas amostras que esses espaços em branco delimitavam pedaços de palavras ou mesmo palavras inteiras, além de expor, sobretudo, as demarcações de limites prosódicos. Assim sendo, durante a elaboração de um enunciado não há aleatoriedade ou leviandade. Seu arcabouço é construído com os parâmetros que sustêm uma língua viva, cuja movimentação se dá entre práticas orais e letradas. É verbo que se faz carne e carne que se faz verbo.

Referências Bibliográficas:

CAGLIARI, L. C. O que é preciso para saber ler. In. MASSINI-CAGLIARI, G & CAGLIARI, L. C. Diante das letras: a escrita na alfabetização. Campinas-SP: Mercado das Letras, 1999, 131-159.

CHACON, L. “Hipersegmentações na escrita infantil: entrelaçamentos de práticas de oralidade e de letramento”.Estudos Lingüísticos XXXIV, p. 77-86, 2005. [ 77 / 86 ]

MASSINI-CAGLIARI, G. “Erros” de ortografia na alfabetização: escrita fonética ou reflexões sobre o próprio sistema de escrita? In. MASSINI-CAGLIARI, G & CAGLIARI, L. C. Diante das letras: a escrita na alfabetização. Campinas-SP: Mercado das Letras, 1999, p.121-129.

TENANI, L. “A segmentação não-convencional de palavras em textos do ciclo II do Ensino Fundamental”. Revista da ABRALIN, v.10, n.2, p. 91-119, jul./dez. 2011.

5 setembro, 2012

Não é moda, quem pensa incomoda

Posted in Educação, Memórias tagged às 5:09 pm por Deborah Sá

Sem prazer em estudar para as provas de escola, preferia ler e pesquisar onde a curiosidade levava. A ânsia de saber mais, somada a uma postura insegura e uma silhueta rechonchuda me fizeram piada pronta. Há pouco tempo percebi que de algum modo, aquele posicionamento representava uma afronta ao lugar que pertencia.

Ia aos mesmos mercados, não andava de carro, assistia aos mesmos programas na TV, ria das mesmas piadas, tinha pais divorciados, acreditava em Deus, ia até a Belmira Marin tomar um sorvete na loja de um real, até a Cidade Dutra pagar uma conta, comer o churrasquinho de gato na calçada do Carlos Ayres. Ou seja, o espaço físico era compartilhado.  Quando comecei a fazer uma lista dos filmes que queria ver mas não os encontrava nas locadoras do bairro, tive de  pegar ônibus para ir até o Shopping Interlagos ver se achava por lá. Um dos que me deu mais felicidade foi alugar O Fabuloso Destino de Amélie Poulain. Anos mais tarde, meu pai comprou um jornal na banca que vinha com esse DVD e me presenteou. Era solitário assistir sozinha, ter esses gostos um tanto diferentes sem ninguém para comentar, então insistia bastante para que minha irmã  acompanhasse, ás vezes ela tinha paciência, outras vezes não. Sei que para algumas pessoas parecia petulância “como é que ela gosta desses filmes chatos, demorados, “cabeça”?”. Não sabiam quantas vezes  os versos Olhos abertos fixados no céu, perguntando a Deus qual será o meu papel. Fechar a boca e não expor meus pensamentos, com receio que eles possam causar constrangimentos. Será que é isso? Não cumprir compromisso abaixar a cabeça e se manter omisso.”, fizeram arrepiar.

Passaram-se alguns anos e entrei no supletivo, um dos moços, começou a me tratar com a gentileza própria de quem flerta, não dei bola. Até perceber que ele era um tremendo homofóbico e a antipatia só cresceu. Quando um professor fazia perguntas demorava a levantar a mão (detesto monopolizar os espaços), mas a sala sabia, ou eu, ou ele, falaríamos algo a respeito. Por educação, esperava ele se pronunciar e em seguida me posicionava, na maior parte dos casos, me opondo, não pelo simples prazer de discordar, mas porque eram opiniões preconceituosas.  Revoltado, convenceu seus amigos:  Se abria minha boca na sala de aula rompiam palmas do fundo da sala, assovios, barulhos.  A reação era esperar terminar, fazer uma reverência, continuar a fala. Uma hora eles cansaram. A gota d’água foi o dia em que cheguei na sala de aula e vi um aluno que eu gostava de conversar, fã de RAP, segregado por ter a fala mais lenta (era seqüela de um aneurisma), encolhido, sentado, enquanto o tal homofóbico, de pé, apontava o dedo o acusando de ser louco por tomar remédios psiquiátricos. Ao intervir ele se defendeu com aquela ladainha de “você acha que sabe-tudo”, quando expliquei que além de não saber de tudo (senão não estaria no EJA, continuando os estudos), jamais usei o conhecimento pra humilhar alguém, ao contrário dele, que se achava muito superior por nunca consultar um psicólogo tornando evidente o quanto era um ignorante sobre (mais esse) assunto.

No ambiente de trabalho formal convivi com provocações diárias, zombavam das minhas caixas de chá, me chamavam de madame, dos absurdos que ouvi estão as frases “Tem um gato sujando meu carro, o que acha de eu mata-lo?” e a máxima “Tudo o que você sabe da vida é porque viu na internet (sobre defender cotas, LGBTTT minorias em geral)”. Ou seja, compreender e fazer uso da linguagem, arranhar no inglês, é indicativo de que estou em um recorte de dominância mesmo que não tenha o objetivo de fazer uso pra oprimir, é isso que a tensão entre classes sociais faz. Por mais que vivesse na periferia, a música que ouvia, o gosto para filmes, ser vegetariana, destoava. Compreendo que a barbárie é intrínseca na criação em todos extratos econômicos, nesse mesmo emprego já ouvi pessoas aos risos contando como era divertido participar de um linchamento, o dia que bateram em uma “mulher-macho”, como matariam suas esposas se descobrissem uma traição… Analogamente, mas dessa vez em um emprego em uma avenida chique de SP, ouvi que a polícia tinha de ser mais dura e piadas machistas surgiram uma após outra.

Por ocupar essa posição singular (nova classe média?), saliento o quão ingênuo é o mito de que na classe trabalhadora só existem espertalhões (como pensam certos funcionários dos escritórios nas avenidas caras), ou quem crê que na periferia todo mundo só curte pagode, funk, usa chinelo de dedo com um sorriso no rosto e o coração puro, uma versão atualizada do bom selvagem (como pensam alguns universitários de faculdades federais e públicas). Gente sádica, mal intencionada e intransigente há em toda parte. Ser machista, arcaico e preconceituoso não é um dado de classe, entrementes é fator cultural e o que antecede a ruptura é o estrondo da colisão.

22 fevereiro, 2012

Ativista, uma postura pedagógica.

Posted in Educação, O pessoal é político tagged , , às 9:57 pm por Deborah Sá

A possibilidade de ação é tolhida por arestas que delimitam o alcance, para minar as contenções seguimos o famoso “trabalho de formiguinha”. A chance de organizar um levante popular se torna possível em conjunto e adesão maciça e para tanto é preciso conjuntura, condição, solo fértil. E quem prepara esse terreno senão os que fazem parte dele? É no fazer-se que está o descobrir-se, reinventar-se, permitir-se.

Reconhecer condicionamentos é de grande valia como auto-análise, mas quando isolado é dado fatalista que amargura ou ainda, age no separatismo entre “libertos” e “marionetes”, parâmetro aplicado pelos detentores do “conhecimento”.
O equívoco é presumir que os que não seguem determinado esquadro são inconscientes de suas coreografias orquestradas, alheios ao olhar de autônomos que os vêem como roedores de pesquisa científica, isso é subestimar a capacidade de aprendizado em uma pedagogia (paternalista, diga-se de passagem) de mera absorção e réplica, inevitavelmente gerando dogmas de respaldo em reverência exacerbada por fontes e bibliografias.

O que falta em certos ativistas e acadêmicos é admitir sua postura de educador, um ortodoxo, prepotente, ultrapassado e intransigente, mas ainda assim, um educador. Em nada se distanciando daquele professor de vocabulário rebuscado tomado pela cólera de um aluno que ousa questionar seus métodos. Um ativista ou educador que se acomoda entre seus pares repetindo velhos discursos e não se atualiza, não compartilha e abusa de discursos de autoridade “Vá estudar antes de falar comigo”, “Você sabe com quem está falando?”, “Você é alienado”, tem grandes chances de ter a hostilidade e desprezo voltado no estilo bumerangue. E ao contrário do que presumem isso não se deve ao fato de que “a verdade é para poucos”, mas de que o alto nível exigido é impraticável e sua postura mesquinha é de imenso desserviço.

As informações devem circular para que idéias originais não encerrem em si mesmas, mas criem outro ponto de partida na elaboração compartilhada. De que adianta um novo pensar se em nada dele é extraído? Se o toque é impróprio, a crítica é blasfêmia e a intervenção é vandalismo, deixem que os guardiões das tradições regozijem na sisudez.
Prefiro o saber quanto mais democrático, quanto mais popular, que inquieta, instiga, emociona e não é determinado pelas certezas. Da ciência da abertura permanente de ser incompleto, nem por isso triste e confuso, nem por isso acostumado. Pra que o expressar da dúvida não seja motivo de vergonha ou desconforto, mas uma amostra genuína da curiosidade que nos aproxima de quem acrescenta o entusiasmo diante do que é inédito.

Se a margem para gozar em liberdade é tão estreita, é por não se tratar de um direito, mas um privilégio restrito. Somos construídos pelo meio e circunstâncias combinados ao acaso aleatório, não nos cabe mensurar o livre-arbítrio.

23 janeiro, 2012

Lei da Palmada – Instrução ou punição?

Posted in Corpo, Educação, Infância tagged , às 12:45 pm por Deborah Sá

Isso é uma palmatória, se você não sabe reconhecer uma provavelmente seus pais ou avós sabem.

Faz praticamente vinte anos que olhei meu braço e vi ranhuras de um chinelo, uma havaiana branca de tiras azuis. Corri quase como uma quadrúpede ensaiando bipedismo ao colocar os braços na frente pra evitar chineladas. E elas vieram, sem que recorde o motivo. Presenciei adultos punindo crianças entre elas minha irmã de rosto corado depois de levar uma bronca, sem compreender porque truculência resolveria ambas as dificuldades. Quando somos realmente pequenas (os) e os adultos parecem figuras majestosas e soberanas, é absolutamente inquestionável qualquer coisa que venha deles, um ângulo que revelam para qualquer hóspede cotidiano é o quanto vivem a beira de um colapso nervoso, a vida adulta é um copo de cólera tilintando o excesso.

Nem todas as crianças são anjos de candura, algumas podem ser ardilosas o bastante para acusar injustamente colegas mais dispersos, incitar intrigas, agredir os mais novos, maltratar animais. Punir essa minoria (que costuma atear o comportamento de manada) não a tornará mais maleável se a fórmula para o delito e intransigência inexiste, nem todo pedófilo foi molestado na infância, nem toda criança que é ferida o repete em estruturas menores.

A Lei da Palmada inquieta porque retém um dos plenos poderes da educação ortodoxa: O “direito” de agredir quem contraria suas expectativas de aprendizagem, se essa descrição soa tremendamente injusta é porque o é. Qual a diferença entre uma criança frustrada que quebra os bibelôs de sua mãe, para uma tutora que belisca quem não soube lavar a louça da forma que ela esperava? É a violência patrimonial e física, alternada e imediata, o jogo de poder entre crianças e adultos transtornados sobre o que sentem em relação um ao outro, um teste de nervos. Sim, o (a) tutor (a) pode estar em “um dia difícil”, sobrecarregado com as atribuições da modernidade, mas isso não significa que a criança esteja satisfeita em seus dissabores. O mínimo que se espera é que haja maturidade de quem tem mais vivência para estabelecer a conciliação.

Assumir o caráter irrevogável da violência na educação de jovens e menores, é presumir que enquanto estiverem abaixo da hierarquia dos guardiões das tradições, maior será a vulnerabilidade á palmatória de seus mestres e se porventura, os subjugados apanham é por merecerem tal tratamento seguindo o abominável ditado: “Manda quem pode, obedece quem tem juízo”.  Somente é dado poder equivalente para os infantes quando se tornam gerentes de sua própria prole, ou seja, sua peculiar semi-propriedade privada. Para os que temem um reinado opressor de quem mal saiu das fraldas, o que os difere dos maridos que temem a falsa acusação de suas esposas na Delegacia da Mulher?

Não pretendo definir se a índole inata da criatura humana, na civilização minimamente estabilizada (guerras, conflitos extremos, ser apartado do convívio social, são fatores que extrapolam a análise), é boa ou má. Todavia, não parece razoável o ataque para cada descompasso que enfrentamos entre nossos pares, quem dirá aplicar rigorosas penas aos que como espectadores e integrantes do seu redor, podem não ter a completa dimensão das estruturas que circundam, mas inevitavelmente são afetados pelos impactos das condições do presente.

Os filhos de pisadelas e beliscões não necessitam reger em antigos compassos.

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