28 julho, 2014

Nos degraus

Posted in Desejo às 1:55 pm por Deborah Sá

Bati a mão aberta no concreto. Senta aqui, do meu lado. Você veio. Sorrindo com aquela marca no rosto que me faz bambear, como por deboche, bem perto da boca. Meia dúzia de palavras trocadas. Não preciso muito mais que isso se possui algo que escapam os dizeres. Talvez seja o reflexo das lentes, talvez seus cílios grandes por trás deles. Provavelmente, é o que posso nomear e mais ainda, o que não cabe nas palavras ordenadas, civilizadas, ditas em via pública.

18 dezembro, 2013

Trepadeira

Posted in Desejo às 12:52 am por Deborah Sá

Em feixe solar. Na chuva, no gotejar. Surge candeeira. Trepadeira. Feito o incendiar. Nos dias cinzentos. Lhe abraça, em brasa. Nos dias amenos, os trajes pequenos. No canteiro e nas flores, por entre os jardins. Enrosca pelas pernas, em cima de mim. Sorri gratuita e quase levita. Distraias. Tão logo, subirá, as saias. À assistir o tecido distendido. Fazer-te amante. Querer-te atrevido. Torso arquejante, trêmulo de voz, dobro tua coluna. Te faço. Nós.

10 dezembro, 2013

Freática

Posted in Desejo às 2:03 pm por Deborah Sá

Era uma vez, uma boceta. Uma boceta grande, molhada e barulhenta. A boceta gostava de envolver dedos por entre seus cachos. Aberta por delicadezas, era boceta escancarada. A boceta fazia rir, ela ensopava a calcinha, criava gotas de sinuosidade em riscos pela perna, empapava as camisetas de improviso. Macia e inchada, maior ainda com tempo de sobra. Era uma vez, uma boceta.

4 outubro, 2013

Coceira

Posted in Desejo às 12:18 pm por Deborah Sá

Se eu fosse um protagonista de filme dos anos 80 não seria o que com única arma mata um exército. Estou mais para o do final com cortes, marcas, vez ou outra, até sangrando. Tentando por insistência, uma leve falta de noção, uma pitada de ingenuidade. Mudar de lugar constantemente e ficar um pouco desconfortável tem lá suas vantagens, a principal delas é se sentir em movimento. Há quem busque peças que se encaixam perfeitamente para ter a paz de espírito de deixar como está o irretocável, não ter de pensar a respeito. O tempo me mostra que o que me fascina é o não encaixe, é divertir-se desafiando a simples explicação, é fazer dar certo principalmente com as ferramentas erradas. Não importa se eu procuro sarna pra me coçar, se elas às vezes me acham, o fato é que algumas coceiras são deliciosas.

15 agosto, 2013

Conexo

Posted in Desejo às 1:36 pm por Deborah Sá

Suspendeu as palavras, encharcou minhas peças, na pele, as frações de tom caramelo. Me deu sorrisos e bem-estares, deixou-ser em cômodos cômodos. Ir, pra quando der, voltar. Blasfêmias em fim de tarde, dessas que se come de colher.

7 agosto, 2013

Mais que imperfeito

Posted in Desejo às 9:40 pm por Deborah Sá

Me atraio terrivelmente por “imperfeições”, difícil é elogiar e a pessoa levar como xingamento já que meus olhos vão direto pro que provavelmente cansou de ouvir ser defeito. São ângulos de nariz, marcas de espinha na cara, dobrinhas nas costas (adoráveis!), estrias, homens meigos e tímidos, mulheres grandes, gordas e altivas, gente que é o oposto do que “deveria ser”. Eu gosto do avesso, do acaso, do além óbvio. Então, se porventura te elogiar, não leve a mal. É sincera a admiração pela sua resistência, singularidade e charme <3

E se serviu a carapuça, sim, é pra você.

5 agosto, 2013

O querer

Posted in Desejo às 11:55 am por Deborah Sá

Amor é desejar afeto de alguém especifico. Podemos gostar de abraço e cafuné, mas preferimos de algumas pessoas em vez de outras (portanto, creio que animais não-humanos sejam capazes de amar, criar laços de afetividade e mesmo, lealdade).

Para além do estímulo fisiológico (ação-reação do excitável), são as histórias que elaboramos em conjunto, é o pertencimento do outro em nossa memória. Ao construímos nossa identidade é necessária uma clareza do passado (que se deu por interação), somada a uma perspectiva de futuro (que também ocorrerá por interação). Amamos aqueles que emergem em escafandros no mergulho mais profundo de nós mesmos.

Eu te desejo nas vezes que em silêncio espera. Eu, que espero tanto de tudo, gosto de ser esperada também. Eu te desejo nas vezes que fala, pois dizendo me mostra mais um pedaço dos tantos que ainda pretendo enxergar. Eu, que me dou a tudo tanto, quero fração tua. Só peço que não espere mais do que sou capaz de dar, não leve a mal, eu só quero que você me queira.  

23 abril, 2013

Material girl – A mulher interesseira, sexo e capital

Posted in Corpo, Desejo, Gênero, LGBT, O pessoal é político tagged às 12:08 pm por Deborah Sá

Sexo (como entendido) é performático, genitalizado, heteronormativo, cis-sexual. As revistas femininas e o incentivo ao sexo da mulher é sempre nos moldes de “esse é o meu poder e dele faço uso pra conseguir o que quero”. Os sujeitos são estimulados a fazerem mais sexo, ao ponto de mentirem a freqüência nas pesquisas: “ dou duas sem tirar”, “eu tenho cinco orgasmos múltiplos”. Não pega bem dizer que gosta de sexo no escuro, aquela coisa ao som de Barry White. Ninguém gosta de ser considerado morno sexualmente porque morno não mela calcinha nem levanta pau. A coisa precisa pegar fogo.

E pode pegar de várias maneiras, depende do que você busca e com quem se relaciona. Não há sexo desinteressado se feito além de dois integrantes, veja bem, se quero sexo só comigo, me masturbo. Quando estimulo outro corpo além do meu (de forma consentida é óbvio), tocando, lambendo, chupando e beijando estou pensando no outro. Gosto de ver a cara contorcendo ao gozar, é uma massagem no ego, faz bem. Aí as relações de poder ficam complicadas de discernir, ou como alguns preferem, mais fluidas. No sexo oral, por exemplo, quando uma mulher chupa um homem a reação é “Ele está se dando bem, quem é chupado está no comando”, mas quando um homem chupa uma mulher dificilmente se diz: “Ela está no comando, ela está se dando bem”. Porventura não teria maior “controle” a boca que conduz movimentos ritmados? As mãos que deslizam e enrugam os dedos na umidade? Que estremecem pernas, arrepiam braços, produzem gemidos e a vontade de quase implorar para que aquilo não pare e dure por todo o sempre?

Essa dualidade (quem manda, quem obedece), é imprecisa. Se entregar abertamente demanda confiança plena, confiamos em quem está a nossa frente, confiamos em deixar o corpo soltar o que tiver de deixar sair no tempo que necessita. Ou seja, se gozo maravilhosamente é por permitir a mim e permitir-me ao outro. Se ele controla com a língua, eu controlo com os quadris e é de movimento que somos feitos. Somos corpo, dentro e fora do sexo, somos corpo e sentido. Sexo não é desinteressado também por outro motivo, nós buscamos capital. Sim, até os anarquistas. E que tipo de capital? Isso cada um dirá por si. Meu capital estético de interesse é um pouco fora do comum (eu digo um pouco, porque se Jennifer Lawrence quiser meu corpo nu é só ligar), mas claro que há uma série de características físicas que facilmente me fazem sucumbir. Também tenho interesse pelo tamanho do capital cultural aliado a sensibilidade, adora literatura? Musicais? É vegano e sabe cozinhar? Muitos pontinhos. Ainda por cima não bebe e não fuma? Por favor, mande currículo com foto. É, com foto. E quer saber? Mesmo com todos esses requisitos pode ser que não role a chamada química (menos com você, Jennifer, tenho certeza que daríamos certo).

“Não mostre o que tem na carteira,  mostre o que tem na cabeça”, “Cubra seus peitos e mostre sua personalidade, mulher”  é só um modo de dizer que não se faz tanta questão do que carregam na carteira, mas no coração, nas idéias, no tamanho do capital cultural. Na apropriação de uma cultura legítima e quem sabe até, ver o filme esloveno e a última animação da Pixar com o mesmo gosto e olhos embotados de lágrimas.

Fazer uma cirurgia plástica pra conseguir um homem rico que banque é se desvalorizar? É ser nada feminista? Bem, alguém que julgue esse tipo de capital importante precisa literalmente investir no corpo, com malhação, dieta balanceada, cirurgias e toda a parafernália possível, esse alguém, pode realmente julgar que estabilidade financeira é algo mais importante do que ser colunista da revista Piauí, Caros Amigos ou ganhar um Jabuti. E essas pessoas não são imbecis, elas não “sofrem de baixa auto estima”, elas não precisam ser ”iluminadas”. Uma patricinha, uma piriguete ou um rapaz gay que é bancado em troca de sexo não merecem desprezo. É muito fácil sentar a bunda e escrever usando vinte e dois teóricos sobre o assunto quando na vida isso não enche barriga. É totalmente diferente da prostituta que trabalha na rua com discriminação e o perigo da violência, mas mesmo assim, há uma aproximação: Não adianta oferecer curso de fazer bolsa em garrafa PET ou dar um livro teórico achando que isso afastará mulheres, travestis e transexuais desse mercado. É preciso ouvir, construir políticas públicas, lutar para que sejam respeitadas.

Os sujeitos tem o direito de ter acesso ao patrimônio intelectual da humanidade, mas julgar que trabalho ou o gosto por atividades ditas intelectuais são mais nobres que as do corpo, especialmente as que envolvem sexo como moeda de troca, é esquecer que sexo é interesse. Fazer sexo por interesse financeiro é apenas um dos vários tipos de capital (estético, cultural). Isso não nos transforma em um objeto, isso não é “contribuir para que não respeitem”, as pessoas tem o direito de buscar a forma que acharem mais conveniente de se sustentarem. “E quando essas mulheres começarem a ficar velhas? Não serão trocadas?”  pode ser que sim, pode ser que não. Igualmente, ser feminista ou ativista não impede que as pessoas pisem na bola, troquem parceiros, encontrem “alguém melhor”. Assim como o marido não tem poder sobre a esposa, a namorada não pode mandar na namorada, um cliente (ou um mantenedor) não pode bater em quem fez sexo com ele (ou quem dele depende economicamente). Não é porque há um contrato implícito e uma das partes tem um maior capital – ou prestígio – cultural, econômico, estético, que poderá ditar as regras sobre o corpo de quem está ao lado. Usar o sexo como moeda de troca não é se transformar em mercadoria e nem sempre é sintoma de vulnerabilidade econômica, muito embora, existam tais aproximações; além da evidente segregação de quem tem faz dessa a maior fonte de renda. Ao mesmo tempo em que é importante frisar que nada é neutro, é bom que saibamos que essa liberdade irrestrita e sem fronteiras simplesmente não existe.

Se o relacionamento é aberto ou fechado, se é papai e mamãe ou orgia, se é assim ou assado sempre há paredes de contenções, o mundo sempre nos supera, criam-se combinados, modos de entrar e sair, formas de convivência. Alguns tem muros maiores, outros menores. Não me cabe aqui gritar aos quatro ventos o quanto a minha água é mais limpa que a de meus vizinhos, o céu não tem cobertura e se chove me molho tanto quanto quem me lê.

27 abril, 2012

Nós

Posted in Desejo às 8:15 pm por Deborah Sá

Não me falta teto, não me falta sangue
Não me falta tremor e gozo, não me falta corpo
Não me falta amor, não me falta o som das unhas no pêlo
Não me falta um gosto.
Sede ampla, sede aberta e desabrochada,
Sede úmida e tenra, como a manga em toda polpa
Sede líquido que desce por entre as pernas em torrente
Sejam nossas mãos entrelaçadas
Sejam os arranhões e as marcas nas ancas
Sejam seus sussurros em meu ouvido
Sejam rompantes das gargalhadas que escapam
Seja meu peso sobre o teu
Que o tempo seja uma categoria lá fora
Daquelas tantas que não nos cabem
E que sua língua me habite
Para quase todo sempre

27 janeiro, 2012

Que sejam

Posted in Desejo às 10:30 am por Deborah Sá

Que sejam biscates, que sejam bichas luxuosas,
Que sejam saias minúsculas e sorrisos debochados
Que sejam sapatões de moicano e cabelos coloridos
Mulheres de cueca, homens de fio dental
Batom vermelho ornamentando vastos bigodes
Que sejam Poliamor, multiamor, multicolor
Que explodam faíscas de olhares fascinados.
Que sejam corpos e fluídos, sorrisos e gozos.
Que sejam descobertas e desabrochares
Que sejam o suor de alívio e o tremor de deleite.

Que sejam corpos de tons vívidos
Matizes sob o prisma de prateadas jóias.
Indevidos são os que se acometem com nosso alvoroço
Entorpecidos por despertarmos luxúria
Incorretos são os que pensam que assim somos por ansiarmos ódio
Por não nos “darmos respeito”.
Todos os que estão abaixo do sol merecem deferência
Discretos ou escancarados
Com a altivez de um trotar indomável
Nem acima, tampouco abaixo
Somos onde quer que transitemos, majestosos.

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