15 junho, 2013

Medo de multidões – Do lado de dentro, para o lado de fora.

Posted in Desabafos, Eventos, O pessoal é político tagged , às 10:42 am por Deborah Sá

A faculdade é meu novo trabalho, isso consome meus dias mais do que qualquer outra profissão que executei antes e recebo muito menos por isso. Mesmo com o crucial apoio do meu companheiro, familiares e da bolsa auxílio, minha renda mensal teve uma queda de 70%. Isso significa repensar minha relação com o dinheiro, como por exemplo, não comprar um presente para o Yuri no nosso sétimo ano de namoro.

Ainda estou em processo de adaptação, consegui uma orientadora (recebi duas propostas no semestre passado, aceitei uma). O tema é bacana, assim que concluir o relatório final, compartilho com vocês. Segunda-feira terá um evento obrigatório na faculdade, além de um procedimento pré-agendado com a coordenadora pedagógica na escola que acompanho, são compromissos inadiáveis na minha agenda. Porém, sou mais do que uma namorada, amiga, filha e estudante. Sou alguém com medos e inseguranças, uma porção, uns maiores, outros nem tanto. O período que vivo tenciona todos eles. O medo de reprovar nas matérias está no grupo de medos médios, porque embora aprenda na faculdade que avaliações são um meio e não um fim, um bom desempenho acadêmico é o que garantirá bolsas de estudo e pesquisa, o que aliviaria as ajudas de custo que meu namorado oferece (se o patriarcado dá um limão, faço uma limonada). No grupo dos medos maiores, está o maior de todos meus medos: O medo de multidões.

Ele não veio do vácuo, tive uma trajetória de contenções, de represar tudo o que sinto. Talvez por isso não lembre nenhuma ocasião onde senti fúria, só das que deram medo, tristeza, vontade de sumir, culpa. Determino as regras do jogo até certo ponto, mas admito minhas limitações. Uma delas é que ás vezes quando sinto muito medo (como em uma multidão) paraliso e choro, as pernas ficam pesadas, me sinto vulnerável e imagino a cidade engolindo. Tudo começa com um linchamento, por alguma razão absurda todos se voltam contra mim e esse crescente de violência bárbara com direito a estupro e esquartejamento continua com o chão rompendo, os prédios de metros e metros dobrando com o ranger de suas gigantescas estruturas, tudo implode, esse é meu fim. Não alucino enxergando esse cenário aterrador, ele está na minha imaginação, sei que não é realidade. Isso não impede de sentir o coração batendo, a boca seca, o suor, as pernas duras ao ponto de doer quando me movo. Fui incapaz de reagir à violência direta na infância, a violência sexual que passei ocorria no silêncio. Aguentava aquilo pra proteger a família, imaginava meu pai matando meu avô com um instrumento da cozinha que parecia uma machadinha de carne (ou seria um martelo?).  Atacando aquele que como outros indivíduos, humilhava em público como maneira de me controlar. Imagine a tensão que é ter de fingir não demonstrar medo para não causar uma morte, um colapso da estrutura que mantém não só a si, aos dez anos de idade.

A onda de protestos toma o país, não estou lá, mas gostaria. Todas as noites em que ocorrem os atos, choro e torço para que fiquem bem as pessoas que quero bem e as que nem conheço. Fogem de balas de borracha, da tropa de choque, da cavalaria, enfrentam o próprio medo. Armados até os dentes, línguas e gargantas, a imensa maioria dos manifestantes usa apenas a voz como escudo e ataque. Para mim, é um impasse á cada convocação, sinto que meu coração está ali, assisto ás aulas na faculdade com o celular próximo, durmo impaciente. A implosão de sentimentos que desperta esse fantasma e faz regredir sensações de impotência no corpo, tem ligação direta com a implosão violenta imaginada que me mantém rígida. A assimilação ocorreu agora no período de três horas e meia redigindo esse texto, dada todas as pausas necessárias para chorar e retomar a escrita. Só tenho a agradecer a quem toma as ruas. Vocês me enchem de orgulho e deram munição em palavras para racionalizar. É um dos estilhaços brilhantes que saltam da ferida que me fizeram por dentro e agora, posso retirar.

9 abril, 2013

Quando digo, você não acredita

Posted in Desabafos às 7:36 pm por Deborah Sá

É uma grandessíssima merda que todo o mundo goste de dizer que você não presta, que nós não prestamos. Supostamente, não merecemos sorrir, não temos porquê viver, acreditam ainda, que nosso habitat é chafurdar na angústia. Juro que te entendo, de todo meu coração. Por vezes também não sei o que fazer comigo, por vezes nem consigo comemorar as conquistas, vibrar com elas. Coloco a lupa em todos os erros, os êxitos ficam pequenininhos vistos com olhos de formiga. Me acabo de chorar no box do banheiro quando estou assim, mas logo passa, conto até dez. É só ansiedade, desespero, coisa de momento. Porém, sua tristeza é mais forte que a minha, mais latente, custa mais passar. Sei que estou em desvantagem porque posso escrever quilômetros e até chorar para que acredite: Te acho uma das coisas mais belas, fortes e admiráveis que encontrei em toda vida. Entretanto, em outras vias e ao fim, você ouve mais “não” que “sim”. Sei que a descrença não é por pensar que minto, mas por ouvir ataques de longa data (décadas), como aquela vozinha que remói advertindo que não merece, que ninguém vai querer te ouvir, que suas dores são frescuras, que só quer chamar atenção, que tudo em você é medíocre e desprezível, que é melhor sofrer calada. Eu me importo com você. Eu me importo pra caralho. O pesar aumenta quando lembro que você e tanta gente que admiro se sente um lixo por sistemas meritocráticos, reguladores, limitados. Se tanta gente incrível se percebe como detrito, esses mecanismos de contenção estão funcionando como um relógio, ou melhor ainda, estão quase que acoplados ao peito, uma segunda pele. Sabe por que você não “se encaixa”?  Porque você foge do escopo, amor, e por essas e outras, morro de orgulho de você.

20 março, 2013

– Inteligente – Quem? Eu?

Posted in Desabafos às 10:54 am por Deborah Sá

Uma vida ordinária numa história que poderia ser a de qualquer um. Os fatos que me abateram são aqueles que as estatísticas produzem aos milhões. Por me sentir parte de uma verdadeira massa que se vê em nada excepcional, não conseguia me aceitar como “inteligente”. Em tempo algum me percebi como exemplo pra alguém, já que aquelas pessoas que gostamos de nos inspirar são as que mais se aproximam de uma não-humanidade. Aí está, sou humana até o talo, tropeço demais, admito demais. Guardo segredos dos outros aos montes, mas os meus? Esqueça! Morro pela boca! Não consigo segurar uma tristeza, um rancor, uma admiração por mais tola que seja. Distribuo elogios e abraços quase gratuitamente, quase, porque há dias que acordo azeda (humana que sou). Isso até ver um gato na janela, uma criança acenar, um abraço quentinho me surpreender. Sou fácil até demais.

A crença de que a inteligência é só para as pessoas sólidas e isentas de erros, me deixa confusa. Se me chamam de inteligente, oras, então não é a esse tipo que classificam: A enciclopédia sem sangue nas ventas.  Já desejei não levantar da cama para não expor a fraude que sou, pois, durante décadas, me disseram que gente torta feitassim só quebra a cara e não dá certo. Se “toda a rosa é rosa porque, assim ela é chamada”, que faz a rosa após ser chamada por outro nome, senão olhar para os lados e procurar por quem invocam? É a sensação de que aquele aceno do outro lado da rua pode ser pra qualquer um, menos pra você. E eis que o quadro se inverte. Desse modo, não é que não saibam como me chamar, eu que ainda não aprendi a ouvir em outro adjetivo. Onde charmosos desarranjos de formas estão, é onde também faço morada, isso não faz de mim uma fraude, sou antes, um ensaio permanente com a franqueza de suas rasuras.

20 abril, 2012

Ao direito do pesar

Posted in Desabafos às 2:41 pm por Deborah Sá

E estou condenada se o fizer, e estarei condenada se não o fizer. Então estou aqui para brindar no escuro, ao final da minha estrada estou pronta pra sofrer e estou pronta para a esperança. É um tiro no escuro mirando para minha garganta, porque procurando pelo céu, encontrei o Diabo em mim. Bem, que se dane, eu deixarei acontecer comigo. É difícil dançar com um demônio em suas costas.

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Resquícios de pesar são o pó acumulado de  móveis antigos, sendo mais suscetíveis as teias de aranha ao descaso e alguns dizem, ao arrastar de correntes. Esses fantasmas podem nos perseguir desde pequenos quando não compreendemos o que nos cerca, ou perdurar quando somos crescidos na certeza de que não sabemos. Minhas assombrações são do tipo que pregam peças, sem o menor aviso ou cerimônia me tomam de assalto, podem esperar que todos saiam para se aproveitar (como meu avô fazia) ou podem invadir em público, fazer troça da desorientação. Abarco sabotadores como elemento surpresa sendo o maior deles o supracitado que se decompõe em algum pedaço de terra, os outros, bem…São todos os outros. Ele queria pedaços de minha carne e tal qual um grupo de crianças atacou a mesa de doces, deixando copos descartáveis no chão, forminhas vazias e alguns balões estourados. Pode parecer estranho minha defesa, sobretudo em tempos de busca irrestrita de felicidade, de entorpecimento e fuga, mas requiro o direito do pesar, da dúvida, do remorso, de remoer falhas, o direito de errar, perder as chaves, mudar de direção, de perder o sentido, habitar o caos. Por certo o júbilo não é tão somente acessado em via de mão única no estreito lamaçal, mas por vezes, é essa massa anti-séptica que nos cicatriza e depois do banho na chuva, pomo-nos á dança.

11 março, 2012

Quando passei na faculdade

Posted in Desabafos às 10:34 pm por Deborah Sá

Imaginei euforia, imaginei gritaria mas não previa que o momento tão aguardado me traria silêncio, vontade de ficar só, lágrimas. E me perguntavam porque transparecia tanta tristeza em alcançar o que almejei  por anos.

Larguei meu antigo emprego, o último dia foi em uma sexta, entrei no novo na segunda, ou seja, não experimentei o desemprego o que é ótimo em termos de economia pessoal já que meu pé de meia nem é tão grande assim, no entanto é conturbado no sentido de adapta-me. Sou expansiva e sabia que para trabalhar no ramo que tenho experiência significaria colocar no “armário” algumas coisas que são importantes ao expressar individualidade. Cobri os fios laranjas com tinta preta, coloquei roupas mais sóbrias, tenho guardado meus decotes para os fins de semana, tenho de mudar e isso pode parecer bobo para quem não teve um histórico conservador e cristão, demorei uma “caralhada” de tempo pra assumir o que sou e agora me sinto triste em ter que sufocar isso pra atender uma demanda de mercado.  Somado, ainda não dominei todas as atividades que assumirei nesse novo cargo e estou naquela fase de treinamento quase infantil quando o “não” impera. “Você não deve fazer isso, aquilo, aquilo outro”. Difícil ter segurança em um ambiente desses, mas pode ser apenas a fase de adaptação, então sigo.

No dia da matrícula da faculdade compareci por horas esperando a secretaria abrir, a hora da matrícula começar e minhas supervisoras no serviço não gostaram pois houve desencontro de informações. Me desesperei e sentada nos bancos de madeira da Unifesp apoiei o rosto nas mãos e chorei de lavar a alma, muita pressão, muita insegurança, muito de não saber do que será daqui para frente, as funcionárias da limpeza vieram perguntar se eu passava mal prometendo colocar meu nome na caixinha de orações da igreja. Fiz a inscrição e dias após vi uma palestra (?) no teatro (?) e encontrei um amigo (ele estudará comigo).

Um lado meu está tremendamente feliz por ter passado na Unifesp em Pedagogia (depois peço transferência para História), mas estou em um período forte de instabilidade, de não saber se serei hostilizada na faculdade, no serviço, se darei conta de conciliar os estudos e o trabalho.  Sei que muito dessa incerteza está enraizada no meu passado, de me dizerem, de me agredirem, de me privarem, de lutar muito pra entrar em uma faculdade pública e agora arcar com mais responsabilidade, então não é um período de festa, é de refazer-se, de flexibilizar-se, de recriar-me na medida que as circunstancias surgem.

Amanhã começam as aulas e o que será daqui pra frente é uma incógnita, não vou me perder por aí, isso que importa. Se não fujo da alegria, tampouco ignoro a angústia e a incerteza, seja lá o que me aguarda, há forças para manter a cabeça erguida.

28 dezembro, 2011

Do que se passou em 2011

Posted in Cotidiano, Desabafos às 2:37 pm por Deborah Sá

Essa é a Frida, eu e minha irmã conseguimos um lar para ela

Comecei a andar de bicicleta e caí por duas vezes, ainda não tenho coragem de ocupar a via pública. Foi como se sempre soubesse desse equilíbrio, recluso. É assim que sinto uma porção de vezes diante das dificuldades, que estou trancada, que não consigo expor, que falta a chave para abrir mais uma jaula. E uma vez aberta mesmo que presa em armadilha antiga; recordo como escapei para lançar o corpo fora das grades corroídas de ferrugem. Raspei os cabelos mais uma vez, depois de crescidos foram descoloridos e tingidos com anilina cor de laranja, coloquei um piercing na orelha, planejei o desenho da futura tatuagem que espero fazer em breve. Aprendi as quatro operações matemáticas… E sofri. Ter de explicar que não é frescura, que não é uma reação exagerada, que não lido com isso da mesma forma que a imensa maioria das pessoas, que não é querer ser “boa em tudo”. Tem a ver com minha infância, com o abuso do meu avô, com sentir-se incapaz.

Não há nada que deseje fazer que meu corpo impeça: Dançar, correr atrás para pegar o ônibus partindo do ponto, usar o cabelo curtíssimo, listras horizontais, Yoga, entretanto não foram apenas essas limitações que me impuseram, logo percebi minha auto-estima intelectual em frangalhos, me sentia “burra”, humilhantemente estúpida, embaraçada de conviver com pessoas de nível acadêmico maior (andei com mais universitários esse ano), não que adquirissem posturas esnobes, mas em algumas conversas sentia um nível de abstração que colocava minhas idéias para fora daqueles espaços, parecia outro idioma. Esse ano fiz uma carteirinha em uma biblioteca “de verdade”, não como das escolas que freqüentei de livros escassos, capengas, das cadeiras desconfortáveis e rachadas, fui em uma dessas com bancos de dados e muitos títulos a disposição, ao ver o carimbo com a data e o prazo de entrega para mais quinze dias tive vontade de chorar, parecia que o mundo estava aberto diante de mim, se pareço apaixonada é porque realmente me dedico de coração e essas conquistas assumem grande dimensão em vista de onde parti. Dessa trajetória e minha relação com os estudos escrevi para Lola, nesse Guest Post,  somado entre outros desabafos nesses quase quatro anos de postagens no blog.

Sei que a inteligência é um parâmetro subjetivo, mas assim como uma mulher com acúmulo feminista sente-se “feia” e cogita em um lapso recorrer a métodos que tornem seu corpo parte da norma exclusivamente para livrar-se da pressão, aprendo paulatinamente não me culpar pelas lacunas de minha educação, se não domino algumas disciplinas de caráter técnico que são disponibilizadas para uma pequena parcela é porque me privaram disso, assim como tantas outras possibilidades que me foram extirpadas sem que me dessem a chance de experimentá-las. Enquanto parte dessa margem meu desejo é expandir, compartilhar o que tenho acesso dedicando-me a educação, ser professora. Distante… Mas quais das minhas bandeiras são simplórias e de curto prazo?

Também foi um ano de rever meus ativismos, com mais senso crítico, mais honestidade. Não há muito tempo atrás, sentia medo de trazer a tona o que me incomodava no Feminismo, por exemplo, a Transfobia, o discurso biologizante que faz parte de algumas discussões, ou o elitismo evidente que perpetua alguns debates como o das empregadas domésticas. Com isso não estou “jogando fora” os anos de luta, as válidas reivindicações, questionar uma vertente de pensamento não deveria ser tratado como blasfêmia. Da referida honestidade apliquei ao Veganismo por ser um tema mais delicado que o Feminismo, evitava aprofundar para não entrar em conflito com pessoas próximas, inclusive do meio Feminista. É “aceitável” (muitas aspas, porque vivemos em um país de preconceito velado) reclamar do machismo em uma peça publicitária, em uma letra de música, de uma piada misógina, no entanto o que dizer da onipresença onívora? Da liberdade dada a qualquer humano para que crie uma galinha e a sacrifique no seu quintal? Que atravessar um anzol nos lábios de um peixe seja sinônimo de diversão? Que aves sejam esvaziadas de seus órgãos e recheadas com farofa para comemorar os anos que seguem um após outro? São fatos inconvenientes, eu sei. Mas precisam ser ditos sem eufemismos de uma mentira bucólica, nem romancear o estado de decomposição de quem não escolheu falecer, estou ciente que a pecuária é a campeã do trabalho escravo (mais que a indústria de carvão, setor têxtil e cana de açúcar), o que sugiro é que pensemos além do próprio umbigo, lançar mão do status de ápice da criação, centelha divina, o que parece difícil, pois se inicialmente as religiões ocidentais nos prendiam nesse agraciamento cósmico a ciência têm razões de sobra pra cimentar nosso antropocentrismo.

Conheci e reencontrei pessoas incríveis, me afastei de quem me magoou e parece nem sentir falta. Cumpri a resolução do ano passado que era me desfazer de todas as roupas que me deixavam desconfortável e vestir apenas o que deixava segura. Completei cinco anos ao lado do meu companheiro que me amparou e deixou que minhas lágrimas molhassem sua blusa por repetidas vezes oferecendo conforto quando me sentia absolutamente solitária, o elo com minha irmã permanece pois somos inseparáveis desde que a vi pequena com os cabelinhos cacheados, desde que tive a sorte de tê-la como amiga. Minha mãe se formou em Serviço Social aos quarenta e cinco anos e ao ajudá-la nos trabalhos escrevi pela primeira vez em ABNT. Meu pai mesmo longe, vibra com cada conquista.

Permiti declarar ainda mais falhas, não que fossem secretas, mas compartilhá-las continua um exercício de compreender, perdoar e enfrentar. Ao me reinventar, descobri a mim mesma e agradeço quem se dispôs a acompanhar e desejar-me sorte, sou grata também a quem se abriu nesse espaço compartilhando suas vivências, ensinando por outros olhares, obrigada a quem faz dessa Deborah, alguém que aprende com você.

28 novembro, 2011

Resiliência

Posted in Desabafos às 10:37 am por Deborah Sá


Quando bem pequena ganhei um brinquedo chamado Vira a Mesa, causava medo, não lembro bem o objetivo do jogo e a única coisa que realmente gostava era o pratinho com adesivo de espaguete, sei que o jogo era rápido e se demorasse tremia e virava a mesa jogando os acessórios longe. Virava de costas para TV ao abraçar minha mãe com medo da abertura de um programa do Chico Anysio onde esticava a cara, os olhos e o nariz com computação gráfica. Enxergava um monstro imaginário, um ursinho de pelúcia marrom com olhos vermelhos, dentes pontiagudos (como uma piranha) que se mexia mecanicamente com olhar aterrador, ele só aparecia no escuro na lateral do guarda-roupa, uma imagem holográfica com bastante relevo.

Gostava de ficar sozinha, solicitei para minha mãe aos três anos para dormir na casa de amigos dela,  para os amigos pedi um dos quartos para mim e dormi em uma cama de casal, dizem ainda, que não chamei durante a noite e quieta, fechei a porta. Na minha rua (já morei em quatro endereços), havia uma menina chamada Sheila e ela não tratava bem outras crianças, tenho quase certeza que era mais nova que eu, embora mais alta e magra, um dia brincando de pega-pega escorreguei em um barranco pequeno, ela me pegou pela mão e pedi que não me soltasse, ao dar um sorriso sarcástico me largou, achei que iria morrer. Quando cheguei embaixo percebi que a distância era pouca e praticamente não me ralei. Se minha mãe perguntava qual bolo queria, respondia “bolo de bolo”, o que significava “baunilha”, não sabia o que queria ser quando crescer; pedia os brinquedos mais baratos ou nem fazia muita questão deles. Apegava-me aos brinquedos que ganhava e nunca os rabiscava ou cortava cabelos das bonecas, e após brincar guardava-os na caixa. Alguns adultos me queriam mais enérgica, preferia brincar no Paint Brush a sair na rua, jogar Damas a Educação Física, escrever estórias a fazer contas. Tinha gente que dizia que eu parecia autista (mesmo sendo uma matraca), minha mãe irritada com meus modos dizia “Credo! Parece que você foi estuprada! Vive assustada, não pode ouvir um grito”, chorei quando me xingou de “Filha da Puta” pela primeira vez e minha avó, também perdeu a paciência mandando logo ir tomar banho e deixar de frescura, senão ela mesma iria me bater. Meus familiares não eram más pessoas, mas sem sombras de dúvida viviam a flor da pele.

Quebrando objetos da casa, gritos, paranóia religiosa, choro e berro, ameaças, direcionados a mim alguns tapas, chineladas, beliscões e chacoalhões. Sentia-me responsável de manter a estabilidade em especial depois que minha irmã nasceu, ela também se assustava, mas eu a chamava para longe (quase sempre na escada) e dizia que “iria passar” e “era assim mesmo”, quando tudo voltava ao normal olhava para ela de canto dizendo “Viu?”. Sempre que encontrava brecha a levava para escola, certa vez entrei para fazer companhia e as crianças gostaram quando substituí a professora que foi ao banheiro, eu levantava a placa com a figura de um animal e as crianças diziam juntas “Cachooooro”. Contei pra minha mãe sobre meu avô porque temi que ele ferisse minha irmã, brigava muito com minha “melhor amiga” para que não a desprezasse das nossas brincadeiras e durante as noites, fazia um teatro nas sombras da parede para fazê-la sorrir. Tentava proteger e apoiar, nem sempre consegui e errei um tanto de vezes.

Uma vez minha tia bateu o carro e tomada por uma calmaria, tranqüilizei ela e minha irmã, era essa minha responsabilidade, nos momentos de tensão trazer alguma harmonia, acobertei e tomei a frente de erros dos outros para assumir o dever sozinha, entrava na frente dos meus pais para proteger nossos animais de estimação. Não tive que trabalhar cedo para sustentar o lar, mas a carga assumida foi emocional sendo um ponto de equilíbrio comum que ligava as pessoas, se elas brigavam me reunia separadamente com as partes e tentava conciliá-las. Parece que o instinto de preservar outros era muito maior que o de cuidar de mim, a dor era um estado de permanência. Ainda carrego esse traço, quando alguém próximo começa um atrito é inevitável não sentir um frio na barriga e prever que está na hora de agir, é preciso apartar, apaziguar, é instintivo.

Não entendia bem (e confesso que ainda não compreendo em totalidade) o que me tornava alvo fácil se tentava o melhor que podia, por que quando tinha alguns meses de idade uma garotinha veio correndo na minha direção e tascou-me uma mordida? Por que com garotas ainda mais gordas na escola os valentões me expunham ao ridículo? Por que uma menina que nunca vi disse não gostar de mim e torceu meu braço no banheiro da igreja? Por que estava sob a mira do ódio se tentava doar amor? Não devolveria aquelas sensações, não daria o troco, me achavam imatura, retardada, ingênua, fraca, por ser imaginativa, chorona, não dar vazão a minha sexualidade. Só de imaginar que magoava alguém pranteava de remorso, cheguei ao ponto de pedir desculpas ao tapete que me fazia tropeçar (parece piada, mas é verdade que só me dei conta porque minha tia viu e mandou largar mão de ser idiota). Se derrubava o tacho de salada no chão ou quebrava um prato, abria o berreiro, era como se vivesse em estado de atenção, um Vira a Mesa eterno, com seus tremores prestes a espatifar minha tentativa de remendar a realidade quebradiça. Provavelmente as pessoas davam mais ênfase a essa faceta, por isso o choque em me perceber serena quando o caos rondava “Justo você, “a bunda mole” do grupo, agüentou o tranco sozinha”, esses também foram incapazes de ver que entrei na puberdade e menstruei primeiro que qualquer outra garota do meu círculo social, que imaginava meu pai esquartejando meu avô se lhe contasse a verdade, que a família me culparia e seria desintegrada. Quando confessei a verdade a minha mãe, meu avô morreu e chorei por culpa.

Ao me chamarem de retardada acreditei em cada uma das acusações, por isso me sentia limitada, incapaz, burra, sem a malícia que a vida exigia, escolhi abrir mão se isso significava ferir alguém, era incapaz de matar um caramujo e não compreendia o sadismo, como alguém consegue desejar e executar a violência? Essa sempre me pareceu nauseante, desesperadora, repulsiva.

Traduzido com legenda aqui

Bloqueei a Matemática do meu aprendizado, não sabia tabuada até esse ano de 2011 quando entrei no Kumon, as pessoas realmente não entenderam (e muitas ainda não compreendem) quando chorando parei diante de um problema e não conseguia lê-lo, fui a uma livraria, achei que precisava mudar de ambiente, no entanto minha vista não conseguia processar, olhos mareados, cinco linhas para decifrar e me sentia a criatura mais estúpida da face da terra. Nesses momentos esqueço-me de toda a força, do que superei, do esforço em revidar escrevendo minhas angústias, não há chão, não existe caminho percorrido ou origem, estou diante do infinito e das limitações. Isso não significa que quero ser perfeita, não significa que “estou correndo atrás do prejuízo”, aprendi a fazer subtrações “cortando o zero” apenas esse ano, tamanha minha dificuldade, resolvi os primeiros problemas, aprendi a tabuada até dez, fatorações e frações. É uma espécie de analfabetismo, me exigiam Camões sem o conhecimento das vogais. Sabia que aprender Matemática seria doloroso porque mexe com minha insegurança intelectual, diziam que era incapaz de certas coisas e aprender Matemática era uma delas, a inteligência que elogiavam em mim é a que flerta com a loucura e o devaneio, aquela de quem é alheia ao meio em que vive, daquela que se perde em uma lógica própria, covarde, a inteligência quase imbecil.

Sentimental demais, dizem, mas lhes digo queridos, a força que me move não tem outra causa senão o amor. Tateio um terreno ainda desconhecido, no entanto abandonei a vergonha de mostrar minhas cicatrizes e se não as querem ver, que procurem outros que atendam anseios de rigidez.

5 outubro, 2011

Até breve

Posted in Desabafos às 8:45 pm por Deborah Sá

Não consigo escrever, não do modo que fazia antes, nada parece bom. Porque o que não anda bem, é pessoal. Quase tudo que me conforta trás consigo alguma agonia. Meu emprego é estável, mas me faz infeliz. Estou no Kumon e tenho um bom desempenho, porém, cada nova dificuldade me faz sentir um lixo. Aprendi a andar de bicicleta, levei dois tombos e embora deseje, estou insegura para andar na rua. Incerta sobre o que realmente sinto, ora feliz pelas pequenas conquistas e em outros momentos me sentindo uma senhora de 90 anos que acabou de colocar aparelho nos dentes. É um período em que busco o silêncio e os caminhos parecem estreitos, talvez viver em uma quitinete aumente essa sensação.

Quando esse período passar volto pra cá, pois é só com o coração que sei escrever, nem que ele esteja em outro compasso.

Um abraço,

18 março, 2011

Percalços de uma boa moça

Posted in Desabafos, Memórias tagged às 7:05 pm por Deborah Sá

Quando cursava a Sétima Série houve uma seqüência de trotes para minha casa, não sei como conseguiram o telefone (talvez da contracapa do meu caderno), mas o fato é que durante algumas semanas era comum ouvir:

– Aquele rapaz que se diz seu namorado, ligou novamente.

Qual o propósito de ligar para a casa de uma adolescente retraída e provocar seu Pai? Talvez esperassem que fosse repreendida, mal sabiam que minha família não julgava inapropriado namorar. Certa vez, enquanto limpava a casa, o telefone tocou e atendi:

– Alô?
– Quem fala?
– É o namorado da Deborah.
– É a Deborah quem está falando, que história é essa? Não tenho namorado nenhum! Vá cuidar da sua vida!
– Calma… Você tem uma voz tão bonita… Vamos nos conhecer melhor…
– Não quero saber!

Ao subir as escadas para continuar a faxina, o telefone voltava a tocar, tornei-me cada vez mais nervosa ao ouvir os assédios, que encerraram após meu pedido com voz embargada: “Por favor… Me deixa em paz!”
Nesse mesmo período um aluno me perseguia na escola – e fora dela, acompanhando diariamente até o ponto de ônibus- tecendo comentários amedrontadores:

– Fica ligada hein? Se vier um cara “do nada” e te beijar, pode saber que fui eu quem pagou!

Eu era dessas que os adultos adoravam e crianças/adolescentes desprezavam, nunca tive grande aptidão para o Esporte, se obrigada a jogar futebol faziam sinal da cruz ao chutarem na minha direção e era alvo fácil no jogo de Queimada. Nunca escalei uma árvore, não sei andar de bicicleta e só falei palavrão depois dos dezoito, o primeiro beijo veio idem.

Já fui chamada de “Autista”, “Burra pra Matemática”, “Virginal” e certamente outros adjetivos não declarados que tolheram meu desenvolvimento social.

Autista

Enquanto minha Mãe estendia roupas no varal entregava o cesto dos pregadores para brincar, o entretenimento consistia em tirá-los um a um e depois os guardar individualmente, fazia isso por horas. Em um desses dias um menino mais velho acidentalmente (?) colocou o carrinho de fricção na minha cabeça. Meu pai conta que pareci um frade.

Adorava observar insetos no jardim em especial tatus-bola e formiguinhas deixando que andassem pela minha mão, em determinada ocasião, resolvi que adotaria uma formiga que julguei mais bonita (não perguntem, não sei o que tinha de especial). Idealizei que a fortificaria com folhas e um pote de maionese limpo (daria uma boa casa), me acompanharia cronologicamente e talvez morrêssemos juntas (imaginação fértil, eu sei).
Feliz, resolvi beijá-la, me mordeu e quando a tirei puxando dos lábios estava morta, chorei muito.

Enquanto outras crianças corriam e brincavam, gostava de ficar sozinha “no meu mundinho” fazendo chá de bonecas – que foram poucas, preferia bichinhos de pelúcia- ou “conversando sozinha”. Tive amigo e até “monstro” imaginário.

A vida é difícil, Tommy/Ás vezes penso que essa é a coisa mais díficil

Burra para Matemática

Ir a escola era uma oportunidade interessante (até a Terceira Série) de conversar com pessoas diferentes, principalmente os adultos (Coordenadoras, Inspetoras, Pessoal da Limpeza), minhas Redações eram sempre de maior pontuação, em compensação, era a pior em Matemática.
Nunca esfreguei na cara de ninguém minhas notas, mas os elogios públicos dos professores fizeram enaltecer meu déficit:
“Então você não é tão inteligente assim!”
“Se é esperta, porque é tão burra para matemática?”
“Você tem algum problema pessoal comigo? Então porque tira notas tão baixas só na minha matéria?”

Na Sétima Série indaguei a Professora se passaria de ano (meu boletim era repleto de “D” nessa matéria), ela disse que sentia muito e reprovaria. Entrei em desespero, pensei em me matar, chorei e voltei para casa pedindo ajuda a D-uz com toda minha fé. Ela não reprovou, não sei se mudou de opinião ou mentiu.

Era humilhante ano após ano ir até o Professor de Matemática explicar essa dificuldade tão “primária” e jurar que não, não era um problema pessoal. “Vai! Tem mais gente para ir à lousa! Corrige logo essa conta” e eu ia ás lágrimas, molhando a manga da blusa e passando na lousa para apagar falhas.

Não sabe resolver uma conta?

Virginal

Não gostava da comparação com a Sandy, porque sabia o que falavam dela.
Sonsa, não sexy, dependente e risível e é duro ouvir tudo isso, a Sandy ao menos tinha fãs e dinheiro. Imagino que houve empenho para ganhar o reconhecimento das “pessoas comuns” que pouco a conhecem e fazem uso de uma imagem que a mídia reforçou.

Ledo engano supor que “boas moças” não sejam depreciadas, poucos estão dispostos a ouvir o que têm a dizer, infantilizam seu discurso, rejeitam sua sexualidade e se exercerem qualquer aptidão, dificilmente serão “levadas a sério”.
Sentir-se abjeta, incapaz de despertar o desejo, insípida, desinteressante, é isso que nos levam a crer, sugestionam roupas novas, posturas extravagantes.

É claro que ocupar o lado oposto da dicotomia Santa x Puta trás repressões diferenciadas, mas perdi as contas do quanto ouvi de mulheres “bem resolvidas”: – Se eu fosse certinha como a Fulana seria simples, é fácil se enquadrar.

Embora falar em profusão nunca me foi dificultoso, pouco expunha conflitos. Ao passo que com sinceridade admiti motivações e temperamento, encontrei outro dilema: Se me sacudiam, beliscavam e agrediam em inércia até onde iriam por me conhecer “de verdade”?

Se não me abria com ninguém além de D-uz (minha consciência) e havia poucas pessoas confiáveis ao redor, seria necessário me reapresentar diante de conhecidos? Três amigas dos tempos de colégio receberam a notificação via e-mail: Havia escondido durante todo esse tempo o que realmente era, não por incapacidade delas em amparar, mas por não conseguir verbalizar e compreender tudo o que passei durante esse período soturno, vivido em silêncio enquanto próximas.

Não obstante, sentia falta de desabafar entre “iguais” e na internet me aproximei (timidamente) das mulheres que admirava; se outrora fui um livro trancado a sete chaves ao redigir gerei páginas translúcidas, sem perder a Capa Dura.

20 novembro, 2010

Do que me irrita nas sociabilidades obrigatórias

Posted in Desabafos às 12:42 pm por Deborah Sá

Muitas coisas andam passando pela minha cabeça, escrever é sempre a melhor forma de organizá-las, gosto de compartilhar com vocês mas são coisas que não necessariamente se relacionam, perdidas, mescladas, não seria possível sintetizá-las ao que tudo indica.  E como conhecem meus posts de desabafos são contínuos e de vírgulas e pontuações independentes (se joga bee). Enfim, ontem saí e encontrei pessoas muito legais no Sesc Pinheiros, palestra das Guerrilla Girls. Genial. Eu podia ir na Valentina e tal. Mas tinha festa na USP, quem lê aqui há um tempo (ou me conhece) sabe que esta seria a segunda vez que entro em uma faculdade pública. E não foi agradável.

Não sei se era bonito o lugar, pois estava escuro ás 00:00. O fato é que o ambiente universitário me irrita. Parece um bando de gente branca que vive em uma bolha. Não que eu desmereça o movimento estudantil. É muito válido. Apoio mobilizações. Sempre. O foda é que “vendo de longe” há um clima de confraternização no ar “vamos para o bar” e isto mistura ás vezes com um clima de hostilidade elitista. Tipo: Ó que foda, sou comunista, ó que foda, sou a elite intelectual desse país. E eu não curto essa vibe. Cheguei lá e quase todo mundo fuma e bebe. Fumar é meu anti-excitação imediato. Eu amo/tenho amig@s que fumam e são lind@s, querid@s pessoas fantásticas. Eu não odeio fumantes,  não quero que eles se fodam e cuspam o pulmão na tosse. Foi escolha deles fumar e já escutam MUITO que são bestas por isso, deixam que vivam, digo eu. Não é a minha forma de levar a vida, é a vida e o corpo deles. Mas fumaça de cigarro me emputece. Justifico: Está difícil um dia da semana onde não convivo com cheiro de cigarro. Isto tem me angustiado. De uma maneira gigantesca,  em especial em lugares fechados. Ou se mesmo em um lugar aberto a multidão fuma, fico rodeada por fumaça e não tem para onde fugir. Fumaça de cigarro é quase um lance claustrofóbico. E sim, eu fico surpresa quando acabei de conhecer uma garota e ela acende um cigarro. Porque é quase pré-requisito ser sapatão e beber/fumar. E ao contrário do que muita gente pensa, há muita sapa que é bem conservadora. Quer ser mãe. Não curte mina peluda. Esses lances, mas é direito delas.

Gente bêbada me irrita. Ambiente UHUUULLLL me irrita. Acho plástico, acho Control + C + V geral. Caras de pólo e gelzinho, meninas de cabelo castanho, comprido e bolsa de alça dourada (corrente). Quando eu era pequena no início dos anos 90 todas as mulheres da igreja usavam isso e era cafona sabe? Igual as meia-calça de chochê. Mas hoje curtem usar batom Snob. Acho feio, mas foda-se é só um batom. Há quem diga que me irrito por falta de boa companhia, mas quando fui (sozinha) a The Week encontrei várias pessoas bacanas e isso não salvou a minha noite.

Eu curtia sair para dançar músicas dos anos 80. Amo Smiths. Mas esperava sentada por muito tempo até tocar uma música boa. Sweet Dreams. Daí me emputeci desse ambiente hétero onde caras bêbados se aproximam de forma escrota. Já me diverti horrores nas baladas LGBTT dançando Spice Girls. Gosto de ambientes onde as pessoas dançam mais “soltas”, onde podem se beijar e curtir. E isso não é característica de balada hétero. Característica de balada hétero é Black Eyes Peas e música fragmentada sem refrão (o que significa eu gritando “eh, eh, eh, eh” – de Telephone- Forever Alone enquanto mudam bruscamente pra Ke$ha). Beber e fumar são passaporte para vida adulta. Maconheiros me respeitam mais que onívoros, fumantes ou amantes da cerveja. Eles ofecerem o baseado, eu recuso e só, onívoros, fumantes e “bebedores” só faltam enfiar o troço a força.

 

Ah, mas você é muito séria, bebe aEEEEE. A Picanha tá sen-sa-cio-nal. *FUUUUUH* (Cigarro) Não acredito que nunca fumou. Nada? Você se acha superior por isso? Odeio a geração saúde. Então caras, eu não sou fodona por não gostar dessas coisas, mas você não é especial por beber cerveja. Juro, você é normal. Só isso.

Achei o pessoal da USP mais “cheio de si”. Mas UHUULLL. E não é só porque mais de cinco carros passaram na entrada da USP com os caras gritando coisas como “AÊ seus fracassados! Se fodam eu vou de carro”. “Hahaha trouxas” enquanto eu aguardava meu ônibus ás 4:30 . Os incomodados que se mudem, certo?

Pra que ficar com cara de bunda se eu posso sair do local? Um dos motoristas gritou: “Vai se foder careca! Porra, é uma mulher!”  E eu saí de lá porque não aguentava esperar músicas legais sentada, enquanto tocava MC. Catra. Esse cara que o pessoal anda puxando muito o saco. Ok, as mulheres dele parecem felizes, mas  o discurso é preso na Mística Feminina, algo que sou contra. E ao que tudo indica (vi a entrevista dele no Superpop), ele criará as filhas para serem como suas esposas, já os rapazes podem ter quantas mulheres quiserem (desde que possam manter). Poligamia cristã total. Não tenho nada contra relacionamentos abertos (em todas as partes envolvidas), mas dizer que ciúme é “coisa de mulher” e homem que queima gostosa é viado invisibiliza a luta das minorias e a violência que sofrem cotidianamente. Separar mulheres entre bonitas/feias, de casar/trepar também não ajuda.Infelizmente uma coisa não é atrelada a outra, com isto vi pessoas que são conscientes de Classe e não Raça, de Raça e não Gênero. E isso é bem a perspectiva do Mr. Catra. Então cheguei a um ponto onde minha paciência para Buatchy tem se esgotado, me divertindo mais dançando na casa de amigos. Ou Forever Alone com fones de ouvido.

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