23 janeiro, 2014

Senha A22? A23?…

Posted in Cotidiano, Crônicas e contos às 1:05 pm por Deborah Sá

Ao meu lado, pele parda, boné, barba por fazer, leve hálito de bebida. Onze horas da manhã esperando o atendimento na mesa do banco. Passou meia hora e mais outra meia hora. Baforamos, os dois com um pouco de pena da atendente sozinha, clientes sucessivamente. Apontou para o pedaço de minha tatuagem despontando na gola do vestido cinza.
– Ei, bonita, hein?
– Obrigada.
– Tenho a minha também.
Mostrou dragão em um braço, no outro, pergaminho com o nome da filha. Estava lá para fazer empréstimo. Baixou a cabeça em desalento. “Sabe como é…a gente começa e não sabe mais parar”. Contou as primeiras vezes na cocaína e as poucas vezes que experimentou crack. Histórico familiar: Esquizofrenia. Diz trabalhar armado, às vezes ouve vozes as quais mandavam ele se matar. Era herói para filha e esposa, agora, uma vergonha. Claramente sentia embaraço. Na infância apanhava do pai, chegava tarde, sempre depois das sete, ameaçando colocar fogo na mãe. “Eu não quero ser igual meu pai, não quero ser alcoólatra”. “Não sei o que fazer com a minha raiva”. Já trabalhou de segurança em banco, explicou como funciona o detector, o peso de um bom colete à prova de balas (porque 38 é oval, entra e para, não é igual metralhadora e outros modelos). É soldado. Nunca operou alterado. Já viu colega de trabalho comparecer ao serviço “se mordendo”, “com pupila gigante”. Diz não saber por onde começar. Sugeri que escrevesse. Escreve, no celular “tem quase dez páginas, já”. Tentou duas vezes entrar na polícia. Na primeira foi sincero “Estou aqui pra matar bandido”. Não passou. Na segunda buscou dicas “Quero proteger a sociedade”. Aprovou. Melancolia exalando mais que o etílico. Não cessava. Sugeri fazer faculdade de Filosofia, já tentou, “muito parado!”. Pensou em fazer Psicologia, porém, afirmou não ser bom ouvinte. “Às vezes as pessoas só precisam de uma palavra amiga”, pontuou. Espontaneamente depois de quase meia hora abrindo o peito, soltou: “Era fechado, falava nada, fiz teatro, adorei. Sou noveleiro. Adorava o teatro, era feliz ali”. Eu o disse: “Isso, teatro é uma ótima, quem sabe, né?” A moça chamou meu número. “A24?” Levantei, aprumei o vestido. Acenei desejando boa sorte, o desconhecido agradeceu. Quiçá haverá outro encontro entre nós, talvez eu de punho em riste, talvez correndo, talvez, ele, fardado, cassetete na mão.

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20 dezembro, 2013

Apocalipse – Capítulo V

Posted in Crônicas e contos às 10:50 am por Deborah Sá

Um estranho acontecimento mudou embalagens e enlatados, cada supermercado, vendinha, restaurante e lanchonete. A dispensa dos lares, todos os bares. O industrializado ganhou um microscópico selo prateado: V. Os queijos não derretiam, o leite tinha gosto de soja, arroz, amêndoa, abacate. Tudo, menos leite. Os consumidores voltavam ao supermercado com as embalagens estourando de tão pesadas, os comerciantes recusavam a devolver o dinheiro, afinal, estava no prazo de validade. Era domingo. Augusta, aposentada, viúva, dona de casa, temente a Deus, seguiu a rotina. Fez o macarrão, colocou a coca-cola na mesa e esperou os netos chegarem com o frango. Demoraram, resolveu ligar. O neto, em soluços do outro lado da linha, dizia que as granjas e as padarias amanheceram rodando grandes máquinas vazias. As estruturas metálicas rangiam, brilhando, limpas. Augusta, falando pausadamente pediu para que ele viesse mesmo assim, tinha macarrão em casa, era final de ano. É natural as pessoas gastarem mais dinheiro do que gastam quando já não tem.  Ele disse que não estava em condições, chamou ela para a missa, era momento de esperança e fé. Ela achou melhor comer antes de sair e assim o fez. O pastor, Cléber, estava com os fiéis em um vigília e depois do jejum, decidiu comprar presunto e queijo. Apertando a bíblia mole contra o peito, andou pelos corredores, o mercadinho estava completamente revirado, as embalagens rasgadas, a sessão de frios reluzente com a luz branca quase hospitalar. Televisão não falava de outra coisa. A revista semanal mais vendida dizia com todas as letras ser plano de dominação mundial dos barbudos comunistas, eles se defendiam com argumento irrefutável de inocência: – Não fomos nós, ainda existe coca-cola.

9 outubro, 2013

Afaste bolsas e mochilas da região das portas

Posted in Cotidiano, Crônicas e contos às 10:20 pm por Deborah Sá

Eu, do lado de dentro do vagão. Ele, do lado de fora. Sé. Alto, tinha poucos pelos de barba, mal formavam um cavanhaque, os braços também mostravam penugens douradas. A pele era rósea, o olhar verde e perdido, um pouco preocupado. Resolvi encarar já que as portas haviam fechado, estava na minha zona de segurança. Encarei nos olhos, ele olhou sério uma vez, desviou o olhar, voltou novamente a encontrar com os meus, castanhos e persistentes. Vi uma fração de movimento ali. Não aguentei, sorri bem grande mostrando todos os dentes, “jogo do sério”  não é comigo. Pelo visto nem com ele, sorriu de volta, mas de canto, um pouco vaidoso, um pouco encabulado.

10 setembro, 2013

Em um corredor do SUS

Posted in Cotidiano, Crônicas e contos às 8:46 am por Deborah Sá

Passou por mim um idoso com os cabelos brancos, andar encurvado, óculos em meia lua. De braços mega tatuados em motivos orientais (demônios e outros), o olhei com admiração. Ele me olhou de volta. Se aproximou, levantou o antebraço colorido e com o indicador da outra mão, apontou para o desenho que carrego no peito; e sorrindo disse:

– Quer trocar?

31 janeiro, 2013

Com luva de pelica

Posted in Cotidiano, Crônicas e contos às 1:30 pm por Deborah Sá

navalha
Ao desviar ataques usei a polidez, o “com licença” e o “obrigada” serviram para conseguir avanços nas brechas. Tive de me afirmar primeiro, combater primeiro, porque quem não bate leva na outra face. Se outrora não pude impedir que me odiassem, tentei reagir pé ante pé e por depender das estruturas que me tolhiam o fiz com sutileza. Assim passo meio ressabiada da gentileza que adquiro em resposta. Estranho o espaço no horizonte já que vivia presa no quintal querendo ser bicho solto. Agora o portão se abriu e tenho um espaço imenso para interagir. O cabresto da idiotia que me destinaram escorregou num baque surdo no chão, não me vêem mais como saco de pancadas ou como uma criatura que destila tonterías. Ontem, em um vagão de metrô saquei o lápis para marcar um livro, em instantes entrou causando alvoroço um grupo de jovens barulhentos. Eles se penduravam e davam risadas lembrando de forma fidedigna, o tipo de comportamento que vi nos jovens ao meu redor nos tempos de escola. Eis que uma amiga diz para outra:

– Sua filha da puta, pisou no meu pé. Vou dar um tiro na sua cara.

Eles e elas trocavam tapas e socos como amigos. Para quem não conviveu com esse tipo de comportamento é espantoso, porém, foi de tamanha familiaridade que pude me imaginar mais uma vez nas carteiras, com o barulho zunindo, as canecas de plástico azul voando pela sala, ora me acertando, ora não, enquanto me concentrava em alguma leitura. Voltando ao presente, por um instante acreditei que poderiam avançar contra meu livro fazendo dancinhas, rasgando o papel ou me chamando de retardada. E quão errada estava em minha suposição quando um deles se adiantou e disse:

– Vamos fazer menos barulho, caralho, que a moça está lendo.

7 dezembro, 2011

Solitários na floresta de concreto e aço

Posted in Cotidiano, Crônicas e contos às 8:06 am por Deborah Sá


Um homem ao volante, um grupo de cães, quer dizer, pombos, isso faz uma diferença enorme no peso moral da época que vivo, pois bem, um grupo de pombos estava no meio da pista enquanto o carro se aproximou e olhei aflita esperando passar, verifiquei se todos haviam conseguido escapar, o do meio não, a visão periférica não conseguiu perceber a expressão exata do passageiro que olhava para trás no momento que o carro acelerava, mas creio que houve um sorriso. Não adiantaria anotar a placa, a empatia certas horas parece excêntrica, histérica. As asas balançavam no vento ou quem sabe, de agonia molhada no sangue fresco. Virei o rosto tentando esquecer o que estava bem do lado, quase na Vinte e Três de Maio. Tenho respeito pelos que têm patas, penas, escamas, rabo, são diferentes de mim pela biologia, próximos por participarmos desse sopro que é o nosso período curto na História do Universo. E eu chorei por aquele, desejei que tivesse sido o menos doloroso possível, esmagado pela estrutura de metal, se foi. E já dentro do ônibus, com o maxilar duro de tristeza e de coração pesado, ouço os passageiros rirem de um suicida que se jogou “de mochila e tudo” nessa mesma Vinte e Três, não é só o monóxido de carbono que torna essa cidade cinza e de ar pesado.

8 junho, 2010

Bem vinda ao mundo corporativo

Posted in Cotidiano, Crônicas e contos às 10:21 am por Deborah Sá

É daqui que a saia lápis vira uniforme e a dor de cabeça pela noite mal dormida se instala, quando a mulher chora em sua baia é fraca, o patrão esmurrando a mesa jamais nomearão TPM. A bebida é escura: cafeína, tabaco, chá preto e chocolate –meio amargo – Apontam o dedo na cara de quem estoura o limite do quinto cartão de crédito. Entupimos-nos de fritura, refrigerante e fúria, não há tempo para mastigar, os filmes são vertiginosos, caso contrário, não parece ficção. Quanto tempo dentro do ônibus? Aprendemos a sorrir quando sobra uma vaga, assim é possível descansar os olhos (mesmo que a coluna não agradeça, ou a cabeça bata eventualmente no vidro).

11 julho, 2008

Dear Pamela…

Posted in Cotidiano, Crônicas e contos tagged , às 11:19 am por Deborah Sá

Entrei no ônibus. Passei a catraca. Sentei no último dos bancos altos. E na parte superior do painel do motorista. Eu vi uma foto de uma loira. Uma loira beiçuda. Era? Era sim! Era a Pamela Anderson! Mas porque alguém coloca uma foto do rosto da Pamela Anderson? Seria porque um pôster ia ser estranho? Como em uma borracharia? Mas aquela foto parecia algo de querido por ele, sei lá, o local onde foi colado…parecia algo como um retrato de alguém que se ama…será que ele ama a Pamela Anderson? E mais! O rosto da Pamela Anderson? Está tão puxado… Espremi os olhos para enxergar melhor, hummm…seria uma foto de Baywatch? Nuvens no fundo…hum…Ai Caramba! É Jesus!