6 novembro, 2013

Deus é monogâmico

Posted in Crenças às 12:33 pm por Deborah Sá

Deus vigia sua vida e sabe com quem conversou, em qual data, a duração do seu último telefonema. Assiste o dormir e o acordar, conta teus passos. Quer que você o ame acima de todas as coisas, segundo seu entendimento, quem ama de verdade não tem olhos para mais ninguém. Especialmente ele, que é generoso o bastante para te manter respirando. Ele não aceita “dividir” porque você é “dele” e o ciúme é chamado “cuidado”. Não te quer de qualquer jeito, quer o corpo, a alma, o pensamento, os desejos direcionados, entrega total, devotada, penitente e resignada. Ele te testa rotineiramente para provar pro rival o quanto te tem na mão e o quanto você é leal. Deus, diz que você sem ele não é nada, a folha da árvore só cai com seu consentimento e até onde a vista alcança, é em tudo, domínio. As criaturas não humanas estão igualmente em poderio (esposos controladores usam animais para coerção de esposas e filhos). Deus permite que suas coisas quebrem e igualmente te quebrem, escolhe livrar de algumas coisas e outras não. Deus escreve certo por linhas tortas na certeza de ser muito mais inteligente e superior. Se por alguma razão você apanha, é porque merece e se não merece, há de merecer. És pecado original e perpétuo, é esposa submissa, valorosa, aguardando os desígnios. Incontáveis depoimentos descrevem quão desgraçados são os que abandonaram à Deus, pois marido possessivo que é, afirma ao fiel que o abandono, adultério e/ou a fornicação tornarão a vida um inferno, ou ainda, na versão mais sádica, postergará o sofrer aos excluídos. Os que duvidam, os que desejam além da superfície, os que dão vazão, os que explodem, os que instigam, a criancinha honesta ao constranger o adulto com boca grande, simplicidade explícita, os loucos, com e sem laudo, os dúbios e irônicos, todos, irremediavelmente condenados. Tradicionalmente o casamento arranjado com Deus é feito na idade em que não se pode tomar as próprias decisões, dizem ser um “partidão”, quase unanimidade. As divorciadas, isso é, as insubordinadas de coração e mente, trocam o cronograma fixo do paraíso por outro registro, feito de intervenção e reinvenção. Úmido e brilhante como a tinta fresca da caneta que não cessa de deixar estrias no papel.

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29 julho, 2013

Joguei meu véu no lixo (e jogaria novamente)

Posted in Crenças, O pessoal é político, Por um Estado Laico às 1:37 pm por Deborah Sá

Em um primeiro momento julguei o quebra-quebra de santos um erro estratégico. Uma peça de teatro, um filme, um videoclipe, uma fotografia com a mesma performance não traria essas dúvidas. A dúvida era, será que as pessoas entenderiam a mensagem? Francamente, o movimento feminista já tem o filme bem queimado, culpabilizar esse ato pela má impressão seria uma injustiça. Mas por que o feminismo não é mais divulgado? Porque não interessa a grande mídia, porque não faz aumentar a venda de cosméticos e cintas modeladoras, porque vai à contramão do sacrifício e da penitência, porque defende o respeito não só pra quem tem dinheiro e supostamente faz jus à dignidade. Aliás, o feminismo rasga em pedacinhos o lema “tem que se dar o respeito”, você não precisa falar baixo para ser respeitado, você não precisa usar uma roupa comportada para ser respeitado, você não precisa ter um diploma para ser alguém na vida. Você deve ter o direito de possuir iguais oportunidades para só então, escolher entre qual caminho escolher e como nem todo mundo tem o mesmo ponto de partida há distanciamentos onde cada um consegue chegar, são essas distâncias que o feminismo pretende encurtar.

Voltemos à santa, como qualquer espaço na grande mídia, ganha flash o que der mais ibope. Se você espera que a TV ou os jornais reportem os eventos como um todo, esqueça, o melhor é tentar ouvir dos envolvidos como as coisas aconteceram. Pesquise blogs, perfis no twitter, portais de notícia além dos tradicionais. Se as pessoas entenderão a mensagem daquela violência simbólica depende de muitos fatores, principalmente de quais são suas fontes de informação.

Tom Regan, em Jaulas Vazias, diz que o erro discursivo dos defensores Direito Animal é dizerem-se “sem violência” e apoiarem a ALF que ataca a propriedade privada (entram de capuz, libertam os animais, pixam e quebram laboratórios). Essa crítica é válida se pensarmos que alguns ativistas tem de fato uma prática de nunca revidar, nunca agredir. Mas eu não sou parte desse grupo, defendo algumas formas de violência, especialmente, as que envolvem grandes corporações e estruturas opressoras. Quando se quebra algumas imagens de santos católicos (comprados) é uma violência simbólica, um revide. Mas o que uma imagem de gesso representa? Representa a fé de muita gente, a bondade e a pureza da mulher, a virgindade. Ao quebrar a santa se pensou para além disso, foram considerados os casos de pedofilia acobertados pela igreja, nas mulheres queimadas em fogueiras, nas negras e pobres que morrem pelo não direito aos seus corpos, enquanto mulheres brancas (e até católicas!) pagam por uma clínica e acobertam o aborto. Por um amontoado de células valerem mais que uma mulher adulta, pela excomunhão de uma menina de nove anos vítima de estupro, pelos filhos jovens que apanham e são expulsos de casa por não ser hétero, pelos milhares de jovens suicidas que tentaram expurgar a culpa de seus desejos e corpos.  Contra a defesa do fiel cordeiro que vai ao abate em resignação ao seu destino.

Cresci em preceitos cristãos, mais precisamente evangélicos, meu destino foi traçado de muitas formas e interligado a esse fato. Somado aos dados de meu gênero e classe, a essa altura estaria com alguns filhos, muito provavelmente indo do culto para casa, limpando e zelando do lar, sem concluir o Ensino Médio, talvez sem nunca conhecer um orgasmo. Eu era infeliz, em Cristo. Mas havia algo pulsando dentro de mim que era sufocado pela religião e por grilhões psicológicos intensos. Tive medo de me soltar e do mundo me engolir, tive medo de buscar o meu prazer e do desconhecido, até onde seria capaz de chegar? Quem seria essa pessoa trancada no armário? Sentia olhos invisíveis pairando sobre o meu sexo, nas primeiras vezes que pratiquei de modo consentido (a minha primeira experiência sexual foi aos dez anos, não consentida, ele acreditava em Deus) tinha de olhar todos os cantinhos do espaço em que estávamos para ter a certeza de não ter câmeras. Aos poucos a vergonha foi trocada pelo orgulho e num dia de cortar laços, juntei as centenas de recitativos, a bíblia pequena e até o meu véu, embolei em uma sacola plástica, fiz o lacinho, desci as escadas e deixei para o lixeiro levar aquela aliança cortada, o pedaço que já não me pertencia. E encontrei um horizonte tão, tão grande, que às vezes me assusto o tanto que avancei e o tanto de carinho e amor que recebo, o quanto estou melhor. Não faço mais qualquer questão de ser barrada no mundo celestial onde flutuam fetos e almas de pessoas tão elevadas, cacos de gesso, tocos de crucifixos, leite e mel (até porque, sou vegan) e trilha sonora gospel. Prefiro extrair da minha breve estadia o máximo de prazer e aprendizado. Faço da minha prática a busca por igualdade, não por medo das labaredas de um carrasco a mando de Deus, mas porque é justo.

5 fevereiro, 2013

O pastor da dominância pelo grito

Posted in Crenças tagged às 11:17 pm por Deborah Sá

Nem em meus tempos de cristandade gostava desse tipo de pregação e oratória. Por certo muitos preferem e acham louvável uma liderança masculina que fala aos berros, que não abre espaço pro diálogo. Basta ver a entrevista no De Frente com Gabi dessa semana, se ela não interrompesse o pastor durante suas falas ele continuaria o monólogo. Uma pessoa que não aprendeu a ouvir não respeita a dialética, não é ponderada ou sensata, está absorta em sua própria torrente de egolatria. De igual modo apresentadores sensacionalistas são populares, é a afetação masculina de terno e gravata. Se uma mulher se porta assim (mesmo que usando louboutin) é tida como “sem classe”, espalhafatosa. Um homem no molde colérico ganha um BBB, vira líder, tem fama de polêmico e supostamente tem o poder de persuasão. O que é um equívoco, esses líderes não persuadem, eles metem medo, eles coagem. Um discurso cristão que afirma que Deus manda para o inferno quem não o ama é uma pronúncia de medo e dominação, de posse. “Se você me abandonar  mando te torturar”.  Nessa lógica cristã de rolo compressor Deus não suja as mãos mas manda seu parceiro, o Diabo, fazer o trabalho sujo no porão de tortura chamado inferno. Eu já amei a Deus mais do que amei minha própria vida, ao ponto de silenciar meus desejos, ao ponto de pedir a ele com todo coração que se fosse pra perder minha fé, que me levasse antes. A fé se foi aos poucos e tive medo de raios na cabeça, perdas na família, castigos eternos e terrenos, de pesares e angústias. Hoje além de gozar das delícias da coerência entre consciência e prática, não acredito em nada além desse plano terrestre, em vidas vindouras, em espíritos, anjos ou demônios. Mas creio que se Jesus caminhasse por entre as ruas ele estaria com os excluídos, os de cabelos coloridos e black power, fazendo rimas de rap e grafitando paredes, com as putas, com os viados, com as lésbicas, com transexuais e travestis. Ele defenderia o amor. Ele pegaria ônibus ou dormiria em um papelão com os pés sujos para fora. Ele defenderia justiça e igualdade social para humanos e também para os animais. Sobretudo creio que se Jesus estivesse entre nós, não comungaria entre os endinheirados, engravatados, arrogantes, tirânicos, tampouco com os que usam o seu nome para deferir maldições.

16 janeiro, 2013

Carta para Deus (se é que ele lerá isso aqui)

Posted in Baú, Crenças, Memórias às 8:56 pm por Deborah Sá

::Sexta-feira, Janeiro 19, 2007 ::

Caro papai-noe…ops!

Caro Deus!
Espero que tenha bom humor!
Aliás, creio que se você existir deve ser bem legal…
Não é o que todos espalham por aí…
Que você torra todo mundo, criou um inferno…
Colocou alguém que ia contra seus ideais lá…
Deus…você joga The Sims?
Se você olha por nós…porque sofremos tanto?
Já que não posso proteger todos as crianças
Você pode fazer isso por mim?
Você me ajudou a passar de ano!
Mas porque não protegeu a morte do meu irmão?
Qual o seu critério para solução de preces?
Deus…
É justo aprisionar uma alma a um corpo?
Um corpo que ela não controla?
E que ainda será ele que determinará
Se a prisioneira merece paz ou um castigo?
Deus…
Você é sádico?
Se alguém não aguenta mais viver aqui…
Ela não pode acabar com tudo?
A bíblia veio por sedex?
Você não gosta de sexo?
Porque temos tesão?
Você é surdo?
Você é mudo?
Eu não tenho sensibilidade em te sentir?
E você?
Tem comigo?
Pra mim você não é santo
Você tem sentimentos bem humanos até…
Raiva, arrependimento, amor…
No fundo não acho que somos tão diferentes
Se eu nascer em outro corpo depois
Até me tornar perfeita…
Quando poderei ser perfeita se nem você é?
Se deseja me castigar por isso
Onde está o defendido livre-arbítrio?
Cada boca te prega de um modo
Em cada morte está feita tua vontade?
Viva sua roleta-russa!
E condene os que lutam pela liberdade

Solenemente
O pequeno pontinho aqui no universo
Deborah Sá

Esse é um dos textos do meu antigo blog do qual fiz backup.

10 janeiro, 2013

Estar sóbria e sã me faz consciente para o que é sublime e material

Posted in Crenças tagged às 10:49 am por Deborah Sá

Imagem

Life of Pi é o primeiro filme comercial que tem como protagonista um não-branco vegetariano.  Aborda a espiritualidade de modo não convencional e profundamente respeitoso, tarefa difícil quando maioria das obras culturais recentes (e alguns cristãos) falam de fé como um rolo compressor. Essa fé pode ser exatamente como o capitalismo: Predatória, agressiva, colonizadora, esmagadora. Ao sair do cinema foi impossível não repensar minha relação com a transcendência, os animais e a própria espiritualidade. Meu ancião preferido na igreja era um veterinário de profissão. Lembro de uma exortação onde defendia que os animais não eram desprovidos de alma e que da sua forma, louvavam a Deus. No canto das baleias, no vôo dos pássaros, cada um deles entregava a Deus um tributo e ao morrerem, tal qual o corpo material seu espírito não-humano fenecia. Foi esse mesmo ancião que conduziu meu batismo anos mais tarde. Não acreditava que minha alma fosse mais ou menos nobre do que a de um cavalo ou pássaro. Se havia algo de divino em mim certamente havia neles, pois era perceptível nos olhos miúdos de um roedor que brilhava a mesma matéria da qual eu era feita. A poeira de estrelas, o universo na boca de Krishna. Ao pôr em foco os olhos de um animal não enxergava apenas um pedaço de mim mesma, uma expectativa ou projeção, via outro ser que poderia ou não, me amar de volta. Qual a relevância se os animais são capazes de pensar como nós, humanos? Ou ainda, se são capazes de amar na mesma intensidade que amamos? A realidade é que jamais poderemos mensurar do que e como são ocupados espíritos e entranhas, mesmo em nossos pares em espécie.

Não encontrei a transcendência dentro da religião (e olha que estive muito tempo dentro dela). Buscava amparo e amor, encontrei o medo e a culpa. As vezes em que experimentei um deslocamento entre mente e corpo foram em crises de ansiedade. Começava por uma angústia, seguida por suor, cabeça quente (sensação de ebulição), a visão desfocava, as pernas e braços desobedeciam, estava presa em um corpo rijo e desobediente em um alerta de perigo e terror. Busquei técnicas que me trouxessem de volta para a realidade, a primeira delas consistia em me concentrar e movimentar cada parte do corpo: Os dedos do pé, girar os calcanhares em movimentos circulares para dentro e para fora, continuar com os joelhos, os quadris e subir calmamente até a cabeça. Aprendi com a Yoga. A segunda maneira, conforme instruiu um psicólogo, era em fechar a mão em concha e dar leves batidinhas nos braços e pernas. Havia uma expressão na igreja que era “estar na carne”, que significa fingir a manifestação do espírito santo quando o que se diz e movimenta vem do próprio sujeito, usando o nome de Deus em vão, uma blasfêmia. A meu ver, não há meio de sair de nossos corpos e a pior das blasfêmias é o ódio, a agressão descabida sob os mais fracos, o berro. Os líderes religiosos que gritavam no púlpito e nos canais de TV da madrugada vociferando profecias de enxofre e ranger de dentes eram prepotentes, mesquinhos, sem qualquer elevação espiritual e sádicos. O medo do inferno e de Deus durou até eu perceber o quanto esse discurso de ódio não condizia com minha filosofia de vida. Abandonar a existência de Deus e consequentemente a crença na possibilidade de sua intervenção no curso da vida não impediu o contato com o sublime, a contemplação e a sensibilidade holística. Nas orações cristãs que antecedem refeições os presentes agradecem a Deus pelo alimento e saúde dos humanos, a gratidão nunca se dirige ao alimento, aos campos por serem férteis, a chuva pelo nutrir da terra, ao sacrifício do animal que jaz em pedaços. Talvez essa atitude seja explicada devido ao fato de que o respeito pela terra e a conexão com os animais sejam traços da fé não ocidental e de religiões pagãs. Na interpretação de muitos líderes cristãos, o que nos cerca pode ser tomado sem pedir licença, sendo o mundo um reino deixado pela divindade única que nos coroou como seus herdeiros para exercer domínio sob “inferiores” (não agraciados pelo sopro de vida do Criador).

Os momentos mais sublimes que tenho recordação são aqueles que estive diante de acontecimentos embebidos de beleza material. Como no dia em que cansada de uma rotina de trabalho desci do ônibus porque perto do parque vi um caminhão de morangos. Comprei uma caixa, me sentei na grama e com o sol se pondo comi com a visão de um céu alaranjado riscado de azul. Ou ainda, no dia quente em que após dar um banho de mangueira no Snoopy, com uma toalha em um dos ombros e ele nos braços, subi até a laje da minha avó e lá de cima avistei o céu muito azul. Com aquela sensação de formigamento que os raios solares fazem levantar na pele, estiquei a toalha no chão cinza, deitei e fiquei a deixar o sol bater enquanto o cão se sacudia e lambia meu rosto fazendo rir. Quando ele cansou, sentou sob duas patas e olhou para o horizonte com a ponta das orelhas ainda molhadas enquanto eu o observava em sua anatomia altiva e ensolarada. Senti que aquele era um momento de estímulos sensoriais variados, contemplação, que aquilo, era estar viva. Essas experiências não transcendem a matéria mas elevavam o espírito, portanto são sublimes muito embora não sejam místicas. Se não há qualquer garantia de que outros mundos ou dimensões nos aguardam após a morte, o que pode nos dar mais esperança do que a torrente sensorial e prazerosa que dispomos? Se essa é a derradeira jornada por que desperdiçá-la em dissabores e egoísmo? Estar diante das estrelas e reconhecer a pequeneza diante do universo em nossa fugaz existência com tudo o que coexiste nesse tempo breve, é uma dádiva. E no dia em que meu espírito repousar nos átomos que dançam pelos ares juntar-me-ei com toda a matéria que um dia foi tão ou menos sólida que meu peito.

14 setembro, 2010

A produção do conhecimento na Religião

Posted in Crenças tagged , às 5:53 pm por Deborah Sá

Além da Congregação Cristã no Brasil (CCB) outras denominações assumem um formato passivo de experimentar a fé. Resumindo-se ao escutar as pregações @ fiel recebe os ensinamentos sem qualquer questionamento.

É preciso estudar a Bíblia para ter fé?

Qualquer crença ou ideologia não precisa de embasamento teórico para prática, em especial as religiões que valorizam a experimentação física e “espiritual” como comprovação da Cristandade.

O silêncio e concentração conjunta (“comunhão”) podem ser experimentados em meios seculares tendo como expoente mais próximo concertos de música: Mãos para cima, emoção elevada, identificação e representatividade.

A Bíblia usa de vocabulário rebuscado em parábolas livres de interpretação e seus pregadores em grande parte, não incentivam os ouvintes a múltiplos entendimentos desta leitura. Mas para refutar argumentações contrárias (portanto teóricas) não seria útil a compreensão do que é incumbido de diretriz moral?

Na igreja que eu freqüentava a escrita nunca era estimulada

Redigir os sentimentos permite o autoconhecimento e para tanto não é necessário uma gramática impecável, o estilo individual imprime nossa historicidade, estilo e forma estilística. Entristece-me que muit@s tenham vergonha de tornar pública sua escrita, por não “escrever direito” ou “fazer sentido”. Escrever é como compor uma música e o direcionamento das frases fazem um conjunto harmonioso para aquele que torna concreto o que ecoava dentro de si.

Quando é possível questionar?

Para elucidar questões pendentes após o término dos cultos, era possível dirigir-se ao Cooperador/Ancião. Por “Congregar” em regiões periféricas da cidade convivi com pessoas de pouquíssima “instrução” que depositavam toda a interpretação bíblica na “Via Direta” que se manifestava nos púlpitos.

A humildade cristã inibe a possibilidade de interpelar esse discurso já que @ fiel julga este ato um indício claro de sua falta de fé. A não “implementação” de reivindicações nas doutrinas intransigentes explica a proliferação constante de novas igrejas.

Pregadores são conscientes de sua importância no alívio a um povo cansado e ansioso por diretrizes e do controle social que exercem (fazendo do seu cargo um trampolim megalomaníaco).

26 abril, 2010

Sacrifício de Animais em Rituais Religiosos

Posted in Crenças tagged às 2:26 pm por Deborah Sá

É praticamente consenso ser contra o sacrifício de animais em rituais das religiões afro-brasileiras.

Esta quase unanimidade deve-se ao forte preconceito que estas religiões despertam na maioria das pessoas. Na minha quarta série havia uma garota umbandista e eu era uma das únicas a não temer conviver ao seu lado “Eu não, ela é macumbeira” – diziam os alunos.

Evangélicos e católicos (em geral, espíritas são mais esclarecidos) pregam o medo ao desconhecido associando os Orixás a algo extremamente nocivo, sem ao menos sugerir uma pesquisa para melhor compreensão das múltiplas formas de fé.

Tupã ou Iansã?

Negras e índias são vistas como “serviçais” enquanto ao índio e o negro são chamados de “preguiçosos”, a fé professada por quem colonizou é a norma. Os ritos são vistos com desdém por quem dança “na presença do espírito santo”, quem não conhece alguém que teve medo de passar ao lado de um despacho?

Construiu-se esta imagem d@ negr@ mal intencionad@ que por uma oferta de sangue alcança seu pedido “não civilizado”, “brutal” e “bizarro”. Este preconceito racial fica ainda mais evidente quando classificam em “Magia Negra” e “Magia Branca”.

Criar/comprar uma galinha e matar para um Orixá é crueldade? Comer canja é justificável sob qual ótica? É mais fácil lutar contra a prática de uma religião que sempre foi vista como “selvagem” que admitir a manutenção de uma indústria da exploração humana e animal: A pecuária.

Na cantina da sua igreja vende coxinha?

16 abril, 2010

Escutei outra versão na igreja

Posted in Crenças às 5:42 pm por Deborah Sá

Nela, a moça escondia dos colegas da faculdade que era evangélica e só ia de calça. O desfecho é o mesmo do vídeo.
Lógico que não em ritmo de forró, mas sim em um testemunho:

Meu passado evangélico aqui.

17 dezembro, 2009

Mais uma pessoa tenta me converter

Posted in Cotidiano, Crenças tagged às 10:45 am por Deborah Sá

Ontem resolvi cortar o cabelo, já que o dito cresce em uma velocidade impressionante. Enquanto esperava me divertia com o livro Deus um Delírio do Richard Dawkins (meu presente do Dia das Crianças), a mulher terminava de fazer chapinha em uma ruiva de farmácia, a moça foi acompanhada do namorado que tirava sarro dela, enquanto ficava visivelmente insegura.

Terminada a chapinha a mulher lavou meu cabelo (adoro massagem na cabeça), ouvi o rapaz rindo e a cabeleireira perguntou:
“Não gostou não?”. Sentei na cadeira e ela me disse:
– Não entendo! Uma moça bonita daquela, namorando um moleque que ri da cara dela.
– É, eu não agüento essas coisas não, tem que mandar se lascar
– Você descoloriu seu cabelo?
– Não, tingi várias vezes até pegar o tom que quero, aliás, preciso tingir novamente, tá amarelando… E você já usou muitas cores?
– Já, até raspei, a melhor coisa que já fiz na vida, mas não pode ligar para o que falam.
– E corta cabelo há muito tempo?
– Por que pergunta?
– Sempre pergunto para as pessoas como elas começaram na profissão, se gostam do que fazem…
– [Imaginem o máximo de tom místico pra contar a história] Ah, a história é muito confusa, é muito longa, você não vai entender…
– Desculpe. Se não quiser, não precisa contar.
– Eu era casada, e eu fui até uma pessoa… Falou que eu tinha que procurar uma profissão, ia passar por um período difícil e precisava me arranjar…
-… Economicamente
– Não, profissionalmente.
-…
-Então eu tinha passado em frente uma escola de cabeleireiros e perguntei pra pessoa: “Tipo o que?” e ela disse: “Cabeleireiro”. Aí fui crescendo na profissão. E ai, gostou? Tá bom (o corte)?
– Gostei sim, obrigada.
– Eu pensei que não ia ficar bom não, mas ficou. E essa sobrancelha aí? Não vai tirar não?
– Essa é de estimação. Sabe quando algo faz parte do que você é?
– *Faz careta* Mas é porque fica bonito.
– Não obrigada.
Júnior: – Ai que linda que você está, que diferente.
– Obrigada ^^

Me despedi e saí.
Quando estava a poucos metros de casa uma moça atrás de mim diz:

– Moça, moça.
– Oi
– Posso falar uma coisa rapidinha pra você? Qual seu nome?
– Claro. É Deborah e o seu? *pensei que era mais uma pessoa que ia perguntar a tinta que uso no cabelo, no domingo uma mulher me parou no Bazar Vegano pra perguntar isso*
– Bianca (acho que era esse o nome dela…), eu sou uma serva de Deus e queria saber se posso orar por você.
–  Pode sim *na sua casa né?*, sem problemas.
A moça colocou a mão no meu ombro: Repete depois de mim?
– Não, vou me sentir desconfortável.
– Oh senhor (cobrindo os olhos com uma mão enquanto outra colocava no meu ombro)! , abençoa a Deborah, a família dela. Tire do caminho todas as armadilhas de Satanás…

[Nisso minha mente viajou, o que será que ela viu em mim? Meu guarda-chuva? O porteiro achou estranho, se levantou…]

Arco íris :)

…Oh, senhor, guarda ela…

[Será o Deus um Delírio que me fez rir minutos atrás em minhas mãos?]

Será que ela só leu “Deus” na capa?

Tu sabes de tudo Senhor…

[Ou meu recém corte de cabelo?]

…derruba ele Senhor, entra na vida dela agora e para sempre. AMÉM. *Olhos de esperança aguardando ouvir “meu” amém*
– ….(sorriso amarelo)
– Fala “amém”!
– Não… Vou me sentir desconfortável.
– Você tem telefone? *A moça tinha olhinhos de piedade*
– Tenho, mas… Vou me sentir desconfortável. E ele é onipresente né? Sabe onde estou não precisa…
– Deixa só anotar seu nome no papel, é Deborah né? Vou orar por você, posso? Na minha casa? *_*
– Pode sim, sempre que quiser. E…
– Siiim *_*
– Boa sorte…na sua vida aí…
– Obrigada pra você também! *______*

Entrei no prédio:

Porteiro: Tudo bem (apreensivo)?
– Tudo, estão orando por mim.
Porteiro: Mas será mesmo? Se for tudo bem. Ela pegou algum dado seu?
– Meu nome.
Porteiro: É por que não sabe pra que vão usar (ele insinuou que a moça ia “por meu nome na macumba” ou algo do tipo).
– Eu não tenho medo dessas coisas não, tenho medo é de faca, coisas que cortam, físicas, reais…
Porteiro: Ah, mas se você é forte com Deus como você está falando, então nada te pega! Que bom que você acredita tanto assim.

Entrei absorta no elevador. Por que não falei pra ele que era filha de Iansã?*

*Parafraseando uma colega de faculdade do Yuri que respondeu isto a um garoto que perguntou se era de alguma igreja. Como negou, ele emendou “É da macumba então?”
**Confesso que simpatizo mais com os Orixás do que com os Santos católicos.

OBS: Lembram do gatinho preto? Tirei uma foto dele ontem:

Está vivo :)

17 agosto, 2009

Mutante

Posted in Corpo, Crenças, Desabafos, Egotrip, Memórias tagged , , , , , às 1:59 pm por Deborah Sá

Compartilhei aqui no blog grande parte da minha trajetória, a origem evangélica e outros percalços mais tortuosos, mas nunca mencionei “meus primeiros passos” fora desta “formação”.

Quando eu parei de estudar (aos 15) comecei a trabalhar com meu pai ajudando-o no suporte aos clientes (ele é analista de sistemas autônomo). Fiz um curso básico de HTML e de Clipper sendo que neste último descobri maneiras de fazer animações em formato “quadradão”. Eu gostava de desenhar e ler tirinhas, o professor se surpreendeu porque nunca nenhum aluno dele teve essa idéia. Infelizmente (?) não fiz backup e perdi as “preciosas” animações.

Nessa mesma época entrei em uma paranóia com a minha aparência (minha barriga era o alvo principal) e ia caminhando para o curso em um sol escaldante com os cabelos muito compridos, a saia marrom com desenhos na barra e uma blusinha laranja. Sempre bebendo muita água. Perdi 10 quilos rapidamente e os ganhei quase por completo. Pesava 78 quilos aos 15 anos com 1,64 de altura. Embora tenha ganhado muitos elogios pela modificação da silhueta, continuava triste. Sentia que a gordura me impedia de ser bonita e atraente. Até porque cansei de ouvir que não era feia, só era gordinha e tinha o rosto bonito. Então a associação imediata foi que a única coisa que me impedia nesses anos todos de ser considerada bonita, inteligente e agradável eram mesmo os meus pneuzinhos.

Certo dia eu peguei o caderno com as matérias do meu curso de Clipper e joguei todas fora, restando apenas algumas páginas em branco. Foi aí que eu comecei a escrever e ler o que escrevia, me analisando a partir dali. Percebi que isso me fazia muito bem, era uma conversa franca com minha consciência.

Passei a arriscar cada vez um pouco mais. A primeira mudança foi cortar o meu cabelo.

Depois comecei a encurtar as minhas saias e passei a usar calças.

E não sentia tanto medo de Deus assim…Resolvi que daria uma chance para um moço que parecia legal. Ele foi o meu primeiro namorado.
No dia do meu primeiro beijo (aos 17) estava em um SESC ao ar livre e durante o beijo senti uma coisa cair no meu braço. Era cocô de passarinho. Ele não tinha papel na bolsa que usava sempre a tiracolo. Eu também não, então a saída foi limpar com o ticket do SESC.

No dia em que perdi a virgindade pensei que Deus ia me matar com um raio na cabeça. Só repetia: “A qualquer momento, a qualquer momento”. Ou que o ônibus ia bater e ficaria paraplégica. Dessas “pragas” que adoram rogar nas igrejas pra quem não “andava pelo caminho da justiça e da luz”.

Acabei relaxando e aproveitando aquele momento, mas ainda ia a igreja. No último dia que eu fui, o Cooperador disse na “Palavra”: “Se você não concorda com o que está aqui, vá embora! Deus não precisa de você!” E eu fui.

Com o tempo julguei que o melhor a fazer era romper com meu primeiro namorado. E assim o fiz. Nessa altura eu estava com mechas loiras no meu cabelo (nem tão) comprido.

Conheci mais alguns rapazes e entre eles estava o Yuri. [Que estou a 3 anos cheios de cumplicidade, risos, conchinhas e muito, muito diálogo. Ele não lê meu blog com muita freqüência mas se estiver lendo isso aqui, já sabe que te amo :) ]

Com o tempo fiz tudo o que sempre tive vontade de fazer: Cortei meu cabelo, pintei de vermelho, uso a roupa que quero na hora que quero, seja saia ou calça jeans, me tornei vegana e encontrei amigas maravilhosas que me aceitam como eu sou: Feminista, atéia, vegana, chorona e atrapalhada.

Agradeço ao apoio dos meus familiares, do meu namorado e da União de Mulheres. Amo vocês.

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