23 janeiro, 2014

Senha A22? A23?…

Posted in Cotidiano, Crônicas e contos às 1:05 pm por Deborah Sá

Ao meu lado, pele parda, boné, barba por fazer, leve hálito de bebida. Onze horas da manhã esperando o atendimento na mesa do banco. Passou meia hora e mais outra meia hora. Baforamos, os dois com um pouco de pena da atendente sozinha, clientes sucessivamente. Apontou para o pedaço de minha tatuagem despontando na gola do vestido cinza.
– Ei, bonita, hein?
– Obrigada.
– Tenho a minha também.
Mostrou dragão em um braço, no outro, pergaminho com o nome da filha. Estava lá para fazer empréstimo. Baixou a cabeça em desalento. “Sabe como é…a gente começa e não sabe mais parar”. Contou as primeiras vezes na cocaína e as poucas vezes que experimentou crack. Histórico familiar: Esquizofrenia. Diz trabalhar armado, às vezes ouve vozes as quais mandavam ele se matar. Era herói para filha e esposa, agora, uma vergonha. Claramente sentia embaraço. Na infância apanhava do pai, chegava tarde, sempre depois das sete, ameaçando colocar fogo na mãe. “Eu não quero ser igual meu pai, não quero ser alcoólatra”. “Não sei o que fazer com a minha raiva”. Já trabalhou de segurança em banco, explicou como funciona o detector, o peso de um bom colete à prova de balas (porque 38 é oval, entra e para, não é igual metralhadora e outros modelos). É soldado. Nunca operou alterado. Já viu colega de trabalho comparecer ao serviço “se mordendo”, “com pupila gigante”. Diz não saber por onde começar. Sugeri que escrevesse. Escreve, no celular “tem quase dez páginas, já”. Tentou duas vezes entrar na polícia. Na primeira foi sincero “Estou aqui pra matar bandido”. Não passou. Na segunda buscou dicas “Quero proteger a sociedade”. Aprovou. Melancolia exalando mais que o etílico. Não cessava. Sugeri fazer faculdade de Filosofia, já tentou, “muito parado!”. Pensou em fazer Psicologia, porém, afirmou não ser bom ouvinte. “Às vezes as pessoas só precisam de uma palavra amiga”, pontuou. Espontaneamente depois de quase meia hora abrindo o peito, soltou: “Era fechado, falava nada, fiz teatro, adorei. Sou noveleiro. Adorava o teatro, era feliz ali”. Eu o disse: “Isso, teatro é uma ótima, quem sabe, né?” A moça chamou meu número. “A24?” Levantei, aprumei o vestido. Acenei desejando boa sorte, o desconhecido agradeceu. Quiçá haverá outro encontro entre nós, talvez eu de punho em riste, talvez correndo, talvez, ele, fardado, cassetete na mão.

9 outubro, 2013

Afaste bolsas e mochilas da região das portas

Posted in Cotidiano, Crônicas e contos às 10:20 pm por Deborah Sá

Eu, do lado de dentro do vagão. Ele, do lado de fora. Sé. Alto, tinha poucos pelos de barba, mal formavam um cavanhaque, os braços também mostravam penugens douradas. A pele era rósea, o olhar verde e perdido, um pouco preocupado. Resolvi encarar já que as portas haviam fechado, estava na minha zona de segurança. Encarei nos olhos, ele olhou sério uma vez, desviou o olhar, voltou novamente a encontrar com os meus, castanhos e persistentes. Vi uma fração de movimento ali. Não aguentei, sorri bem grande mostrando todos os dentes, “jogo do sério”  não é comigo. Pelo visto nem com ele, sorriu de volta, mas de canto, um pouco vaidoso, um pouco encabulado.

10 setembro, 2013

Em um corredor do SUS

Posted in Cotidiano, Crônicas e contos às 8:46 am por Deborah Sá

Passou por mim um idoso com os cabelos brancos, andar encurvado, óculos em meia lua. De braços mega tatuados em motivos orientais (demônios e outros), o olhei com admiração. Ele me olhou de volta. Se aproximou, levantou o antebraço colorido e com o indicador da outra mão, apontou para o desenho que carrego no peito; e sorrindo disse:

– Quer trocar?

1 março, 2013

Perdeu, Playboy!

Posted in Cotidiano tagged , , às 11:16 am por Deborah Sá

O Lelek, a Piriguete e a Bicha Poc Poc, são versões não aceitas do mauricinho, da patricinha e do viado culto. Todos brancos e instruídos, claro. Daí nasce aquele horror nem sempre dito: “Não que não goste de viado, mas tem que ser culto, parecer hétero, falar o português muito bem”. As maquiagens desejadas, são aquelas ensinadas pelas meninas de cabelos castanhos no You Tube, definitivamente, a sombra azul da caixa de supermercado e o batom da Vult da mulher do Hot Dog, não são um exemplo a seguir. As roupas da adolescente na Oscar Freire e até seu sapato sem salto, são uma inspiração, ao contrário da moça de igual idade que passeia no Largo Treze, de piercing no umbigo. O mesmo vale pro Lelek, todos seus cortes de cabelo são considerados esdrúxulos e essa vertente metrosexual não é reconhecida. E a Bicha Poc Poc, que usa Avon e fragrância genérica de Carolina Herrera? Ca-fo-na. Não que seja revolucionário cantar de ostentação, carros de luxo, ser “patrão”, mas isso está em quase todo gênero musical, o desejo de uvas na boca. Porém, a crítica que se faz a essa juventude cabeça oca (aparentemente não importa a época, são sinônimos), não é tanto o vazio das letras, mas o divertimento em rir do “primo pobre”. Quando a mocidade branca e de classe-média celebra o consumismo é chamada de fútil, mas ao menos “serve de exemplo” nem que seja pelos sapatos. 

A intuição é que por não ter pais endinheirados, Leleks praticam furtos enquanto Piriguetes e Bichas Poc Poc saem a caça por homens que os banquem, como se não existissem jovens de outros extratos sociais que fazem exatamente o mesmo. Talvez, essas piadinhas sirvam pra disfarçar o medo de perder a marca que adora, a exclusividade daquela estampa, as bugigangas tecnológicas, as visualizações do Vlog para um vídeo de Funk e até a fila no Starbucks, conservando a esperança que sejam modas passageiras e que com o passar dos anos, não tenham de ouvir em ritmo de funk “Jorge Maravilha” da boca do futuro genro.

23 fevereiro, 2013

Para contar tudo que eu vi, fotografei e não mostrei

Posted in Cotidiano às 10:38 pm por Deborah Sá

Evitava espelhos como quem sai de perto no momento da foto. Dado tempo ao tempo, a escrita e a fotografia foram exercício de distanciamento para ser vista por outros ângulos. Comecei com o uso de diários, certas mensagens eram cifradas de modo que eu entendesse mais tarde, as letras dos primeiros amores estavam todas lá. O escrito íntimo é ensaio pra vida pública, uma espécie de armário, a prece que carrega algo que relutamos em admitir até para a sombra, o palco pra ser quem gostaríamos de ser, o registro para voltarmos quando surge a necessidade. Por ser um ensaio, são muitos os desenvoltos na vida on-line que emudecem ao saírem de suas baias. Não é apontamento de dedos, trata-se da condição em que estive. Escrevendo, juntei coragem como alguém que toca sem saber ler partitura, não sei bem onde colocar os pontos, as vírgulas, a hora certa do ponto final. Só sei que faço pra que tenha um som agradável quando as palavras repetem, repetem, e mais uma vez repetem. Essas, nem sempre são lidas no tom que imagino e as ironias e intenções ganham outro rumo que não dá pra precisar. Mas tudo bem, pois quando publico sei que não crio sozinha, aliás, só sou escritora porque tenho um leitor, ou seja, você.

Eis um rótulo que evitei tal e qual as fotografias e os espelhos. O escritor usualmente é aquela figura que desperta interesse e domina a técnica, vira colunista de jornal, publica livros, sabe dizer seu próprio estilo. Quando me perguntam o que escrevo não sei exatamente o que dizer. Tem quem diga que sou poeta, cronista, autobiográfica. Um escrito íntimo publicado é a porta de entrada de um jardim secreto, a exposição para um grupo de estranhos. O que ganho com isso? Um verdadeiro tesouro para todo aquele que escreve: O espelho que responde com silêncio de leitor. Talvez porque somos anônimos, talvez por nos sentirmos igualmente diluídos, talvez por um motivo que só você saiba e goste de guardar em particular, como o prazer de ver sem ser visto.

Horas atrás ao abrir a gaveta de roupas velhas vi as estampas de um passado e me vesti delas, o incrível é que ainda caibo nas mesmas roupas que usava há dez anos. A primeira saia mais curta (que vai até o joelho), foi um marco e ainda serve como se fosse segunda pele, o chinelo com os sulcos dos dedos afundados no solado fino e até mesmo o sol que bate na casa de meu pai lembra aquele tempo, aquelas primeiras fotos, os primeiros espelhos, as primeiras vezes. Olhei no espelho e percebi que o cabelo que está tão sem tinta quanto antes, mudou sua estrutura. Dantes, lisos, longos e um tanto sem forma, agora, curtos e em crescimento, mechas virando em mais de uma direção como a planta que ramifica para aproveitar o espaço. Diante da iluminação peculiar debrucei sobre a janela e tirei alguns retratos desse corpo que só se cabe em sorriso descabido.

Esse post teve influência direta do livro que li semana passada “Blog : Comunicação e Escrita Íntima na Internet” de Denise Schittine.

31 janeiro, 2013

Com luva de pelica

Posted in Cotidiano, Crônicas e contos às 1:30 pm por Deborah Sá

navalha
Ao desviar ataques usei a polidez, o “com licença” e o “obrigada” serviram para conseguir avanços nas brechas. Tive de me afirmar primeiro, combater primeiro, porque quem não bate leva na outra face. Se outrora não pude impedir que me odiassem, tentei reagir pé ante pé e por depender das estruturas que me tolhiam o fiz com sutileza. Assim passo meio ressabiada da gentileza que adquiro em resposta. Estranho o espaço no horizonte já que vivia presa no quintal querendo ser bicho solto. Agora o portão se abriu e tenho um espaço imenso para interagir. O cabresto da idiotia que me destinaram escorregou num baque surdo no chão, não me vêem mais como saco de pancadas ou como uma criatura que destila tonterías. Ontem, em um vagão de metrô saquei o lápis para marcar um livro, em instantes entrou causando alvoroço um grupo de jovens barulhentos. Eles se penduravam e davam risadas lembrando de forma fidedigna, o tipo de comportamento que vi nos jovens ao meu redor nos tempos de escola. Eis que uma amiga diz para outra:

– Sua filha da puta, pisou no meu pé. Vou dar um tiro na sua cara.

Eles e elas trocavam tapas e socos como amigos. Para quem não conviveu com esse tipo de comportamento é espantoso, porém, foi de tamanha familiaridade que pude me imaginar mais uma vez nas carteiras, com o barulho zunindo, as canecas de plástico azul voando pela sala, ora me acertando, ora não, enquanto me concentrava em alguma leitura. Voltando ao presente, por um instante acreditei que poderiam avançar contra meu livro fazendo dancinhas, rasgando o papel ou me chamando de retardada. E quão errada estava em minha suposição quando um deles se adiantou e disse:

– Vamos fazer menos barulho, caralho, que a moça está lendo.

19 dezembro, 2012

2012

Posted in Cotidiano às 8:49 pm por Deborah Sá

Em Janeiro meu cabelo estava laranja, além disso, juntei coragem e larguei o emprego, pois se entrasse na Faculdade seria impossível chegar na aula á tempo.  Pintei o cabelo de preto e fiz uma tatuagem, a mudança no cabelo foi porque secretariado era função que pedia visual mais formal, a tatuagem, era desejo antigo e eu precisava me adaptar para um novo lugar, não para me tornar um robô. Encontrei o trabalho, mas não me adaptei, nem me arrependi ao sair de lá em Abril. Entrei na Faculdade com um amigo na mesma sala, Elias. Andamos tão juntos que há quem pense que somos namorados. Penso que não apenas “ensapo” as mulheres que andam comigo, é mais provável que “enamoro” quem anda ao lado, pareço sempre um par, pareço sempre um amor.

Estourou a grande greve das Federais, participei de Assembléias,  Congregações (antes da Universidade, esses termos eram analogias pessoais a vertentes protestantes). Tive até coragem de falar algumas palavras naqueles microfones, vi discussões, acusações, picuinhas, tive de separar briga. No mesmo Abril, raspei por conta própria o cabelo dos lados, ficou bom. Em Junho, raspei tudo novamente, na zero, pra crescer por igual. Ainda está crescendo, não sei se terei disposição de deixar chegar até os ombros, até o momento está bem bonitinho. Começaram as aulas em Setembro, li muito.  Quando era difícil compreender, por mais de três vezes a mesma xérox. Pensei em largar Pedagogia e ir pra Filosofia ou História, porém, me encantei pelo curso. Em especial pelas matérias de Quarta e Quinta, além da minha PPP (Prática Pedagógica Programada), totalizando 6 matérias, ao invés de cinco. Fiz trabalhos em grupo (ás vezes no esquema Bloco do Eu Sozinho). Falo bastante na sala de aula. Pode não parecer, mas tenho de me esforçar pra falar diante de uma sala com desconhecidos, mas depois de começar, relaxo. É meu modo de aprender, fazendo perguntas pra ver se fiz correlações bizarras. Adoro estudar, participar, escrever, me sinto produtiva. A Universidade alimenta isso que tantas vezes foi tolhido, a sede de saber mais. No final a coragem/curiosidade fala mais alto e meto as caras pra aprender. Costumo apostar minhas fichas porque só saberei se acertei depois que passou. O que também passou foi o primeiro semestre,  não peguei DP, todas as notas foram maiores que sete. Estou orgulhosa não apenas pelas notas, mas pelo empenho, por não desistir dos meus desejos, por não baixar a cabeça. Por nunca ter concluído suicídio. Sou humana e obviamente já cogitei maneiras de por fim ao que parecia impossível suportar em tempos idos.

Sábado passado um rapaz da faculdade se suicidou no Centro Acadêmico. O conhecia “de vista”, me entristeci por sua morte, ele só tinha 20 anos, a idade da minha irmã. Isso é pesado e triste, não creio que quem se mata seja fraco, aliás, isso não me cabe. Cabe apenas o respeito por quem se foi, não importa como, nem quando, sei que o peso da dor pode ser imenso, para além do tempo de vida. Já sofri por pensar que não era digna de despertar amor e interesse, já me senti incapaz por não resolver uma conta de divisão. As dores deságuam nas metáforas que só a gente pode enxergar. Como semana passada, que vi decorações de Natal em garrafa PET e lembrei do meu avô. E doeu, voltei pra casa chorando. Ele fazia esse tipo de coisa, artesanato em garrafa pet, aquele homem bruto que me fez mal tinha a delicadeza de um artesão,  isso me machucou. Lembrar desse ocorrido é um nó que nunca vai me abandonar, sei que não. Sou marcada, uma criatura marcada como tantas outras. A gente não se cura de uma cicatriz desse tamanho, aprende a lidar, as memórias podem nos atingir como uma onda inesperada, fazendo engolir a água salgada de lágrimas. Eu tomei um caldo, porque faz parte do ofício de viver. Ás vezes ainda sinto remorso quando isso acontece em público, quando alguém me vê vulnerável nesse estado, mas tento me perdoar porque é cada vez mais raro essa dor grande e desesperadora, nesse caso tudo que precisei foi de um bom banho quente, ir pra academia. Let it be.

Ir pra academia tem me feito muito bem, ás vezes a endorfina bate forte ao ponto de sorrir toda suada em cima da esteira, meu aparelho preferido é a bicicleta elíptica porque faz dançar. Mover o corpo dá uma sensação de centralidade, de colocar as coisas nos eixos.  Ocorreram fatos inéditos: Escrevi alguns textos a pedido da Carol Adams (o que é uma honra). Consegui uma bolsa auxílio transporte na faculdade. Escrevi para o Blogueiras Feministas e ganhei “A Política Sexual da Carne” de presente. O número de visitas no blog aumentou consideravelmente (o número de visualizações diárias pulou para 250) e teve seu dia mais agitado (1528 no dia desse post). Destranquei meu twitter. Fiz novas amizades. Criei um tumblr chamado “Veganismo Popular”. Minha mãe se formou. Troquei correspondências com a Carla. Comecei a ler Harry Potter  e já estou no sexto livro (me identifico horrores com a Hermione). Comprei o livro da Nádia Lapa, ganhei uma dedicatória e um abraço. Li “Como ser mulher” e achei divertido, com ambos os livros é possível chegar a conclusão que nem toda produção feminista precisa ser sisuda e acadêmica. Descobri Tofutti, um sorvete de tofu divino, o primeiro que provei foi pago pela Ágatha, uma moça que parece muito comigo fisicamente, mas faz exatas e toca Cello. Minha irmã está morando com seu companheiro e uma amiga, eles adotaram quatro gatos. Feministas e demais mulheres ao meu redor começaram a ter filhos e parecem muito felizes, conseqüentemente isso me trás contentamento. Mais algumas pessoas entraram em contato pra perguntar dicas de como serem veganas. Passei a tirar mais fotos sorrindo (antes, achava que meu sorriso em fotografias deixava com cara de boba). Misteriosamente comecei a achar gengibre um tempero interessante e tenho arriscado usa-lo. Meus exames de saúde nunca foram tão satisfatórios (a médica do SUS disse que foi um dos melhores exames que ela já teve em mãos). Larguei dois empregos pra me dedicar a vida acadêmica. Hoje fui ao Sesc e passei um dia agradabilíssimo com minha mãe, além de ganhar um maiô vermelho lindo. A relação com meu pai continua boa, com a minha irmã idem. Meu companheiro, Yuri, continua sendo aquele lindo que me acolhe, ama e incentiva como deve ser. Ainda não “aprendi” a usar vírgulas e pontuações de forma gramaticalmente esperada, nem sequer me importa engolir essas vez por outra, mesmo que seja pra refazer, reinventar e reordenar tantas vezes quanto for necessário o pensamento, a escrita . É ótimo saber que não há nada de errado comigo, que o importante é dar voz aos dedos, dar força aos passos, dar leveza ao toque, para deixar o que há de vir, devir.

11 dezembro, 2012

Eu me apaixono o tempo todo

Posted in Cotidiano às 10:01 pm por Deborah Sá

Procurava um exemplar na livraria, me aproximei do vendedor, vi um senhor:
Eu:  – O Sr. Está na fila?
Senhor: – Mais ou menos, o rapaz já está me atendendo, mas pode ser a próxima, ele é rápido.
Eu: – Obrigada.

Enquanto isso um sujeito passa na minha frente, pergunta, é respondido e saí.
Atrás dele surge João Gabriel Vasconcellos (pra quem não sabe, ele é pra mim, belíssimo). Fico com cara de trouxa.

Senhor: – Viu o que dá em ser educada como você? Vem um espertinho e passa na frente.
João Gabriel Vasconcellos: *olha pra mim*
Eu: … *olho pra ele*

Penso em uma fração de segundo:
“Meu Deus, que homem lindo, ele está olhando pra mim, ele está olhando nos meus olhos, mas que lindo que ele é! Não é muito mais alto que eu. Estranho, não me sinto ameaçada. Ele parece humano como eu, não me sinto inadequada diante de tanta beleza. Na verdade, se ele estivesse em uma mesa de bar bem capaz que eu me aproximasse…Caramba, melhor desviar o olhar! Ele deve me achar uma maluca.  Droga, minha cara está quente.  Cacete, está com a namorada, olha pra baixo. Deborah, disfarça!”:

Falo com o vendedor: – Boa noite, com licença, você poderia por favor, me informar onde fica a sessão de HQ e Comics?

Depois da resposta percebi que o local estava cada vez mais cheio e fui embora. Queria ler lá dentro, mas não havia onde sentar. Já valeu a noite trocar um rápido olhar com um homem muito bonito e encher minha cabeça de pensamentos. Pensei em como a beleza às vezes é admiração em segredo, daqueles breves flertes no metrô com a moça que sorri de volta, a atendente do cinema com piercing na boca, o rapaz de cabelos cacheados e olhos castanhos que passa por mim enquanto atravessamos a rua, eu me apaixono o tempo todo. E há uma pontada gostosa em imaginar, será que nesses breves segundos me amam de volta?

25 outubro, 2012

I got my guts,I got my muscles,I got life

Posted in Cotidiano às 8:32 am por Deborah Sá

Escrevo pra mandar notícias, avisar que estou bem, muito bem. As coisas com a faculdade estão caminhando, na Terça tive uma prova de lascar, acho que não tiro muitos pontos dali. Entrei na academia (de ginástica, ainda falam ginástica? Ou o termo virou musculação?) faz dois meses, perdi três quilos sem esse propósito. E se perder mais não me importo, se estacionar (platô), foda-se. Entrei na academia pra movimentar o corpo, todo ele, adoro exercícios de consciência corporal, dançar, me mexer , fico feliz e animada. A aula de interpretação de textos clássicos (Freud) é bacana, as aulas de quarta e quinta são sensacionais (tive aulas tão emocionantes que deram vontade de chorar, mas me contive). Pensei em mudar pra Filosofia, mas talvez realmente fique na Pedagogia porque o curso pra surpresa minha é muito interessante e denso. Como diz uma professora “Pedagogia não tem glamour”, muitos tem preconceito com o curso dizem que é coisa de Poliana e Smilinguido. E não cara, não é. Como se gente deslumbrada ou escrota não estivesse em outros cursos, o Bush é formado em História e o Pondé em Filosofia, certo? Profissões de prestígio social e que dão dinheiro nunca foram meu forte, se eu desejasse isso investia em um curso de Secretariado e estava aí ganhando alguns mil dinheiros.

Pra alguém que veio da minha classe social o “normal” é fazer um curso técnico em Administração ou algo do tipo, conseguir um emprego em escritório. Para os rapazes algum curso de eletrônica. E eu não acho isso ruim, tem quem fique feliz com isso, mas não deve ser a única opção, o único sonho que cabe. Porque fazer de destino social é barrar os outros “Esse sonho não é pra gente como você, é da escola pra profissionalização técnica e fim, não precisa de curso superior”.  Aí você percebe que o patrão acha que faz um grande favor pra gente como você (que só tem até o Ensino Médio) em te empregar com salário baixo, sem hora extra remunerada, levando patada de cliente e de supervisor que te tratam como se seu trabalho fosse a coisa mais imbecil e substituível do mundo. “Tem uma fila de gente esperando lá fora”, “O seu trabalho? Qualquer um faz”. Foi exatamente assim que o mercado de trabalho como Secretária, curso de Telemarketing e Ensino Médio me tratava. Eu tinha de dar graças a Deusa pelo destrato, por me sentir um parafuso que se enferruja é culpa dele, não porque o desgastaram “Não tem porque você ficar assim, Deborah, ninguém aqui está te pressionando”. Vontade de meter o Foucault e Marx na fuça dessas pessoas.  Ainda sinto receio de me manifestar em sala de aula, mas mesmo assim o faço. Já perdi o medo de ser ridícula na vida, tenho de levar isso pra faculdade, estou lá pra errar. E como erro.

O bandejão da faculdade é maneiro, mas tem gente que reclama. A interação social é tranquila (antes de entrar tinha receio de não conseguir me “enturmar”), algumas matérias são mais descomplicadas que outras e é comum ter de ler o mesmo texto e parágrafo várias vezes pra que façam sentido, coisa de calouro.

Estourar a bolha é um convite que faço pra todos os que ainda estão do lado de fora e desejam entrar, sei que não é simples, não é fácil quando o estigma do fracasso escolar faz você se sentir um lixo e envergonhado da própria condição. Quando qualquer criança da quinta série de escola particular teve mais ensino de Matemática e História do que você. Só aprendi matemática rudimentar com o Kumon depois de adulta, só aprendi a andar de bicicleta com vinte e cinco. Só fui beijar alguém com dezoito.  Só assumi o abuso sexual que sofri aos dez para mais pessoas, com vinte e três. Só comecei a mostrar para os outros o que escrevia com dezesseis. Demorei muito tempo pra assumir, pra arriscar. Hoje prefiro acordar de consciência limpa e alma lavada ouvindo as batidas do meu tambor de entranhas.

23 maio, 2012

Quatro considerações, dos quatro últimos posts

Posted in Cotidiano às 1:50 am por Deborah Sá


As aulas na Unifesp ainda estão suspensas, a greve continua (e sou favorável).  Aos poucos conheço gente que parece bem interessante, alguns costumes me irritam consideravelmente como fumar em grupo nos ambientes fechados (mas como aparentemente 99% dos estudantes de Humanas fumam, me calo). Ou ainda o hábito de espantarem cães insistentes com um pouco d’água se acaso tentam mexer nas mochilas ou se tornam inconvenientes, o campus é gelado porque o bairro dos Pimentas é “Winter is coming” e acho que não é uma boa saída usar água em um pêlo que é exposto ao vento. Os ânimos agitados (agora entendo porque tanto choro no dia que fui na USP e sim, continuo achando que estudar em Federal é privilégio de poucos, que o Movimento Estudantil ás vezes age no calor das emoções e aos berros) contagiando até os cães que ficam com o comportamento melindroso e ao mesmo tempo ansioso.

Sou fã de figuras de linguagem como as metáforas, mas acho que andei pesando a mão (não disse?), e se pareço confusa peço desculpas, algumas pessoas vieram com essa sugestão, de que eu torne o que escrevo um pouco mais evidente e pensando nisso, reli meus últimos quatro posts, que imagino eu, sejam os que sofreram maior impacto nessa nova fase que passo: Desempregada, não sei se o semestre da faculdade será cancelado, se tudo que resumi e li até o momento será passado “uma régua” , se terei que intervir em (mais) brigas no meio do movimento estudantil, da aproximação sincera com o Queer e da honestidade que busco respeitar meus desejos.

Desanuviando:

A Novidade (que de nova, não têm nada): A música “A Novidade” de Gilberto Gil poderia (entre outras interpretações) ser uma percepção de um@ Vegan de quem esperam que aceite a morte e exploração dos não-humanos como dano colateral inevitável e deve ser colocado em segundo plano, pois o mais importante nesses termos é fortalecer a própria espécie.

Ao direito do pesar: Nem sempre o caminho da salvação é estreito, ou seja, nem sempre para alcançarmos a alegria e algum êxito precisamos penar, sofrer, nos machucar, ás vezes a alegria vem sem a dor e sem um “preço”. Mas nem sempre. E se por acaso nos ferimos, é possível que isso nos fortifique pra seguir em frente. Somos crianças incertas, viramos adultos ainda mais incertos. Os demônios que a cantora Florence (a parte em itálico é um trecho da música) pede pra sacudirmos das nossas costas nem sempre avisam quando chegam e como qualquer ser com passado, sou assombrada pelos meus, o mais familiar é o meu avô, que já decomposto em algum pedaço de terra não faço questão nem de cuspir, veio, estourou e roubou o pouco de esperança que me era possível e surge feito uma múmia que ri da peça que prega. E por fim, pelo direito de falhar, de mudar de idéia, de perder o sentido.

Nós:  É uma declaração de afeto como outras que fiz, estão na categoria “Desejo” do blog.

Videodrome e outras vias para o método perigoso: Videodrome é um filme trash, gore e pós-humano que virou clássico, fala sobre snuff movies e um sujeito que não sabe o quanto esse universo o afetará, uma mulher o introduz ao mundo BDSM o que o deixa excitado mas completamente aterrorizado, já Um Método Perigoso é um filme mais recente mas do mesmo diretor e que de uma forma mais soft (no sentido de sofisticação e atenuação de vísceras explodindo na tela, sangue e outras formas mais chocantes e explícitas usadas em Videodrome) mostra uma personagem feminina que também pede para apanhar e introduz um personagem mais “cabeçudo” nessa equação: Carl Jung. Em ambos os filmes quem é levado a segurar o chicote entra em conflito com a antiga “racionalidade” entrando aí toda a discussão sobre os desejos, separação entre corpo e mente e o medo de se abrir para experiências ainda mais novas e difíceis de precisar (até onde vai nossa imaginação se a alimentarmos)? E por fim, creio que de uma forma ou outra encobrir de si mesmo essas pulsões é dar motivo para que retornem cada vez mais fortes, pois as fortalezas que colocamos ao redor serão corroídas pelo tempo (ferrugem, cupins e traças).

De todo modo, se meus textos parecerem demasiadamente confusos (cada um tem um processo cognitivo e o que pode parecer muito simples dentro da nossa cabeça é completamente sem sentido para quem nos ouve/lê) me perguntem via comentários, pois é um prazer interagir com vocês ; ]

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