26 outubro, 2014

Entre a pureza e a malícia, como percebemos a infância

Posted in Corpo, Educação, Sexo, Violência tagged , às 2:49 pm por Deborah Sá

Lolita, novinha, menina-moça, criança viada. Em virais e memes, na literatura, nos animes, nas telenovelas. São abundantes os exemplos de como retratamos a sexualidade na infância e começo da adolescência. Ora são mostrados como indivíduos ardilosos usando “seu poder de sedução” contra “escravos de suas pulsões”¹, ora como criaturas imaculadas, joguetes na mão de adultos. Acentuamos e desaceleramos essas interpretações conforme temos apreço (ou familiaridade), pela figura analisada, somando a isso, a própria categoria de infância num termo mais abrangente. Em linhas gerais, a duração da infância é bastante imprecisa, no senso comum algumas crianças são mais crianças que outras. O que faz a criança ser parte desse recorte temporal é a manutenção de sua docilidade, afabilidade, sujeição e assexualidade. Quanto mais uma criança não demonstra irritabilidade, sentimentos como vingança, agressividade, fúria e libido, mais “conservada” está em sua pureza, torna-se obrigação resguardar sua segurança. Aliás, esse é o argumento número um daqueles que defendem a redução da maioridade penal “Se já tem maturidade para cometer um crime, já pode responder por ele”. Desse modo, a infância é uma categoria que não corresponde determinada faixa etária, primordialmente, é visão moral sobre sujeitos, tão somente se não forem esses, capazes de atos sádicos ou sexuais. Os que cometem tais ações não “são mais inocentes”. Na continuidade dessa linha de raciocínio, passíveis de sanções e penalidades.

Em idêntica proporção ao julgo normativo esperado dos corpos adultos, as crianças que passam por algum tipo de assédio ou violência sexual, mas, não parecem  “puras como as outras” são acusadas de “provocarem” porque usam roupas, maquiagens, adereços ou se comportam de forma “inadequada para sua idade”. Portanto, se assume que há sujeitos passíveis de violência (inclusive sexual), como medida corretiva, o que é indubitavelmente autoritário e perverso. Para compreender esse fenômeno é imprescindível considerar o peso enorme da misoginia e demais heteronormatividades. A menina é considerada “menos pura” e “provocante” porque não é julgada como criança, é lida como mulher. O menino é considerado “malicioso” porque gesticula e fala de tal forma que “não parece viril” e assim, sucessivamente. Mesmo as crianças que se esforçam na radicalização do gênero designado, são menosprezadas: Alguns adultos podem até gostar de crianças “comportadas”, mas, na cultura de pares (isso é, o que acontece entre crianças quando nenhum adulto está vendo), são lidos como covardes e pouco autônomos. Já a criança que se envolve em brigas, pode ganhar certa imunidade em seu círculo. Se for um menino, provavelmente, até alguma admiração. Entretanto, será um “caso perdido” (especialmente se não branco), ao parecer de professores, diretores e não raro encarado como “um futuro delinquente”. Portanto, raça e classe social também operam nas impressões e prospecções que fazemos do destino de crianças. Exigimos que “se emendem”, sejam projeto de infância perfeita, um protótipo de obediência e mansidão. Elas precisam ser mini-mulheres e mini-homens perfeitamente ajustados em um dos pólos.

E se não se nasce mulher, torna-se, onde estão os exemplos de ser “mulher”? Onde está “ser homem”? A educação e os modelos de comportamento estão em todas as partes e as crianças, em constante interação com variadas plataformas (mídias e círculos sociais), contendo padrões. Assim, por mais que more em uma família nuclear tradicional e jamais briguem em sua frente, uma criança tem acesso aos meios de comunicação, frequenta a escola, o bairro, a igreja, percebe quando adultos mentem, o que chamam de bonito ou de feio, o que incentivam e o que desaprovam nos comportamentos, que tipo de modo de agir vira piada. A criança responderá aos estímulos tentando achar uma boa equação entre o que ela deseja (mesmo que seja um tanto destoante de onde pertence), e o que ela deve fazer para ser reconhecida, respeitada. As crianças duvidam das explicações dos adultos e aceitam sem pestanejar outras tantas, não são elas que fazem as regras. Participam de dinâmicas nas quais suas vontades são pouco consideradas e os limites físicos, bastante rígidos. Por exemplo, se uma criança pequena não quer tomar banho, pular a guia da calçada, ir para uma festa; os adultos escolhem por ela a roupa, colocam embaixo do chuveiro, tomam no colo e levam para qualquer canto. É o adulto que coloca de castigo. É o adulto que bate para repreender e dentro da vida privada, respaldado. É o adulto que define se ela já não é “mais tão criança” e deverá ser condenada.

A criança não é portanto, dona de seu corpo, uma vez que está a mercê de outros corpos adultos ou mais velhos, os quais não só podem proteger do mundo externo, dar carinho, alimento, abrigo, mas também, empregando persuasão e força, causar danos. Considerando desde o início do Séc. XV (onde as primeiras noções sobre infância ganham notoriedade), são inúmeros os casos de adultos e tutores que matam crianças. Os contos de fadas, canções de ninar, mesmo as notícias de telejornal recentes explicitam para as crianças que viver é perigoso. Muitas das que passam por situações de violência sentem-se impelidas em acatar como punição e castigo, “porque merecem, porque são crianças ruins/más”. A culpabilização da vítima atravessa a infância, seja porque não são “puras” o bastante para serem cuidadas, seja porque não atendem a intransigência dicotômica de “ser homem”, “ser mulher”. A legislação moral é severa e recai sobre os corpos, não importa se mal caíram os dentes de leite.

¹ Para explorar mais esse assunto: Doente, monstruoso, bestial: O pedófilo.

Referências: ARIÈS, Philippe. História social da criança e da família. 2. ed. Rio de Janeiro (RJ): Editora Guanabara, 1981

MULLER, Fernanda. Infâncias nas vozes das crianças: culturas infantis, trabalho e resistência. Educ. Soc., Campinas , v. 27, n. 95, Aug. 2006 . Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0101-73302006000200012&lng=en&nrm=iso&gt;. Acessado em 26 Oct. 2014.

Doente, monstruoso, bestial: O pedófilo

Posted in Corpo, Educação, Infância, O pessoal é político, Violência tagged , , às 2:13 pm por Deborah Sá

Escrevi durante vários anos priorizando a experiência de mulheres e crianças que passaram por violência sexual, o leitor mais antigo (ou mais paciente), encontrará pencas de materiais escritos em meus arquivos que passam das centenas. Ademais, preparei um escrito introdutório que subsidiará a leitura do presente texto. Talvez, um dos mais difíceis que produzi até o momento. Dada a alta densidade de envolvimento emocional com o tema, me reservo ao direito de desvelar esse assunto com descolamento de papéis em um exercício intelectual não neutro, uma vez que minhas convicções políticas afetam meu discurso, em uma relação dialógica entre passionalidade e o compromisso com a análise reflexiva.

Tratar o pedófilo como doente é individualizar um desejo legitimado socialmente. O desejo por crianças e meninas é construído. Sem necessariamente buscar por isso, é realmente fácil encontrar (mesmo em bancas de jornal), milhares de imagens de mulheres adultas usando adereços infantis com propósitos sexuais: Ursinhos de pelúcia, maria-chiquinha, chupeta, brinquedos. Há quem sinta prazer em encarnar “a criança” e quem sinta prazer em encarnar “o adulto”, a radicalização desses papéis em contextos sexuais seria o polêmico Infantilismo ou Age Play, neles, adultos mutuamente em acordo interpretam esses papéis. Mas não preciso ir aos extremos, a pornografia mais tradicional norte-americana usa muito o “Daddy” e em algumas regiões do Brasil, se chama carinhosamente o cônjuge masculino como “Papai”. Em várias representações de seriados, filmes, ou telenovelas encontramos a figura de uma garota realmente jovem iniciando e “provocando” homens maduros. Dito isso, reitero o quanto é danoso supor que o desejo por essas situações de poder muito específicas, brotaram de corações malévolos e mal intencionados. O desejo por crianças e pré-adolescdentes não é sintoma de uma doença, mas, manifestação de uma cultura etarista e patriarcal, por meio dela, crianças não são donas de seus corpos. Em padrões moralmente assentados “não são mais crianças”. Nessa cultura alguém mais forte, com mais dinheiro, adulto, preferencialmente homem, pode ser um tanque de guerra. O estupro, é um crime de guerra ideológica demarcando a vulnerabilidade daquele que é violentado. Guerra é história e territoriedade e embora bélica, não é necessariamente fálica.

Posso pressentir muitos que leem, torcer o nariz, como assim, não é relacionada diretamente ao pênis? Não é. Amarre um corpo que possua o referido genital de tal modo que apenas o dito cujo, fique exposto. Por si só, é bastante frágil e sensível, no máximo tem força para sustentar alguns objetos e se precisa de mais força, exige movimento da pelve, isolado não representa ameaça. Simbolicamente, é a virilidade masculina, portanto, sou completamente contrária a ideia de castração como medida punitiva de pedófilos e/ou estupradores. Mesmo se empregada como proposta de punição ao simbólico, se ataca, mais uma vez a ideia de masculinidade, pune-se com a “desmasculinização”. O mesmo vale para estupro de estupradores, ora, se o estupro é a reafirmação do poder com violação não consentida, quem estuprará o estuprador? Quem violará sua masculinidade? Quem “o fará de mulherzinha”, “menos homem”? Logo, combater a barbárie estuprando e emasculando é contraproducente, violentamente patriarcal e mantenedor de idênticos preceitos.

Outra sugestão dada no calor da emoção é o sistema carcerário. Pois bem, encarcerar é tirar da vista, apartar e mais uma vez, individualizar uma discussão bem mais complexa do que bandidos e mocinhos, entre gente “civilizada” e quem “não tem conserto”. Prefere-se dizer que não é “problema nosso”, mas de meia dúzia de “desajustados”. A maioria das pessoas que cometem crimes sexuais contra crianças são bastante próximas das vítimas, isso é, pais, mães, tias, babás, avós, avôs. Considerando o número elevadíssimo das estatísticas se for para levarmos a cabo essa sanção, seria raro uma pessoa em todas as classes sociais, que não tivesse ao menos algum grau de relação ou parentesco com alguém penalizado. Você, leitor, leu corretamente. Eu não acredito que a medida de intervenção aos pedófilos que concretizaram seus atos seja a prisão, a morte, a castração. Isso é endossar a caricatura dos filmes. O pedófilo não é um sujeito excêntrico, reservado, deslocado da vida social, com um sorriso perverso diante das crianças que brincam no parque. Quanto menos familiar esse rosto parecer, mais fácil exigir medidas drásticas de isolamento, tortura e privação da vida comum. Estatisticamente, assim como nos dados de violência contra mulher, quem agride não são desconhecidos, são namorados, amigos, familiares, maridos.

A acusação de pedofilia pode incitar linchamentos mesmo sem provas. Pessoalmente, já tive de intervir em um desses casos no começo de minha graduação. Durante uma assembléia estudantil, houve a denúncia: Um motorista de ônibus fretado foi acusado de ter realizado sexo com uma menor, no trajeto entre o ponto de chegada e partida. A história se amontoou em várias versões, desde o número de pessoas que presenciaram o fato mas nada fizeram para impedir, até supostos vestígios como um chinelo e uma camisinha usada (?), nunca realmente localizados. O resultado foi presenciar pessoas comovidas se jogando no chão (!), gritando, parte de um grupo saindo em busca de facas e demais objetos para matar o acusado. Depois de tentar argumentar fui taxada de “defender estuprador”, “de não perceber o quanto isso era machista”, ou ouvir “vamos estuprar o estuprador”, essa última frase, dita por um indivíduo que desprezo completamente por muitas razões. O fato é que a história minguou de um dia pro outro, mesmo entre as feministas que me acusaram (estavam ocupadas pintando cartazes para uma marcha). Fiquei surpresa e com uma carta nas mãos (contrária ao linchamento), sem saber como processar essa informação. Os anos passaram e a aspereza do tema me sobe como a bile, toda vez que a discussão retoma. Descrevo esse evento com riqueza de detalhes para ilustrar que nesse assunto febril, se faz necessário muita cautela para o debate. Correndo risco de ser colocada no mesmo patamar de quem faz o crime (mais uma vez), tomo a iniciativa de me posicionar. Indiferentemente se é centro-esquerda, centro-direita, anarquista, conservador ou liberal, quando a denúncia é o estupro “justiça pelas próprias mãos”, “meter na cadeia”, “capar”, são atitudes esperadas.

A retaliação aplaca muito pontualmente os ânimos de quem toma as dores do violentado. Não desfaz o crime ocorrido, não impede que novos crimes com a mesma motivação aconteçam. Porque não é isolado, o desejo é socialmente construído, inclusive por crianças. Costumeiramente fazemos vista grossa ou tratamos como algo “perigoso” a criança que se toca sozinha, repete gestos de danças de duplo sentido. As crianças não agem para atrair adultos, se movem porque é simplesmente divertido e “todo mundo faz”. Sejamos francos, “danças proibidas” que “são má influência” para jovens e crianças fazem parte da cultura popular há muito tempo e não é isso, que nos dá estreiteza ética. Julgar alguém passível de morte e estupro por gestos e vestuário, sim. Voltando ao pedófilo que dá vazão ao seu desejo: Os adultos que assediam crianças o fazem porque possuem respaldo social para isso, implicitamente. Aos que sentem desejo por crianças e nunca concretizaram, recomendo que busquem ajuda profissional para reinterpretar e encontrar outras formas de lidar com a libido. Nesse assunto de imensa complexidade, especulo algumas alternativas e além das citadas acima, apresento outra, a educação. Não assumo nesse pressuposto, que os humanos tenham uma natureza boa e são corrompidos por um mundo decadente, em verdade, nascemos e somos frutos de nosso tempo histórico com valores e impressões demarcadas. Ao mesmo tempo, somos capazes de vislumbrar algumas possibilidades, rejeitando conjecturas apontadas como absolutas. Por educação, não me encerro nos bancos escolares, considero também a indústria cultural, a linguagem, os discursos, os saberes científicos, jurídicos, as instituições, a heteronorma, o capitalismo, o etarismo. As raízes estão parte expostas, parte enterradas e com ramos bastante firmes. É mais fácil pintar o outro em tons grotescos do que assumir os respingos de nossas cores primárias.

29 agosto, 2014

R.E.C.A.L.Q.U.E

Posted in Corpo, O pessoal é político, Sexo tagged , , , às 7:21 pm por Deborah Sá

É desnecessário dar pinta. Principalmente se for bissexual com cabelo esquisito, sapatão sem maquiagem, viado de short. É exagerado dar pinta se for não-monogâmico. Raso fazer sexo com amigos. É permitido conversar sobre gelzinho para oral, lingerie de colegial, chantilly com morangos e falar “pepeca” em conversas informais. É vulgar falar buceta, é doentio falar de podolatria, bondage ou algemas (que não sejam as de pelúcia). Feminismo é… okey. Porém, é despautério ser peluda e usar regata, gorda com roupa justa, esquerdistas e anarquistas e suas bandeirolas. Qual a necessidade de esfregar essas aberrações na cara dos outros? Porque tornar tão visível? Falta de etiqueta, compostura, discrição e principalmente, falta de tecido para esses rebeldes – oh, céus, literalmente! – sem calças.

Do mesmo modo que gordo não deve fazer gordice, viado não deve fazer viadagem, sapatão não precisa fazer rebuceteio. Concorda? Sua hora chegou! Filie-se a R.E.C.A.L.Q.U.E (Rede Examinatória de Cu Alheio por Liberdades Quadradas Universalizantes e Encarceramento)! É  bastante incômodo ver à luz do dia e na via pública esses comportamentos, como ação,  precisamos saber os mínimos detalhes do passado, presente e futuro desses esquisitões, não é mesmo? Esses são alguns dos benefícios de possuir a carteirinha: Hétero respeitável. Com ela você pode identificar e orientar taradices, ao mesmo tempo, descobrirá: Quais as posições praticadas e com quantas pessoas se fez sexo, ativa ou passivamente. Se pretende ter filhos. O quanto isso atrapalha o desempenho profissional. Qual evento traumático da família desestruturada ocasionou esses desejos. Se já usou drogas. Se encontram parceiros na rede mundial de computadores. Se já se envolveram com pessoas casadas (além de destruir a própria família para desgosto dos pais, destruíram outros lares). Se fazem uso de remédios controlados e muito mais! A triagem consiste em investigar quem possui gestos, entonações, roupas e outros indícios de dar pinta. O exame preliminar está disponível on-line no QUESTIONARIO_HETERO_de_RESPEITABILIDADE.

A detecção precoce de tais sintomas e intervenção adequada, permite uma vida de vigilância constante, auto-flagelo, culpa, vergonha e auto-ódio, levando em muitos casos ao suicídio, não é maravilhoso? Materiais em vídeo-aula possuem as seguintes temáticas: “Te coloco uma lupa pra sair do foco”, “Eu não sou preconceituoso, mas…“, Eu só quero o seu melhor, mas o que você faz é uma pouca vergonha”, “Faça entre quatro paredes, me conte detalhes”, “Falo isso para te proteger”, “Está na Bíblia Volume I, II e II”, “Está no DSM-IV”,  além do sucesso de vendas “Você é uma aberração, por isso vive triste”. Entre em contato com nossos associados! A R.E.C.A.L.Q.U.E tem imensa satisfação em agregar novos membros¹. Na busca por um mundo descafeinado, bege e com cheirinho de eucalipto! 

Organizações R.E.C.A.L.Q.U.E
Lavando as mãos e a sua consciência


 

¹ R.E.C.AL.Q.U.E possui parceria com setores religiosos, estatais, familiares, legislativos, além de humoristas e grandes emissoras de TV.

30 abril, 2014

Notas de uma anormal

Posted in Corpo às 2:00 pm por Deborah Sá

Dizem que a ajuda médica é necessária quando atrapalha a vida social. Bem, nunca experimentei a placidez de uma vida normal, nem pude observar, na parcela em que me cerco, traços desse êxtase quase cotidiano. A infância, esse conceito transformado desde a idade média, me abateu como a centenas de crianças do final dos anos 80, bastante amor, alguma dose de amargura. E passaram-se os dias sem avisar, pois, duvido que a maré nos acerte quando estamos prontos, a gente aprende a nadar forçosamente. Freestyle, tirando algum proveito da intempérie.

Por essa razão, não busco tratamento para o mar-de-dentro, esse que escoa pelos olhos e poros, nasci com ele, e se tem uma coisa que meu corpo aprendeu direitinho é a chorar. Nem sempre funciona quando espero e na intensidade prevista, mas surge, me faz engasgar um pouco com a água salgada, ao fim, sobrevivo, no corpo a corpo, no boca a boca, na transpiração. Há quem precise de remédios, quem os busque, não tenho nenhuma pretensão em ser prescritiva, até porque, a minha assinatura não vale nem os dois dígitos da minha conta bancária.

Todavia, faço a defesa pessoal (e os que nela encontram familiaridade, sejam bem vindos), pelo direito a anormalidade nem sempre tão sutil. Isso é, vez ou outra, arrepios me fazem tremer sem razão. Desde os onze anos de idade, em momentos de cansaço e tensão tenho dificuldade em levantar uma pálpebra. Sem contar, todas as vezes que fui chorar no banheiro do trabalho, da faculdade, ou ainda a paralisia generalizada que já experimentei em  manifestações ou lugares muito lotados. Já estive em profissionais da saúde mental, nos três casos, diagnósticos diferentes: Stress pós-traumático, síndrome do pânico, depressão e pasmem, bipolaridade. Nesse último, a profissional do SUS (em quinze minutos olhando para minha fuça), receitou um tarja preta e segundo sua avaliação precipitada, eu era bipolar porque falava rápido e gesticulava muito.

Pois bem, caríssimos profissionais da saúde: Sentar em um espaço e “me abrir” para ouvir em outras palavras que sou anormal ou outros impropérios bem ofensivos, não representa qualquer novidade. Isso sei desde o jardim de infância, dos bancos escolares aos religiosos. As pessoas anormais vivem da maneira que é possível. Ou seja, tenho uma vida afetiva bastante rica, com experimentações diversas e o fato, de certas práticas soarem excentricidades, não as esvazia de sentido, toda prática é carregada de intencionalidade e serve a propósitos específicos. Não pretendo construir um discurso ancorado no princípio de que esquisitos possuem a mesma demanda de pessoas normais, algo como “- Anormais também merecem um emprego, uma vida saudável”, porque no fundo, isso pode facilmente ser confundido com “- Eles merecem ser tolerados, contanto pareçam normais”.

Há interesses humanos acessados por todos, tais como a busca por reconhecimento, afeto e prazer, porém, parece um tanto mais evidente, que pessoas anormais, esquisitas, excêntricas ou qualquer adjetivo de dissidência que se queira usar, possuem demandas outras. E é com isso que não conseguimos lidar. Porque certos corpos/espíritos/desejos inclinam para direções tão opostas? E sabendo que a sociedade em sua maioria não sabe lidar com esses pontos fora da curva, não seria de responsabilidade desses últimos tentar adequação, sem sofrer o peso da diferença inscrita em seus corações e mentes? A minha resposta é: Não.

Será de imensa valia cultivar o empoderamento daqueles que são agredidos de diversas formas por seu desvio, mas, ainda mais desafiador, é problematizar a força motriz que legitima alguém ser agente desse padrão hegemônico[1], coagindo e sancionando normas pela incapacidade de lidar com outro que não atende suas expectativas de demandas aceitáveis. Culpabilizamos os anormais, pelas emoções e contrações musculares involuntárias, se nascemos ou não com essas inclinações, pouco importa, a verdade é que elas nos atravessam. Como um raio que percorre o corpo e precisa descarregar e se em sobrecarga, invariavelmente causa danos aos mais próximos. O gerenciamento (não extinção), da anormalidade, demanda tempo e não é possível controlar todas as reações e variáveis encontradas no caminho. Entrementes, acreditar no controle absoluto de algo ou mesmo na cura e estabilidade absoluta, é a maior das ingenuidades. Vivenciar pressupõe ruptura e solavanco, não existe experiência sem memória, escombros ou souvenir. Ao planejar, escrever, repensar, fazemos um ensaio, ganhamos um pouco mais de segurança, mas, ao abrir os olhos e defrontar com a realidade, o roteiro não é mais disponível, a cena está posta, o cenário montado. Minha decisão em não me medicar implica em jogar o ponto auditivo pela janela. Querem os anormais mais normais possíveis, postura de programa editado, só que em programa ao vivo e com platéia cheia.

[1]  Assumo aqui que as pessoas não são robôs, agir, em determinada circunstância em consonância com o discurso da norma, não significa que a pessoa não tenha dias ruins, angústias, medos, sonhos, etc.

7 janeiro, 2014

Gorda, um posicionamento político

Posted in Corpo tagged , , , às 4:13 pm por Deborah Sá

Fumo, bebidas alcoólicas, dormir tarde, beber pouco líquido. Praticar atividades físicas, comer de três em três horas, retirar o glúten. São alternativas diferentes de se relacionar com os usos e funções do corpo, a administração do tempo. Tem gente que prefere criar uma dinâmica funcional e utilitária, nutricional, contam-se as porções, busca-se ganhar massa, reduzir medidas. Outras pessoas, preferem escolher pelo prazer farinha branca e alimentos açucarados. Para todos esses hábitos, há corpos magros e gordos, jovens e velhos, com mais ou menos idas ao médico.

Qualquer texto criado por uma pessoa gorda que explicitamente não segue dietas emagrecedoras (nem pretende seguir), é visto como um grande disparate, um passaporte só de ida ao leito do hospital. O que não se considera é que há muitas razões para alguém se tornar gordo e deliberadamente, continuar gordo. Nem todo gordo tem uma relação de ódio e punição com o que ingere, nem todo gordo é desconectado do próprio corpo. A separação entre esses pólos, inclusive, pode acontecer por meio de dietas e mortificação dos desejos. A cinta modeladora, as cirurgias plásticas e a fita métrica são cilícios, mais ou menos abrasivos. Segundo o ditado é indelicado perguntar para uma mulher sua real idade, também se tornou indecoroso perguntar o peso e o manequim.  Ao experimentar a tensão de não entrar na etiqueta de costume, pode se tomar duas decisões: Ou se compra apertado “porque merece, ninguém mandou comer demais” ou abandona-se a loja. O leitor pode supor que aí está a prova de que gordos naturalmente se odeiam. Discordo. O gordo que repete para si que é uma pessoa desprezível e descontrolada, é como a criança que em uma brincadeira imita a mãe repreendendo. Lembra da regra aprendida e a aplica. Adultos ou não, somos sujeitos extremamente suscetíveis aos estímulos externos. Ódio, culpa, remorso, agressividade se aprendem, para dentro e para fora ao longo da vida.

Mas vamos supor que alguém realmente toque o foda-se e resolva se esbaldar com alimentos gordurosos. Vamos supor, que as pessoas sobrecarreguem um pouco seus fígados. Vamos supor, que as pessoas descarreguem suas ansiedades e frustrações em hábitos pouco saudáveis. Chamá-las de “comedoras de lixo” por consumirem muito carboidrato, “fracas e perdedoras” por usarem entorpecentes, “estúpidas” por suas escolhas alimentares e sedentarismo; faz a meritocracia e o capacitismo baterem palmas. Parabéns (só que não). Superar limites, se sentir dono do próprio corpo e comer de forma consciente não tem como resultado último a perda de peso. Inacreditável que enquanto mulher, o maior êxito que devo aspirar é ter um corpo magro e jovem até o final dos meus dias. Pela escolha em permanecer gorda, assumem que eu odeie meu corpo ou seja dissocio com escolhas alimentares pouco conscientes. Mesmo que seja vegana desde 2008, não tome refrigerante há dois anos (me deixa estufada e tira o apetite), pratique exercícios com certa regularidade, adore espelhos e movimento, problematize a separação entre mente e corpo, espírito em sobreposição da matéria. Aparentemente, a única forma de auto cuidado possível é perder peso e manter as unhas feitas, do contrário, faço apologia a gordura como máxima estética e o desmazelo de modelo. Minha proposição é de que é mais importante ouvir as pessoas e respeitar suas angústias do que julga-las imaturas e desequilibradas por costumes. Elas não são dignas de cirrose, câncer no pulmão, overdose, perna amputada pela diabete. Merecem mais do que mau agouro e maldições. Já não basta fiscalizarmos a sexualidade? Os orifícios e genitais? Temos de estender o controle dos corpos em suas proporções? Por que raios incomoda tanto a circunferência abdominal alheia? Quando quero saber se alguém precisa de amparo pergunto se está tudo bem, se precisa desabafar. Não faz qualquer sentido abordar uma pessoa triste com o imperativo disfarçado de pergunta: “Já pensou em emagrecer?”. Culpamos a pessoa gorda pela tristeza que sente em ser maltratada, pelas grosserias que ouve. Minorias sociais tem mais tendência a depressão e a tentativa de suicídio e essa vulnerabilidade, é aberta com o preconceito sistemático. Os gordos aceitáveis são os que tentam não agir ou parecer gordos, os que estão em busca da desconversão. Defender a vivência da sexualidade sem restrições significa acreditar que gays, sejam pobres ou ricos, comedidos ou espalhafatosos, de terno, barba e/ou salto, merecem igual reconhecimento. Pouco me importa se a mulher escolhe casar virgem ou ser biscateira, tem o direito de usufruir a liberdade.  Puta, viado, sapatão, se foi possível apropriar dessas identidades, por que ainda relutamos tanto em sermos gordas? Que mal há em transformar isso em símbolo de resistência, beleza e empoderamento? Passou da hora de não mais pedirmos ou procurarmos desculpas.

4 janeiro, 2014

A patologização da gordura

Posted in Corpo tagged , , , às 6:14 pm por Deborah Sá

Um corpo gordo caminha na praça de alimentação, os olhares acompanham. As formas arredondadas tremulam aos olhares da mãe preocupada e alerta a filha pequena: “Quer ficar daquele jeito? Pois trate de comer a cenoura do prato”. O bebê rechonchudo é amado e lindo até determinada idade, dobrinhas depois de certo tempo não são mais graciosas. Um gordo está no corredor do ônibus, algumas pessoas resmungando dizem que ele ocupa espaço demais. Segundo a reação de quem o empurra (aparentemente a maciez da pele gorda amortece a dor), o gordo é árvore que caiu depois da chuva e amassou o carro. É fatalidade que faz parar no caminho e curiar, abanar a cabeça em condolência ou em espírito zombeteiro, fazer piada. “Gordo só faz gordice” é o novo “O médico pediu para não contrariar, sabe como é, ele não bate bem”.

O altruísta da dieta diz com voz macia que só quer ver o teu bem, se preocupa com a sua saúde. O que é ser são, saudável, senão ter o aval da medicina atestando normalidade? Certa vez, fui ao ginecologista pedir uma guia médica dos exames de rotina (como faço todos os anos). Pouco depois de me cumprimentar o homem de cabelos grisalhos e jaleco, disse enfaticamente “Seria bom cuidar desse sobrepeso”. Eu o tranquilizei dizendo que estava bem com meu corpo, não pretendia emagrecer, tinha uma boa alimentação e embora não seja uma atleta, procuro me manter em movimento. Com desconfiança, reparou a minha tatuagem e recomendou um exame de proteínas. Narrou o quanto sangrou em sua mesa um paciente como eu, em uma cirurgia. O pobre diabo (magro) não cicatrizava e jorrava muito sangue, uma cena de terror escatológico dito em tom mais grave, dramático. Sorri de lado, disse que não tinha medo. O ginecologista não acreditou no resultado quando voltei ao consultório com o papel em mãos “Mas tem certeza que não come mesmo leite e carne? Tem certeza que não sente os joelhos doerem? Tem certeza? Não sente nada agora, que é nova, depois dos quarenta…”.  Caso os exames indiquem excelentes resultados, a expressão é de espanto, surpresa e incredulidade. Isso é, se você é gordo, nem um laudo médico é capaz de atestar sua normalidade. O sobrepeso é sinal de alerta, a obesidade é calamidade. O gordo saudável é no máximo, uma encenação mequetrefe de atores canastrões. Mentira, um enigma da medicina. Alguém está mentindo e esse alguém é o gordo.  É o louco fingindo de são. O gato que se esconde e deixa o quadril aparecendo na lateral da cortina. A mulher gorda modifica a silhueta feminil, pesada e de formas protuberantes ocupa espaço, chama atenção. O homem gordo por sua vez, rasura a forma masculina, ganha volume ao redor dos mamilos, cresce quadris. A criança gorda pode ser a “valentona”, mas em geral, ocupa a posição de alvo preferencial das humilhações, é “mole”, “frouxa”, “chorona”, “indefesa”. Uma pessoa gorda desolada na rua, dizem, parece um “bebezão”. Há uma epidemia de obesidade e sobrepeso causando alarde e mantendo a indústria da dieta lucrativa. Pois uma vez gordo, o indivíduo será colocado no mesmo grupo das crianças, mulheres e loucos. Você pode ser contaminado, intoxicado. O corpo gordo é taxado de incapaz, descontrolado e obsessivo.

É até charmoso dizer que adora beber com os amigos, ser chocólatra, adorar friturinhas. Pode-se sentir prazer em comer é até sensual se você é a Nigella ou o Rodrigo Hilbert na GNT. Mas se é gordo, discorrer sobre gastronomia e aquele prato preferido faz parecer um disco riscado. Se alguém de corpo magro faz um prato com muito carboidrato e mistura vários molhos ao redor é completamente admirável, o exercício de um dom. Gordo que repete o prato acelera em quilogramas o relógio bomba. Para atenuar, dizem “você nem é tão gorda”, “você tem ossos largos”, “carne pra pegar”. Soa muito com “você não é negra, é moreninha, morena jambo, morena clara”. E o adjetivo vem acompanhado de um “mas”. “Você é gordinha, mas tem o rosto bonito”, “Mas quem precisa de um corpão quando se é inteligente assim? Pelo menos você não é fútil, todo corpo um dia cai, a idade vem”, “Mas você é engraçada”. A gordura é porém, a partir dessa defasagem de princípios (mentira, imaturidade, compulsão, covardia)  o papel social gordo se estabelece. O gordo é sombra, coadjuvante,  simpático solitário, o doente.

A amostra colhida em laboratório gera números impressos, os dados ganham substância na medida em que um profissional da saúde os atesta frente ao paciente. Não importa se nas mãos os resultados da última década apontam bons resultados, o cardiologista, o ortopedista, o comediante, seus parentes, o ginecologista, as pessoas na praça de alimentação encontrarão em um movimento traiçoeiro, o indício da patologia. A única maneira de alçarem o gordo a uma categoria mais digna é o emagrecimento, a dieta. Sua palavra, seus exames, sua disposição, não possuem relevância. Emagrecer diante dessa pressão é uma escolha. Uma escolha nada covarde que deve ser respeitada, seleção indubitavelmente coercitiva. Ao aceitamos o corpo gordo tão somente magro, resta o ostracismo social legitimado pelas instituições e o que é mais difícil de enfrentar, a vida cotidiana e o policiamento da rotina disfarçado de neutralidade política. O corpo gordo marginalizado, evadido da via pública, coberto por panos em altas temperaturas, é segregação.  O corpo gordo epidemia contagiosa, “ônus aos cofres públicos”, política de extermínio, é eugenia. Nas entrelinhas de cada conselho emagrecedor não mora a preocupação com a saúde, o fôlego ou a qualidade de vida, sejamos francos, o que se quer é a adequação metrificada, a aceitação social, encontrar roupas com facilidade, não entalar em uma catraca, deixar de ser motivo de piada, sair do estado de quase sujeito. Sinceramente, não me interessa mordiscar barrinhas de colágeno, prefiro ser gorda e amada, sem zíper na boca.

Deborah Sá tem 1,70 de altura, pesa 83 quilos, tem IMC 28,7 e usa calça jeans tamanho 50.

24 outubro, 2013

Narcisismo democrático

Posted in Corpo às 1:19 pm por Deborah Sá

Combinação controversa? Peço dois tostões do seu tempo para alongar nessa explanação. As palavras mudam de lugar somente se alguém as põe para andar, isso é, de pequena tomei gosto pela oratória e escrita, lembro do deslumbramento ao descobrir que alguém antes de eu me dar conta, deu nome ao que julgava ser alquimia das mais fantásticas: A rima. Se concebo diferente interpretação a qualquer frase que seja, reconheço que não será explicada em resposta lacônica, feito fôlego curto de expiração, não é tosse, soluço de resposta. Preciso de mais e mais palavras pra explicar o percurso cronológico, o desenvolvimento, a genealogia que não leva ao acabado e estanque. Exponho pra continuar dali, é movimento de marcha, desafiar as próprias articulações, ranger rótulas.

Comumente o narcisismo é afogar-se no fascínio dos reflexos d’água, prefiro compreende-lo com o complemento “democrático”. Quando estamos diante do espelho, sozinhos, não há outro modelo além do que percebemos. Provavelmente orbitará o referencial das fisionomias socialmente aceitáveis, porém, tentemos nos concentrar no que está posto. O narcisismo democrático é a admiração e o respeito ao refletido, não enquanto digno de réplica, perfeição ou estágio final, mas processo de desenvolvimento constante. É impossível criar a bel-prazer uma estética pura ou não influenciável, porém, é realizável construir uma miscelânea de intervenções e percepções sobre a própria imagem. É vitral que visto de longe compõe uma imagem colorida e de perto se vê os recortes e incisões, as rupturas. E como se sabe, não há vitral bem cuidado sem intervenção e manutenção. Tal narcisismo é democrático, pois não se equilibra no pedestal dicotômico e polarizado, tornando a ideia de superioridade contraditória ao princípio lógico desses termos quando combinados. É improviso na busca da própria cadência. É corporalidade[1].


[1] Esse termo, grifado e destacado assim, encontrei no livro Oralidade e alfabetização – uma nova abordagem da alfabetização e do letramento de Claudemir Belintane. O livro não fala sobre narcisismo e o termo não é empregado no texto desse modo, todavia, tomei a liberdade de mover essa palavra de lugar, já que é de meu feitio não ter medo delas.

22 outubro, 2013

Para uma garota

Posted in Corpo às 11:29 pm por Deborah Sá

Contaram que você chorou por causa dos apelidos. Isso fez lembrar de quando tinha a sua idade e me sentia a pessoa mais indigna de amor do mundo inteiro. Dizem que isso é exagero, mas eu sei que não é. Quando nos ofendem, colocam esses apelidos, dão risada, humilham, isso faz o mundo cair em cima dos nossos ombros. Isso é muito injusto, além de não ser uma verdade, você merece ser amada. Eu pensava que todos os problemas da minha vida existiam porque era gorda, se eu fosse bem determinada, recusasse todas as sobremesas, comece só uma maçã e bebesse bastante água meu corpo iria mudar e as pessoas começariam a me respeitar e quem sabe até, me amar de verdade. Queria ser bonita e segura como as mulheres da televisão, as atrizes, as cantoras e todas elas eram magras. Encolhia a barriga na frente do espelho e chorava. Na escola, na rua, na igreja, em todos os lugares as pessoas me lembravam que eu era grande demais para uma garota, que minha barriga não era retinha como de algumas meninas que dava até pra contar as costelas. Eu sentia muita vergonha de ser assim. Não vou mentir pra você, eu continuo gorda, algumas pessoas ainda tem preconceito com mulheres que usam roupas de tamanho maior, você sabe, provavelmente já ouviu piadas assim da boca de outras pessoas. Porém, estou aqui para dizer o que pouca gente diz para meninas gordas: Você é linda! Mais do que isso, você é maravilhosa e completamente amável!. Você não é linda apesar de ser gorda, você é linda inclusive por ser gorda! Sabe aquele boato que espalham sobre meninas gordas não saberem se soltar, dançar, brincar? É mentira! Você pode aproveitar muito até ficar com um sorriso e o rosto vermelho de tanto se divertir por aí. Sabe como sei que fiz um bom e verdadeiro amigo? Quando ele me respeita e me faz sentir querida. Atualmente convivo com pessoas formidáveis que me amam e admiram pelo que sou, elas provam que as vozes preconceituosas do meu passado estavam completamente erradas. Posso apostar que as pessoas que zombam de você tem um monte de defeitos e nem por isso se afasta delas. Não estou falando que você tem que humilhar pra dar o troco, estou dizendo que pedir respeito é um direito seu, você pode exigir ele, você não merece ser machucada. Você é generosa em admirar os outros, seja mais generosa ao se olhar no espelho, mas use um grande, de corpo inteiro, perceba o conjunto. Vê como é linda? Você já passou por muita coisa difícil e continua de pé, você é corajosa e forte, além de linda e admirável. Besta é quem não tem muito orgulho em ter você do lado!

Um beijo e um abraço!

Deborah

9 outubro, 2013

À barriga positiva

Posted in Corpo às 10:26 am por Deborah Sá

barrigapositiva

O que eu tenho contra mulheres e homens magrelos? Nada. O que eu tenho contra a pressão por corpos “perfeitos”? Tudo. O que eu tenho por pancinhas? Amor. Aliás, quer coisa mais deliciosa do que alguém apertando gordurinhas (costas, barriga, braços, quadril)? difícil, difícil. Como disse certa vez um amigo: “É mais fácil ver gente bonita na rua”.

Milhares gostam de usar celebridades de motivação para emagrecer, colocam foto da modelo no desktop, querem o shape da famosa X ou Y. Isso em um mundo onde Fabiula Nascimento existe! Nadia Aboulhosn samba na cara e Beth Ditto sai divando. Certo, elas não ganham o mesmo destaque, também sei que gente insensível com a baixa auto-estima alheia humilha, diz pra perder uns quilinhos “para seu próprio bem”. Nas condições atuais, passou do manequim quarenta já se é gorda. Aliás, nem precisamos chegar a tanto, se sentar e a barriga fizer dobra já é considerada gordinha e o pior, barriguda. Bem sabemos o tratamento honroso que não-magros recebem, ninguém quer fazer parte de um grupo desse, dos desleixados e preguiçosos. Ao ligar a tv ou abrir uma revista, conte quantos anúncios emagrecedores verá. Insatisfação gera dinheiro para a indústria das cintas modeladoras, dos cremes rejuvenescedores, do gel anti-problema-inventado-nas-últimas-décadas, dos iogurtes pastosos e queridinhos das dietas que prometem desinchar, dos shakes e  dos queijos processados, das carnes grelhadas, da água da grande corporação que diz limpar mais seu organismo do que a concorrente.

Notícia de última hora: Um corpo gordo não é um corpo sujo, ele não precisa ser “limpo por dentro”. Um corpo gordo ocupa espaço, talvez mais que o seu e o mundo continua a girar. Lamentável é ter uma cidade inteira planejada para tamanhos diminutos, especialmente para mulheres menores (uma camiseta GG feminina é um P masculino). Vergonhoso é policiarem o que o gordo coloca no prato e em conclusões precipitadas o taxar como frouxo de caráter. Risível é não crer no gordo vegetariano, não sedentário e de exames em dia. Amar o próprio corpo é resistência das mais subversivas, dessas que fazemos aos beijos.

17 setembro, 2013

O corpo modificado é meu, não dei permissão para tocar/assediar

Posted in Corpo às 5:30 pm por Deborah Sá

Hoje, enquanto tomava um mate, um homem com cerca de cinquenta anos me abordou. Intrigado com a tatuagem, boquiaberto, aproximou ao ponto de deixar desconfortável. Na época em que eu estava careca, um senhor de meia idade o qual atendia uma loja de tintas de cabelo fantasia, puxou assunto e assim, sem mais nem menos, detalhou memórias sexuais de sua infância. Tenho alguns piercings, uma tatuagem (pretendo fazer mais, em breve), já usei cabelos coloridos, mas nada que se compare a minha irmã: Ela tem tatuagens pelo corpo todo, muda de cabelos constantemente, alargadores enormes. As abordagens são no seu caso, ainda mais invasivas. Ela já perdeu a conta de quantas vezes pegaram sua orelha sem pedir permissão. Corpos modificados chamam atenção, mas veja bem, só toque em outro corpo se perceber intimidade e abertura. Se a pessoa está distraída, envolvida em uma tarefa cotidiana, aborde com toda a educação. Não fique bravo se a pessoa não gostar da sua intromissão. Ela não pediu sua opinião, ela não te conhece, você pode pegar a pessoa em um dia ruim. Respeite o espaço dos outros. Simples assim. Você meteria a mão na coxa de um homem desconhecido, alto, forte e musculoso sem ao menos tentar um flerte? Se ele fechasse a cara, você continuaria? E se esse homem com olhos obsessivos se aproximasse ao ponto de te assustar? Se fosse com você?

O mesmo vale para um corpo curvilíneo dentro de uma roupa justa ou um decote, é bonito de se ver? Pois sim. Mas não é porque a genética e a modificação corporal (malhar ou ser sedentário é modificar) deram abundância que o dono do corpo deve possuir recato com suas formas. É lamentável esperar que toda sexualidade e expressividade corporal não normativa, isso é, recatada em público, “devassa” com extremo decoro em ambientes privados, seja constrangida ao ocupar a via pública. Ademais, geralmente, muitos desses “admiradores” buscam envolvimentos “secretos” por vergonha do próprio desejo. Ser espalhafatoso, efusivo, modificado, usar roupas justas ou ser sorridente não implica na obrigação de corresponder investidas agressivas. Empatia e bom senso são ferramentas no combate da moralidade dogmática e o melhor, são gratuitas.

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