6 dezembro, 2013

A galinha que burlou o sistema

Posted in Animais, Curtas/Documentários, Filmes às 12:02 pm por Deborah Sá

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Dirigido por Quico Meirelles, o curta-metragem mostra uma galinha que se encontra numa granja industrial e toma consciência, numa espécie de iluminação, de toda a engrenagem integrante de sua vida.  Assista na íntegra clicando aqui.

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31 outubro, 2013

Anilha

Posted in Animais às 12:20 pm por Deborah Sá

Os pombos nos vêem passar muito abaixo de suas cabeças. Se ao pé, nos enxergam grandes. Eles andam quando querem, voam quando bem entendem. Os pombos não domesticados cagam onde o ângulo parece bom, mancham de branco os retrovisores de motoristas apressados, os pátios dos colégios, as pracinhas da igreja, o coreto da praça, eles não dão a mínima. Humanos espantam os pombos pela insolência de interromper o caminho. Na debandada de pernas e rodas, andam balançando o pescoço, beliscando um petisco que acharam no chão, desbaratinam. Pela manhã ou ao fim da tarde, unem-se em torno de algum velho, cão, maluco ou criança, quem perto de pombo fica, bom sujeito não é. O pombo minimamente tolerado é alvo como o colarinho bem passado, a calça com vinco, o sapato lustrado. É espírito santo engravatado saindo da gaiola para celebrar matrimônios, é o que manda mensagem, vive em função de. Em bando metem medo e fazem rasantes de levantar fios da cabeça, arrulham o escamoteio: Sem pudores bebem a sujeira das cidades, nosso cinza-concreto-chumbo de leve verde reluzente nas penas do pescoço. Os ratos, se vistos, correm na curta duração num jogo de sombras, os pombos sob a lua ou o sol, profanam troncos, folhas, estátuas e bustos, catedrais e as nossas cabeças, o que está vivo e o que está morto. Para o que já é, são o porvir em ângulos de acaso e absurdo. Os ratos de asas fazem vista grossa a nossa irritabilidade e dada a ignorância, não posso lhes tirar a razão.

18 outubro, 2013

Testes em cães – O que você não verá no jornal

Posted in Animais tagged , , , às 1:44 pm por Deborah Sá

Snoopy

Esse aí na foto é o Snoopy. Um beagle que tive o prazer de conviver por três anos. Essa vivência me transformou para sempre, carrego no peito uma tatuagem para lembrar da despedida forçada, do quanto aprendi, o impacto em perder meu melhor amigo. Soube em cima da hora da ocupação do Instituto Royal, impossível não me comover com aqueles rostos que são paralelos a fisionomia do cão que convivi décadas atrás. Os cães estavam sujos, alguns sem patas, encontraram um em nitrogênio líquido. De fato, um cenário de horror. Algumas pessoas dizem não gostar de animais não humanos, pois bem, elas não tem que gostar ou desgostar de coisa alguma. Eles interagem conosco e dividem o espaço, eles estão vivos, sentem dor, medo e precisam se socializar (é, eles também precisam de socialização para serem o que são), nosso compromisso enquanto detentores de leis, decretos e deveres éticos é zelar pela integridade física e psicológica desses sujeitos.

Os olhos caídos de um Beagle são mesmo comoventes. Mas teria alguma diferença se fossem cães sem raça definida? E mais ainda, é mesmo necessário para enxergarmos a barbárie que ela esteja refletida nos olhos de um cão ou gato? Essa reflexão certamente será solapada do debate, mesmo se a sociedade civil julgar pertinente e apoiar danos a essa propriedade privada de concreto e grades.  Mas falemos de outro tipo de propriedade privada: Aquela de quatro patas, focinho, rabo, escamas, crista. Se você comprar um peixe, uma galinha, um bode, uma capivara, pode mata-los e servir no jantar, através do dinheiro se aliena a posse de um sujeito a outro. Antes de ser sua, a galinha é da granja. Ou seja, os animais não existem por suas próprias razões, cada humano que tenha dinheiro é juiz e sentenciador de vidas não humanas. Quando um animal não-humano morre não há qualquer tipo de investigação ou crime, especialmente se esse animal foi adquirido com o respaldo da lei. Os cães que ali sofriam em paredes geladas foram adquiridos de “produtores” certificados, o instituto não conduzia as pesquisas por mero sadismo, eles cumpriam ordens. E porquê isso acontece? Porque vivemos em uma sociedade especista, nela uma espécie vale mais que a outra e os humanos são o topo da hierarquia. Os valores que atribuímos a essa superioridade são passíveis de mudança com o tempo, tal qual, a escravidão e o subjugo a minorias humanas foi outrora pautada na religião, na ciência e no peso da lei.

Conforme o debate por igualdade avança os primeiros privilegiados são os mais próximos dos dominantes. Por exemplo, na entrada da mulher no mercado de trabalho as primeiras privilegiadas foram as brancas e burguesas, pois a mulher trabalhadora já exercia tripla jornada por bem menos dinheiro e reconhecimento. Da mesma forma, quando falamos do direito de crianças e adolescentes estamos em defesa de quais? De todas elas ou principalmente das brancas que podem estampar a capa da Veja diante de um escândalo de abuso? Quando afirmamos que maus-tratos e crueldade contra animais devem parar, nos referimos só aos cães, gatos, golfinhos, baleias, ursos – abundantes no antropomorfismo de animações e brinquedos -? E o boi, a vaca, o peixe no prato? E os roedores dos laboratórios e faculdades? A violência que merece ser combatida é somente a que lembra o rosto dos nossos familiares, dos amigos, do cão que nos mostra a barriga depois de chegarmos em casa? Por certo não é correto responsabilizar você pela cadeia de opressões das quais também lhe atingem, porém, seria de uma desonestidade tremenda deixar mais uma vez esse exercício reflexivo ser engolido pela cobertura tendenciosa dos meios de comunicação. Tudo isso pra que você durma de consciência limpa e não perca o churrasco ou a pizza com queijo de sábado à noite.

8 fevereiro, 2013

La Mirada Circular

Posted in Animais, Curtas/Documentários às 12:29 pm por Deborah Sá

Mirada
Está disponível on-line¹ o premiado curta espanhol “La Mirada Circular” que trata de Direito Animal. A diferença está no método de abordagem que difere de outros filmes ou documentários sobre o assunto. Nele, a vulnerabilidade animal é associada a infantil.  Cenas “fortes” (no sentido de abate e morte) são pontuais com fundamento na trama. Aviso esse dado de antemão, pois há quem não veja filmes como o nacional Amarelo Manga (que nada tem de vegetarino), por imagens assim. Ademais, a morte de não-humanos precisa ser encarada como o que é, a morte de um ser com coração, músculos e sangue. Querer que toda abordagem do tema seja asséptica tal e qual um bife na bandeja de isopor do supermercado, é como esperar que a martelada no seu dedo seja tão divertida quanto a que acerta um personagem de desenho animado.

28 novembro, 2012

Comida de criança é enlatado e fritura?

Posted in Animais, Consumo, Infância tagged , às 9:42 am por Deborah Sá

Vi um vídeo que gostaria de compartilhar com vocês, é a palestra de um garoto de dez anos chamado Biel Baum. Ele reflete sobre a comida que oferecemos para as crianças e defende que cozinhar não deveria ser um privilégio de adultos. Tal tarefa pode ser divertida e variada, bem como a comida de uma criança pode ser mais que macarrão, nugget e batatinha, além de abordar a influência das gigantes corporativas na alimentação, Biel também fala sobre sua decisão em se tornar vegetariano.

Como alguns de vocês que acompanham o blog bem sabem,  defendo um Veganismo que leve em consideração as questões de classe e desigualdade social. Não adianta defender que o Veganismo é para qualquer um quando tanta gente ainda passa fome. O garoto do vídeo foi criado em uma família com dinheiro, ele faz viagens internacionais, tem condições de comer orgânicos todo dia.  Nunca viajei de avião e sequer saí do país, nesse momento em que escrevo não há um único alimento orgânico em minha despensa ou geladeira. Me tornei Vegana em 2007, se você é novo por aqui e deseja saber mais sobre dê uma olhada no F.A.Q Vegan ou nos arquivos do blog.

Estou cansada (de verdade) de ver o discurso de alguns membros da  esquerda que desdenham da empatia de quem nasceu em família de classe média ou mais endinheirada. Karl Marx? Nasceu em família de classe média e com pai advogado. Simone de Beauvoir? Uma acadêmica também com pai advogado. Nem por isso a gente desdenha das idéias dessas pessoas e da sua contribuição na mudança de percepções sobre as estruturas. Há quem defenda que os valores da cultura dominante não deviam ser ensinados na escola , que só os oprimidos deviam produzir o próprio saber. Concordo que é classista falar que a única forma de cultura legítima e boa é aquela que se vê na TV Cultura e nos Sarais de Poesia da Av. Paulista, a periferia também faz sarau, também faz poesia, também faz crítica social. Sem contar que o país é muito mais que o eixo Rio-SP. Educadores  de escolas públicas não precisam fazer o esforço de privar o acesso a cultura dominante (por cultura dominante me refiro aos costumes e normas cultas), seus alunos já são privados dela por morarem em bairros longe do Centro, por um Histórico Escolar sem prestígio. Aposto no oposto, na contramão, as pessoas devem ter acesso a produção intelectual porque são capazes de compreende-la e fazer uso dela. Não é só a pessoa com diploma que pode contemplar a solidão e a pequenez diante do mundo. Quando um caminhoneiro experimenta a melancolia da estrada vendo a vida passar na noite estrelada e silenciosa ele experimenta uma sensibilidade disponível para maioria de nós.  Isso me leva crer que não só é possível levar o debate do vegetarianismo/veganismo para mais pessoas como fazer o contrário é subestimar a capacidade alheia de se sensibilizar e tomar partido.

Se é possível obter água cavando o chão, se é possível enfeitar a casa, se é possível crer desta ou daquela forma, se é possível nos defendermos do frio ou do calor, se é possível desviar leitos de rios, fazer barragens, se é possível mudar o mundo que não fizemos, ou da natureza, por que não mudar o mundo que fazemos: o da cultura, o da história, o da política? Paulo Freire (2000)

6 novembro, 2012

Veganismo não é mamão com açúcar

Posted in Animais tagged às 9:32 am por Deborah Sá

As pessoas querem (e devem!) ter o prazer de comer besteiras de vez em quando. Esse é um dos impasses do veganismo e a questão de classe, fácil falar que existe arroz, feijão, mandioca, lentilha (existe mesmo e é uma delícia), ignorando a larica que bate de comer bobagem. Se você precisa pegar um busão pra comer coxinha de soja de R$ 3,50 enquanto acha uma de R$ 0,90 no seu bairro é porque as coisas estão BEM demarcadas.

“O mundo é vegan se você quiser” uma ova, existem muitas questões nesse meio tempo e ás vezes mesmo quem tem consciência da indústria, do trabalho escravo e sente uma pontada de compaixão não quer largar mão do queijo, do chocolate. Se essas pessoas são minhas inimigas políticas? Não. Tomei uma atitude porque a consciência pesou e tive informações pra me alimentar, pude escolher o que comia. Fui criada a leite com pêra? Não, rolava um churrasco ás vezes. Nunca passei fome. Mas simplesmente não podia esperar abrir uma lanchonetezinha Vegan na Belmira Marim pra tomar uma postura, assim como não esperei o mundo ser Feminista pra enfrentar o machismo, ou que o mundo aceitasse eu ser gorda pra usar biquíni. As coisas não caem no colo, de mão beijada, ainda mais quando o que se luta é por uma justiça que parece absurda para tanta gente. Você vira motivo de piada, querem que tire da cartola todos os argumentos teóricos mais fodas pra te testar.

Porque ser empático é tão démodé….nossa, que engraçadão ela defende “os animaizinhos” diz o cara hétero que se sente oprimido por tomar cerveja e comer carne #Lastimado

Sim, muito do “progresso” da humanidade veio com o uso de não-humanos, mas é em nome desse mesmo “progresso” e “ciência” que negrxs, indíos e mulheres foram mortos. O dono dos meios de produção paga um pobre diabo pra matar outros pobres diabos, um após outro. Somos todos propriedade privada. Por um veganismo de esquerda, feminista e laico, sem medo de se apresentar com todas as letras.

20 agosto, 2012

É justo comparar escravidão humana com a servidão animal?

Posted in Animais, Só falam nisso tagged , , às 5:55 pm por Deborah Sá


Defensores de direito animal há tempos usam analogias entre a escravidão humana e animal, as palavras usadas variam para extermínio, holocausto, chacina e assassinato. Morrissey, líder da banda The Smiths, nos anos 80 lançou o emblemático “Meat is murder” (carne é assassinato).  Também não é recente que o uso de imagens ganhe mais destaque e impacto do que textos, ativistas tentam com materiais gráficos atingir um número maior de indivíduos, mas como cada um interpretará o conjunto de símbolos, letras e formas impressos é resultado do acúmulo de informação que se tem sobre determinado assunto. Um panfleto distribuído em via pública onde se vê lado a lado várias representações de casais LGBTTT com os dizeres “Toda forma de amor é válida” pode ser altamente ofensivo se visto por alguém que não entende o bê-á-bá sobre identidade de gênero, prática e orientação sexual, aos olhos de quem se ofende é completamente absurdo validar a afetividade não heterossexual. Similarmente um panfleto que compare um cão com uma vaca acompanhados da frase “Se você ama uns, por que come outros?” pode parecer um disparate para quem julga inconcebível colocar no mesmo patamar um animal de companhia e digno de cuidados com um animal de finalidade alimentícia. Mas se a distribuição é aleatória, não há como prever o acúmulo e consecutivamente a reação de quem tem acesso a esses materiais. Nesse processo os que dispõem de menos informação muitas vezes não estão dispostos a ouvir as argumentações de quem tenta disseminar o conteúdo, principalmente se isso vier em forma de um texto. Se o verso do panfleto trouxer mais de dez linhas poucos são os dispostos a correr os olhos por ali.

As pessoas tem preguiça de ler e não se trata de incapacidade, há pouco estímulo para esse hábito, talvez isso explique a imensa popularidade de pastores, eles dominam a linguagem das Escrituras interpretando em voz alta e em Libras, para os fiéis que se consideram inaptos para decifrar a Bíblia (o reconhecimento da própria pequenez é valor desejável para um rebanho). Ler demanda tempo, introspecção, reflexão e apuramento do conteúdo exposto e quem exerce essas competências possui um tipo de poder, de domínio. E a quem interessa um número expressivo de pessoas que tem medo de ler e escrever senão os que desejam manipula-los?

Se encararmos a compreensão de uma imagem como igual competência, recairemos no mesmo impasse, falta de estímulo e acúmulo para compreender a real intenção por trás da ilustração.  Embora seja uma forma distinta de transmitir conceitos, a ilustração é uma forma de expressão e linguagem. E isso nos leva há um ponto comum entre feministas, comunistas, socialistas e veganos: São de maioria branca, classe-média, com ensino superior, são letrados. Não importa se nas manifestações em ruas ou blogs, os integrantes majoritariamente têm rostos brancos devido a essa parcela tradicionalmente receber maior estímulo para leitura e produção de textos/imagens. Portanto, é imprescindível não se esquecer de qual lugar falamos, mas atentando para não cair no sofisma “se a maioria das veganas e feministas são brancas e de classe média, logo isso é uma ideologia de dominação”, uma inverdade quando o que se busca é diametralmente oposto, a autonomia, a liberdade, a não sujeição dos corpos. O esforço deve ser empregado para reformular essa afirmação: Sim, é evidente que a maioria nesses grupos é privilegiada pela classe social, raça e por vezes gênero, algumas das consequências diretas da desigualdade econômica são o baixo incentivo à escrita, leitura e produção de imagens. Isso não deslegitima a veracidade dos argumentos apresentados pelos grupos que detém os meios criativos, mas faz urgente a inclusão de outros indivíduos até então ignorados convertendo-se em agentes nesse processo.

Esperar que cada vegano fique prostrado diante de um quiosque em uma espécie de “Plantão de Dúvidas” frente às calçadas mais movimentadas aguardando por tempo indeterminado, para atender os curiosos, é exigir muito de alguém com vida social ativa. Devido ao impacto de mais rápida assimilação o uso de imagens é boa ferramenta para divulgação, porque faz uso de arquétipos significativos na cultura, símbolos praticamente universais em um só material.  Cada grupo se articula com uma ferramenta de divulgação, uns fazem o papel pedagógico de base respondendo as perguntas mais elementares, outros acham melhor partir para uma abordagem mais direta, por exemplo, dizer sem firulas que carne é assassinato e o sangue que suja o prato depois de um almoço não é a base de urucum e groselha, é o mesmo tipo de sangue que quando nos cortamos sem querer vemos brotar do indicador.

E por que alguns defensores de direito animal fazem o paralelo entre a escravidão? Vejamos a definição do seguinte verbete:

Escravo
adj. e s.m. Que ou quem está sob o poder absoluto de um senhor que o aprisionou ou o comprou.

Assim, escravos são aqueles que podem ser comprados, coisas medidas segundo a utilidade para seu senhor, eles não tem “alma’, podem ser machucados no manejo e transporte se isso for necessário para conter seus passos e direção, açoitados, aprisionados, trocados e substituídos por outro de igual valor. Com pistola de pressão ou machadada, propriedade privada. Ter um escravo humano já foi direito assegurado por lei. E com base na analogia entre o escravo humano de outrora e o escravo não-humano que persiste  até nossos dias, o movimento de direito animal pegou outra palavra emprestada, o Abolicionismo:

Abolicionismo
Sistema de princípios sociais que propugnava pela extinção do tráfico e da escravatura dos negros.

Quando se compara através de termos ou imagens a exploração animal e a escravidão hedionda pelos quais os negros foram submetidos historicamente, a intenção não é menosprezar ou rebaixar essa memória, mas evidenciar um subjugo na prática muito similar repetido com outras vítimas. O Judeu nascido na Polônia, Isaac Bashevis Singer, em The Letter Writer escreve: “Em relação (aos animais), todas as pessoas são nazistas; para os animais, é um eterno Treblinka

Ao contrário do que a dedução precipitada leva a crer, isso não é afirmar que todos os que comem carne e tomam leite são sádicos e assassinos, mas que estão inseridos em um registro onde animais são vistos como propriedade, com as carnes dependuradas na artificialidade das gôndolas de supermercados não residindo nenhum crime prescrito em lei, para quem adquire um peixe com os olhos saltados e inertes ao lado de seus pares sob uma bancada de gelo.

Desleal seria arranjar outro termo para degola e sangria para que o sofrimento dos não humanos parecesse mais justificado, arbitrário seria assumir que queimar com ferro quente uma numeração no corpo de um bovino para demarcar o domínio seja muito diferente de assinalar um escravo, absurdo é castrar sem anestesia um sujeito em cativeiro para que a loucura não seja responsável por canibalizar, oportuno é ignorar que por baixo da nossa pele humana guardamos músculos, gordura, tendões, cartilagem e ossos, a vulnerabilidade onde por baixo do couro guardamos um naco de carne.

10 julho, 2012

A Política Sexual da Carne – Brasil

Posted in Animais tagged , , , às 1:43 am por Deborah Sá


O consumo de carne no Brasil é um traço cultural marcante, tradicionalmente a celebração entre amigos se faz com um churrasco, sendo ainda mais costumeiro assistir as partidas de futebol com essa prática. Uma festividade que envolva a culinária popular Brasileira também conta com o prato típico feijoada, na realidade, a maioria dos pratos servidos no Brasil tem como ingrediente principal a carne. Nos estabelecimentos comercias não é raro encontrar presunto até nas saladas! O consumo de bebidas alcoólicas, em especial de cerveja, também é muito estimulado com a publicidade massiva nos principais meios de comunicação. O Brasil também é conhecido por sua música, samba, Funk e o Carnaval. O que todos esses pontos têm em comum?  Eles representam a masculinidade do homem brasileiro e conforme o esperado, sua publicidade é propositalmente sexista.

Uma peça publicitária produzida em 2012 para uma marca de cerveja consiste na seguinte cena: Um homem branco, interpretando um vegetariano, assa vegetais em uma grelha durante um churrasco, outro homem (também branco), interpretando um onívoro, se aproxima e pergunta “Onde está a carne?”, o vegetariano então indica para uma porção de carne de soja e o onívoro claramente desapontado se retira da cena. O plano de imagem muda onde podemos ver cientistas observando a cena na qual mudam o processo introduzindo cerveja na situação, alterando então o posicionamento dos personagens: Desta vez, o onívoro assa as carnes na grelha e o vegetariano se aproxima com a cerveja na mão enquanto diz: “Onde estão as frutas que prometeu?”, o onívoro aponta para três mulheres-fruta e encerra perguntando ao vegetariano: “Gosta da fruta?”. O que em português, representa uma piada óbvia sobre a orientação sexual do rapaz. No Brasil, usualmente as cantoras de funk carregam uma alcunha que é associada a partes de seus corpos, alguns desses apelidos fazem referências a frutas como um dispositivo que equipara seus formatos ás partes da anatomia feminina.  Essas mulheres são conhecidas como “mulheres-fruta”.

Há uma mulher, cujo apelido é relacionado a um pedaço de carne, que posou para a Playboy de 2008. Alguns exemplares foram embalados em bandejas de isopor e comercializados em açougues. Bancas de jornais a anunciavam como ingrediente de um cardápio e banners foram impressos com o corpo da modelo marcado com indicativos gráficos que a comparavam com os pedaços de um bovino abatido. Aliás, “abate” é uma expressão idiomática comum para se referir a mulheres com as quais se deseja ter relações casuais. O funk produzido no Brasil é feito com versos que falam sobre o cotidiano, violência e a sexualidade de uma camada marginalizada da população: Negros, pobres e também mulheres que estão dentro desses recortes de classe e raça. A acusação mais comum que se faz sobre o funk é contra sua linguagem explícita e seu potencial para reduzir mulheres a meros objetos sexuais, embora a publicidade mencionada acima represente as mulheres-fruta sem qualquer participação mais relevante do que dançarinas, todas as cantoras desse gênero fazem ao menos uma canção muito similar em conteúdo a “Short Dick Man” e “Lick It” produzidas pelo grupo 20 Fingers, populares nos anos 90. Ou seja, letras que representam uma mulher independente sem medo de falar abertamente sobre sua sexualidade, ao mesmo tempo em que tenta subverter sua objetificação a usando como vantagem.

As mulheres com grande destaque midiático (atrizes, cantoras, participantes de reality show, etc.) são convidadas para participarem dos eventos relativos ao Carnaval. Aos olhos de um estrangeiro, um país cujas mulheres vão a público falar sobre sua sexualidade e tem como celebração o carnaval, onde dançam nuas ao vivo, há de se imaginar um ambiente onde a figura da mulher seja fortemente empoderada. Isto é um erro. A violência contra as mulheres no Brasil é alarmante. Em 2001 a Fundação Perseu Abramo trouxe a triste estatística de que a cada 15 segundos uma mulher é espancada no Brasil. Em 2006 foi decretada a lei Federal de nº 11.340 conhecida como “Lei Maria da Penha”, que visa punir com maior rigor e coibir as agressões sofridas por mulheres em âmbito familiar e doméstico. Maria da Penha Maia Fernandes, foi uma mulher espancada brutalmente e agredida diversas vezes pelo marido durante seis anos de seu casamento.  Seu esposo tentou assassina-la com uma arma de fogo a deixando paraplégica e em outra ocasião, a eletrocutou.  Seu cônjuge só foi punido depois de dezenove anos de julgamento, cumprindo apenas dois anos em regime fechado.

Embora haja avanços significativos na paridade entre os gêneros, o Brasil possui o discurso ambíguo de preconceitos velados também em outros âmbitos que abrangem uma imensa variedade de minorias: O racismo está presente nas piadas, as mulheres que ousam andar nas vias públicas com saias curtas tem sua moral questionada, e se por ventura sofrerem algum assédio ou violência, culparão a vítima por seu vestuário. Ademais, o Brasil tem a seu dispor uma das maiores Paradas Gay do mundo sendo recordista na violência contra Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Transgêneros. A contradição não se encerra nessas circunstâncias: Nosso estado laico contém o nome de Deus em suas cédulas, e o Congresso possui uma bancada de forte cunho religioso. A agressão e violência contra animais de estimação e outros não-humanos é socialmente condenada, mas também tolerada se feita em âmbito privado. Ao mesmo tempo, somos o país com a maior empresa em processamento de proteína animal do mundo e denúncias de trabalho escravo no setor pecuarista. Rejeitar o consumo de derivados de animais não é apenas encarado com estranhamento pela maioria da população, sobretudo tal ato é visto como um insulto e afronta contra a identidade cultural de um país que encobre sua desigualdade e violência com uma injusta e muito recente democracia.

Elaborei o texto acima a pedido de Carol Adams, autora de The Sexual Politics of Meat, traduzido recentemente para o Português em A Política Sexual da Carne – A relação entre o carnivorismo e a dominância masculina. Cujo título já indica, faz as analogias entre o consumo de carne e o patriarcado.

A tradução e revisão do texto para o inglês  foram realizadas com a ajuda do meu companheiro Yuri, a intenção era retratar a publicidade brasileira para explicar que nosso contexto e costumes adequam-se perfeitamente no raciocínio exposto há vinte anos atrás, quando Carol lançou a primeira edição de seu livro. Através do Blogueiras Feministas, por pedido da Editora Alaúde, elaborei três perguntas para Carol, as respostas estão nesse link.

2 novembro, 2011

O Veganismo precisa de gente como você?

Posted in Animais tagged às 9:26 pm por Deborah Sá

É notável a recente onda de ataques a Vegetarianos e suas práticas, sobretudo de Onívoros que por acreditarem serem o alvo perfeito para o recrutamento, fazem uma série de exigências ao camarim. Como se o Veganismo fosse uma banda a brilhar no palco em busca de novos talentos, mas não satisfeito, esse “convocado” põe-se a desmoralizar ativistas que se esforçam em prol dessa causa. Sei que pode ser duro para alguns onívoros ouvir isso caindo como uma bigorna em suas cabeças, mas serei direta: Nós não precisamos de você, sequer somos astros, líderes espirituais ou qualquer outra qualidade apresentada ao som de fogos de artifício.

Portanto, nós não precisamos adequar nosso discurso para sermos mais agradáveis, se você tem preguiça de lavar rúcula ou acha oneroso refogar uma abobrinha, não interessa. Há uma forte tendência e maior abertura na atualidade sobre Direito Animal e alimentação Vegetariana, contudo, estamos em esmagadora minoria (menor que qualquer movimento pró-direitos humanos). Se no Brasil há esse tímido espaço não significa que urgentemente devemos tratar com decoro qualquer um que se acha precioso demais para ser ignorado por “conversores”. Talvez resida aí um dos primeiros mitos sobre Vegetarianos que necessita o quanto antes de adequado descarte, nem todos nós queremos “conversão” a todo custo. Invariavelmente muitos confundem essa Filosofia e Ativismo com religião, para tanto, pretendo esclarecer o abismo que separa essas motivações e a quem realmente buscamos atingir, ou em vocabulário mais adequado a metáfora, oferecer “salvação”. Sob a ótica cristã (ortodoxa), a evangelização leva a redenção a cada uma das almas cujas ações, se boas, levarão ao júbilo eterno e se más, ao enxofre e ranger de dentes. É dado o livre arbítrio, embora o discernimento ofereça uma prévia das conseqüências pós-morte. Mesmo quando uma criança não é fruto de genitores cristãos há uma série de referências teológicas ao redor, o calendário, feriados, Natal, em sátira ou levado a sério, também há espaço em emissoras de TV, jornais, revistas. É muito fácil encontrar igrejas a poucas quadras de qualquer domicílio, se necessário for, os missionários “vão até Maomé”.

No Veganismo, a eternidade e outras dimensões não estão em jogo, não sendo necessária muita perspicácia para notar que beira o surreal equiparar a oferta de informação em ambos os casos. Após difundida a informação sobre Veganismo sobra o livre arbítrio, mas, o que ocorre se um onívoro optar por continuar seus hábitos usuais? Morrerá? Será assombrado por fantasmas no rolete? Pagará multa? Entrará para o contrabando de queijo coalho para burlar a segurança nacional? Em verdade, sua vida permanecerá idêntica e no consenso geral não há nada nesse ato que salte os olhos. E o que implica essa “escolha”? Ao comer uma fatia de pizza coberta de queijo não se condena a alma de outros ao inferno, mas se encerra prematuramente (se comparada fora do confinamento) a vida de uma vaca que foi concebida com esse propósito, alimentar uma indústria, alimentar um patrão e por último, alimentar um humano.

Fazendo-me explícita, o foco não é pensar na sua alma e na sua eternidade, o propósito são outros sujeitos afetados nessa escolha, é a privação, segregação, dor, abuso e morte de alguém incapaz de requerer alforria. São integrantes de uma realidade extremamente concreta, os que perambulam em jaulas pequenas num retrato de desordem psíquica sem qualquer alento. Mas, se não há lucro nessa conduta moral, porque alguém se dispõe a reexaminar uma série de condutas perfeitamente justificadas em seu tempo?

Segundo Comte, “a Moral consiste em fazer prevalecer os instintos simpáticos sobre os impulsos egoístas”. É o genuíno altruísmo que por si só não precisa de embasamento, esse impulso empático inerente em alguma medida a cada um de nós, é o que nos faz tomar as decisões justas mesmo que não acarrete benefício próprio. A ética por sua vez é a justificativa teórica para essas medidas, se o assassinato é punido perante a lei, antes foi regulamentado por bases éticas sendo socialmente “errado” em sua moralidade e através da ética é permitido ao acusado a chance de defesa. Conforme a percepção dos indivíduos e seu recorte histórico, as bases morais adquirem multifacetadas interpretações. Por exemplo, embora seja esperado ver em uma calçada de grande movimentação os transeuntes saborearem pedaços de porco envoltos no pão, a comoção seria outra se o vendedor agisse dessa forma:

Minha mãe quando garota, não gostava de presenciar minha avó degolando galinhas ou codornas na sua frente, meu avô paterno era um jardineiro que caçava nas horas vagas, desses que matam uma cobra ou um macaco, levam para casa, limpam, temperam, cozinham e comem com gosto. Para essa geração é um ritual que faz parte de suas vivências, algumas pessoas mais velhas contam que no início relutaram e por fim se acostumaram, como se arrancar o último pio de uma ave, causasse o mesmo impacto de escutar o estalo de pilhas que saltam de um controle remoto forçados diante da impaciência. A maioria das pessoas da minha geração não teria coragem de abater um porco sem remorso e não raro, os que hoje acham essa atitude “uma tremenda bobagem” (em média quase duas décadas mais velhos) são os mesmos que dizem “Pra mim, depressão é curada na pancada, apanhei muito e nem por isso fiquei louco”.

Uma contestação presente em muitos argumentos anti-vegetarianos é de que a empatia com não humanos é descabida por ser demasiadamente pessoal e de um sentimentalismo pueril, por exemplo, o termo estupro não poderia se aplicar se alguém o fizer com uma vaca, tortura, cárcere, nada disso faz sentido quando o afetado é desprovido de atributos humanos (e não há dúvidas que o conceito de humanidade foi modificado através do tempo). Em uma cena do clássico “Planeta dos Macacos” de 1968 um humano é levado a júri:

– Prezados juízes, meu caso é simples. Baseia-se em nosso primeiro artigo da fé. De que o Poderoso criou o macaco á sua imagem, que lhe deu alma e mente. Que os diferenciou dos animais da selva e o fez senhor do planeta (…) O objetivo apropriado de estudo do macaco é o próprio macaco. Mas alguns jovens cínicos optaram por estudar o homem (…) O Estado acusa Dra. Zira e um cirurgião corrupto chamado Galen de fazer experiências com este animal, modificando-lhe o cérebro e a garganta, criando um monstro que fala. (…) Isso raciocina? Com a permissão do Tribunal, exporei essa farsa com um exame direto. (…) Diga, Olhos Brilhantes [nome do humano], qual é o segundo artigo da fé?

– Não conheço sua cultura, admito.

– É claro que não conhece nossa cultura, ele é incapaz de pensar!

– Por que todos os macacos foram criados iguais?

– Alguns macacos são mais iguais que outros.

Naturalmente por não possuir tais respostas é taxado de aberração bestial, anomalia e injúria ao criador.  Pois bem, deveríamos abdicar de descrever qualquer situação que envolva membros de outra espécie? ”Vi um cão que roçava na grama em um dia de sol, ele estava muito feliz” ou “O homem chutou o gato”, são frases que não fazem sentido se o olhar especista for grande o suficiente para encarar animais como que em uma fábula na qual por mágica um objeto trivial ganha vida: Um cofrinho tragicamente encontra o martelo para esfacelar seu gesso. Triste no contexto, todavia, só um punhado de pó branco que pode ser escondido embaixo do tapete,  no eufemismo, termos como solidão, canibalismo, alienação, relutância, corte, morte, sangue, desmembramento e decomposição são enfeitados com folhas de alface ou uvas de plástico na tentativa de alguma leveza ás vitrines de um açougue. Não é algo bonito de se ver. Se fosse de sua responsabilidade definir, qual seria a faixa etária permitida para assistir as filmagens de um abate?

Crianças não são inconscientes do ambiente que estão inseridas, a mídia expôs imagens de Kadafi ensangüentado e certamente crianças de variadas idades tiveram acesso a isso. Por volta dos onze anos (quando não antes), elas já sabem o que significa seqüestro, tortura e outros termos oriundos da violência. Quando estarão prontas para ver como é feita a sangria de um boi?  Sejamos honestos, nem a maioria dos adultos tem estômago para tanto.

O Veganismo deve ser construído por quem se importa com os animais, bem verdade que a maioria de nós na infância já experimentou o que é se preocupar além de nossos semelhantes, pedindo para levar um cão para casa, enfrentando os adultos ou mais velhos se necessário. As formas de preconceito e ódio são aprendidas, a mão que puxa para afastar infantes de novas amizades é a mesma que aos gritos manda se afastarem do vira-lata pedindo atenção. Se nada disso lhe desperta comoção, caro leitor, acredite, não fará falta. Felizmente em maioria estão aqueles que desejam mudar, embora não se sintam prontos ou não saibam por onde começar. Pedimos respeito, não por nós mesmos, mas pelos que estão em seu garfo sem um minuto de silêncio.

8 agosto, 2011

Ridicularização

Posted in Animais tagged , , às 12:25 pm por Deborah Sá

Um método utilizado para legitimar a violência, é realizado na medida em que ressaltamos as disparidades entre nós e de quem emitimos juízo. Dessa forma, a ridicularização é uma estratégia das mais eficientes. Ridicularizar é tornar vulnerável encobrindo qualquer possibilidade de defesa, divertindo-se com a condição “subalterna” do próximo a anular sua autonomia, diretos e anseios.

A monstra (1680). Juan Carreño de Miranda (1614-1685). Óleo sobre tela, 165 x 107 cm. Museu do Prado (Madri).

A monstra desnuda (1680). Juan Carreño de Miranda(1614 – 1685). Óleo sobre tela, 165 cm por 108 cm. Museu do Prado (Madri)

Essas pinturas realizadas na Espanha do Século XVII foram executadas a pedido do Rei Carlos II; retratam Eugenia Martínez Vallejo, que em 1680, a fim de atender aos caprichos e às excentricidades da família real foi convidada a morar no palácio. Foi uma das muitas pessoas com defeitos físicos ou mentais responsáveis pelo divertimento régio. Por conta de sua aparência, ficou conhecida como a gorda, ou “A Monstra”.¹

No final do século XIX e início do XX, espetáculos conhecidos como Freak Shows (Circo de Aberrações), exibiam humanos e não-humanos que possuíam alguma mutação genética, doenças ou quadros ainda não diagnosticados pela medicina. Em “O Homem Elefante” filme de 1980, Bytes, proprietário de um desses ramos de entretenimento faz uso oportuno de Joseph Merrick, que por sua aparência é nomeado de “Homem Elefante”. O modelo de adestramento consiste em agressão severa até que Merrick se resigna na antropomorfia. O pretexto para tamanha punição é sua aproximação com o que não é humano, sublime ou divino, ele é espancado e ferido para lembrar-se de seu caráter selvagem. Vira instrumento, escravo, abominação. Bestializar o oponente é a prerrogativa usada para justificar a perversidade, interpretando seus agentes como heróis (enquanto essa violência é compreendida como parte de um processo “civilizatório”); ou em absoluta indiferença a desgraça a aqueles que recebem golpes. Qual senhoril trata com compaixão seus escravos, se a função dessas existências é tão somente de vassalagem aos olhos de vossos senhores?

A linguagem e as produções artísticas, não permitem um recorte absoluto da mentalidade de uma época, mas apontam para fortes tendências dentro de determinado período, se a tática de ridicularização perpassa a equiparação entre humanos e animais (para muitas ofensas há um animal símbolo), é pouco provável e talvez fosse de um esforço redundante animalizar não-humanos. Eles já ocupam nossa escala mais baixa de consideração. Qual o propósito de um leão pular entre aros de fogo? Ou de um cavalo responder cálculos matemáticos com as batidas de seu casco? Provavelmente isso não é muito útil entre seus semelhantes em espécie, mas oferece a garantia de alimento entre as grades. Relembrando que a maioria dos animais criados nessas condições apresenta desordem mental. Não obstante a imensa lista de “serventias” por nós determinadas aos animais (incluindo a data de validade) abordo de forma breve algumas amostras de representações contemporâneas e seu uso no entretenimento. Começando por um comercial de caminhões:

A ironia inicia pela trilha sonora (O velho Mac Donald tinha uma fazenda), aludindo a imagem bucólica que faz parte do imaginário de quem vive em cidades e jamais presenciou um desses grandes animais de perto, sequer imaginando o que escondem as paredes de um abatedouro (depois que a “vida útil” chega ao fim, é enviada ao abate). Vinculado nos principais canais de comunicação, essa linguagem é direta e trivial, é banal assistir vacas leiteiras transportadas semelhantemente a caixas, no entanto a comoção pública seria outra se um esquema de leite humano fosse denunciado e ao invés dessas, outras lactantes (dessas de polegares opositores), transparecessem similar satisfação. Os bastidores desse vídeo que levou oito horas para ser produzido estão aqui.

Vinculado essa semana em horário nobre na Rede Globo, o filme Zohan de 2008, abusa de piadas escatológicas, a intenção é fazer um humor com “crítica política” a Palestinos e Israelenses, a maneira encontrada é uni-los em caricaturas xenofóbicas: Do tom de pele ao sotaque, misturar Hummus em todo alimento, tomar refrigerante exótico e usar a interjeição: “Babaganush (!)”. Como não deixaria de ser, o trato grosseiro aos animais é expandido fomentando com a natureza “selvagem” dos personagens. Incluindo uma cena de “embaixadinha de gato”.

No mesmo ano, houve a participação do artista Costa-Riquenho Guillermo “Habacuc” Vargas em uma Bienal da América Central. A intenção com sua obra “Exposición nº 1” era criticar a invisibilidade da morte de um imigrante Nicaragüense: Natividad Canda Mayrena morto por dois Rottweilers na Costa Rica. Policiais que presenciaram a cena, justificaram o não envolvimento alegando que atirar contra os cães inevitavelmente feriria Natividad. Um motivo nobre para protestar, questionável foi o processo escolhido por Habacuc: Retirou um cão das ruas e o nomeou Natividad, prendeu-o em uma corrente curta não oferecendo água ou alimentação,e acima dele escreveu com flocos de ração canina: “Você é o que lê”. Houve indignação e o cão “desapareceu” não deixando pistas de seu paradeiro. ²

No comercial há a exposição de suscetibilidade. No filme, o absurdo permissivo próprio da comédia, no entanto, nele é feito uso de digitalizações, ao contrário de Amarelo Manga, Manderley e Old Boy onde o sacrifício de animais é real com intenção de causar espanto e asco. Na exposição de arte, há um cenário para a inanição. Assegurar direitos aos não humanos em sua integridade física e moral, não se trata de iluminação ou transcendência. É desconstruir a prepotência em que nos lançamos a delírios de poderes por nós investidos, repassados geração após outra. Indago a nós, Deusas e Deuses, Rainhas e Reis, Príncipes e Princesas, quantos manjares, altares e sacrifícios bastarão? Deixemos, pois, o cetro rolar.

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