26 outubro, 2014

Entre a pureza e a malícia, como percebemos a infância

Posted in Corpo, Educação, Sexo, Violência tagged , às 2:49 pm por Deborah Sá

Lolita, novinha, menina-moça, criança viada. Em virais e memes, na literatura, nos animes, nas telenovelas. São abundantes os exemplos de como retratamos a sexualidade na infância e começo da adolescência. Ora são mostrados como indivíduos ardilosos usando “seu poder de sedução” contra “escravos de suas pulsões”¹, ora como criaturas imaculadas, joguetes na mão de adultos. Acentuamos e desaceleramos essas interpretações conforme temos apreço (ou familiaridade), pela figura analisada, somando a isso, a própria categoria de infância num termo mais abrangente. Em linhas gerais, a duração da infância é bastante imprecisa, no senso comum algumas crianças são mais crianças que outras. O que faz a criança ser parte desse recorte temporal é a manutenção de sua docilidade, afabilidade, sujeição e assexualidade. Quanto mais uma criança não demonstra irritabilidade, sentimentos como vingança, agressividade, fúria e libido, mais “conservada” está em sua pureza, torna-se obrigação resguardar sua segurança. Aliás, esse é o argumento número um daqueles que defendem a redução da maioridade penal “Se já tem maturidade para cometer um crime, já pode responder por ele”. Desse modo, a infância é uma categoria que não corresponde determinada faixa etária, primordialmente, é visão moral sobre sujeitos, tão somente se não forem esses, capazes de atos sádicos ou sexuais. Os que cometem tais ações não “são mais inocentes”. Na continuidade dessa linha de raciocínio, passíveis de sanções e penalidades.

Em idêntica proporção ao julgo normativo esperado dos corpos adultos, as crianças que passam por algum tipo de assédio ou violência sexual, mas, não parecem  “puras como as outras” são acusadas de “provocarem” porque usam roupas, maquiagens, adereços ou se comportam de forma “inadequada para sua idade”. Portanto, se assume que há sujeitos passíveis de violência (inclusive sexual), como medida corretiva, o que é indubitavelmente autoritário e perverso. Para compreender esse fenômeno é imprescindível considerar o peso enorme da misoginia e demais heteronormatividades. A menina é considerada “menos pura” e “provocante” porque não é julgada como criança, é lida como mulher. O menino é considerado “malicioso” porque gesticula e fala de tal forma que “não parece viril” e assim, sucessivamente. Mesmo as crianças que se esforçam na radicalização do gênero designado, são menosprezadas: Alguns adultos podem até gostar de crianças “comportadas”, mas, na cultura de pares (isso é, o que acontece entre crianças quando nenhum adulto está vendo), são lidos como covardes e pouco autônomos. Já a criança que se envolve em brigas, pode ganhar certa imunidade em seu círculo. Se for um menino, provavelmente, até alguma admiração. Entretanto, será um “caso perdido” (especialmente se não branco), ao parecer de professores, diretores e não raro encarado como “um futuro delinquente”. Portanto, raça e classe social também operam nas impressões e prospecções que fazemos do destino de crianças. Exigimos que “se emendem”, sejam projeto de infância perfeita, um protótipo de obediência e mansidão. Elas precisam ser mini-mulheres e mini-homens perfeitamente ajustados em um dos pólos.

E se não se nasce mulher, torna-se, onde estão os exemplos de ser “mulher”? Onde está “ser homem”? A educação e os modelos de comportamento estão em todas as partes e as crianças, em constante interação com variadas plataformas (mídias e círculos sociais), contendo padrões. Assim, por mais que more em uma família nuclear tradicional e jamais briguem em sua frente, uma criança tem acesso aos meios de comunicação, frequenta a escola, o bairro, a igreja, percebe quando adultos mentem, o que chamam de bonito ou de feio, o que incentivam e o que desaprovam nos comportamentos, que tipo de modo de agir vira piada. A criança responderá aos estímulos tentando achar uma boa equação entre o que ela deseja (mesmo que seja um tanto destoante de onde pertence), e o que ela deve fazer para ser reconhecida, respeitada. As crianças duvidam das explicações dos adultos e aceitam sem pestanejar outras tantas, não são elas que fazem as regras. Participam de dinâmicas nas quais suas vontades são pouco consideradas e os limites físicos, bastante rígidos. Por exemplo, se uma criança pequena não quer tomar banho, pular a guia da calçada, ir para uma festa; os adultos escolhem por ela a roupa, colocam embaixo do chuveiro, tomam no colo e levam para qualquer canto. É o adulto que coloca de castigo. É o adulto que bate para repreender e dentro da vida privada, respaldado. É o adulto que define se ela já não é “mais tão criança” e deverá ser condenada.

A criança não é portanto, dona de seu corpo, uma vez que está a mercê de outros corpos adultos ou mais velhos, os quais não só podem proteger do mundo externo, dar carinho, alimento, abrigo, mas também, empregando persuasão e força, causar danos. Considerando desde o início do Séc. XV (onde as primeiras noções sobre infância ganham notoriedade), são inúmeros os casos de adultos e tutores que matam crianças. Os contos de fadas, canções de ninar, mesmo as notícias de telejornal recentes explicitam para as crianças que viver é perigoso. Muitas das que passam por situações de violência sentem-se impelidas em acatar como punição e castigo, “porque merecem, porque são crianças ruins/más”. A culpabilização da vítima atravessa a infância, seja porque não são “puras” o bastante para serem cuidadas, seja porque não atendem a intransigência dicotômica de “ser homem”, “ser mulher”. A legislação moral é severa e recai sobre os corpos, não importa se mal caíram os dentes de leite.

¹ Para explorar mais esse assunto: Doente, monstruoso, bestial: O pedófilo.

Referências: ARIÈS, Philippe. História social da criança e da família. 2. ed. Rio de Janeiro (RJ): Editora Guanabara, 1981

MULLER, Fernanda. Infâncias nas vozes das crianças: culturas infantis, trabalho e resistência. Educ. Soc., Campinas , v. 27, n. 95, Aug. 2006 . Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0101-73302006000200012&lng=en&nrm=iso&gt;. Acessado em 26 Oct. 2014.

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