26 outubro, 2014

Doente, monstruoso, bestial: O pedófilo

Posted in Corpo, Educação, Infância, O pessoal é político, Violência tagged , , às 2:13 pm por Deborah Sá

Escrevi durante vários anos priorizando a experiência de mulheres e crianças que passaram por violência sexual, o leitor mais antigo (ou mais paciente), encontrará pencas de materiais escritos em meus arquivos que passam das centenas. Ademais, preparei um escrito introdutório que subsidiará a leitura do presente texto. Talvez, um dos mais difíceis que produzi até o momento. Dada a alta densidade de envolvimento emocional com o tema, me reservo ao direito de desvelar esse assunto com descolamento de papéis em um exercício intelectual não neutro, uma vez que minhas convicções políticas afetam meu discurso, em uma relação dialógica entre passionalidade e o compromisso com a análise reflexiva.

Tratar o pedófilo como doente é individualizar um desejo legitimado socialmente. O desejo por crianças e meninas é construído. Sem necessariamente buscar por isso, é realmente fácil encontrar (mesmo em bancas de jornal), milhares de imagens de mulheres adultas usando adereços infantis com propósitos sexuais: Ursinhos de pelúcia, maria-chiquinha, chupeta, brinquedos. Há quem sinta prazer em encarnar “a criança” e quem sinta prazer em encarnar “o adulto”, a radicalização desses papéis em contextos sexuais seria o polêmico Infantilismo ou Age Play, neles, adultos mutuamente em acordo interpretam esses papéis. Mas não preciso ir aos extremos, a pornografia mais tradicional norte-americana usa muito o “Daddy” e em algumas regiões do Brasil, se chama carinhosamente o cônjuge masculino como “Papai”. Em várias representações de seriados, filmes, ou telenovelas encontramos a figura de uma garota realmente jovem iniciando e “provocando” homens maduros. Dito isso, reitero o quanto é danoso supor que o desejo por essas situações de poder muito específicas, brotaram de corações malévolos e mal intencionados. O desejo por crianças e pré-adolescdentes não é sintoma de uma doença, mas, manifestação de uma cultura etarista e patriarcal, por meio dela, crianças não são donas de seus corpos. Em padrões moralmente assentados “não são mais crianças”. Nessa cultura alguém mais forte, com mais dinheiro, adulto, preferencialmente homem, pode ser um tanque de guerra. O estupro, é um crime de guerra ideológica demarcando a vulnerabilidade daquele que é violentado. Guerra é história e territoriedade e embora bélica, não é necessariamente fálica.

Posso pressentir muitos que leem, torcer o nariz, como assim, não é relacionada diretamente ao pênis? Não é. Amarre um corpo que possua o referido genital de tal modo que apenas o dito cujo, fique exposto. Por si só, é bastante frágil e sensível, no máximo tem força para sustentar alguns objetos e se precisa de mais força, exige movimento da pelve, isolado não representa ameaça. Simbolicamente, é a virilidade masculina, portanto, sou completamente contrária a ideia de castração como medida punitiva de pedófilos e/ou estupradores. Mesmo se empregada como proposta de punição ao simbólico, se ataca, mais uma vez a ideia de masculinidade, pune-se com a “desmasculinização”. O mesmo vale para estupro de estupradores, ora, se o estupro é a reafirmação do poder com violação não consentida, quem estuprará o estuprador? Quem violará sua masculinidade? Quem “o fará de mulherzinha”, “menos homem”? Logo, combater a barbárie estuprando e emasculando é contraproducente, violentamente patriarcal e mantenedor de idênticos preceitos.

Outra sugestão dada no calor da emoção é o sistema carcerário. Pois bem, encarcerar é tirar da vista, apartar e mais uma vez, individualizar uma discussão bem mais complexa do que bandidos e mocinhos, entre gente “civilizada” e quem “não tem conserto”. Prefere-se dizer que não é “problema nosso”, mas de meia dúzia de “desajustados”. A maioria das pessoas que cometem crimes sexuais contra crianças são bastante próximas das vítimas, isso é, pais, mães, tias, babás, avós, avôs. Considerando o número elevadíssimo das estatísticas se for para levarmos a cabo essa sanção, seria raro uma pessoa em todas as classes sociais, que não tivesse ao menos algum grau de relação ou parentesco com alguém penalizado. Você, leitor, leu corretamente. Eu não acredito que a medida de intervenção aos pedófilos que concretizaram seus atos seja a prisão, a morte, a castração. Isso é endossar a caricatura dos filmes. O pedófilo não é um sujeito excêntrico, reservado, deslocado da vida social, com um sorriso perverso diante das crianças que brincam no parque. Quanto menos familiar esse rosto parecer, mais fácil exigir medidas drásticas de isolamento, tortura e privação da vida comum. Estatisticamente, assim como nos dados de violência contra mulher, quem agride não são desconhecidos, são namorados, amigos, familiares, maridos.

A acusação de pedofilia pode incitar linchamentos mesmo sem provas. Pessoalmente, já tive de intervir em um desses casos no começo de minha graduação. Durante uma assembléia estudantil, houve a denúncia: Um motorista de ônibus fretado foi acusado de ter realizado sexo com uma menor, no trajeto entre o ponto de chegada e partida. A história se amontoou em várias versões, desde o número de pessoas que presenciaram o fato mas nada fizeram para impedir, até supostos vestígios como um chinelo e uma camisinha usada (?), nunca realmente localizados. O resultado foi presenciar pessoas comovidas se jogando no chão (!), gritando, parte de um grupo saindo em busca de facas e demais objetos para matar o acusado. Depois de tentar argumentar fui taxada de “defender estuprador”, “de não perceber o quanto isso era machista”, ou ouvir “vamos estuprar o estuprador”, essa última frase, dita por um indivíduo que desprezo completamente por muitas razões. O fato é que a história minguou de um dia pro outro, mesmo entre as feministas que me acusaram (estavam ocupadas pintando cartazes para uma marcha). Fiquei surpresa e com uma carta nas mãos (contrária ao linchamento), sem saber como processar essa informação. Os anos passaram e a aspereza do tema me sobe como a bile, toda vez que a discussão retoma. Descrevo esse evento com riqueza de detalhes para ilustrar que nesse assunto febril, se faz necessário muita cautela para o debate. Correndo risco de ser colocada no mesmo patamar de quem faz o crime (mais uma vez), tomo a iniciativa de me posicionar. Indiferentemente se é centro-esquerda, centro-direita, anarquista, conservador ou liberal, quando a denúncia é o estupro “justiça pelas próprias mãos”, “meter na cadeia”, “capar”, são atitudes esperadas.

A retaliação aplaca muito pontualmente os ânimos de quem toma as dores do violentado. Não desfaz o crime ocorrido, não impede que novos crimes com a mesma motivação aconteçam. Porque não é isolado, o desejo é socialmente construído, inclusive por crianças. Costumeiramente fazemos vista grossa ou tratamos como algo “perigoso” a criança que se toca sozinha, repete gestos de danças de duplo sentido. As crianças não agem para atrair adultos, se movem porque é simplesmente divertido e “todo mundo faz”. Sejamos francos, “danças proibidas” que “são má influência” para jovens e crianças fazem parte da cultura popular há muito tempo e não é isso, que nos dá estreiteza ética. Julgar alguém passível de morte e estupro por gestos e vestuário, sim. Voltando ao pedófilo que dá vazão ao seu desejo: Os adultos que assediam crianças o fazem porque possuem respaldo social para isso, implicitamente. Aos que sentem desejo por crianças e nunca concretizaram, recomendo que busquem ajuda profissional para reinterpretar e encontrar outras formas de lidar com a libido. Nesse assunto de imensa complexidade, especulo algumas alternativas e além das citadas acima, apresento outra, a educação. Não assumo nesse pressuposto, que os humanos tenham uma natureza boa e são corrompidos por um mundo decadente, em verdade, nascemos e somos frutos de nosso tempo histórico com valores e impressões demarcadas. Ao mesmo tempo, somos capazes de vislumbrar algumas possibilidades, rejeitando conjecturas apontadas como absolutas. Por educação, não me encerro nos bancos escolares, considero também a indústria cultural, a linguagem, os discursos, os saberes científicos, jurídicos, as instituições, a heteronorma, o capitalismo, o etarismo. As raízes estão parte expostas, parte enterradas e com ramos bastante firmes. É mais fácil pintar o outro em tons grotescos do que assumir os respingos de nossas cores primárias.

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