29 agosto, 2014

R.E.C.A.L.Q.U.E

Posted in Corpo, O pessoal é político, Sexo tagged , , , às 7:21 pm por Deborah Sá

É desnecessário dar pinta. Principalmente se for bissexual com cabelo esquisito, sapatão sem maquiagem, viado de short. É exagerado dar pinta se for não-monogâmico. Raso fazer sexo com amigos. É permitido conversar sobre gelzinho para oral, lingerie de colegial, chantilly com morangos e falar “pepeca” em conversas informais. É vulgar falar buceta, é doentio falar de podolatria, bondage ou algemas (que não sejam as de pelúcia). Feminismo é… okey. Porém, é despautério ser peluda e usar regata, gorda com roupa justa, esquerdistas e anarquistas e suas bandeirolas. Qual a necessidade de esfregar essas aberrações na cara dos outros? Porque tornar tão visível? Falta de etiqueta, compostura, discrição e principalmente, falta de tecido para esses rebeldes – oh, céus, literalmente! – sem calças.

Do mesmo modo que gordo não deve fazer gordice, viado não deve fazer viadagem, sapatão não precisa fazer rebuceteio. Concorda? Sua hora chegou! Filie-se a R.E.C.A.L.Q.U.E (Rede Examinatória de Cu Alheio por Liberdades Quadradas Universalizantes e Encarceramento)! É  bastante incômodo ver à luz do dia e na via pública esses comportamentos, como ação,  precisamos saber os mínimos detalhes do passado, presente e futuro desses esquisitões, não é mesmo? Esses são alguns dos benefícios de possuir a carteirinha: Hétero respeitável. Com ela você pode identificar e orientar taradices, ao mesmo tempo, descobrirá: Quais as posições praticadas e com quantas pessoas se fez sexo, ativa ou passivamente. Se pretende ter filhos. O quanto isso atrapalha o desempenho profissional. Qual evento traumático da família desestruturada ocasionou esses desejos. Se já usou drogas. Se encontram parceiros na rede mundial de computadores. Se já se envolveram com pessoas casadas (além de destruir a própria família para desgosto dos pais, destruíram outros lares). Se fazem uso de remédios controlados e muito mais! A triagem consiste em investigar quem possui gestos, entonações, roupas e outros indícios de dar pinta. O exame preliminar está disponível on-line no QUESTIONARIO_HETERO_de_RESPEITABILIDADE.

A detecção precoce de tais sintomas e intervenção adequada, permite uma vida de vigilância constante, auto-flagelo, culpa, vergonha e auto-ódio, levando em muitos casos ao suicídio, não é maravilhoso? Materiais em vídeo-aula possuem as seguintes temáticas: “Te coloco uma lupa pra sair do foco”, “Eu não sou preconceituoso, mas…“, Eu só quero o seu melhor, mas o que você faz é uma pouca vergonha”, “Faça entre quatro paredes, me conte detalhes”, “Falo isso para te proteger”, “Está na Bíblia Volume I, II e II”, “Está no DSM-IV”,  além do sucesso de vendas “Você é uma aberração, por isso vive triste”. Entre em contato com nossos associados! A R.E.C.A.L.Q.U.E tem imensa satisfação em agregar novos membros¹. Na busca por um mundo descafeinado, bege e com cheirinho de eucalipto! 

Organizações R.E.C.A.L.Q.U.E
Lavando as mãos e a sua consciência


 

¹ R.E.C.AL.Q.U.E possui parceria com setores religiosos, estatais, familiares, legislativos, além de humoristas e grandes emissoras de TV.

7 agosto, 2014

Fala pouco e bem…ter-te-ão por alguém

Posted in Gênero, O pessoal é político tagged , às 12:47 pm por Deborah Sá

Caríssimo leitor. Que saudade de contar meus dias! Feliz estou que ainda retorne para ter notícia dessa pequena ilhota, a qual faço questão de não fincar bandeiras, deixando vestígios propositais de meu regresso. Fiquei tantos dias sem tal ofício prazeroso… Temi ter enferrujado. Escrever sem valer nota, escrever para mostrar. Dilemas literalmente tomaram meu sono e roubaram algumas lágrimas de olhos facilmente umedecidos. Eu criei segredos, muito mal guardados como é de meu feitio. Segredos de amor. E de temor. E de prazer. E de dor. Mais que isso não posso apontar, além do que já disse para as orelhas sadias ao derramar minhas suposições. Voltei, não conseguiria me sentir bem ocultando isso de um velho conhecido: Aquele que me lê. Transcorri minhas pálpebras em muita coisa esse ano. Além das centenas de páginas xerocadas para a faculdade, faço questão de reservar um tempo, pequeno que for, para ler algo que realmente escolhi. O livro Infância de Graciliano Ramos tem aquecido por dentro, recobrando a responsabilidade em narrar. O Terteão me assombra por outras razões.

Dizer pouco e bem nunca foi meu forte. Se falo pouco me entrego: A cabeça pesa e congestiono feito sinusite. Os sintomas são parecidos, meus olhos perdem algum brilho, ganho ares de preocupação e apatia. Não raro, a imunidade desce e uma infecçãozinha aqui, um resfriadinho ali, coriza.  Dias atrás, uma amiga citou o termo oversharing, o primeiro movimento foi acatar. É isso mesmo, se deixar exponho demais, conto mais do que devia, é quase fisiológico. Pois bem, instantes depois um moço no twitter emendou com um artigo excelente sobre como isso é mais pesado para as mulheres. As que escrevem seus anseios e dúvidas de modo biográfico e confessional, são facilmente desacreditadas. Um homem que fala de suas dores e mergulha nas entranhas para mostrar para ao mundo, é um cronista. Uma mulher que faz o mesmo é mandada para o privado. Mulheres tem diários, homens tem livros publicados e colunas. Se uma tirinha desenhada por uma mulher tem uma piroca ou um cu, podem julgar pesado ou imaturo. Informações demais, ninguém quer saber das auguras em não encontrar a cordinha do absorvente interno. Se quero ser professora ou mesmo uma pesquisadora, preciso parecer minimamente respeitável, não? E se quero proteger as pessoas que amo das ideias controversas que me habitam e podem respingar nelas, devo andar na miúda, correto? Posso ouvir as vozes que já me foram ditas outras vezes (e nem faz tanto tempo): Qual a necessidade de se expor tanto? Poderia ser mais uma mulher de gestos contidos, ambições pequenas, bater cartão, sentindo-me bem com cabelos comportados e roupas mais ainda? Sim. Eu poderia. Mas eu não sou. E como feminista, essas coisas martelam. Esse é o medo em ser mulher e me expressar além das expectativas de meu gênero. Quer escrever? Mas cuide bem para não mostrar mais do que devia. A escrita é fenda e decote e sabem o que dizem de mulheres que se expõem. Não se dão o respeito. Concordo com as memórias infantis de Graciliano, Terteão é um homem. Ele escreve, anda, veste, ama, se move, fotografa, ao passo que fala somente o necessário.