30 abril, 2014

Notas de uma anormal

Posted in Corpo às 2:00 pm por Deborah Sá

Dizem que a ajuda médica é necessária quando atrapalha a vida social. Bem, nunca experimentei a placidez de uma vida normal, nem pude observar, na parcela em que me cerco, traços desse êxtase quase cotidiano. A infância, esse conceito transformado desde a idade média, me abateu como a centenas de crianças do final dos anos 80, bastante amor, alguma dose de amargura. E passaram-se os dias sem avisar, pois, duvido que a maré nos acerte quando estamos prontos, a gente aprende a nadar forçosamente. Freestyle, tirando algum proveito da intempérie.

Por essa razão, não busco tratamento para o mar-de-dentro, esse que escoa pelos olhos e poros, nasci com ele, e se tem uma coisa que meu corpo aprendeu direitinho é a chorar. Nem sempre funciona quando espero e na intensidade prevista, mas surge, me faz engasgar um pouco com a água salgada, ao fim, sobrevivo, no corpo a corpo, no boca a boca, na transpiração. Há quem precise de remédios, quem os busque, não tenho nenhuma pretensão em ser prescritiva, até porque, a minha assinatura não vale nem os dois dígitos da minha conta bancária.

Todavia, faço a defesa pessoal (e os que nela encontram familiaridade, sejam bem vindos), pelo direito a anormalidade nem sempre tão sutil. Isso é, vez ou outra, arrepios me fazem tremer sem razão. Desde os onze anos de idade, em momentos de cansaço e tensão tenho dificuldade em levantar uma pálpebra. Sem contar, todas as vezes que fui chorar no banheiro do trabalho, da faculdade, ou ainda a paralisia generalizada que já experimentei em  manifestações ou lugares muito lotados. Já estive em profissionais da saúde mental, nos três casos, diagnósticos diferentes: Stress pós-traumático, síndrome do pânico, depressão e pasmem, bipolaridade. Nesse último, a profissional do SUS (em quinze minutos olhando para minha fuça), receitou um tarja preta e segundo sua avaliação precipitada, eu era bipolar porque falava rápido e gesticulava muito.

Pois bem, caríssimos profissionais da saúde: Sentar em um espaço e “me abrir” para ouvir em outras palavras que sou anormal ou outros impropérios bem ofensivos, não representa qualquer novidade. Isso sei desde o jardim de infância, dos bancos escolares aos religiosos. As pessoas anormais vivem da maneira que é possível. Ou seja, tenho uma vida afetiva bastante rica, com experimentações diversas e o fato, de certas práticas soarem excentricidades, não as esvazia de sentido, toda prática é carregada de intencionalidade e serve a propósitos específicos. Não pretendo construir um discurso ancorado no princípio de que esquisitos possuem a mesma demanda de pessoas normais, algo como “- Anormais também merecem um emprego, uma vida saudável”, porque no fundo, isso pode facilmente ser confundido com “- Eles merecem ser tolerados, contanto pareçam normais”.

Há interesses humanos acessados por todos, tais como a busca por reconhecimento, afeto e prazer, porém, parece um tanto mais evidente, que pessoas anormais, esquisitas, excêntricas ou qualquer adjetivo de dissidência que se queira usar, possuem demandas outras. E é com isso que não conseguimos lidar. Porque certos corpos/espíritos/desejos inclinam para direções tão opostas? E sabendo que a sociedade em sua maioria não sabe lidar com esses pontos fora da curva, não seria de responsabilidade desses últimos tentar adequação, sem sofrer o peso da diferença inscrita em seus corações e mentes? A minha resposta é: Não.

Será de imensa valia cultivar o empoderamento daqueles que são agredidos de diversas formas por seu desvio, mas, ainda mais desafiador, é problematizar a força motriz que legitima alguém ser agente desse padrão hegemônico[1], coagindo e sancionando normas pela incapacidade de lidar com outro que não atende suas expectativas de demandas aceitáveis. Culpabilizamos os anormais, pelas emoções e contrações musculares involuntárias, se nascemos ou não com essas inclinações, pouco importa, a verdade é que elas nos atravessam. Como um raio que percorre o corpo e precisa descarregar e se em sobrecarga, invariavelmente causa danos aos mais próximos. O gerenciamento (não extinção), da anormalidade, demanda tempo e não é possível controlar todas as reações e variáveis encontradas no caminho. Entrementes, acreditar no controle absoluto de algo ou mesmo na cura e estabilidade absoluta, é a maior das ingenuidades. Vivenciar pressupõe ruptura e solavanco, não existe experiência sem memória, escombros ou souvenir. Ao planejar, escrever, repensar, fazemos um ensaio, ganhamos um pouco mais de segurança, mas, ao abrir os olhos e defrontar com a realidade, o roteiro não é mais disponível, a cena está posta, o cenário montado. Minha decisão em não me medicar implica em jogar o ponto auditivo pela janela. Querem os anormais mais normais possíveis, postura de programa editado, só que em programa ao vivo e com platéia cheia.

[1]  Assumo aqui que as pessoas não são robôs, agir, em determinada circunstância em consonância com o discurso da norma, não significa que a pessoa não tenha dias ruins, angústias, medos, sonhos, etc.

4 Comentários

  1. ducaralho.

  2. Kátia said,

    Engraçado. Em todos os (alguns poucos e bem aproveitados) momentos em que busquei ajuda médica para o mar-de-dentro – porque nem chorar ajudava – o que mais ouvi é que todos nós somos anormais e isso é normal. Acho que tive sorte com os “loucos” que me ajudaram. :)

  3. eu, na condição d anormal, faço como zeca pagodinho, vivo aos trancos e barrancos ( referência ao trecho “As pessoas anormais vivem da maneira que é possível”)

  4. Hamanndah said,

    Linda como sempre…e que olhar fatal, matador da Xarazinha. bjos


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