5 fevereiro, 2014

Woody Allen, masculinidade e violência

Posted in Gênero, Só falam nisso às 12:57 pm por Deborah Sá

Como um sujeito franzino conhecido por suas neuroses pode ser acusado de violência contra meninas? Teria moldado o comportamento da filha adotiva de 12 anos ao tirar fotos dela nua? Seria transtornado ao esperar a maioridade para casar-se com ela? A carta aberta de Dylan é a prova cabal de um predador sexual? Aliás, com quantos homicídios se faz um assassino? Com quantos abusos se constrói um estuprador? Quem passa por violência sexual pode criar memórias falsas? As produções de Woody Allen merecem a fogueira pública?

Não interessa se algo comportamental ou físico aparentemente inocenta ele das acusações. Não existe “cara” de estuprador. Esqueça os contos de fada onde os traços de um rosto dizem tudo sobre o caráter, não somos Dorian Gray. As projeções de um corpo ou postura criam caricaturas facilmente aderentes e demasiadamente precipitadas. Ademais, a maioria dos estupros acontece em ambientes “seguros”, embaixo do nariz de presentes. Quem consuma esse ato abusa da confiança dos familiares e da própria criança, a qual enxergava na figura mais velha uma autoridade. Mia Farrow, fez o que qualquer adulto responsável, faria: Ouviu a criança, seu modo de explicar o ocorrido, não acusou, deu um voto de confiança. Criança sofre, sente medo e embora sinta as estruturas não sabe como nomeá-las. Sejamos honestos, por vezes, nem nós adultos, conseguimos enxergar as linhas invisíveis nos tolhendo. Imagine então, compreender o sexo não consentido (estupro), quando se é criança. Não interessa se ele “só” fez isso com algumas crianças e não com outras. Um molestador sabe aproveitar vulnerabilidades. Quem estupra está em uma relação de poder coercitivo, é alguém que tem todas as cartas do jogo. E ele como homem, figura mais velha e paterna, aclamado cineasta, provedor econômico, tinha muitos elementos deixando a balança pender para o seu lado. A constituição franzina não diminui as outras esferas de poder. Ele ainda as tem.

Mia Farrow, pouco aparece nas manchetes, seus filhos idem. Eles só existem para a mídia atual em função de Woody Allen. São sombras de uma figura maior em primeiro plano. Não deixarei de assistir um filme produzido por esse homem, especialmente em casa, já que sinceramente, prefiro dar dinheiro para outro tipo de bilheteria (de tão insosso, Para Roma com Amor poderia ser filmado pela Globo Filmes). Faço diferenciação entre a obra e o autor, muito embora saiba que tudo o que tocamos carrega nossas impressões. Se ele “moldou” Soon yi com quem é casado cabe a ela quebrar o silêncio. Se ela vive em uma relação abusiva e não encontra forças para sair do relacionamento, espero que consiga romper. Tratá-la como incapaz e totalmente manipulável não parece o modo mais respeitável de protegê-la. Não conheço a dinâmica interna da relação, aparecer sorrindo nas fotos não diz absolutamente nada. Casamentos sem qualquer indício externo podem ser tempestuosos e opressores. Se Soon yi não denuncia a violência, não posso supor que é vulnerável. Dylan, ao contrário, diz com todas as letras que vivenciou um estupro, por isso, acredito nela. Encarcerar ou matar um acusado por um crime não encerra incesto e o estupro. Quem pratica homicídio ou outro tipo de violação similar não é doente, “gene defeituoso” ou algo que o valha. A violação não consensual é instrumento de guerra contra mulheres e crianças. Nossa sociedade produz pessoas violentas, em especial, homens violentos. Essa consideração não pode ser eclipsada por binarismos de bem e mal. Há de se ressaltar a importância de problematizar a masculinidade hegemônica, mecanismo dorsal de hierarquias generificadas dos agentes da violência. De acidentes de trânsito à violência doméstica, em grande maioria, quem porta a arma, é o homem. Por isso não gosto do slogan “Homem de verdade não bate em mulher”, não faz sentido elaborar uma campanha  onde não bater em mulheres afirme a própria masculinidade. Para quê confrontar um padrão conservando suas raízes?

Vítimas de estupro, em especial na infância, podem apresentar lacunas na memória e até imaginar novos trechos. Isso não invalida a experiência de horror. Tornar pública nos mínimos detalhes uma experiência dessa magnitude desgasta, expõe e estigmatiza a mulher violentada. Ela será sempre olhada com desconfiança ou pena, desequilibrada. Se optar pela continuidade da própria sexualidade será vista como mentirosa. Se optar pela assexualidade, chamarão frígida. Buscamos trejeitos enunciadores de virtudes ou falhas morais nos gestos mais banais.

Como sobrevivente de violência sexual infantil, sei que os flashes perturbadores nos tomam de assalto, por vezes, com riqueza de detalhes sórdidos e a primeira reação é sublimar, tentar focar a cabeça em outra coisa. Basta uma insegurança para a sensação de ser criança, daquela forma que eu era, tomar meu corpo. Me sinto pequena, vulnerável, com mãos indesejáveis passeando pelo corpo inerte. Ao escrever isso, meu corpo é invadido pelo medo gelado que passa do ventre para as costas. Minha cabeça fica muito, muito quente. Sinto misto de raiva e vergonha. Contei com o apoio de pessoas para expelir o refluxo desagradável amargando a boca. Essa é, a maior de minhas cicatrizes, sei que ela nunca sairá da minha memória, felizmente, não mais, ao ponto de me engolir. Enfrentei esse medo diversas vezes e hoje sei defletir o golpe, mesmo que vez ou outra cause um novo hematoma por estar distraída.

Fruto de minhas inseguranças mais basilares, é por meio dele que sinto estorvo, erva daninha a tudo que ousa esgueirar. O sentimento desumanizador de se sentir um monstro, forquilha do que há de mais perverso. Nó na garganta que tenho de enfrentar ao me aproximar de gente nova em um dia que nada vai bem. Pesar que invade quando tenho vontade de falar em público e uma voz desagradável diz que não vale a pena. Ao mostrar crises de choro inesperadas tudo fica do tamanho da minha dor. Imagino que me achem covarde. Depois que o choro cessa, respiro e consigo ver a panorâmica. Não estou presa, passei e é melhor deixar fruir do que engasgar. Aquilo, não me reduz. O corpo precisa de um tempo para expelir um corpo estranho, nesse ínterim, há sintomas desagradáveis, prefiro não mascará-los, escolho criar anticorpos. Porém, não é fácil, quase sempre, é preciso muito empenho. O descrédito de outrem leva à dúvida da percepção. Mesmo o personagem mais neurótico do cinema parece são mediante a palavra de uma mulher.

4 Comentários

  1. Isabela said,

    Deborah,acho que esse foi um dos melhores textos que eu já li aqui no blog, e definitivamente o que melhor abordou essa historia do woody allen e da dylan Fawrrow de toda a internet=) .As suas palavras sobre seu trauma de infancia são muito tocantes.Apesar de nunca ter sofrido abuso sexual senti que você estava escrevendo sobre mim nos trechos em que fala da voz que desincentiva a se manifestar e das crises de choro inesperadas.
    Desejo toda a força do mundo para você, bjs.

    • Deborah Sá said,

      Isabela,

      Muito obrigada pelo carinho e consideração, fico contente que tenha se identificado.

      Beijos feministas

  2. Ah Déborah! Conheci seu blog através desse texto e me senti muito tocada pela sua história. Não tenho nem ideia de como uma criança/mulher se senti depois de passar por isso, mas assumo que durmo e acordo com medo. A sociedade não me da segurança suficiente nem para me divertir na rua e, por muitas vezes, invento desculpa para amigos e fico em casa vendo tv. Achei muito inteligente a maneira com abordou essa polêmica do Woody Allen!
    Beijão!

    • Deborah Sá said,

      Obrigada, Gisele!

      Seja bem vinda! Espero que aos poucos consiga quebrantar seu medo.

      Beijos!


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