16 janeiro, 2014

Relacionamento não-monogâmico: Romance e ciúme

Posted in Afetos tagged , , , , às 1:30 pm por Deborah Sá

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Cecília conhece Roberto, eles começam a namorar. Embora Roberto ame muito Cecília, se apaixona por Letícia, colega de trabalho. Letícia era casada com Antônio e descobriu uma traição “virtual”. Furiosa, cedeu às investidas de um amigo, João. Em uma quinta-feira, Letícia contou a decisão para Antônio com um sorriso nos lábios e em seguida, emendou o pedido de divórcio. As histórias e os nomes fictícios da pequena narrativa mostram dilemas que qualquer relacionamento pode enfrentar. Não-monogâmico é aquele que questiona a monogamia como constituinte do afeto, sexo e/ou amor. Cada relacionamento é elaborado com base em acordos verbais de tal forma que o interesse de todos os envolvidos tem de ser respeitados, negociados.

Cecília e Roberto, por exemplo, haviam acordado que o que havia entre eles era amor e o que viviam nas relações paralelas era somente sexo. Tudo muda, quando Roberto passa a amar duas pessoas ao mesmo tempo: Cecília e Letícia. Eles viviam um relacionamento aberto, ciente de que terá de escolher entre uma das duas, está posto o entrave. Cecília exigia exclusividade e não aceitaria dividir o tempo de Roberto com mais ninguém. Letícia, também separava conceitualmente sexo de amor e afeto, era permissiva ao sexo casual de seu marido Antônio, contudo, julgava inadmissível o compartilhamento emocional para outra e ele fez isso on-line. Letícia sabia que João era o único homem com quem Antônio não toleraria envolvimento.

O oposto do ciúme é a compersão, isso é, ficar muito feliz quando alguém que amamos está com outra pessoa. Ao invés de sentir raiva ou medo de perder, surge felicidade. Um relacionamento poliamor é aquele que envolve três ou mais pessoas, os acordos podem ser múltiplos, desde polifidelidade (entre as pessoas daquele núcleo) até definir quem é/será secundário ou prioritário na dinâmica. Em RLi (relações livres) não está em questão a negociação da profundidade ou o envolvimento com terceiros, o amor, o afeto, o sexo, são componentes que priorizam o desejo, não há ninguém secundário, promessa de fidelidade parcial, afetiva, sexual. Independentemente da escolha, as relações não-monogâmicas não são frias. O romance não é incongruente em qualquer uma das dinâmicas. Ciúme, sentimento de posse, não é certeza do amor. Quantas pessoas ainda escondem ciúmes de ex-parceiros?

Mesmo em um relacionamento RLi, a compersão pode não existir em todos os casos, da mesma forma que nem sempre os amigos de nossos amigos despertam simpatia. Em um relacionamento não-monogâmico que pressupõe um núcleo e hierarquia, o ciúme tem maior probabilidade de ocorrer. Isso é trabalhado nos acordos, por exemplo: “Podemos/não podemos ficar com nossos amigos”, “Fique com quem quiser, só não me conte os detalhes/quero saber tudo detalhadamente”, cada casal ou grupo sabe das próprias diretrizes. Ao refletir sobre práticas afetivas e sexuais como construção social nunca mais sentiremos ciúme? A resposta é não. Há uma distância considerável (por vezes, abismal), entre o que acreditamos e o que temos condições de levar à prática. Uma pessoa virgem pode pensar muito em sexo, porém, não se sente pronta para quebrar essa barreira tão cedo. Semelhantemente, um indivíduo pode atravessar o período de transição em monogamia/relacionamento aberto/poliamor/RLi de maneira bastante dolorosa. São hábitos arraigados desde idade remota reforçados pela cultura, os valores tradicionais, a forma de se portar no mundo. Por mexer com certezas tão profundas leva à incompreensão. Não-monogâmicos podem ser falsamente interpretados como sujeitos sem amor-próprio ou ainda, egoístas e mesquinhos. Nos videoclipes, nas letras de música, nos filmes, o amor “de verdade” é aquele que dói, faz espatifar vasos e pratos, é “ter olhos para mais ninguém”. A gente compra a ideia mesmo com os sentimentos e desejos nem sempre caminhando nessa direção.

Em conversa ao telefone com meu amigo Elias, chegamos na analogia de que o ciúme é uma criança aborrecida. Sente fome, sono, faz birra, quer seu paninho ou chupeta, atenção. Ignorar o chamado ou colocar no “cantinho da disciplina”  é abrir espaço para a traquinagem, colocará taxinha na cadeira, jogará chiclete no cabelo, riscará o carro, furará pneu, gritará mágoas. Excesso de cólera faz parte do ciúme, bem como a urgência e a vingança. A insegurança e a carência são a ocasião perfeita para o surgimento dessa avalanche. Ao invés de nos culparmos, sentir remorso ou descontrole sobre as próprias emoções, é mais justo respirarmos fundo e questionarmos com sinceridade: Qual o motivo da raiva? De que exatamente temos medo? Esse ataque é para se defender contra o que? É preciso respeitar a consciência, o desejo. A aprendizagem leva tempo até ser reconhecida e assimilada. Recurso teórico auxilia o refutar, ter projeção, um plano de ação possível dentro das condições do presente. Acalmemo-nos: a vida é desfazer nós, nós de nós mesmos.

4 Comentários

  1. Natália said,

    Tenho ciúmes. mas por causa de fatos pontuais q acabaram acontecendo. Eu penso q um dia poderei tentar o relacionamento monogâmico, mas somente se eu não morar com as pessoas q irei me envolver. Acho vai (está sendo) doloroso esse processo. Sinto minha autoestima bem abalada. A questão de relacionamentos envolve muitas coisas de uma vez. Muitas coisas pra repensar, sentimentos q não queremos experimentar e situações q temos q passar. Nessas horas é essencial ter ombros amigos por perto. Outra coisa q torna esse processo ainda mais difícil pra mim.

    • Deborah Sá said,

      Olá, Natália,

      Confesso que fiquei curiosa com sua resposta, porque imaginei que a não-monogamia fosse mais fácil justamente quando não se mora junto. Sobre amizade, sinta-se à vontade para escrever quando desejar. Um abraço!

  2. Cam said,

    Olá,
    penso que é necessário ter uma cabeça muito boa para encarar um relacionamento aberto ou poliamor. Tenho um longo relacionamento monogâmico e me vi à prova quando me apaixonei por outra mulher, bons anos mais velha do que eu. Cheguei a cogitar a possibilidade de um relacionamento a três, mas percebi que nem todos estão preparados para essa experiência. Talvez nem eu esteja. Mas desejei ardentemente, confesso. Tentei resolver tudo na base do diálogo, até porque também não sabia como lidar com isso. Senti o peso do “preconceito” quando me diziam que “isso” não era possível de rolar, que era coisa de gente promíscua, etc. Então fui percebendo como as pessoas evitam de pensar sobre a vida, sobre as relações. As vezes preferem ter uma vida bem morna só porque assim foi ensinado, enfim, é uma longa discussão. No meu caso, preferi “deixar para lá” e seguir monogamicamente, embora isso não me faça plenamente feliz..

  3. Elias said,

    Deba <3


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