16 janeiro, 2014

Guest Post – A História de horror de M.

Posted in Guest Post às 12:27 am por Deborah Sá

M. entrou em contato através de meu e-mail e compartilhou a difícil experiência a qual foi submetida na infância. Como deseja tornar a história pública sem quebrar o anonimato, pediu que publicasse aqui no blog sua história. Em respeito a ela e a todas as pessoas que vivem após semelhante acontecimento, expresso profunda admiração e respeito. Eis o relato:

“Deborah, li seu post “A minha história de horror” e tenho uma história quase parecida. O sujeito da minha história é meu irmão, 4 anos mais velho que eu. Eu era tão criança, que não sei dizer com que idade começou, mas acho que a primeira vez eu tinha 6 ou 7 anos. Ele me sugeriu penetração numa tarde em que não tinha ninguém em casa. Eu não brincava na rua, eu mal tinha amiguinhas na escola; eu só tinha ele pra brincar. Depois ele foi me mostrando sites pornográficos, me instigando a querer aquilo. Quando eu tinha de 8 pra 9 ou 9 anos era quase que diário. Penetração anal c/ calcinha de um jeito que eu não sentia quase. Só via depois que minha calcinha ficava melecada. Era meio que uma condição pra eu jogar o video game dele “estando bem” com ele. Mas até aí, era algo viciadamente consentido, porém, “consentido”. Meus hormônios foram agindo, meu corpo foi crescendo e eu passei a não querer mais; pensava que poderia engravidar e me sentia muito suja. Tenho uma família muito católica e tinha muito medo do que poderia acontecer se descobrissem. E então, ele passou a passar a mão em mim quando eu menos esperava. Qualquer favor que ele me fazia era cobrado com uma apalpada na bunda. Depois, ele começou a visitar meu quarto no meio da noite pra apertar meu peito e ir embora. Eu ficava imóvel. Quando ele ia embora, me acabava de chorar. Eu me sentia tão violada, invadida, violentada. Era uma raiva imensurável. Comecei a escrever carta pra minha mãe, pensei em roubar a chave e trancar a porta do quarto dele depois que ele a fechasse, pensei em matá-lo e depois me matar, pensei em como eu contaria uma coisa dessas, e que, se eu contasse, ia acabar com a minha família. Detalhe esquecido: eu tinha medo do escuro, por isso dormia de abajur aceso e porta aberta. Isso tudo acabou quando eu passei a fechar a porta do quarto. Eu tinha uns 11 anos. Graças a isso tudo e outros indicativos de falta de caráter e escrúpulos desse ser, não tenho nenhum tipo de relação com ele mesmo ainda morando na mesma casa. A primeira pessoa pra quem contei foi meu atual namorado, com quem estou há 2 anos. Eu tinha 17 quando contei pra ele. Durante meses a gente conversou muito sobre isso e eu fui entendendo melhor o que me havia acontecido. Ganhei segurança o suficiente pra contar pros meus pais. Contei em janeiro de 2013. Eles ficaram chocados, mas também, só isso. Minha mãe na época tinha me perguntado do jeito dela e eu disse que não, por ter nojo/vergonha. E na hora eles resolveram que meu pai ia falar com ele. Uns 15 dias depois, a madrasta do meu pai faleceu, o que adiou (MUITO) essa conversa, que acabou acontecendo enquanto eu tava numa festa e meu pai trabalhando. Eu até hoje não sei se essa conversa aconteceu mesmo e dela nada mudou. Aqui nessa casa a moral cristã faz com que tudo seja em tom conciliatório, que tudo “fique bem”. NENHUMA medida, além da “conversa” e de me cobrarem sugestões de medidas quando eu cobrei atitudes, foi tomada até hoje. Já faz mais de um ano. Eu tenho uma vontade enorme de que todo mundo saiba o que aconteceu. Eu queria escrachá-lo, dá-lo uma surra eu mesma, qualquer coisa que descontasse minha raiva. Mas, quando meus pais estavam decidindo ainda o que iam fazer eu tive uma certa “dó” dele! Me odiei muito por sentir isso. É realmente asqueroso, doloroso pra mim sentir qualquer esboço de afeto por esse demente (sim, eu tenho indícios de que ele é um doente, mas aí é outra história). Mas, pensando com mais calma depois, vi que ele e outras coisas traumáticas que aconteceram comigo não conseguiram destruir algumas coisas que eu considero essenciais em um ser humano. Escrevo, divulgo, mesmo que anonimamente, porque pra mim ainda não acabou (eu convivo com ele, divido o banheiro, minha mãe se refere a ele pra mim como “seu irmão”), não que o meu caso seja ultra excepcional, mas gostaria e acho necessário que seja debatido.

Queria publicar isso num blogueiras feministas da vida com foto, nome completo e rg dele, mas eu ainda MORO com ele e não queria causar mais sofrimento aos meus pais com a exposição pública do caso. Ele era “criança” também, e me estuprou. Acho que é algo a se pensar. Me desculpe por gastar tanto tempo e espaço seus, mas se eu fizesse isso por qualquer outro meio eu não estaria anônima.

Vi em você alguém aberta a relatos como o meu. Obrigada por ser esse portal. 

Beijão,

M.”

Conforme disse por e-mail,  o julgamento em não denunciar esse homem diz respeito a sua consciência. É perfeitamente compreensível nutrir raiva por ele, não se culpe. De acordo com a última informação que tive acesso, o estupro prescreve até 20 anos depois da data do ocorrido se envolve menores de idade. Não sei o que acontece se os dois envolvidos eram crianças (alô, advogadas). Você tem o direito de tornar a história pública se assim desejar e a lei, tem obrigação de proteger. Sei que é difícil, especialmente em dias de tristeza, mas você não fez nada para merecer essa violência coercitiva, o estupro. Foi um crime e marcou profundamente sua trajetória, contudo, é possível olhar como episódio de superação. Obrigada pela confiança.

Beijos feministas,

2 Comentários

  1. patykisses said,

    Que história forte. Mais forte ainda é M., que tornou público o relato. Que ela tenha coragem todos os dias pra suportar essa realidade.

    • Deborah Sá said,

      Espero que ela leia os comentários de apoio. Obrigada por contribuir, patykisses.


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