7 janeiro, 2014

Gorda, um posicionamento político

Posted in Corpo tagged , , , às 4:13 pm por Deborah Sá

Fumo, bebidas alcoólicas, dormir tarde, beber pouco líquido. Praticar atividades físicas, comer de três em três horas, retirar o glúten. São alternativas diferentes de se relacionar com os usos e funções do corpo, a administração do tempo. Tem gente que prefere criar uma dinâmica funcional e utilitária, nutricional, contam-se as porções, busca-se ganhar massa, reduzir medidas. Outras pessoas, preferem escolher pelo prazer farinha branca e alimentos açucarados. Para todos esses hábitos, há corpos magros e gordos, jovens e velhos, com mais ou menos idas ao médico.

Qualquer texto criado por uma pessoa gorda que explicitamente não segue dietas emagrecedoras (nem pretende seguir), é visto como um grande disparate, um passaporte só de ida ao leito do hospital. O que não se considera é que há muitas razões para alguém se tornar gordo e deliberadamente, continuar gordo. Nem todo gordo tem uma relação de ódio e punição com o que ingere, nem todo gordo é desconectado do próprio corpo. A separação entre esses pólos, inclusive, pode acontecer por meio de dietas e mortificação dos desejos. A cinta modeladora, as cirurgias plásticas e a fita métrica são cilícios, mais ou menos abrasivos. Segundo o ditado é indelicado perguntar para uma mulher sua real idade, também se tornou indecoroso perguntar o peso e o manequim.  Ao experimentar a tensão de não entrar na etiqueta de costume, pode se tomar duas decisões: Ou se compra apertado “porque merece, ninguém mandou comer demais” ou abandona-se a loja. O leitor pode supor que aí está a prova de que gordos naturalmente se odeiam. Discordo. O gordo que repete para si que é uma pessoa desprezível e descontrolada, é como a criança que em uma brincadeira imita a mãe repreendendo. Lembra da regra aprendida e a aplica. Adultos ou não, somos sujeitos extremamente suscetíveis aos estímulos externos. Ódio, culpa, remorso, agressividade se aprendem, para dentro e para fora ao longo da vida.

Mas vamos supor que alguém realmente toque o foda-se e resolva se esbaldar com alimentos gordurosos. Vamos supor, que as pessoas sobrecarreguem um pouco seus fígados. Vamos supor, que as pessoas descarreguem suas ansiedades e frustrações em hábitos pouco saudáveis. Chamá-las de “comedoras de lixo” por consumirem muito carboidrato, “fracas e perdedoras” por usarem entorpecentes, “estúpidas” por suas escolhas alimentares e sedentarismo; faz a meritocracia e o capacitismo baterem palmas. Parabéns (só que não). Superar limites, se sentir dono do próprio corpo e comer de forma consciente não tem como resultado último a perda de peso. Inacreditável que enquanto mulher, o maior êxito que devo aspirar é ter um corpo magro e jovem até o final dos meus dias. Pela escolha em permanecer gorda, assumem que eu odeie meu corpo ou seja dissocio com escolhas alimentares pouco conscientes. Mesmo que seja vegana desde 2008, não tome refrigerante há dois anos (me deixa estufada e tira o apetite), pratique exercícios com certa regularidade, adore espelhos e movimento, problematize a separação entre mente e corpo, espírito em sobreposição da matéria. Aparentemente, a única forma de auto cuidado possível é perder peso e manter as unhas feitas, do contrário, faço apologia a gordura como máxima estética e o desmazelo de modelo. Minha proposição é de que é mais importante ouvir as pessoas e respeitar suas angústias do que julga-las imaturas e desequilibradas por costumes. Elas não são dignas de cirrose, câncer no pulmão, overdose, perna amputada pela diabete. Merecem mais do que mau agouro e maldições. Já não basta fiscalizarmos a sexualidade? Os orifícios e genitais? Temos de estender o controle dos corpos em suas proporções? Por que raios incomoda tanto a circunferência abdominal alheia? Quando quero saber se alguém precisa de amparo pergunto se está tudo bem, se precisa desabafar. Não faz qualquer sentido abordar uma pessoa triste com o imperativo disfarçado de pergunta: “Já pensou em emagrecer?”. Culpamos a pessoa gorda pela tristeza que sente em ser maltratada, pelas grosserias que ouve. Minorias sociais tem mais tendência a depressão e a tentativa de suicídio e essa vulnerabilidade, é aberta com o preconceito sistemático. Os gordos aceitáveis são os que tentam não agir ou parecer gordos, os que estão em busca da desconversão. Defender a vivência da sexualidade sem restrições significa acreditar que gays, sejam pobres ou ricos, comedidos ou espalhafatosos, de terno, barba e/ou salto, merecem igual reconhecimento. Pouco me importa se a mulher escolhe casar virgem ou ser biscateira, tem o direito de usufruir a liberdade.  Puta, viado, sapatão, se foi possível apropriar dessas identidades, por que ainda relutamos tanto em sermos gordas? Que mal há em transformar isso em símbolo de resistência, beleza e empoderamento? Passou da hora de não mais pedirmos ou procurarmos desculpas.

2 Comentários

  1. Onin said,

    Oi, Deborah,

    Acompanho seu blog há uns anos mas acredito que só tenha comentado uma vez. Faço neste pois gostaria de acrescentar mais um lado que é vítima da “patologização da gordura”: aquele que quer estar ao lado d@ gord@, que ama-@, que admira.

    No meu caso, sempre me senti atraído por gord@s, desde a primeira coleguinha de escola que queria “namorar”. Não sei explicar, mas realmente nunca admirei, ao menos não espontaneamente, pessoas no “padrão” de beleza. Me lembro que minhas primeiras experiências com pornografia na internet foi pesquisando e colecionando fotos de lutadores de sumô (ainda hoje acho-os muito bonitos). Em algum momento da adolescência percebi que gostava tanto de gordAs quanto de gordOs, e isso virou mais um motivo de chacota na ‘turma’: o menino que estranhamente gosta de gord@s e ainda é bissexual!

    Foi difícil lidar com isso e acabei escondendo minha [bi](s)sexualidade, e usando esse meu lado de gordo-admirador como um traço particular e único, e mesmo engraçado. Assim como o gordo assume – ou lhe é imposto -, por vezes, o papel de engraçado, de bonachão, assumi esse papel pra mim. Em qualquer conversa “de homem”, nas quais se fala muito “de mulher”, já deixava claras minhas preferências e meu repúdio à adoração da “gostosa da vez” (tiazinha, feiticeira, scheila-qualquer-coisa-do-tchan, etc). Assim que me sentia incluído: tendo esse lado, digamos, especial, ou exótico e bizarro pros “normais”.

    (obs: assim como gosto do corpo do outro gordo, também gosto/gostaria do meu assim, mas não sou! até já fui, tenho saudades da minha beleza obesa, mas com meu estilo de vida e de alimentação é mais do que normal eu ser magro e também meu corpo funciona melhor, assim, magro. não desgosto dele, também admiro-o, mas sempre quis ser beeem gordo).

    Pois bem, me relacionei com homens e mulheres ao longo desses anos e hoje sou casado há 4 anos, num namoro de quase 13 anos. Minha companheira é gorda, sempre foi, do nível que horrendamente se chama de ‘mórbido’, e sempre sofri pressão para que a estimulasse a emagrecer. Cheguei a ouvir o absurdos como “nossa, vc não pode deixá-la perceber que gosta dela assim, gorda, que ela não vai querer emagrecer” e até “vc precisa fazer ela emagrecer, se não daqui a pouco vcs nem mais vão conseguir transar!!”. o_O

    A que nível chega a crueldade!

    Poxa, claro que ela sofre de problemas físicos e fisiológicos próprios de obesos (tlvz não sejam tão sérios quanto os sociais), assim como um magro pode apresentar problemas ainda piores, acho sinceramente que outras pessoas chamem atenção pra isso é absolutamente dispensável e até nonsense, como rolou nos comentários ao seu texto anterior. Um policiamento, no mínimo, constrangedor, fantasiado de preocupação com a saúde. E, se é dispensável fazer o gordo se sentir doente e odiar seu corpo, também é totalmente fora de mão exigir uma postura gordofóbica de quem vive perto, de quem ama. Nos colocam como negligentes, como alguém que está deixando a pessoa “se afundar”, como alguém estimulando a doença – praticamente um agente patológico!

    PS: não sei o que fui buscar no blog – tlvz algum comentário anterior meu, que não achei – e voltei por acaso ao texto “À barriga positiva”. Aquele, mais conciso sobre o mesmo tema, que os últimos, tem umas passagens especialmente lindas, além de vir acompanhado de uma foto maravilhosa! Mas é desonesto elogiá-lo isoladamente, sem falar de outros. Obrigado pelo espaço, e por compartilhar suas ideias. Costumo conjugar de muitas delas. Ao falar de coisas comuns a mim, me sinto menos ‘sozinho’. Em outros assuntos, me faz ligar um farol amarelo e repensar muitas posturas, me questionar, olhar por outro ângulo meu ser e o dx outrx. Admiro a maneira séria com que você aborda assuntos sérios.

    • Deborah Sá said,

      Onin,

      Que maravilhoso seu comentário! É verdade, as pessoas que acham bonitas as formas do corpo gordo são igualmente taxadas de ~fetichistas~

      Obrigada por dividir o relato!

      Beijos!


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