4 janeiro, 2014

A patologização da gordura

Posted in Corpo tagged , , , às 6:14 pm por Deborah Sá

Um corpo gordo caminha na praça de alimentação, os olhares acompanham. As formas arredondadas tremulam aos olhares da mãe preocupada e alerta a filha pequena: “Quer ficar daquele jeito? Pois trate de comer a cenoura do prato”. O bebê rechonchudo é amado e lindo até determinada idade, dobrinhas depois de certo tempo não são mais graciosas. Um gordo está no corredor do ônibus, algumas pessoas resmungando dizem que ele ocupa espaço demais. Segundo a reação de quem o empurra (aparentemente a maciez da pele gorda amortece a dor), o gordo é árvore que caiu depois da chuva e amassou o carro. É fatalidade que faz parar no caminho e curiar, abanar a cabeça em condolência ou em espírito zombeteiro, fazer piada. “Gordo só faz gordice” é o novo “O médico pediu para não contrariar, sabe como é, ele não bate bem”.

O altruísta da dieta diz com voz macia que só quer ver o teu bem, se preocupa com a sua saúde. O que é ser são, saudável, senão ter o aval da medicina atestando normalidade? Certa vez, fui ao ginecologista pedir uma guia médica dos exames de rotina (como faço todos os anos). Pouco depois de me cumprimentar o homem de cabelos grisalhos e jaleco, disse enfaticamente “Seria bom cuidar desse sobrepeso”. Eu o tranquilizei dizendo que estava bem com meu corpo, não pretendia emagrecer, tinha uma boa alimentação e embora não seja uma atleta, procuro me manter em movimento. Com desconfiança, reparou a minha tatuagem e recomendou um exame de proteínas. Narrou o quanto sangrou em sua mesa um paciente como eu, em uma cirurgia. O pobre diabo (magro) não cicatrizava e jorrava muito sangue, uma cena de terror escatológico dito em tom mais grave, dramático. Sorri de lado, disse que não tinha medo. O ginecologista não acreditou no resultado quando voltei ao consultório com o papel em mãos “Mas tem certeza que não come mesmo leite e carne? Tem certeza que não sente os joelhos doerem? Tem certeza? Não sente nada agora, que é nova, depois dos quarenta…”.  Caso os exames indiquem excelentes resultados, a expressão é de espanto, surpresa e incredulidade. Isso é, se você é gordo, nem um laudo médico é capaz de atestar sua normalidade. O sobrepeso é sinal de alerta, a obesidade é calamidade. O gordo saudável é no máximo, uma encenação mequetrefe de atores canastrões. Mentira, um enigma da medicina. Alguém está mentindo e esse alguém é o gordo.  É o louco fingindo de são. O gato que se esconde e deixa o quadril aparecendo na lateral da cortina. A mulher gorda modifica a silhueta feminil, pesada e de formas protuberantes ocupa espaço, chama atenção. O homem gordo por sua vez, rasura a forma masculina, ganha volume ao redor dos mamilos, cresce quadris. A criança gorda pode ser a “valentona”, mas em geral, ocupa a posição de alvo preferencial das humilhações, é “mole”, “frouxa”, “chorona”, “indefesa”. Uma pessoa gorda desolada na rua, dizem, parece um “bebezão”. Há uma epidemia de obesidade e sobrepeso causando alarde e mantendo a indústria da dieta lucrativa. Pois uma vez gordo, o indivíduo será colocado no mesmo grupo das crianças, mulheres e loucos. Você pode ser contaminado, intoxicado. O corpo gordo é taxado de incapaz, descontrolado e obsessivo.

É até charmoso dizer que adora beber com os amigos, ser chocólatra, adorar friturinhas. Pode-se sentir prazer em comer é até sensual se você é a Nigella ou o Rodrigo Hilbert na GNT. Mas se é gordo, discorrer sobre gastronomia e aquele prato preferido faz parecer um disco riscado. Se alguém de corpo magro faz um prato com muito carboidrato e mistura vários molhos ao redor é completamente admirável, o exercício de um dom. Gordo que repete o prato acelera em quilogramas o relógio bomba. Para atenuar, dizem “você nem é tão gorda”, “você tem ossos largos”, “carne pra pegar”. Soa muito com “você não é negra, é moreninha, morena jambo, morena clara”. E o adjetivo vem acompanhado de um “mas”. “Você é gordinha, mas tem o rosto bonito”, “Mas quem precisa de um corpão quando se é inteligente assim? Pelo menos você não é fútil, todo corpo um dia cai, a idade vem”, “Mas você é engraçada”. A gordura é porém, a partir dessa defasagem de princípios (mentira, imaturidade, compulsão, covardia)  o papel social gordo se estabelece. O gordo é sombra, coadjuvante,  simpático solitário, o doente.

A amostra colhida em laboratório gera números impressos, os dados ganham substância na medida em que um profissional da saúde os atesta frente ao paciente. Não importa se nas mãos os resultados da última década apontam bons resultados, o cardiologista, o ortopedista, o comediante, seus parentes, o ginecologista, as pessoas na praça de alimentação encontrarão em um movimento traiçoeiro, o indício da patologia. A única maneira de alçarem o gordo a uma categoria mais digna é o emagrecimento, a dieta. Sua palavra, seus exames, sua disposição, não possuem relevância. Emagrecer diante dessa pressão é uma escolha. Uma escolha nada covarde que deve ser respeitada, seleção indubitavelmente coercitiva. Ao aceitamos o corpo gordo tão somente magro, resta o ostracismo social legitimado pelas instituições e o que é mais difícil de enfrentar, a vida cotidiana e o policiamento da rotina disfarçado de neutralidade política. O corpo gordo marginalizado, evadido da via pública, coberto por panos em altas temperaturas, é segregação.  O corpo gordo epidemia contagiosa, “ônus aos cofres públicos”, política de extermínio, é eugenia. Nas entrelinhas de cada conselho emagrecedor não mora a preocupação com a saúde, o fôlego ou a qualidade de vida, sejamos francos, o que se quer é a adequação metrificada, a aceitação social, encontrar roupas com facilidade, não entalar em uma catraca, deixar de ser motivo de piada, sair do estado de quase sujeito. Sinceramente, não me interessa mordiscar barrinhas de colágeno, prefiro ser gorda e amada, sem zíper na boca.

Deborah Sá tem 1,70 de altura, pesa 83 quilos, tem IMC 28,7 e usa calça jeans tamanho 50.

10 Comentários

  1. Ane Brasil said,

    Excelente texto, oportuna reflexão.
    Muito bom ler isso quando se está aderindo à paranoia.
    Sorte e saúde pra todos!

  2. as pessoas fazem questão de me lembrar da saúde quando digo que sou gorda e me gosto e me quero assim. ai, algumas vezes sinto vontade de apenas virar a cara e deixar de querer mostrar que estão sendo gordofóbicas. elas NÃO querem entender.

  3. Trevize said,

    É um texto muito bom, com alguns exageros,
    Ainda assim obesidade é doença.

    • Deborah Sá said,

      Exagero é as pessoas sustentarem um discurso de preocupação com a saúde, quando na verdade, querem apenas corpos não-gordos.

  4. Gostei do texto! Acho que ele remete ao debate sobre o direito/reconhecimento a/da diferença. No caso da obesidade esse temática esbarra num discurso médico articulado que condena a obesidade e a trata como problema público de saúde. Nem lá e nem cá. Concordo que as pessoas devem ter o direito a manter o corpo que desejarem e que há preconceito generalizado na sociedade contra pessoas obesas. Por outro lado, o discurso médico não se dá no vazio: nos últimos 30 anos uma epidemia de obesidade tem acometido países desenvolvidos e em processo de desenvolvimento devido a fatores sociais, econômicos e culturais; além disso há uma série de enfermidades que tem relação direta ou indireta com a obesidade e podem ser evitadas mantendo uma alimentação mais saudável e evitando o sedentarismo. Acho que os dois extremos (uma ditadura da magreza ou a defesa cega da obesidade) são perigosos. Bom senso e moderação. Assim como uma barriguinha não é um atestado de morte anunciada, comer/beber corretamente e praticar atividades físicas não é se submeter a lógica do corpo perfeito.
    Abraço!

  5. Serjão said,

    olha gente, a gordofobia existe, isso é fato. Digo isso porque já fui um moleque obeso e sei quanto gordo sofre e hoje estou um pouco acima do peso (uma situação bem melhor). O negócio chega ao cúmulo de existirem sites que promovem a anorexia. Lamentável.

    Mas não acho q tocar o f* com relação ao peso e ser o gordinho feliz seja o correto, como prega a autora. Digo isso pq o peso influencia diversas doenças sim, como a hipertensão e o diabetes, que chegam sem aviso. Meu pai era um desses casos de “obeso saudável”, mas agora na velhice tem esses problemas e o joelho bastante sobrecarregado. A gordofobia e o culto ao corpo são costumes condenáveis, mas o sobrepeso exige atenção, sejamos realistas.

    • Deborah Sá said,

      Serjão,

      Conforme a idade passa, o corpo desgasta, especialmente se não for movimentado. Problemas no joelho e nas costas são bastante comuns com a velhice, sendo gordo ou não. Uma alimentação repleta de frituras e coca-cola certamente não fazem bem e novamente, isso não tem relação direta com o fato de ser gordo.

  6. raissa said,

    O mais bizarro foi abrir essa pagina, nesse texto e ver embaixo uma propaganda de academia a 10,99 Euros por mês.

    • Deborah Sá said,

      Já que não pago a hospedagem, o wordpress coloca anúncios bizarros :P

  7. nunesinajara said,

    Muito bom o texto! Quem mais incomoda é a mente e a moral da sociedade que contribui para “gordofobia”. São elas que não sabem conviver, de algum forma o “gordo” provoca o status quo da sociedade por se como ele é.E como uma especie de repressão as pessoas alimentam este sentimento. Abaixo a ditadura do corpo.


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