23 janeiro, 2014

Senha A22? A23?…

Posted in Cotidiano, Crônicas e contos às 1:05 pm por Deborah Sá

Ao meu lado, pele parda, boné, barba por fazer, leve hálito de bebida. Onze horas da manhã esperando o atendimento na mesa do banco. Passou meia hora e mais outra meia hora. Baforamos, os dois com um pouco de pena da atendente sozinha, clientes sucessivamente. Apontou para o pedaço de minha tatuagem despontando na gola do vestido cinza.
– Ei, bonita, hein?
– Obrigada.
– Tenho a minha também.
Mostrou dragão em um braço, no outro, pergaminho com o nome da filha. Estava lá para fazer empréstimo. Baixou a cabeça em desalento. “Sabe como é…a gente começa e não sabe mais parar”. Contou as primeiras vezes na cocaína e as poucas vezes que experimentou crack. Histórico familiar: Esquizofrenia. Diz trabalhar armado, às vezes ouve vozes as quais mandavam ele se matar. Era herói para filha e esposa, agora, uma vergonha. Claramente sentia embaraço. Na infância apanhava do pai, chegava tarde, sempre depois das sete, ameaçando colocar fogo na mãe. “Eu não quero ser igual meu pai, não quero ser alcoólatra”. “Não sei o que fazer com a minha raiva”. Já trabalhou de segurança em banco, explicou como funciona o detector, o peso de um bom colete à prova de balas (porque 38 é oval, entra e para, não é igual metralhadora e outros modelos). É soldado. Nunca operou alterado. Já viu colega de trabalho comparecer ao serviço “se mordendo”, “com pupila gigante”. Diz não saber por onde começar. Sugeri que escrevesse. Escreve, no celular “tem quase dez páginas, já”. Tentou duas vezes entrar na polícia. Na primeira foi sincero “Estou aqui pra matar bandido”. Não passou. Na segunda buscou dicas “Quero proteger a sociedade”. Aprovou. Melancolia exalando mais que o etílico. Não cessava. Sugeri fazer faculdade de Filosofia, já tentou, “muito parado!”. Pensou em fazer Psicologia, porém, afirmou não ser bom ouvinte. “Às vezes as pessoas só precisam de uma palavra amiga”, pontuou. Espontaneamente depois de quase meia hora abrindo o peito, soltou: “Era fechado, falava nada, fiz teatro, adorei. Sou noveleiro. Adorava o teatro, era feliz ali”. Eu o disse: “Isso, teatro é uma ótima, quem sabe, né?” A moça chamou meu número. “A24?” Levantei, aprumei o vestido. Acenei desejando boa sorte, o desconhecido agradeceu. Quiçá haverá outro encontro entre nós, talvez eu de punho em riste, talvez correndo, talvez, ele, fardado, cassetete na mão.

18 janeiro, 2014

Rolezinho

Posted in Eventos tagged às 9:24 pm por Deborah Sá

Em Junho de 2006 fui em um Orkontro. Era assim que nós, rejeitados e desajeitados encontrávamos nossos pares. Escolhíamos um shopping com o intuito de conhecer pessoalmente quem desabafávamos on-line em conversas privadas, MSN. O fórum/comunidade era Orgulho Nerd. Foi assim que conheci Yuri, meu companheiro até hoje, além de outras pessoas queridas com as quais mantive contato na migração ao Facebook. Mas por que milhares de jovens fazem há tempos Orkontros e simulares e isso nunca foi notícia? Nosso grupo não era tão grande e a cor majoritária de nossa pele branca sequer levantava suspeita.

Desrespeitoso supor que o rolezinho não tem o direito de existir, criticar a expansão da inclusão digital. Se são barrados e ridicularizados por fazer coisas que sempre fizemos, está posto o privilégio. Não é só aí que eles são impedidos, nos fóruns de discussão on-line é exigida certa etiqueta gramatical, por exemplo, se faz piada com quem não tem ensino superior ou estudou até o ensino médio. Passar mais de dez anos dentro da instituição escolar, cursar a universidade, nada disso nos dá, senão, privilégios de uma organização social meritocrática, vantagens no mercado de trabalho. Quanto maior a grana, maior a grade, a diferença é muitos ganham pulseirinha, brindes, chaves e acesso a conteúdos exclusivos. O rolezinho escancara esse manto fino, quase transparente, mas, fortemente distintivo. O que barra a circulação desses jovens é a hexis corporal: A história e os signos inscritos no corpo de cada indivíduo.

Integrantes do rolezinho provavelmente sentam-se calados em ritos religiosos. Fazem barulho no templo do consumo porque estão em grande número, assim como fazemos em aglomerações. Encontro com amigos e gente nova não é procissão ou enterro onde se tira o boné em respeito. Que o rolê esteja em toda parte.

16 janeiro, 2014

Relacionamento não-monogâmico: Romance e ciúme

Posted in Afetos tagged , , , , às 1:30 pm por Deborah Sá

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Cecília conhece Roberto, eles começam a namorar. Embora Roberto ame muito Cecília, se apaixona por Letícia, colega de trabalho. Letícia era casada com Antônio e descobriu uma traição “virtual”. Furiosa, cedeu às investidas de um amigo, João. Em uma quinta-feira, Letícia contou a decisão para Antônio com um sorriso nos lábios e em seguida, emendou o pedido de divórcio. As histórias e os nomes fictícios da pequena narrativa mostram dilemas que qualquer relacionamento pode enfrentar. Não-monogâmico é aquele que questiona a monogamia como constituinte do afeto, sexo e/ou amor. Cada relacionamento é elaborado com base em acordos verbais de tal forma que o interesse de todos os envolvidos tem de ser respeitados, negociados.

Cecília e Roberto, por exemplo, haviam acordado que o que havia entre eles era amor e o que viviam nas relações paralelas era somente sexo. Tudo muda, quando Roberto passa a amar duas pessoas ao mesmo tempo: Cecília e Letícia. Eles viviam um relacionamento aberto, ciente de que terá de escolher entre uma das duas, está posto o entrave. Cecília exigia exclusividade e não aceitaria dividir o tempo de Roberto com mais ninguém. Letícia, também separava conceitualmente sexo de amor e afeto, era permissiva ao sexo casual de seu marido Antônio, contudo, julgava inadmissível o compartilhamento emocional para outra e ele fez isso on-line. Letícia sabia que João era o único homem com quem Antônio não toleraria envolvimento.

O oposto do ciúme é a compersão, isso é, ficar muito feliz quando alguém que amamos está com outra pessoa. Ao invés de sentir raiva ou medo de perder, surge felicidade. Um relacionamento poliamor é aquele que envolve três ou mais pessoas, os acordos podem ser múltiplos, desde polifidelidade (entre as pessoas daquele núcleo) até definir quem é/será secundário ou prioritário na dinâmica. Em RLi (relações livres) não está em questão a negociação da profundidade ou o envolvimento com terceiros, o amor, o afeto, o sexo, são componentes que priorizam o desejo, não há ninguém secundário, promessa de fidelidade parcial, afetiva, sexual. Independentemente da escolha, as relações não-monogâmicas não são frias. O romance não é incongruente em qualquer uma das dinâmicas. Ciúme, sentimento de posse, não é certeza do amor. Quantas pessoas ainda escondem ciúmes de ex-parceiros?

Mesmo em um relacionamento RLi, a compersão pode não existir em todos os casos, da mesma forma que nem sempre os amigos de nossos amigos despertam simpatia. Em um relacionamento não-monogâmico que pressupõe um núcleo e hierarquia, o ciúme tem maior probabilidade de ocorrer. Isso é trabalhado nos acordos, por exemplo: “Podemos/não podemos ficar com nossos amigos”, “Fique com quem quiser, só não me conte os detalhes/quero saber tudo detalhadamente”, cada casal ou grupo sabe das próprias diretrizes. Ao refletir sobre práticas afetivas e sexuais como construção social nunca mais sentiremos ciúme? A resposta é não. Há uma distância considerável (por vezes, abismal), entre o que acreditamos e o que temos condições de levar à prática. Uma pessoa virgem pode pensar muito em sexo, porém, não se sente pronta para quebrar essa barreira tão cedo. Semelhantemente, um indivíduo pode atravessar o período de transição em monogamia/relacionamento aberto/poliamor/RLi de maneira bastante dolorosa. São hábitos arraigados desde idade remota reforçados pela cultura, os valores tradicionais, a forma de se portar no mundo. Por mexer com certezas tão profundas leva à incompreensão. Não-monogâmicos podem ser falsamente interpretados como sujeitos sem amor-próprio ou ainda, egoístas e mesquinhos. Nos videoclipes, nas letras de música, nos filmes, o amor “de verdade” é aquele que dói, faz espatifar vasos e pratos, é “ter olhos para mais ninguém”. A gente compra a ideia mesmo com os sentimentos e desejos nem sempre caminhando nessa direção.

Em conversa ao telefone com meu amigo Elias, chegamos na analogia de que o ciúme é uma criança aborrecida. Sente fome, sono, faz birra, quer seu paninho ou chupeta, atenção. Ignorar o chamado ou colocar no “cantinho da disciplina”  é abrir espaço para a traquinagem, colocará taxinha na cadeira, jogará chiclete no cabelo, riscará o carro, furará pneu, gritará mágoas. Excesso de cólera faz parte do ciúme, bem como a urgência e a vingança. A insegurança e a carência são a ocasião perfeita para o surgimento dessa avalanche. Ao invés de nos culparmos, sentir remorso ou descontrole sobre as próprias emoções, é mais justo respirarmos fundo e questionarmos com sinceridade: Qual o motivo da raiva? De que exatamente temos medo? Esse ataque é para se defender contra o que? É preciso respeitar a consciência, o desejo. A aprendizagem leva tempo até ser reconhecida e assimilada. Recurso teórico auxilia o refutar, ter projeção, um plano de ação possível dentro das condições do presente. Acalmemo-nos: a vida é desfazer nós, nós de nós mesmos.

Guest Post – A História de horror de M.

Posted in Guest Post às 12:27 am por Deborah Sá

M. entrou em contato através de meu e-mail e compartilhou a difícil experiência a qual foi submetida na infância. Como deseja tornar a história pública sem quebrar o anonimato, pediu que publicasse aqui no blog sua história. Em respeito a ela e a todas as pessoas que vivem após semelhante acontecimento, expresso profunda admiração e respeito. Eis o relato:

“Deborah, li seu post “A minha história de horror” e tenho uma história quase parecida. O sujeito da minha história é meu irmão, 4 anos mais velho que eu. Eu era tão criança, que não sei dizer com que idade começou, mas acho que a primeira vez eu tinha 6 ou 7 anos. Ele me sugeriu penetração numa tarde em que não tinha ninguém em casa. Eu não brincava na rua, eu mal tinha amiguinhas na escola; eu só tinha ele pra brincar. Depois ele foi me mostrando sites pornográficos, me instigando a querer aquilo. Quando eu tinha de 8 pra 9 ou 9 anos era quase que diário. Penetração anal c/ calcinha de um jeito que eu não sentia quase. Só via depois que minha calcinha ficava melecada. Era meio que uma condição pra eu jogar o video game dele “estando bem” com ele. Mas até aí, era algo viciadamente consentido, porém, “consentido”. Meus hormônios foram agindo, meu corpo foi crescendo e eu passei a não querer mais; pensava que poderia engravidar e me sentia muito suja. Tenho uma família muito católica e tinha muito medo do que poderia acontecer se descobrissem. E então, ele passou a passar a mão em mim quando eu menos esperava. Qualquer favor que ele me fazia era cobrado com uma apalpada na bunda. Depois, ele começou a visitar meu quarto no meio da noite pra apertar meu peito e ir embora. Eu ficava imóvel. Quando ele ia embora, me acabava de chorar. Eu me sentia tão violada, invadida, violentada. Era uma raiva imensurável. Comecei a escrever carta pra minha mãe, pensei em roubar a chave e trancar a porta do quarto dele depois que ele a fechasse, pensei em matá-lo e depois me matar, pensei em como eu contaria uma coisa dessas, e que, se eu contasse, ia acabar com a minha família. Detalhe esquecido: eu tinha medo do escuro, por isso dormia de abajur aceso e porta aberta. Isso tudo acabou quando eu passei a fechar a porta do quarto. Eu tinha uns 11 anos. Graças a isso tudo e outros indicativos de falta de caráter e escrúpulos desse ser, não tenho nenhum tipo de relação com ele mesmo ainda morando na mesma casa. A primeira pessoa pra quem contei foi meu atual namorado, com quem estou há 2 anos. Eu tinha 17 quando contei pra ele. Durante meses a gente conversou muito sobre isso e eu fui entendendo melhor o que me havia acontecido. Ganhei segurança o suficiente pra contar pros meus pais. Contei em janeiro de 2013. Eles ficaram chocados, mas também, só isso. Minha mãe na época tinha me perguntado do jeito dela e eu disse que não, por ter nojo/vergonha. E na hora eles resolveram que meu pai ia falar com ele. Uns 15 dias depois, a madrasta do meu pai faleceu, o que adiou (MUITO) essa conversa, que acabou acontecendo enquanto eu tava numa festa e meu pai trabalhando. Eu até hoje não sei se essa conversa aconteceu mesmo e dela nada mudou. Aqui nessa casa a moral cristã faz com que tudo seja em tom conciliatório, que tudo “fique bem”. NENHUMA medida, além da “conversa” e de me cobrarem sugestões de medidas quando eu cobrei atitudes, foi tomada até hoje. Já faz mais de um ano. Eu tenho uma vontade enorme de que todo mundo saiba o que aconteceu. Eu queria escrachá-lo, dá-lo uma surra eu mesma, qualquer coisa que descontasse minha raiva. Mas, quando meus pais estavam decidindo ainda o que iam fazer eu tive uma certa “dó” dele! Me odiei muito por sentir isso. É realmente asqueroso, doloroso pra mim sentir qualquer esboço de afeto por esse demente (sim, eu tenho indícios de que ele é um doente, mas aí é outra história). Mas, pensando com mais calma depois, vi que ele e outras coisas traumáticas que aconteceram comigo não conseguiram destruir algumas coisas que eu considero essenciais em um ser humano. Escrevo, divulgo, mesmo que anonimamente, porque pra mim ainda não acabou (eu convivo com ele, divido o banheiro, minha mãe se refere a ele pra mim como “seu irmão”), não que o meu caso seja ultra excepcional, mas gostaria e acho necessário que seja debatido.

Queria publicar isso num blogueiras feministas da vida com foto, nome completo e rg dele, mas eu ainda MORO com ele e não queria causar mais sofrimento aos meus pais com a exposição pública do caso. Ele era “criança” também, e me estuprou. Acho que é algo a se pensar. Me desculpe por gastar tanto tempo e espaço seus, mas se eu fizesse isso por qualquer outro meio eu não estaria anônima.

Vi em você alguém aberta a relatos como o meu. Obrigada por ser esse portal. 

Beijão,

M.”

Conforme disse por e-mail,  o julgamento em não denunciar esse homem diz respeito a sua consciência. É perfeitamente compreensível nutrir raiva por ele, não se culpe. De acordo com a última informação que tive acesso, o estupro prescreve até 20 anos depois da data do ocorrido se envolve menores de idade. Não sei o que acontece se os dois envolvidos eram crianças (alô, advogadas). Você tem o direito de tornar a história pública se assim desejar e a lei, tem obrigação de proteger. Sei que é difícil, especialmente em dias de tristeza, mas você não fez nada para merecer essa violência coercitiva, o estupro. Foi um crime e marcou profundamente sua trajetória, contudo, é possível olhar como episódio de superação. Obrigada pela confiança.

Beijos feministas,

7 janeiro, 2014

Gorda, um posicionamento político

Posted in Corpo tagged , , , às 4:13 pm por Deborah Sá

Fumo, bebidas alcoólicas, dormir tarde, beber pouco líquido. Praticar atividades físicas, comer de três em três horas, retirar o glúten. São alternativas diferentes de se relacionar com os usos e funções do corpo, a administração do tempo. Tem gente que prefere criar uma dinâmica funcional e utilitária, nutricional, contam-se as porções, busca-se ganhar massa, reduzir medidas. Outras pessoas, preferem escolher pelo prazer farinha branca e alimentos açucarados. Para todos esses hábitos, há corpos magros e gordos, jovens e velhos, com mais ou menos idas ao médico.

Qualquer texto criado por uma pessoa gorda que explicitamente não segue dietas emagrecedoras (nem pretende seguir), é visto como um grande disparate, um passaporte só de ida ao leito do hospital. O que não se considera é que há muitas razões para alguém se tornar gordo e deliberadamente, continuar gordo. Nem todo gordo tem uma relação de ódio e punição com o que ingere, nem todo gordo é desconectado do próprio corpo. A separação entre esses pólos, inclusive, pode acontecer por meio de dietas e mortificação dos desejos. A cinta modeladora, as cirurgias plásticas e a fita métrica são cilícios, mais ou menos abrasivos. Segundo o ditado é indelicado perguntar para uma mulher sua real idade, também se tornou indecoroso perguntar o peso e o manequim.  Ao experimentar a tensão de não entrar na etiqueta de costume, pode se tomar duas decisões: Ou se compra apertado “porque merece, ninguém mandou comer demais” ou abandona-se a loja. O leitor pode supor que aí está a prova de que gordos naturalmente se odeiam. Discordo. O gordo que repete para si que é uma pessoa desprezível e descontrolada, é como a criança que em uma brincadeira imita a mãe repreendendo. Lembra da regra aprendida e a aplica. Adultos ou não, somos sujeitos extremamente suscetíveis aos estímulos externos. Ódio, culpa, remorso, agressividade se aprendem, para dentro e para fora ao longo da vida.

Mas vamos supor que alguém realmente toque o foda-se e resolva se esbaldar com alimentos gordurosos. Vamos supor, que as pessoas sobrecarreguem um pouco seus fígados. Vamos supor, que as pessoas descarreguem suas ansiedades e frustrações em hábitos pouco saudáveis. Chamá-las de “comedoras de lixo” por consumirem muito carboidrato, “fracas e perdedoras” por usarem entorpecentes, “estúpidas” por suas escolhas alimentares e sedentarismo; faz a meritocracia e o capacitismo baterem palmas. Parabéns (só que não). Superar limites, se sentir dono do próprio corpo e comer de forma consciente não tem como resultado último a perda de peso. Inacreditável que enquanto mulher, o maior êxito que devo aspirar é ter um corpo magro e jovem até o final dos meus dias. Pela escolha em permanecer gorda, assumem que eu odeie meu corpo ou seja dissocio com escolhas alimentares pouco conscientes. Mesmo que seja vegana desde 2008, não tome refrigerante há dois anos (me deixa estufada e tira o apetite), pratique exercícios com certa regularidade, adore espelhos e movimento, problematize a separação entre mente e corpo, espírito em sobreposição da matéria. Aparentemente, a única forma de auto cuidado possível é perder peso e manter as unhas feitas, do contrário, faço apologia a gordura como máxima estética e o desmazelo de modelo. Minha proposição é de que é mais importante ouvir as pessoas e respeitar suas angústias do que julga-las imaturas e desequilibradas por costumes. Elas não são dignas de cirrose, câncer no pulmão, overdose, perna amputada pela diabete. Merecem mais do que mau agouro e maldições. Já não basta fiscalizarmos a sexualidade? Os orifícios e genitais? Temos de estender o controle dos corpos em suas proporções? Por que raios incomoda tanto a circunferência abdominal alheia? Quando quero saber se alguém precisa de amparo pergunto se está tudo bem, se precisa desabafar. Não faz qualquer sentido abordar uma pessoa triste com o imperativo disfarçado de pergunta: “Já pensou em emagrecer?”. Culpamos a pessoa gorda pela tristeza que sente em ser maltratada, pelas grosserias que ouve. Minorias sociais tem mais tendência a depressão e a tentativa de suicídio e essa vulnerabilidade, é aberta com o preconceito sistemático. Os gordos aceitáveis são os que tentam não agir ou parecer gordos, os que estão em busca da desconversão. Defender a vivência da sexualidade sem restrições significa acreditar que gays, sejam pobres ou ricos, comedidos ou espalhafatosos, de terno, barba e/ou salto, merecem igual reconhecimento. Pouco me importa se a mulher escolhe casar virgem ou ser biscateira, tem o direito de usufruir a liberdade.  Puta, viado, sapatão, se foi possível apropriar dessas identidades, por que ainda relutamos tanto em sermos gordas? Que mal há em transformar isso em símbolo de resistência, beleza e empoderamento? Passou da hora de não mais pedirmos ou procurarmos desculpas.

4 janeiro, 2014

A patologização da gordura

Posted in Corpo tagged , , , às 6:14 pm por Deborah Sá

Um corpo gordo caminha na praça de alimentação, os olhares acompanham. As formas arredondadas tremulam aos olhares da mãe preocupada e alerta a filha pequena: “Quer ficar daquele jeito? Pois trate de comer a cenoura do prato”. O bebê rechonchudo é amado e lindo até determinada idade, dobrinhas depois de certo tempo não são mais graciosas. Um gordo está no corredor do ônibus, algumas pessoas resmungando dizem que ele ocupa espaço demais. Segundo a reação de quem o empurra (aparentemente a maciez da pele gorda amortece a dor), o gordo é árvore que caiu depois da chuva e amassou o carro. É fatalidade que faz parar no caminho e curiar, abanar a cabeça em condolência ou em espírito zombeteiro, fazer piada. “Gordo só faz gordice” é o novo “O médico pediu para não contrariar, sabe como é, ele não bate bem”.

O altruísta da dieta diz com voz macia que só quer ver o teu bem, se preocupa com a sua saúde. O que é ser são, saudável, senão ter o aval da medicina atestando normalidade? Certa vez, fui ao ginecologista pedir uma guia médica dos exames de rotina (como faço todos os anos). Pouco depois de me cumprimentar o homem de cabelos grisalhos e jaleco, disse enfaticamente “Seria bom cuidar desse sobrepeso”. Eu o tranquilizei dizendo que estava bem com meu corpo, não pretendia emagrecer, tinha uma boa alimentação e embora não seja uma atleta, procuro me manter em movimento. Com desconfiança, reparou a minha tatuagem e recomendou um exame de proteínas. Narrou o quanto sangrou em sua mesa um paciente como eu, em uma cirurgia. O pobre diabo (magro) não cicatrizava e jorrava muito sangue, uma cena de terror escatológico dito em tom mais grave, dramático. Sorri de lado, disse que não tinha medo. O ginecologista não acreditou no resultado quando voltei ao consultório com o papel em mãos “Mas tem certeza que não come mesmo leite e carne? Tem certeza que não sente os joelhos doerem? Tem certeza? Não sente nada agora, que é nova, depois dos quarenta…”.  Caso os exames indiquem excelentes resultados, a expressão é de espanto, surpresa e incredulidade. Isso é, se você é gordo, nem um laudo médico é capaz de atestar sua normalidade. O sobrepeso é sinal de alerta, a obesidade é calamidade. O gordo saudável é no máximo, uma encenação mequetrefe de atores canastrões. Mentira, um enigma da medicina. Alguém está mentindo e esse alguém é o gordo.  É o louco fingindo de são. O gato que se esconde e deixa o quadril aparecendo na lateral da cortina. A mulher gorda modifica a silhueta feminil, pesada e de formas protuberantes ocupa espaço, chama atenção. O homem gordo por sua vez, rasura a forma masculina, ganha volume ao redor dos mamilos, cresce quadris. A criança gorda pode ser a “valentona”, mas em geral, ocupa a posição de alvo preferencial das humilhações, é “mole”, “frouxa”, “chorona”, “indefesa”. Uma pessoa gorda desolada na rua, dizem, parece um “bebezão”. Há uma epidemia de obesidade e sobrepeso causando alarde e mantendo a indústria da dieta lucrativa. Pois uma vez gordo, o indivíduo será colocado no mesmo grupo das crianças, mulheres e loucos. Você pode ser contaminado, intoxicado. O corpo gordo é taxado de incapaz, descontrolado e obsessivo.

É até charmoso dizer que adora beber com os amigos, ser chocólatra, adorar friturinhas. Pode-se sentir prazer em comer é até sensual se você é a Nigella ou o Rodrigo Hilbert na GNT. Mas se é gordo, discorrer sobre gastronomia e aquele prato preferido faz parecer um disco riscado. Se alguém de corpo magro faz um prato com muito carboidrato e mistura vários molhos ao redor é completamente admirável, o exercício de um dom. Gordo que repete o prato acelera em quilogramas o relógio bomba. Para atenuar, dizem “você nem é tão gorda”, “você tem ossos largos”, “carne pra pegar”. Soa muito com “você não é negra, é moreninha, morena jambo, morena clara”. E o adjetivo vem acompanhado de um “mas”. “Você é gordinha, mas tem o rosto bonito”, “Mas quem precisa de um corpão quando se é inteligente assim? Pelo menos você não é fútil, todo corpo um dia cai, a idade vem”, “Mas você é engraçada”. A gordura é porém, a partir dessa defasagem de princípios (mentira, imaturidade, compulsão, covardia)  o papel social gordo se estabelece. O gordo é sombra, coadjuvante,  simpático solitário, o doente.

A amostra colhida em laboratório gera números impressos, os dados ganham substância na medida em que um profissional da saúde os atesta frente ao paciente. Não importa se nas mãos os resultados da última década apontam bons resultados, o cardiologista, o ortopedista, o comediante, seus parentes, o ginecologista, as pessoas na praça de alimentação encontrarão em um movimento traiçoeiro, o indício da patologia. A única maneira de alçarem o gordo a uma categoria mais digna é o emagrecimento, a dieta. Sua palavra, seus exames, sua disposição, não possuem relevância. Emagrecer diante dessa pressão é uma escolha. Uma escolha nada covarde que deve ser respeitada, seleção indubitavelmente coercitiva. Ao aceitamos o corpo gordo tão somente magro, resta o ostracismo social legitimado pelas instituições e o que é mais difícil de enfrentar, a vida cotidiana e o policiamento da rotina disfarçado de neutralidade política. O corpo gordo marginalizado, evadido da via pública, coberto por panos em altas temperaturas, é segregação.  O corpo gordo epidemia contagiosa, “ônus aos cofres públicos”, política de extermínio, é eugenia. Nas entrelinhas de cada conselho emagrecedor não mora a preocupação com a saúde, o fôlego ou a qualidade de vida, sejamos francos, o que se quer é a adequação metrificada, a aceitação social, encontrar roupas com facilidade, não entalar em uma catraca, deixar de ser motivo de piada, sair do estado de quase sujeito. Sinceramente, não me interessa mordiscar barrinhas de colágeno, prefiro ser gorda e amada, sem zíper na boca.

Deborah Sá tem 1,70 de altura, pesa 83 quilos, tem IMC 28,7 e usa calça jeans tamanho 50.