28 dezembro, 2013

Na concepção bancária de amor

Posted in Afetos às 1:09 am por Deborah Sá

Meu amor não vale o real. Ou centavo, ou dezena, ou centena de milhar. Não vira cifrão. Por princípio, encaixa macio nos corpos, nas orelhas, nos dedos passeando. Repousa nos bolsos tão somente se abrigam fotografias e versos. Cabe em beijos, massagens, peito feito travesseiro, dentes mordiscando, ombro amigo. Tudo onde repousar, cabe. Tudo onde botar semente, cresce. Não faz sentido perguntar quem amo mais, quem amo menos. Coração não é cofre e amor não é dinheiro embaixo do colchão. Afetos germinam e florescem o ano inteiro, mal não há em distribuir ramalhetes.

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20 dezembro, 2013

Apocalipse – Capítulo V

Posted in Crônicas e contos às 10:50 am por Deborah Sá

Um estranho acontecimento mudou embalagens e enlatados, cada supermercado, vendinha, restaurante e lanchonete. A dispensa dos lares, todos os bares. O industrializado ganhou um microscópico selo prateado: V. Os queijos não derretiam, o leite tinha gosto de soja, arroz, amêndoa, abacate. Tudo, menos leite. Os consumidores voltavam ao supermercado com as embalagens estourando de tão pesadas, os comerciantes recusavam a devolver o dinheiro, afinal, estava no prazo de validade. Era domingo. Augusta, aposentada, viúva, dona de casa, temente a Deus, seguiu a rotina. Fez o macarrão, colocou a coca-cola na mesa e esperou os netos chegarem com o frango. Demoraram, resolveu ligar. O neto, em soluços do outro lado da linha, dizia que as granjas e as padarias amanheceram rodando grandes máquinas vazias. As estruturas metálicas rangiam, brilhando, limpas. Augusta, falando pausadamente pediu para que ele viesse mesmo assim, tinha macarrão em casa, era final de ano. É natural as pessoas gastarem mais dinheiro do que gastam quando já não tem.  Ele disse que não estava em condições, chamou ela para a missa, era momento de esperança e fé. Ela achou melhor comer antes de sair e assim o fez. O pastor, Cléber, estava com os fiéis em um vigília e depois do jejum, decidiu comprar presunto e queijo. Apertando a bíblia mole contra o peito, andou pelos corredores, o mercadinho estava completamente revirado, as embalagens rasgadas, a sessão de frios reluzente com a luz branca quase hospitalar. Televisão não falava de outra coisa. A revista semanal mais vendida dizia com todas as letras ser plano de dominação mundial dos barbudos comunistas, eles se defendiam com argumento irrefutável de inocência: – Não fomos nós, ainda existe coca-cola.

18 dezembro, 2013

Trepadeira

Posted in Desejo às 12:52 am por Deborah Sá

Em feixe solar. Na chuva, no gotejar. Surge candeeira. Trepadeira. Feito o incendiar. Nos dias cinzentos. Lhe abraça, em brasa. Nos dias amenos, os trajes pequenos. No canteiro e nas flores, por entre os jardins. Enrosca pelas pernas, em cima de mim. Sorri gratuita e quase levita. Distraias. Tão logo, subirá, as saias. À assistir o tecido distendido. Fazer-te amante. Querer-te atrevido. Torso arquejante, trêmulo de voz, dobro tua coluna. Te faço. Nós.

13 dezembro, 2013

2013 – Mortificação

Posted in Egotrip às 12:37 am por Deborah Sá

A vivência universitária me transformou. Permeou os dias, tomou o juízo, mexeu nos afetos, engoliu meus domingos, jogou no olho do furacão. 2013 foi um eclipse. Houve momentos ensolarados, os que alegraram, sabem. Eu os disse. E essa é a resolução do próximo ano, eu direi. A raiz do cristianismo me cooptou na mortificação, no silenciamento. Isso significa, em outras palavras que peço desculpas demais, me justifico demais, aproximo cheia de cuidados. O ano em que puxei raízes para fora, mas ao menos disse, ao menos não engasguei, não rodou na mesa um único vintém de arrependimento.

There’ll be days when I’ll stray
I may appear to be constantly out of reach
I give in to sin
Because I like to practice what I preach
I’m not trying to say, I’ll have it all my way
I’m always willing to learn
When you’ve got something to teach
And I’ll make it all worthwhile

 

10 dezembro, 2013

Freática

Posted in Desejo às 2:03 pm por Deborah Sá

Era uma vez, uma boceta. Uma boceta grande, molhada e barulhenta. A boceta gostava de envolver dedos por entre seus cachos. Aberta por delicadezas, era boceta escancarada. A boceta fazia rir, ela ensopava a calcinha, criava gotas de sinuosidade em riscos pela perna, empapava as camisetas de improviso. Macia e inchada, maior ainda com tempo de sobra. Era uma vez, uma boceta.

A certeza mora dentro de uma gaiola

Posted in O pessoal é político às 10:29 am por Deborah Sá

Todo movimento, por mais bem-intencionado, pode acreditar que basta resolver sua pauta para um mundo perfeito. O patriarcado. A monogamia. A propriedade privada. O capitalismo. O racismo. O especismo. A hegemonia heterossexual. As igrejas. A escola. Porém, essas estruturas são gigantescas e estão diluídas em nossas práticas, nossos hábitos, nos nossos afetos, na organização do tempo, na vivência. A militância não pode ser um estágio finalizado como quem diz “Pronto, já pensei nessas questões, agora estou imune”, não dá para ser isento, se você não revê suas práticas, se não faz uma análise constante de suas certezas, se não se refaz, você é dogmático. Acomodou, solapou o discurso, colocou ponto final, estagnou. Se a prática é a mesmíssima de anos atrás, sem crises, sem rupturas, a militância virou caminho sem surpresas, a rota de sempre, o piloto automático. Tais estruturas e as respectivas especificidades são atreladas umas nas outras, é relacionamento dialógico, eleger única proposição é dormir e cobrir os braços -por vezes, a cabeça- deixando os pés do lado de fora.

6 dezembro, 2013

A galinha que burlou o sistema

Posted in Animais, Curtas/Documentários, Filmes às 12:02 pm por Deborah Sá

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Dirigido por Quico Meirelles, o curta-metragem mostra uma galinha que se encontra numa granja industrial e toma consciência, numa espécie de iluminação, de toda a engrenagem integrante de sua vida.  Assista na íntegra clicando aqui.

4 dezembro, 2013

Estudos apontam: Pessoas inteligentes tem mentes inquietas

Posted in Só falam nisso às 2:15 pm por Deborah Sá

Entre gifs – de gatinhos às mulheres brancas de feições pouco à vontade – a rede mundial de computadores (é com você, Evaristo), apresenta intermináveis listas com as características de pessoas inteligentes. Quadris grandes? Inteligência. Dorme tarde? Inteligência. Ansioso? Pensa muito em sexo? Distração? Introversão? Uau! São sintomas da mais pura clareza mental. De fato, é divertido achar um pedaço de texto que nos descreve, cataloga em algum tipo bom de pessoa, de comportamento. Especialmente se é o da exceção superior. Contudo, não há nada de excepcional em ser impaciente considerando a pressão da perfeição que ninguém alcança. Nem aquele rapaz que já tem carro e casa própria aos 22 anos. Nem ser modelo de passarela. As imagens de sucesso alimentam a indústria de frustração por faltar pouco. Só perder uns quilos. Só comprar um carro novo. Só aumentar o pênis. Um quase lá.

O corpo, seja qual a forma assumida, é marcado pela trajetória, bolhas nos pés cansados, a coluna dobrada de acanhamento, o sotaque. Não se mede aí a inteligência. Uma alta pontuação de Q.I. pode indicar boa memória, escolarização voltada para a dinâmica dos vestibulares, treino. Mas não garante inteligência. Saber muitos idiomas, diferenciar um quadro de outro. Isso também não é inteligência. Ter uma mania, uma fobia, tampouco. Vivemos no império dos medíocres? Sim. Fazemos parte dele? Sem sombra de dúvidas. Um acúmulo de fórmulas, métricas e pontuações não responde tudo (para mais, ou para menos). Pode-se esperar a subversão “inteligente” de um aluno encrenqueiro. Dificilmente se espera uma postura transgressora do sujeito “engomadinho”. Prevemos o sangue frio dos “racionais”, nenhum remorso dos “casos perdidos” (Breaking Bad é solo fértil para discutir além disso, a masculinidade hegemônica e sua fragilidade). A inteligência, ao fim, é atenuante irrefutável. O sujeito é petulante, mas não se pode ignorar a genialidade. Parece viver em outro mundo, todavia é uma mente de fronteiras abertas. Não consegue ler um livro de literatura, é brilhante matemático. Não é um beberrão qualquer, é boêmio contemplativo. Não é uma prostituta de esquina, é articulada, escreve bem, vamos ouvir o que ela tem a dizer. A inteligência legitimada pode ser dissimulação de aceite, um pedido de desculpas. Um jogo de esconder. A permissividade de ser banal se antes for em alguma medida, extraordinário.