31 outubro, 2013

Anilha

Posted in Animais às 12:20 pm por Deborah Sá

Os pombos nos vêem passar muito abaixo de suas cabeças. Se ao pé, nos enxergam grandes. Eles andam quando querem, voam quando bem entendem. Os pombos não domesticados cagam onde o ângulo parece bom, mancham de branco os retrovisores de motoristas apressados, os pátios dos colégios, as pracinhas da igreja, o coreto da praça, eles não dão a mínima. Humanos espantam os pombos pela insolência de interromper o caminho. Na debandada de pernas e rodas, andam balançando o pescoço, beliscando um petisco que acharam no chão, desbaratinam. Pela manhã ou ao fim da tarde, unem-se em torno de algum velho, cão, maluco ou criança, quem perto de pombo fica, bom sujeito não é. O pombo minimamente tolerado é alvo como o colarinho bem passado, a calça com vinco, o sapato lustrado. É espírito santo engravatado saindo da gaiola para celebrar matrimônios, é o que manda mensagem, vive em função de. Em bando metem medo e fazem rasantes de levantar fios da cabeça, arrulham o escamoteio: Sem pudores bebem a sujeira das cidades, nosso cinza-concreto-chumbo de leve verde reluzente nas penas do pescoço. Os ratos, se vistos, correm na curta duração num jogo de sombras, os pombos sob a lua ou o sol, profanam troncos, folhas, estátuas e bustos, catedrais e as nossas cabeças, o que está vivo e o que está morto. Para o que já é, são o porvir em ângulos de acaso e absurdo. Os ratos de asas fazem vista grossa a nossa irritabilidade e dada a ignorância, não posso lhes tirar a razão.

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