24 outubro, 2013

Narcisismo democrático

Posted in Corpo às 1:19 pm por Deborah Sá

Combinação controversa? Peço dois tostões do seu tempo para alongar nessa explanação. As palavras mudam de lugar somente se alguém as põe para andar, isso é, de pequena tomei gosto pela oratória e escrita, lembro do deslumbramento ao descobrir que alguém antes de eu me dar conta, deu nome ao que julgava ser alquimia das mais fantásticas: A rima. Se concebo diferente interpretação a qualquer frase que seja, reconheço que não será explicada em resposta lacônica, feito fôlego curto de expiração, não é tosse, soluço de resposta. Preciso de mais e mais palavras pra explicar o percurso cronológico, o desenvolvimento, a genealogia que não leva ao acabado e estanque. Exponho pra continuar dali, é movimento de marcha, desafiar as próprias articulações, ranger rótulas.

Comumente o narcisismo é afogar-se no fascínio dos reflexos d’água, prefiro compreende-lo com o complemento “democrático”. Quando estamos diante do espelho, sozinhos, não há outro modelo além do que percebemos. Provavelmente orbitará o referencial das fisionomias socialmente aceitáveis, porém, tentemos nos concentrar no que está posto. O narcisismo democrático é a admiração e o respeito ao refletido, não enquanto digno de réplica, perfeição ou estágio final, mas processo de desenvolvimento constante. É impossível criar a bel-prazer uma estética pura ou não influenciável, porém, é realizável construir uma miscelânea de intervenções e percepções sobre a própria imagem. É vitral que visto de longe compõe uma imagem colorida e de perto se vê os recortes e incisões, as rupturas. E como se sabe, não há vitral bem cuidado sem intervenção e manutenção. Tal narcisismo é democrático, pois não se equilibra no pedestal dicotômico e polarizado, tornando a ideia de superioridade contraditória ao princípio lógico desses termos quando combinados. É improviso na busca da própria cadência. É corporalidade[1].


[1] Esse termo, grifado e destacado assim, encontrei no livro Oralidade e alfabetização – uma nova abordagem da alfabetização e do letramento de Claudemir Belintane. O livro não fala sobre narcisismo e o termo não é empregado no texto desse modo, todavia, tomei a liberdade de mover essa palavra de lugar, já que é de meu feitio não ter medo delas.

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