18 outubro, 2013

Testes em cães – O que você não verá no jornal

Posted in Animais tagged , , , às 1:44 pm por Deborah Sá

Snoopy

Esse aí na foto é o Snoopy. Um beagle que tive o prazer de conviver por três anos. Essa vivência me transformou para sempre, carrego no peito uma tatuagem para lembrar da despedida forçada, do quanto aprendi, o impacto em perder meu melhor amigo. Soube em cima da hora da ocupação do Instituto Royal, impossível não me comover com aqueles rostos que são paralelos a fisionomia do cão que convivi décadas atrás. Os cães estavam sujos, alguns sem patas, encontraram um em nitrogênio líquido. De fato, um cenário de horror. Algumas pessoas dizem não gostar de animais não humanos, pois bem, elas não tem que gostar ou desgostar de coisa alguma. Eles interagem conosco e dividem o espaço, eles estão vivos, sentem dor, medo e precisam se socializar (é, eles também precisam de socialização para serem o que são), nosso compromisso enquanto detentores de leis, decretos e deveres éticos é zelar pela integridade física e psicológica desses sujeitos.

Os olhos caídos de um Beagle são mesmo comoventes. Mas teria alguma diferença se fossem cães sem raça definida? E mais ainda, é mesmo necessário para enxergarmos a barbárie que ela esteja refletida nos olhos de um cão ou gato? Essa reflexão certamente será solapada do debate, mesmo se a sociedade civil julgar pertinente e apoiar danos a essa propriedade privada de concreto e grades.  Mas falemos de outro tipo de propriedade privada: Aquela de quatro patas, focinho, rabo, escamas, crista. Se você comprar um peixe, uma galinha, um bode, uma capivara, pode mata-los e servir no jantar, através do dinheiro se aliena a posse de um sujeito a outro. Antes de ser sua, a galinha é da granja. Ou seja, os animais não existem por suas próprias razões, cada humano que tenha dinheiro é juiz e sentenciador de vidas não humanas. Quando um animal não-humano morre não há qualquer tipo de investigação ou crime, especialmente se esse animal foi adquirido com o respaldo da lei. Os cães que ali sofriam em paredes geladas foram adquiridos de “produtores” certificados, o instituto não conduzia as pesquisas por mero sadismo, eles cumpriam ordens. E porquê isso acontece? Porque vivemos em uma sociedade especista, nela uma espécie vale mais que a outra e os humanos são o topo da hierarquia. Os valores que atribuímos a essa superioridade são passíveis de mudança com o tempo, tal qual, a escravidão e o subjugo a minorias humanas foi outrora pautada na religião, na ciência e no peso da lei.

Conforme o debate por igualdade avança os primeiros privilegiados são os mais próximos dos dominantes. Por exemplo, na entrada da mulher no mercado de trabalho as primeiras privilegiadas foram as brancas e burguesas, pois a mulher trabalhadora já exercia tripla jornada por bem menos dinheiro e reconhecimento. Da mesma forma, quando falamos do direito de crianças e adolescentes estamos em defesa de quais? De todas elas ou principalmente das brancas que podem estampar a capa da Veja diante de um escândalo de abuso? Quando afirmamos que maus-tratos e crueldade contra animais devem parar, nos referimos só aos cães, gatos, golfinhos, baleias, ursos – abundantes no antropomorfismo de animações e brinquedos -? E o boi, a vaca, o peixe no prato? E os roedores dos laboratórios e faculdades? A violência que merece ser combatida é somente a que lembra o rosto dos nossos familiares, dos amigos, do cão que nos mostra a barriga depois de chegarmos em casa? Por certo não é correto responsabilizar você pela cadeia de opressões das quais também lhe atingem, porém, seria de uma desonestidade tremenda deixar mais uma vez esse exercício reflexivo ser engolido pela cobertura tendenciosa dos meios de comunicação. Tudo isso pra que você durma de consciência limpa e não perca o churrasco ou a pizza com queijo de sábado à noite.

1 Comentário

  1. […] Não sou ativista de direitos dos animais, simpatizo, até por que tenho a consciência de que para uma mudança social profunda será necessário também modificar as relações com a exploração animal, pois estas muitas vezes estão ligadas a trabalho escravo também por conta do agronegócio e afins. Por estes motivos não queria entrar no debate sobre a experiência em animais, deixo isso para pessoas que debatem a questão animal com muita propriedade. […]


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