10 outubro, 2013

Trânsfugas de classe e cultura: O gosto híbrido

Posted in Produzidos para faculdade às 10:19 pm por Deborah Sá

Introdução

O presente artigo aborda alguns dos conflitos filosóficos e morais a que estão sujeitos os trânsfugas da classe trabalhadora e o impacto no consumo da cultura. Enfocam-se, sobretudo, os indivíduos cuja ascensão ocorreu pelo capital escolar.

A socialização ocorre nas interações entre indivíduos e o meio social durante mediações simbólicas de signos culturais. Ou seja, a percepção e apreciação sobre a arte, moda, gastronomia, literatura e estética é permeada pelos contatos anteriores com cada objeto ou obra. A legitimidade de uma produção cultural em detrimento de outra, é apreendida desde os primeiros anos de desenvolvimento dos indivíduos. Em qual situação se deve sorrir, qual piada é considerada grosseira ou ofensiva, qual o movimento de marcha adequado ao dualismo de gênero no caminhar (o coquetismo feminino prevê um movimento mais sinuoso dos quadris), todos os modos de ser e agir, são incentivados ou repreendidos conforme os padrões vigentes dentro de determinado espaço social. Repetir uma refeição, por exemplo, pode significar em um ambiente, elogio, enquanto em outro, será percebido como indelicadeza e em casos mais extremos, um insulto.

Portanto, as disposições sociais demandam comportamentos distintos conforme o cenário é alterado. No Brasil, nas classes médias e altas é habitual terceirizar os cuidados do lar e das crianças (friso aqui, a não dissociação entre cuidar e educar), às mulheres da classe trabalhadora. Em geral, dadas as condições históricas e a consequente disparidade entre oportunidades nos espaços de prestígio e ascensão social, são elas em sua maioria, mulheres negras, residentes das periferias e evadidas do sistema escolar. Segundo Lahire, o contato direto entre esses agentes sociais antes separados por barreiras geográficas e econômicas (as crianças abastadas e babás ou empregadas contratadas pelos familiares); propicia um contato precoce com “outros significativos”, ocasionando uma mescla de influências culturais, cumplicidade e afetividades entre indivíduos.

Todavia, o gosto híbrido não dissolve as hierarquias dos produtos culturais. Por mais que uma jovem de classe média alta aprecie algumas músicas escutadas por sua empregada doméstica, o porteiro, o jardineiro ou o limpador de piscina, possui com nitidez a certeza de que os artistas valorizados por seus pais e colegas são mais legítimos culturalmente. Se a classe trabalhadora enquanto prestadora de serviços, sequer causa abalos nos referencias culturais ao situados acima da hierarquia, o movimento inverso é desestabilizador. Embora represente exceção, o micro deslocamento social desses indivíduos permite uma série de experimentações e representa grande impacto na revolução pessoal, a qual se põe em movimento produzindo interações antes inimagináveis. Tomemos como exemplo, “o bolsista” abordado por Hoggart. Usualmente membro de uma família numerosa e modesta, o filho que se destaca por suas faculdades intelectuais recebe o ônus do isolamento social. Por não dispor de um espaço silencioso e reservado para se dedicar aos estudos, é forçado a usar mecanismos de concentração forçada desde a infância, o que obviamente, o exaure. Constrangida pelas colegas de classe graças ao apreço que desperta nos professores, a criança com expectativas sobre sua inteligência em ambientes inóspitos a esse desabrochar, reúne esforços para atingir o alto padrão de suas médias escolares. Com tamanha rigidez, não se arrisca para além dos livros sugeridos pelos mestres e tem por esses, devotada admiração.

“O bolsista”, descrito por Hoggart, percebe desde o início da vida escolar a discrepância entre as leituras disponibilizadas em seu lar (quando existem) e as indicadas por seus professores. Conforme Lahire, as práticas culturais heterogêneas são próprias do deslocamento entre classes, essa mobilidade em movimento produz diferentes resultados segundo as condições materiais e as estratificações extra-econômicas, como exemplo, a cultura. Ainda de acordo com Hoggart, a “moeda de troca” do ascendente da classe trabalhadora, a inteligência, aumenta os rendimentos conforme são executados investimentos meritocráticos, traçados a duras penas. Seus primos, isentados da tensão exigida pelo trabalho intelectual, desfrutam da sagacidade e perspicácia da vivência nas ruas. A criatividade e ousadia por eles experimentada, não cabem ao jovem que tem por obrigação atingir metas escolares em produções textuais pouco criativas. Recorrentemente incentivado pela família (com a responsabilidade de ser uma espécie de representante), vê na vida uma verdadeira “corrida de obstáculos” onde as bolsas são passaporte a um futuro próspero, mesmo que um tanto incerto. Os “desenraizados” não se sentem pertencentes ao ambiente de origem e conforme prosseguem a escalada social, continuam deslocados por não possuírem a desenvoltura própria dos nascidos em maior sintonia e preparo para o ambiente escolar/acadêmico.

Com a consciência de que avançou muito dado seu ponto de partida, o “bolsista” teme a vergonha (para si e para seus conterrâneos[1]), de retornar ao ponto inicial. A estagnação e o retrocesso parecem ainda mais aterradores do que a escalada melindrosa a percorrer. Intensificando a insegurança de não se sentir pertencente ao pódio dos ditos vencedores, age como o estagiário dedicado que finalmente consegue a disputada vaga em uma grande empresa. Embora saiba que seu esforço é visível, a insegurança que transmite torna evidente o desconforto e o constrangimento que lhe acomete. Jocosamente, faz troça da pouca habilidade que possui para os trabalhos manuais, porém, no seu íntimo, sente-se pouco capaz de exercer tanto essas atribuições, quanto as intelectuais. O “bolsista” ansioso por dissimular tal lacuna, inscreve-se em cursos de oratória e redação para atingir métricas e padrões esperados, influenciar pessoas. Deseja, sobretudo, cultivar o espírito, se afastando ou emudecendo diante dos quais julga dominarem certas temáticas com naturalidade. Na vida adulta opta por gostos pouco arriscados, uma decoração de interiores sóbria, simulacro de obras de autores legítimos, roupas de cortes retos e acessórios discretos. Faz evidente a distinção nada extravagante que aspira. Se porventura mantém algum resquício ao gosto popular, será expresso em tom de deslize diante de uma vida zelosa. Embora possua ambição de ideias elevadas, o trânsfuga de classe reconhece nas condições objetivas, práticas medíocres. Os quadros em sua parede são uma reprodução e não originais, sentem-se ele mesmo um embuste e teme ser desmascarado.

O esforço empregado no processo germinado, “desenraizado” e transplantado em enxertos mal sucedidos é extremamente desgastante, uma vez que é responsabilidade do próprio “desenraizado” buscar medidas extremas para a reversão do quadro. Realizar a incisão entre duas plantas diferentes e uni-las com fita em encostia, demanda dedicação e muita paciência. O “desenraizado” se vê as voltas dos próprios esforços, caso o nó esteja demasiadamente firme, quebrará os galhos, se for muito suave, não haverá firmeza e encaixe suficiente para troca de nutrientes. A sensação é de que o tecido que une a junção será desfeito ao se afastar do cultivo assistido. Foi nesse broto de fruto cítrico e levemente adocicado que investiu todos seus recursos. Apega-se por representar resistência e alguma esperança, por meio dele aprendeu a diferenciar-se, reconhecer-se, é seu fio condutor. O cuidado e a dedicação por tantas décadas não permite, ao pouco de orgulho que lhe resta, desistir diante de mais algumas adversidades.

 Conclusão

A mobilidade dos atores sociais produz uma série de embates, ora através dos indivíduos que se deslocam em cenários pouco prováveis, ora pelos já estabelecidos confusos diante dos recém-chegados em busca de aprovação. Localizados em pólos opostos das dicotomias mais ou menos legítimas da cultura, os estabelecidos e os recém-admitidos prestam homenagens e dedicam honrarias aos produtos culturais hegemônicos.


[1] Para Hoggart, a distinção abarca não somente o discernimento de um grupo social em comparação com outro, mas também, a diferenciação entre os membros no interior de um mesmo grupo, além da distinção de si para si.

Referências

HOGGART, Richard. “Molas deslassadas: uma nota sobre os desenraizados e os ansiosos”. In As utilizações da cultura> aspectos da vida cultural da classe trabalhadora. 2 º volume. Lisboa: Editorial Presença, 1973.

LAHIRE, Bernard. “Pequenos e grandes deslocamentos sociais” In A cultura dos indivíduos. Porto Alegre: Artmed, 2006.

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