7 outubro, 2013

Genealogia do pensamento

Posted in Produzidos para faculdade tagged , às 10:32 am por Deborah Sá

Em “Seis estudos de psicologia”, Jean Piaget reúne considerações e apontamentos oriundos de pesquisas realizadas em décadas de experimentações. Tais levantamentos e dados científicos abordam a gênese do pensamento humano, isso é, como a percepção dos sujeitos se modifica e ganha contornos cada vez mais nítidos na construção das sinapses, composição de identidades, interação entre indivíduos e o meio, o desempenho diacrônico da linguagem e as demais facetas desse complexo, contínuo e interligado desenvolvimento.

Fazer a reconstrução desse processo é investigar os meandros do processo lógico, as primeiras experiências motoras, afetividades e estímulos táteis, visuais, olfativos, auditivos, ser e estar no mundo. “O desenvolvimento, portanto, é uma equilibração progressiva, uma passagem contínua de menor equilíbrio para um estado de equilíbrio superior. (Pg 13)” E por equilíbrio, entende-se o movimento e aprendizagem constantes em todas as faixas etárias. Enquanto sujeitos históricos influentes e influenciados pelo ambiente no qual estamos, o equilíbrio é a maior consciência da autonomia e da contenção nas quais represam atitudes, limitam ou expandem o campo de ação. Apoderar-se e construir o próprio saber, ressignificar, gerenciar, fazer prevalecer certos valores em detrimentos de outros, dão corpo ao embate de forças individuais, simbólicas e coletivas, culminando na escolha mais estabilizadora e predominantemente equilibrada. Diante da dualidade entre a tentação de um prazer fugaz e um dever, por exemplo, o ato da vontade se expressa em fazer triunfar os instintos mais virtuosos. Assim, toda ação é carregada de intenção e necessidade, todo sentimento e movimento é também um interesse e busca por equilíbrio.

No primeiro estágio do indivíduo humano, a lactância (durando em média, até os dois anos de idade); é composto por reflexos e hábitos motores, tendências instintivas (nutrições) e inteligência senso-motora, anteriores ao uso da linguagem verbal. A aprendizagem ocorre e se aprimora com a prática, desse modo, a sucção do recém-nascido é aperfeiçoada diariamente e em uma generalização da realidade, sucessivamente ao passar dos meses, leva a boca tudo o que está ao alcance. Experimenta texturas, espaços, medidas, intensidades e a dupla estimulação ocorre durante o ato de sugar o polegar. “Em suma, assimila uma parte de seu universo à sucção […] dizendo-se que, para ele, o mundo é essencialmente uma realidade a sugar”. (Pg 18)

Se o reflexo traz um resultado interessante, por exemplo, uma série de movimentos culminarem no acender ou apagar de luzes, o lactante mobilizará esforços para repeti-los ao julgar conveniente a repetição, as chamadas “reações circulares”. Com o acúmulo de experimentos gerados pela ação e reação, o arcabouço de informações permite antever usos e funções de movimentos específicos em conceitos particulares. Por exemplo, diante de uma pessoa nova, a criança pode atirar um objeto sucessivamente ao chão para testar trajetórias e quedas, porém, se o mesmo objeto for pego por um cão pode não retornar para a criança como ela esperava, encerrando ali seu experimento devido a essa variável (outro ser com interação distinta), ou seja, dependendo do receptor do objeto, a criança teria uma resposta diferente e o acúmulo desses resultados, seu estímulo ou repressão, geram impressões sobre o permitido ou o evitável. A individual revolução copérnica infantil acontece ao perceber objetos e indivíduos não orbitando ao seu redor, a existência desses, portanto, precede sua presença. Um apontamento sintomático dessa percepção realiza-se por volta do primeiro ano na procura de objetos afastados do seu campo de percepção “[…] do egocentrismo integral primitivo para a elaboração final de um universo exterior” (pg. 21). Entrementes, salienta-se a interconexão entre afetividade e inteligência, fatores decisivos na conduta na busca por equilíbrio.

Segundo Piaget, a inteligência (adaptação de um organismo a uma situação nova) advém de duas tendências inatas: A organização e a adaptação, ambas por meio da interação. A criança aprende com interação direta com objetos físicos, sendo o conhecimento, a progressiva construção das estruturas de pensamento. Na segunda parte da primeira infância (dos dois até os sete anos) destaca-se a inteligência intuitiva, a submissão aos tutores e crianças mais velhas, acompanhados de sentimentos interindividuais espontâneos. Durante a socialização da ação, as relações interindividuais são feitas por meio de jogos interpretativos onde imitam gestos exteriores, cabendo à palavra, se converter em instrumento de narrativa da própria história na intervenção no tempo acrescido de elementos ficcionais. Se o cronista tem a potencialidade de rememorar uma ação impregnando ótica subjetiva em fatos cotidianos, a criança por meio do jogo simbólico (interpretativo) remonta comportamentos imprimindo a mescla entre realidade e liberdade criativa, sua pitada de ficção.

Se reunidas, as crianças dessa faixa etária, ainda centradas em si, iniciarão uma espécie de “monólogo coletivo”, onde cada uma dirá suas impressões sem troca de pensamentos reais, compondo mais de um terço da linguagem espontânea entre crianças de três e quatro anos, diminuindo tal conduta gradualmente por volta dos sete. Nos “porquês” infantis encontramos as teorias lógicas baseadas em forças divinas ou na intervenção humana para explicar fenômenos da natureza, entre essas vertentes está o artificialismo (as montanhas crescem porque fabricaram pedrinhas antes de plantá-las…), animismo (coisas como vivas e dotadas de intenção) e finalismo (serve para…).

“[…] Consistem todas em uma assimilação deformada da realidade á própria atividade. Os movimentos são dirigidos para um fim […] a realidade é animada e viva; as leis naturais tem obediência, em suma, tudo é modelado sobre o esquema do próprio eu.(pg 33)

A principal característica das intuições primárias é a irreversibilidade inclusive do ponto de vista motor, como a escrita da direita para a esquerda, cooperando em alguns casos para uma escrita “espelhada” ou a dificuldade em colocar números ou categorias em ordem decrescente e conforme a idade avança, esse conceito torna mais assimilável. No campo da moral, as crianças antes dos sete anos consideram a mentira tão pior quanto mais distante for a possibilidade de sua concretude, nessa ótica, afirmar um tropeço em uma formiga do tamanho de um gato é considerada mentira mais grave se comparada ao falsear da organização do quarto. Em valores morais intuitivos, apontam para um respeito unilateral encadeando sentimentos de punição severos conforme a intensidade da transgressão. Ou seja, tomada ao pé da letra, a regra deve ser cumprida como um dever sem qualquer espaço para o questionamento, o temor à lei e a autoridade são irrevogáveis e qualquer infração justifica penalidade.

O começo da lógica, ou seja, de operações intelectuais concretas, sentimentos de cooperação e dever moral para com terceiros despontam por volta dos sete aos doze anos. Sobre a percepção espacial de objetos, cada etapa do desenvolvimento permite aferir impressões diferentes:

“Embora as operações de seriação (coordenação das relações assimétricas) sejam descobertas assim, por volta de sete anos em relação aos comprimentos ou tamanhos dependentes da quantidade de matéria, é preciso esperar os nove anos, em média para se obter uma seriação análoga dos pesos (de tamanhos iguais, por exemplo, bolas do mesmo tamanho, mas com pesos diferentes), e onze ou doze anos, para se obter a dos volumes (pela medida de imersão na água).” (pg. 50)

Por fim, segundo Piaget, a formação da personalidade, as operações intelectuais abstratas e a maior participação afetiva na sociedade adulta ocorrem na adolescência. Se a criança sente-se inferiorizada e a mercê do mundo adulto, o adolescente por sua vez imerso em um universo em desencanto (adultos não têm todas as respostas e sequer são bastiões da moral) se vê diante de uma oportunidade única: Mergulhar mais uma vez em seu interior para emergir a própria vontade ofuscada pelas ordens até então obedecidas com dedicação. O jovem cria a distinção entre os estabelecidos e se empenha em superá-los imprimindo essa construção em sua identidade, como na canção popular entre adolescentes I’m becoming this, all I want to do, is be more like me, and be less like you”. (Estou me tornando isso, tudo o que eu quero fazer, é ser mais como eu e menos como você).

Os projetos de vida adolescente, em geral, são repletos de aspirações generosas, uma pequena dose de megalomania, grandiosidade e ao mesmo tempo egoísmo, é momento propício para apegar-se a religião de maneira fervorosa ou ainda, romper com tradições e expectativas familiares para a trajetória pessoal. É descobrir e construir quem está refletido no espelho na busca por identificação com outros grupos e se em nada neles satisfazer os apetites, ousar formular o próprio grupo e demarcar novas regras. A respeito do desenvolvimento e a socialização, toda interação é uma aprendizagem. Expostos em novo ambiente e regras de convivência, os sujeitos mobilizarão conhecimentos e vivências num movimento constante por assimilação, equilíbrio e integração.

Referências

BENNINGTON, C.CHESTER. Numb. Linking Park [Compositor] In: Linking Park. Meteora. NGR Recordings, North Hollywood, California: Warner Bros. Records, 2003. 1 CD (ca.  36 min e 36 seg). Faixa: 13 (3 min e 7 seg).

PIAGET, JEAN. Seis estudos de psicologia. 24ª ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2006.

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