31 outubro, 2013

Anilha

Posted in Animais às 12:20 pm por Deborah Sá

Os pombos nos vêem passar muito abaixo de suas cabeças. Se ao pé, nos enxergam grandes. Eles andam quando querem, voam quando bem entendem. Os pombos não domesticados cagam onde o ângulo parece bom, mancham de branco os retrovisores de motoristas apressados, os pátios dos colégios, as pracinhas da igreja, o coreto da praça, eles não dão a mínima. Humanos espantam os pombos pela insolência de interromper o caminho. Na debandada de pernas e rodas, andam balançando o pescoço, beliscando um petisco que acharam no chão, desbaratinam. Pela manhã ou ao fim da tarde, unem-se em torno de algum velho, cão, maluco ou criança, quem perto de pombo fica, bom sujeito não é. O pombo minimamente tolerado é alvo como o colarinho bem passado, a calça com vinco, o sapato lustrado. É espírito santo engravatado saindo da gaiola para celebrar matrimônios, é o que manda mensagem, vive em função de. Em bando metem medo e fazem rasantes de levantar fios da cabeça, arrulham o escamoteio: Sem pudores bebem a sujeira das cidades, nosso cinza-concreto-chumbo de leve verde reluzente nas penas do pescoço. Os ratos, se vistos, correm na curta duração num jogo de sombras, os pombos sob a lua ou o sol, profanam troncos, folhas, estátuas e bustos, catedrais e as nossas cabeças, o que está vivo e o que está morto. Para o que já é, são o porvir em ângulos de acaso e absurdo. Os ratos de asas fazem vista grossa a nossa irritabilidade e dada a ignorância, não posso lhes tirar a razão.

24 outubro, 2013

Narcisismo democrático

Posted in Corpo às 1:19 pm por Deborah Sá

Combinação controversa? Peço dois tostões do seu tempo para alongar nessa explanação. As palavras mudam de lugar somente se alguém as põe para andar, isso é, de pequena tomei gosto pela oratória e escrita, lembro do deslumbramento ao descobrir que alguém antes de eu me dar conta, deu nome ao que julgava ser alquimia das mais fantásticas: A rima. Se concebo diferente interpretação a qualquer frase que seja, reconheço que não será explicada em resposta lacônica, feito fôlego curto de expiração, não é tosse, soluço de resposta. Preciso de mais e mais palavras pra explicar o percurso cronológico, o desenvolvimento, a genealogia que não leva ao acabado e estanque. Exponho pra continuar dali, é movimento de marcha, desafiar as próprias articulações, ranger rótulas.

Comumente o narcisismo é afogar-se no fascínio dos reflexos d’água, prefiro compreende-lo com o complemento “democrático”. Quando estamos diante do espelho, sozinhos, não há outro modelo além do que percebemos. Provavelmente orbitará o referencial das fisionomias socialmente aceitáveis, porém, tentemos nos concentrar no que está posto. O narcisismo democrático é a admiração e o respeito ao refletido, não enquanto digno de réplica, perfeição ou estágio final, mas processo de desenvolvimento constante. É impossível criar a bel-prazer uma estética pura ou não influenciável, porém, é realizável construir uma miscelânea de intervenções e percepções sobre a própria imagem. É vitral que visto de longe compõe uma imagem colorida e de perto se vê os recortes e incisões, as rupturas. E como se sabe, não há vitral bem cuidado sem intervenção e manutenção. Tal narcisismo é democrático, pois não se equilibra no pedestal dicotômico e polarizado, tornando a ideia de superioridade contraditória ao princípio lógico desses termos quando combinados. É improviso na busca da própria cadência. É corporalidade[1].


[1] Esse termo, grifado e destacado assim, encontrei no livro Oralidade e alfabetização – uma nova abordagem da alfabetização e do letramento de Claudemir Belintane. O livro não fala sobre narcisismo e o termo não é empregado no texto desse modo, todavia, tomei a liberdade de mover essa palavra de lugar, já que é de meu feitio não ter medo delas.

22 outubro, 2013

Para uma garota

Posted in Corpo às 11:29 pm por Deborah Sá

Contaram que você chorou por causa dos apelidos. Isso fez lembrar de quando tinha a sua idade e me sentia a pessoa mais indigna de amor do mundo inteiro. Dizem que isso é exagero, mas eu sei que não é. Quando nos ofendem, colocam esses apelidos, dão risada, humilham, isso faz o mundo cair em cima dos nossos ombros. Isso é muito injusto, além de não ser uma verdade, você merece ser amada. Eu pensava que todos os problemas da minha vida existiam porque era gorda, se eu fosse bem determinada, recusasse todas as sobremesas, comece só uma maçã e bebesse bastante água meu corpo iria mudar e as pessoas começariam a me respeitar e quem sabe até, me amar de verdade. Queria ser bonita e segura como as mulheres da televisão, as atrizes, as cantoras e todas elas eram magras. Encolhia a barriga na frente do espelho e chorava. Na escola, na rua, na igreja, em todos os lugares as pessoas me lembravam que eu era grande demais para uma garota, que minha barriga não era retinha como de algumas meninas que dava até pra contar as costelas. Eu sentia muita vergonha de ser assim. Não vou mentir pra você, eu continuo gorda, algumas pessoas ainda tem preconceito com mulheres que usam roupas de tamanho maior, você sabe, provavelmente já ouviu piadas assim da boca de outras pessoas. Porém, estou aqui para dizer o que pouca gente diz para meninas gordas: Você é linda! Mais do que isso, você é maravilhosa e completamente amável!. Você não é linda apesar de ser gorda, você é linda inclusive por ser gorda! Sabe aquele boato que espalham sobre meninas gordas não saberem se soltar, dançar, brincar? É mentira! Você pode aproveitar muito até ficar com um sorriso e o rosto vermelho de tanto se divertir por aí. Sabe como sei que fiz um bom e verdadeiro amigo? Quando ele me respeita e me faz sentir querida. Atualmente convivo com pessoas formidáveis que me amam e admiram pelo que sou, elas provam que as vozes preconceituosas do meu passado estavam completamente erradas. Posso apostar que as pessoas que zombam de você tem um monte de defeitos e nem por isso se afasta delas. Não estou falando que você tem que humilhar pra dar o troco, estou dizendo que pedir respeito é um direito seu, você pode exigir ele, você não merece ser machucada. Você é generosa em admirar os outros, seja mais generosa ao se olhar no espelho, mas use um grande, de corpo inteiro, perceba o conjunto. Vê como é linda? Você já passou por muita coisa difícil e continua de pé, você é corajosa e forte, além de linda e admirável. Besta é quem não tem muito orgulho em ter você do lado!

Um beijo e um abraço!

Deborah

18 outubro, 2013

Testes em cães – O que você não verá no jornal

Posted in Animais tagged , , , às 1:44 pm por Deborah Sá

Snoopy

Esse aí na foto é o Snoopy. Um beagle que tive o prazer de conviver por três anos. Essa vivência me transformou para sempre, carrego no peito uma tatuagem para lembrar da despedida forçada, do quanto aprendi, o impacto em perder meu melhor amigo. Soube em cima da hora da ocupação do Instituto Royal, impossível não me comover com aqueles rostos que são paralelos a fisionomia do cão que convivi décadas atrás. Os cães estavam sujos, alguns sem patas, encontraram um em nitrogênio líquido. De fato, um cenário de horror. Algumas pessoas dizem não gostar de animais não humanos, pois bem, elas não tem que gostar ou desgostar de coisa alguma. Eles interagem conosco e dividem o espaço, eles estão vivos, sentem dor, medo e precisam se socializar (é, eles também precisam de socialização para serem o que são), nosso compromisso enquanto detentores de leis, decretos e deveres éticos é zelar pela integridade física e psicológica desses sujeitos.

Os olhos caídos de um Beagle são mesmo comoventes. Mas teria alguma diferença se fossem cães sem raça definida? E mais ainda, é mesmo necessário para enxergarmos a barbárie que ela esteja refletida nos olhos de um cão ou gato? Essa reflexão certamente será solapada do debate, mesmo se a sociedade civil julgar pertinente e apoiar danos a essa propriedade privada de concreto e grades.  Mas falemos de outro tipo de propriedade privada: Aquela de quatro patas, focinho, rabo, escamas, crista. Se você comprar um peixe, uma galinha, um bode, uma capivara, pode mata-los e servir no jantar, através do dinheiro se aliena a posse de um sujeito a outro. Antes de ser sua, a galinha é da granja. Ou seja, os animais não existem por suas próprias razões, cada humano que tenha dinheiro é juiz e sentenciador de vidas não humanas. Quando um animal não-humano morre não há qualquer tipo de investigação ou crime, especialmente se esse animal foi adquirido com o respaldo da lei. Os cães que ali sofriam em paredes geladas foram adquiridos de “produtores” certificados, o instituto não conduzia as pesquisas por mero sadismo, eles cumpriam ordens. E porquê isso acontece? Porque vivemos em uma sociedade especista, nela uma espécie vale mais que a outra e os humanos são o topo da hierarquia. Os valores que atribuímos a essa superioridade são passíveis de mudança com o tempo, tal qual, a escravidão e o subjugo a minorias humanas foi outrora pautada na religião, na ciência e no peso da lei.

Conforme o debate por igualdade avança os primeiros privilegiados são os mais próximos dos dominantes. Por exemplo, na entrada da mulher no mercado de trabalho as primeiras privilegiadas foram as brancas e burguesas, pois a mulher trabalhadora já exercia tripla jornada por bem menos dinheiro e reconhecimento. Da mesma forma, quando falamos do direito de crianças e adolescentes estamos em defesa de quais? De todas elas ou principalmente das brancas que podem estampar a capa da Veja diante de um escândalo de abuso? Quando afirmamos que maus-tratos e crueldade contra animais devem parar, nos referimos só aos cães, gatos, golfinhos, baleias, ursos – abundantes no antropomorfismo de animações e brinquedos -? E o boi, a vaca, o peixe no prato? E os roedores dos laboratórios e faculdades? A violência que merece ser combatida é somente a que lembra o rosto dos nossos familiares, dos amigos, do cão que nos mostra a barriga depois de chegarmos em casa? Por certo não é correto responsabilizar você pela cadeia de opressões das quais também lhe atingem, porém, seria de uma desonestidade tremenda deixar mais uma vez esse exercício reflexivo ser engolido pela cobertura tendenciosa dos meios de comunicação. Tudo isso pra que você durma de consciência limpa e não perca o churrasco ou a pizza com queijo de sábado à noite.

10 outubro, 2013

Trânsfugas de classe e cultura: O gosto híbrido

Posted in Produzidos para faculdade às 10:19 pm por Deborah Sá

Introdução

O presente artigo aborda alguns dos conflitos filosóficos e morais a que estão sujeitos os trânsfugas da classe trabalhadora e o impacto no consumo da cultura. Enfocam-se, sobretudo, os indivíduos cuja ascensão ocorreu pelo capital escolar.

A socialização ocorre nas interações entre indivíduos e o meio social durante mediações simbólicas de signos culturais. Ou seja, a percepção e apreciação sobre a arte, moda, gastronomia, literatura e estética é permeada pelos contatos anteriores com cada objeto ou obra. A legitimidade de uma produção cultural em detrimento de outra, é apreendida desde os primeiros anos de desenvolvimento dos indivíduos. Em qual situação se deve sorrir, qual piada é considerada grosseira ou ofensiva, qual o movimento de marcha adequado ao dualismo de gênero no caminhar (o coquetismo feminino prevê um movimento mais sinuoso dos quadris), todos os modos de ser e agir, são incentivados ou repreendidos conforme os padrões vigentes dentro de determinado espaço social. Repetir uma refeição, por exemplo, pode significar em um ambiente, elogio, enquanto em outro, será percebido como indelicadeza e em casos mais extremos, um insulto.

Portanto, as disposições sociais demandam comportamentos distintos conforme o cenário é alterado. No Brasil, nas classes médias e altas é habitual terceirizar os cuidados do lar e das crianças (friso aqui, a não dissociação entre cuidar e educar), às mulheres da classe trabalhadora. Em geral, dadas as condições históricas e a consequente disparidade entre oportunidades nos espaços de prestígio e ascensão social, são elas em sua maioria, mulheres negras, residentes das periferias e evadidas do sistema escolar. Segundo Lahire, o contato direto entre esses agentes sociais antes separados por barreiras geográficas e econômicas (as crianças abastadas e babás ou empregadas contratadas pelos familiares); propicia um contato precoce com “outros significativos”, ocasionando uma mescla de influências culturais, cumplicidade e afetividades entre indivíduos.

Todavia, o gosto híbrido não dissolve as hierarquias dos produtos culturais. Por mais que uma jovem de classe média alta aprecie algumas músicas escutadas por sua empregada doméstica, o porteiro, o jardineiro ou o limpador de piscina, possui com nitidez a certeza de que os artistas valorizados por seus pais e colegas são mais legítimos culturalmente. Se a classe trabalhadora enquanto prestadora de serviços, sequer causa abalos nos referencias culturais ao situados acima da hierarquia, o movimento inverso é desestabilizador. Embora represente exceção, o micro deslocamento social desses indivíduos permite uma série de experimentações e representa grande impacto na revolução pessoal, a qual se põe em movimento produzindo interações antes inimagináveis. Tomemos como exemplo, “o bolsista” abordado por Hoggart. Usualmente membro de uma família numerosa e modesta, o filho que se destaca por suas faculdades intelectuais recebe o ônus do isolamento social. Por não dispor de um espaço silencioso e reservado para se dedicar aos estudos, é forçado a usar mecanismos de concentração forçada desde a infância, o que obviamente, o exaure. Constrangida pelas colegas de classe graças ao apreço que desperta nos professores, a criança com expectativas sobre sua inteligência em ambientes inóspitos a esse desabrochar, reúne esforços para atingir o alto padrão de suas médias escolares. Com tamanha rigidez, não se arrisca para além dos livros sugeridos pelos mestres e tem por esses, devotada admiração.

“O bolsista”, descrito por Hoggart, percebe desde o início da vida escolar a discrepância entre as leituras disponibilizadas em seu lar (quando existem) e as indicadas por seus professores. Conforme Lahire, as práticas culturais heterogêneas são próprias do deslocamento entre classes, essa mobilidade em movimento produz diferentes resultados segundo as condições materiais e as estratificações extra-econômicas, como exemplo, a cultura. Ainda de acordo com Hoggart, a “moeda de troca” do ascendente da classe trabalhadora, a inteligência, aumenta os rendimentos conforme são executados investimentos meritocráticos, traçados a duras penas. Seus primos, isentados da tensão exigida pelo trabalho intelectual, desfrutam da sagacidade e perspicácia da vivência nas ruas. A criatividade e ousadia por eles experimentada, não cabem ao jovem que tem por obrigação atingir metas escolares em produções textuais pouco criativas. Recorrentemente incentivado pela família (com a responsabilidade de ser uma espécie de representante), vê na vida uma verdadeira “corrida de obstáculos” onde as bolsas são passaporte a um futuro próspero, mesmo que um tanto incerto. Os “desenraizados” não se sentem pertencentes ao ambiente de origem e conforme prosseguem a escalada social, continuam deslocados por não possuírem a desenvoltura própria dos nascidos em maior sintonia e preparo para o ambiente escolar/acadêmico.

Com a consciência de que avançou muito dado seu ponto de partida, o “bolsista” teme a vergonha (para si e para seus conterrâneos[1]), de retornar ao ponto inicial. A estagnação e o retrocesso parecem ainda mais aterradores do que a escalada melindrosa a percorrer. Intensificando a insegurança de não se sentir pertencente ao pódio dos ditos vencedores, age como o estagiário dedicado que finalmente consegue a disputada vaga em uma grande empresa. Embora saiba que seu esforço é visível, a insegurança que transmite torna evidente o desconforto e o constrangimento que lhe acomete. Jocosamente, faz troça da pouca habilidade que possui para os trabalhos manuais, porém, no seu íntimo, sente-se pouco capaz de exercer tanto essas atribuições, quanto as intelectuais. O “bolsista” ansioso por dissimular tal lacuna, inscreve-se em cursos de oratória e redação para atingir métricas e padrões esperados, influenciar pessoas. Deseja, sobretudo, cultivar o espírito, se afastando ou emudecendo diante dos quais julga dominarem certas temáticas com naturalidade. Na vida adulta opta por gostos pouco arriscados, uma decoração de interiores sóbria, simulacro de obras de autores legítimos, roupas de cortes retos e acessórios discretos. Faz evidente a distinção nada extravagante que aspira. Se porventura mantém algum resquício ao gosto popular, será expresso em tom de deslize diante de uma vida zelosa. Embora possua ambição de ideias elevadas, o trânsfuga de classe reconhece nas condições objetivas, práticas medíocres. Os quadros em sua parede são uma reprodução e não originais, sentem-se ele mesmo um embuste e teme ser desmascarado.

O esforço empregado no processo germinado, “desenraizado” e transplantado em enxertos mal sucedidos é extremamente desgastante, uma vez que é responsabilidade do próprio “desenraizado” buscar medidas extremas para a reversão do quadro. Realizar a incisão entre duas plantas diferentes e uni-las com fita em encostia, demanda dedicação e muita paciência. O “desenraizado” se vê as voltas dos próprios esforços, caso o nó esteja demasiadamente firme, quebrará os galhos, se for muito suave, não haverá firmeza e encaixe suficiente para troca de nutrientes. A sensação é de que o tecido que une a junção será desfeito ao se afastar do cultivo assistido. Foi nesse broto de fruto cítrico e levemente adocicado que investiu todos seus recursos. Apega-se por representar resistência e alguma esperança, por meio dele aprendeu a diferenciar-se, reconhecer-se, é seu fio condutor. O cuidado e a dedicação por tantas décadas não permite, ao pouco de orgulho que lhe resta, desistir diante de mais algumas adversidades.

 Conclusão

A mobilidade dos atores sociais produz uma série de embates, ora através dos indivíduos que se deslocam em cenários pouco prováveis, ora pelos já estabelecidos confusos diante dos recém-chegados em busca de aprovação. Localizados em pólos opostos das dicotomias mais ou menos legítimas da cultura, os estabelecidos e os recém-admitidos prestam homenagens e dedicam honrarias aos produtos culturais hegemônicos.


[1] Para Hoggart, a distinção abarca não somente o discernimento de um grupo social em comparação com outro, mas também, a diferenciação entre os membros no interior de um mesmo grupo, além da distinção de si para si.

Referências

HOGGART, Richard. “Molas deslassadas: uma nota sobre os desenraizados e os ansiosos”. In As utilizações da cultura> aspectos da vida cultural da classe trabalhadora. 2 º volume. Lisboa: Editorial Presença, 1973.

LAHIRE, Bernard. “Pequenos e grandes deslocamentos sociais” In A cultura dos indivíduos. Porto Alegre: Artmed, 2006.

9 outubro, 2013

Afaste bolsas e mochilas da região das portas

Posted in Cotidiano, Crônicas e contos às 10:20 pm por Deborah Sá

Eu, do lado de dentro do vagão. Ele, do lado de fora. Sé. Alto, tinha poucos pelos de barba, mal formavam um cavanhaque, os braços também mostravam penugens douradas. A pele era rósea, o olhar verde e perdido, um pouco preocupado. Resolvi encarar já que as portas haviam fechado, estava na minha zona de segurança. Encarei nos olhos, ele olhou sério uma vez, desviou o olhar, voltou novamente a encontrar com os meus, castanhos e persistentes. Vi uma fração de movimento ali. Não aguentei, sorri bem grande mostrando todos os dentes, “jogo do sério”  não é comigo. Pelo visto nem com ele, sorriu de volta, mas de canto, um pouco vaidoso, um pouco encabulado.

À barriga positiva

Posted in Corpo às 10:26 am por Deborah Sá

barrigapositiva

O que eu tenho contra mulheres e homens magrelos? Nada. O que eu tenho contra a pressão por corpos “perfeitos”? Tudo. O que eu tenho por pancinhas? Amor. Aliás, quer coisa mais deliciosa do que alguém apertando gordurinhas (costas, barriga, braços, quadril)? difícil, difícil. Como disse certa vez um amigo: “É mais fácil ver gente bonita na rua”.

Milhares gostam de usar celebridades de motivação para emagrecer, colocam foto da modelo no desktop, querem o shape da famosa X ou Y. Isso em um mundo onde Fabiula Nascimento existe! Nadia Aboulhosn samba na cara e Beth Ditto sai divando. Certo, elas não ganham o mesmo destaque, também sei que gente insensível com a baixa auto-estima alheia humilha, diz pra perder uns quilinhos “para seu próprio bem”. Nas condições atuais, passou do manequim quarenta já se é gorda. Aliás, nem precisamos chegar a tanto, se sentar e a barriga fizer dobra já é considerada gordinha e o pior, barriguda. Bem sabemos o tratamento honroso que não-magros recebem, ninguém quer fazer parte de um grupo desse, dos desleixados e preguiçosos. Ao ligar a tv ou abrir uma revista, conte quantos anúncios emagrecedores verá. Insatisfação gera dinheiro para a indústria das cintas modeladoras, dos cremes rejuvenescedores, do gel anti-problema-inventado-nas-últimas-décadas, dos iogurtes pastosos e queridinhos das dietas que prometem desinchar, dos shakes e  dos queijos processados, das carnes grelhadas, da água da grande corporação que diz limpar mais seu organismo do que a concorrente.

Notícia de última hora: Um corpo gordo não é um corpo sujo, ele não precisa ser “limpo por dentro”. Um corpo gordo ocupa espaço, talvez mais que o seu e o mundo continua a girar. Lamentável é ter uma cidade inteira planejada para tamanhos diminutos, especialmente para mulheres menores (uma camiseta GG feminina é um P masculino). Vergonhoso é policiarem o que o gordo coloca no prato e em conclusões precipitadas o taxar como frouxo de caráter. Risível é não crer no gordo vegetariano, não sedentário e de exames em dia. Amar o próprio corpo é resistência das mais subversivas, dessas que fazemos aos beijos.

7 outubro, 2013

Genealogia do pensamento

Posted in Produzidos para faculdade tagged , às 10:32 am por Deborah Sá

Em “Seis estudos de psicologia”, Jean Piaget reúne considerações e apontamentos oriundos de pesquisas realizadas em décadas de experimentações. Tais levantamentos e dados científicos abordam a gênese do pensamento humano, isso é, como a percepção dos sujeitos se modifica e ganha contornos cada vez mais nítidos na construção das sinapses, composição de identidades, interação entre indivíduos e o meio, o desempenho diacrônico da linguagem e as demais facetas desse complexo, contínuo e interligado desenvolvimento.

Fazer a reconstrução desse processo é investigar os meandros do processo lógico, as primeiras experiências motoras, afetividades e estímulos táteis, visuais, olfativos, auditivos, ser e estar no mundo. “O desenvolvimento, portanto, é uma equilibração progressiva, uma passagem contínua de menor equilíbrio para um estado de equilíbrio superior. (Pg 13)” E por equilíbrio, entende-se o movimento e aprendizagem constantes em todas as faixas etárias. Enquanto sujeitos históricos influentes e influenciados pelo ambiente no qual estamos, o equilíbrio é a maior consciência da autonomia e da contenção nas quais represam atitudes, limitam ou expandem o campo de ação. Apoderar-se e construir o próprio saber, ressignificar, gerenciar, fazer prevalecer certos valores em detrimentos de outros, dão corpo ao embate de forças individuais, simbólicas e coletivas, culminando na escolha mais estabilizadora e predominantemente equilibrada. Diante da dualidade entre a tentação de um prazer fugaz e um dever, por exemplo, o ato da vontade se expressa em fazer triunfar os instintos mais virtuosos. Assim, toda ação é carregada de intenção e necessidade, todo sentimento e movimento é também um interesse e busca por equilíbrio.

No primeiro estágio do indivíduo humano, a lactância (durando em média, até os dois anos de idade); é composto por reflexos e hábitos motores, tendências instintivas (nutrições) e inteligência senso-motora, anteriores ao uso da linguagem verbal. A aprendizagem ocorre e se aprimora com a prática, desse modo, a sucção do recém-nascido é aperfeiçoada diariamente e em uma generalização da realidade, sucessivamente ao passar dos meses, leva a boca tudo o que está ao alcance. Experimenta texturas, espaços, medidas, intensidades e a dupla estimulação ocorre durante o ato de sugar o polegar. “Em suma, assimila uma parte de seu universo à sucção […] dizendo-se que, para ele, o mundo é essencialmente uma realidade a sugar”. (Pg 18)

Se o reflexo traz um resultado interessante, por exemplo, uma série de movimentos culminarem no acender ou apagar de luzes, o lactante mobilizará esforços para repeti-los ao julgar conveniente a repetição, as chamadas “reações circulares”. Com o acúmulo de experimentos gerados pela ação e reação, o arcabouço de informações permite antever usos e funções de movimentos específicos em conceitos particulares. Por exemplo, diante de uma pessoa nova, a criança pode atirar um objeto sucessivamente ao chão para testar trajetórias e quedas, porém, se o mesmo objeto for pego por um cão pode não retornar para a criança como ela esperava, encerrando ali seu experimento devido a essa variável (outro ser com interação distinta), ou seja, dependendo do receptor do objeto, a criança teria uma resposta diferente e o acúmulo desses resultados, seu estímulo ou repressão, geram impressões sobre o permitido ou o evitável. A individual revolução copérnica infantil acontece ao perceber objetos e indivíduos não orbitando ao seu redor, a existência desses, portanto, precede sua presença. Um apontamento sintomático dessa percepção realiza-se por volta do primeiro ano na procura de objetos afastados do seu campo de percepção “[…] do egocentrismo integral primitivo para a elaboração final de um universo exterior” (pg. 21). Entrementes, salienta-se a interconexão entre afetividade e inteligência, fatores decisivos na conduta na busca por equilíbrio.

Segundo Piaget, a inteligência (adaptação de um organismo a uma situação nova) advém de duas tendências inatas: A organização e a adaptação, ambas por meio da interação. A criança aprende com interação direta com objetos físicos, sendo o conhecimento, a progressiva construção das estruturas de pensamento. Na segunda parte da primeira infância (dos dois até os sete anos) destaca-se a inteligência intuitiva, a submissão aos tutores e crianças mais velhas, acompanhados de sentimentos interindividuais espontâneos. Durante a socialização da ação, as relações interindividuais são feitas por meio de jogos interpretativos onde imitam gestos exteriores, cabendo à palavra, se converter em instrumento de narrativa da própria história na intervenção no tempo acrescido de elementos ficcionais. Se o cronista tem a potencialidade de rememorar uma ação impregnando ótica subjetiva em fatos cotidianos, a criança por meio do jogo simbólico (interpretativo) remonta comportamentos imprimindo a mescla entre realidade e liberdade criativa, sua pitada de ficção.

Se reunidas, as crianças dessa faixa etária, ainda centradas em si, iniciarão uma espécie de “monólogo coletivo”, onde cada uma dirá suas impressões sem troca de pensamentos reais, compondo mais de um terço da linguagem espontânea entre crianças de três e quatro anos, diminuindo tal conduta gradualmente por volta dos sete. Nos “porquês” infantis encontramos as teorias lógicas baseadas em forças divinas ou na intervenção humana para explicar fenômenos da natureza, entre essas vertentes está o artificialismo (as montanhas crescem porque fabricaram pedrinhas antes de plantá-las…), animismo (coisas como vivas e dotadas de intenção) e finalismo (serve para…).

“[…] Consistem todas em uma assimilação deformada da realidade á própria atividade. Os movimentos são dirigidos para um fim […] a realidade é animada e viva; as leis naturais tem obediência, em suma, tudo é modelado sobre o esquema do próprio eu.(pg 33)

A principal característica das intuições primárias é a irreversibilidade inclusive do ponto de vista motor, como a escrita da direita para a esquerda, cooperando em alguns casos para uma escrita “espelhada” ou a dificuldade em colocar números ou categorias em ordem decrescente e conforme a idade avança, esse conceito torna mais assimilável. No campo da moral, as crianças antes dos sete anos consideram a mentira tão pior quanto mais distante for a possibilidade de sua concretude, nessa ótica, afirmar um tropeço em uma formiga do tamanho de um gato é considerada mentira mais grave se comparada ao falsear da organização do quarto. Em valores morais intuitivos, apontam para um respeito unilateral encadeando sentimentos de punição severos conforme a intensidade da transgressão. Ou seja, tomada ao pé da letra, a regra deve ser cumprida como um dever sem qualquer espaço para o questionamento, o temor à lei e a autoridade são irrevogáveis e qualquer infração justifica penalidade.

O começo da lógica, ou seja, de operações intelectuais concretas, sentimentos de cooperação e dever moral para com terceiros despontam por volta dos sete aos doze anos. Sobre a percepção espacial de objetos, cada etapa do desenvolvimento permite aferir impressões diferentes:

“Embora as operações de seriação (coordenação das relações assimétricas) sejam descobertas assim, por volta de sete anos em relação aos comprimentos ou tamanhos dependentes da quantidade de matéria, é preciso esperar os nove anos, em média para se obter uma seriação análoga dos pesos (de tamanhos iguais, por exemplo, bolas do mesmo tamanho, mas com pesos diferentes), e onze ou doze anos, para se obter a dos volumes (pela medida de imersão na água).” (pg. 50)

Por fim, segundo Piaget, a formação da personalidade, as operações intelectuais abstratas e a maior participação afetiva na sociedade adulta ocorrem na adolescência. Se a criança sente-se inferiorizada e a mercê do mundo adulto, o adolescente por sua vez imerso em um universo em desencanto (adultos não têm todas as respostas e sequer são bastiões da moral) se vê diante de uma oportunidade única: Mergulhar mais uma vez em seu interior para emergir a própria vontade ofuscada pelas ordens até então obedecidas com dedicação. O jovem cria a distinção entre os estabelecidos e se empenha em superá-los imprimindo essa construção em sua identidade, como na canção popular entre adolescentes I’m becoming this, all I want to do, is be more like me, and be less like you”. (Estou me tornando isso, tudo o que eu quero fazer, é ser mais como eu e menos como você).

Os projetos de vida adolescente, em geral, são repletos de aspirações generosas, uma pequena dose de megalomania, grandiosidade e ao mesmo tempo egoísmo, é momento propício para apegar-se a religião de maneira fervorosa ou ainda, romper com tradições e expectativas familiares para a trajetória pessoal. É descobrir e construir quem está refletido no espelho na busca por identificação com outros grupos e se em nada neles satisfazer os apetites, ousar formular o próprio grupo e demarcar novas regras. A respeito do desenvolvimento e a socialização, toda interação é uma aprendizagem. Expostos em novo ambiente e regras de convivência, os sujeitos mobilizarão conhecimentos e vivências num movimento constante por assimilação, equilíbrio e integração.

Referências

BENNINGTON, C.CHESTER. Numb. Linking Park [Compositor] In: Linking Park. Meteora. NGR Recordings, North Hollywood, California: Warner Bros. Records, 2003. 1 CD (ca.  36 min e 36 seg). Faixa: 13 (3 min e 7 seg).

PIAGET, JEAN. Seis estudos de psicologia. 24ª ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2006.

4 outubro, 2013

Coceira

Posted in Desejo às 12:18 pm por Deborah Sá

Se eu fosse um protagonista de filme dos anos 80 não seria o que com única arma mata um exército. Estou mais para o do final com cortes, marcas, vez ou outra, até sangrando. Tentando por insistência, uma leve falta de noção, uma pitada de ingenuidade. Mudar de lugar constantemente e ficar um pouco desconfortável tem lá suas vantagens, a principal delas é se sentir em movimento. Há quem busque peças que se encaixam perfeitamente para ter a paz de espírito de deixar como está o irretocável, não ter de pensar a respeito. O tempo me mostra que o que me fascina é o não encaixe, é divertir-se desafiando a simples explicação, é fazer dar certo principalmente com as ferramentas erradas. Não importa se eu procuro sarna pra me coçar, se elas às vezes me acham, o fato é que algumas coceiras são deliciosas.