6 setembro, 2013

Tem alguém aí?

Posted in Egotrip às 9:58 am por Deborah Sá

No último post não entenderam que se tratava de um pedido de ajuda. Como a maioria das coisas que gosto, sigo, acredito, elas se tornam um mistério até que pense, escreva, ouça bastante os outros. Por isso compartilho cada pormenor, se tem gente que bebe pra que a verdade saia, sento diante das letras. Lá (e aqui) não tem escapatória, psicografo no barulho de teclas, ordeno ideias, assombro com o que sai e quase sempre está de mudança. Por esses dias escrevi versos a caneta, me envergonhei deles, amassei, rasguei, joguei no lixo. Fazia tempo que não sentia vergonha de meus escritos, foram eles os ajudantes até então, na coragem pra levantar da cama por anos a fio, vislumbrar as inclinações mais sinceras e apaixonadas. Contudo, se busco explicações, os resultados são não lineares e fogem de respostas simples.

Enquanto trânsfuga de classe há um desenraizamento do meu local de origem (que nunca me senti realmente parte), para viver em outro não lugar: A faculdade. É final de semestre, minha pesquisa tem de estar pronta até fevereiro (e ainda faltam muitas entrevistas, leituras, relatórios), meu relacionamento teve a primeira crise (mas estamos nos acertando, acho <3), mês passado menstruei duas vezes, a dentista tem forte suspeita de que eu esteja com bruxismo (os dentes da frente estavam com pontinhas quebradas), nas últimas semanas o horário de dormir tem passado das duas e meia da manhã, não tenho conseguido comer muito bem, experimentado fortes dores de cabeça, não lido muitos textos das aulas. Faço um esforço terrível para contar para os outros que estou sofrendo pra valer. Sinto que meus problemas são pequenos, a minha saúde e paz de espírito estão mostrando que não.

Senti-me por vezes um estorvo na vida de familiares, amigos, amantes. Pensei que ao me abrir os silenciava, ao calar, não me reconhecia no espelho. É nó na garganta. Complicada até pra mim, pensei em jogar tudo para o alto. Porém, havia um fiozinho de esperança, se esse é o ano mais difícil é também o que me trouxe mais descoberta, mexeu com as minhas certezas, coisas que a faculdade faz com a gente. Tenho medo de pontes, não passo nem da linha amarela do metrô e se estou triste assim, procuro evitar passar perto, pensamentos que colocam muito abaixo fazem o corpo puxar de vertigem. Logo recordo das minhas avós não terminarem nem o ensino fundamental, sou a primeira da família na faculdade pública, enfrentei a escola, enfrentei e enfrento o passado do meu avô, enfrento a vergonha pra me aproximar de gente que acho interessante, passei por cima de uma série de convenções pela honestidade com pulsões não convencionais. Estou aqui. Contrariando todas as expectativas, eis me aqui. Dei e dou (amém, imãos!) com muito gosto.

Ter uma boa autoestima (nem cabe nos dedos das mãos as vezes que olhar no espelho e ver meu cabelo fabuloso foi o que me fez ter forças de sair de cabeça erguida de casa) não significa que eu não fique insegura, basta buscar nos arquivos do blog para ver que eu fico desolada e “em crise” nesses novos ambientes (faculdade, troca de emprego).  Ao conviver um pouquinho comigo off-line dá para perceber que digo muito “com licença”, “por favor”, “obrigado”, ”me desculpe”, polidez ás vezes é interpretada como timidez. Tenho um profundo respeito e admiração pelas pessoas das quais me aproximo, queria fazer se sentirem ótimas e lindas como as fotografo nas minhas retinas, as fazer saber a felicidade e a empolgação de ganhar seus abraços, suas palavras de afeto, seu apoio, me sinto tremendamente grata pelo que dizem e pelo que ouvem. O soco no estômago nesse período de cobranças foi vislumbrar que talvez esteja atrapalhando demais os outros e dá-lhe implosão, raiva e mais implosão.

Meu orgulho, esse que lutei tanto pra construir não impede em nada de sofrer, a troça que faço da relação harmoniosa com o espelho não esconde uma insegurança latente. Não é proteção e escudo. É a mais brutal sinceridade. Se amar não merece castigo, nem solidão, é direito conquistado a duras penas e não, não abrirei mão dele. Isso não me tira o senso de realidade, sei que minha beleza passa longe dos padrões, nunca fui e provavelmente não serei uma aluna nota dez (minhas notas se aproximavam de oito). Tenho dias bons e ruins, mudo de rumo e cometo erros. Da mesma forma que gosto de ser venerada, adoro venerar (um clichê leonino). Amo interagir e me devotar aos semi-deuses que todos somos, declamar apreciações, dedicar versos. Uso as palavras veneração, dedicação, apreço e orgulho uma vez que não gosto de eufemismos e quando se escreve, nenhuma palavra é despropositada. As letras são os recursos na minha dispensa e tal e qual as emoções, preciso de você pra tornar o escambo possível.

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