5 setembro, 2013

Escorrendo

Posted in Egotrip às 2:48 am por Deborah Sá

As sessões no psicólogo duravam cerca de duas horas e meia. Ele era bem camarada e cobrava o preço de uma sessão comum. Quando comecei a menstruar foi aquela loucura, dois absorventes, lençóis e roupas manchadas. Fiz exames, nada de errado. Em termos sexuais também tudo é muito intenso e molhado. Sou um grande fluxo, seja nas palavras ou nos gestos. Acordo assim, tagarelando.  Se cada pessoa tem uma cota de palavras por dia a minha deve no mínimo, ser o triplo. Faço esforço pra escrever pouco, falar pouco. Meu estado natural é: Empolgado, sorridente, afetivo, típico das criaturas efusivas e expansivas.

Um incômodo me tomou por esses dias, não que não houvesse pensado a respeito antes, mas agora foi possível enxergar um padrão. Sinto que por ser essa torrente algumas pessoas ficam inseguras. Por exemplo, uma moça com que trabalhei ao se despedir disse “Que pena que está saindo, gostei tanto de você! Aprendi tanto!”. E eu respondi “Eu também! Você me ensinou muito”. Ela respondeu de volta “Mas não tem nem comparação! Você tem tanta informação!”.  Já ouvi “Sinto que se faço trabalho (em grupo) com você, estou te segurando” e em outro momento “Você transborda e eu…me sinto desinteressante”. São coisas que doem ouvir. Me aproximo de quem gosto e me desperta o interesse, mas algumas vezes são tímidas ou bem menos expansivas, detesto sentir que estou as silenciando. Quero que enxerguem o quanto são incríveis e se o palco é grande, meu coração é maior ainda.

Entra em cena o recorte de gênero tradicional e dicotômico. Se fosse um homem galanteador, seguro, “cheio de informação”, escritor, bonito e até um pouquinho petulante, seria considerado  charmoso, provavelmente cobiçado, mas não ameaçador. Não teria de pensar “podem se afastar de mim por se sentirem intimidados”, mas abriria braços e alas para passar. Élisabeth Rousset, Geni, Maléna, Capitu, a figura feminina que honra os brios não costuma ter final feliz, acaba por ficar sozinha ou cair em emboscadas, os demais personagens não levam a sério por descrédito moral. O que explica o roteiro clássico dos meus pesadelos (quem sabe até, meu medo de multidões). E só pra contrariar, como é de meu feitio, prefiro ser manga. Grande, perfumada, suculenta, com um caroço enorme no meio e convenhamos, para os que gostam mesmo, pouco importa os fiapos.

2 Comentários

  1. Caroline said,

    Queria dizer algo que fosse de ajuda, mas pensei e pensei e na minha cabeça não surgiu nada q eu pudesse dizer. =( É um problema estranho esse, né, o de ser “brilhante demais”. Eu não sei, é difícil apontar exatamente onde está o problema – quer dizer, quando a gente tá sofrendo, é pq algo não está equilibrado, então alguma coisa fora do lugar tá pedindo atenção. O problema certamente não é vc ser expansiva, o cerne deve estar em algum outro lugar. Talvez se vc meditar a respeito, tentar relaxar a mente pra encontrar uma resposta sem se degladiar consigo mesma… vc jamais deve deixar de ser vc mesma, às vezes só alguns “ajustes finos” são necessários. Talvez uma forma um pouco diferente de canalizar sua expansividade ou de lidar com o fato das pessoas ficarem meio intimidadas? Que ajustes seriam esses, só vc pode descobrir, acho q nenhuma outra pessoa vai poder te dizer ou te dar uma solução… Desculpa mesmo, sei que devo estar falando coisas super genéricas, eu entendo um pouquinho do q vc sente pq me sinto mto desconfortável tbm quando alguém me diz q de alguma forma se sente inferiorizado por algo q eu fiz, pq oq eu gostaria mesmo é de inspirar as pessoas a brilharem seu próprio brilho também, e não fazê-las se sentirem menores nem nada disso. Mas isso com certeza não deve incluir vc “brilhar menos”. Espero que encontre uma resposta e consiga ficar em paz. ♥

    • Deborah Sá said,

      Você disse tudo, Caroline. “pq oq eu gostaria mesmo é de inspirar as pessoas a brilharem seu próprio brilho também, e não fazê-las se sentirem menores nem nada disso. “. Obrigada mesmo, eu precisava de uma voz externa pra me ajudar a respirar mais fundo e pensar a respeito. Obrigada, de verdade.

      Um abraço e um beijo!


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