22 agosto, 2013

Que tipo de feminista sou

Posted in Gênero, LGBT, O pessoal é político às 1:18 am por Deborah Sá

Antes, acreditava ser uma feminista radical, por ser anti-pornografia, por ter críticas a prostituição como simples escolha (os grupos vulneráveis que as exercem não tem muita alternativa), por defender espaços exclusivos. De um tempo pra cá, minha visão sobre esses assuntos ganhou outras matizes: Sim, a pornografia é a apropriação capitalista da sexualidade e dos corpos, sim, a prostituição também é um mercado que lucra com a vulnerabilidade social, qual é a cor da pele dessas pessoas? Qual a escolaridade? A quais riscos estão expostas cotidianamente? Que profissões gostariam de seguir se lhes fosse dada outra chance? E não estou falando de ensinar prostitutas a fazer eco-bag de garrafa pet ou bordar pano de prato, não estou falando de “salvar” alguém, me refiro a articulação de dentro pra fora, de ouvir primeiramente o que as prostitutas tem a dizer sobre sua própria vivência. Do respeito incondicional que devemos ter por todos os humanos (os não-humanos não são foco nesse post, muito embora resguardar somente respeito antropocêntrico, é especismo ). E os espaços exclusivos? Sim, eu ainda os defendo. Mas como um momento de empoderamento no sentido mais clássico da palavra, para fortalecer a auto-estima de quem está tão fraco para lutar e se amar que mal consegue dizer “não” para o que aflige, para aquelas que entram em relacionamentos abusivos por sentir que o outro fez um grande favor em aceitar as “imperfeições”, para todas as vítimas de violência sexual. Eu já fiz parte de grupos assim, foi fantástico.

Antes, eu acreditava que as disparidades entre feministas radicais e queers eram tretas americanas, o melhor era ter foco no nosso movimento aqui. E bem, nosso movimento está fervilhando on-line e nas ruas e isso respinga em uma imagem de um feminismo sempre acolhedor e fofinho. Algumas feministas negras denunciaram silenciamento dentro de um feminismo branco. Algumas feministas não universitárias reclamaram do academicismo em discursos grandes e pouco práticos. Algumas feministas reclamaram de transfobia. Algumas feministas denunciaram o quanto é cômodo ter empregada doméstica e fazer vista grossa pro recorte de classe implícito ali. E tudo isso é muito justo e tem de ser feito, realizado por quem está se sentindo pouco representada, coagida, silenciada. Doeu? Ofendeu? Fale. Não acoberte em nome da camaradagem, o movimento feminista já nasceu com má-fama, o que podemos fazer agora, no mínimo, é agir com honestidade e isso significa ir além do próprio umbigo.

Onde me localizo nesse mundaréu de termos e posicionamentos? Não em palavras como sororidade e irmandade, misandria e male-tears (usadas por algumas feministas radicais): Se vale ridicularizar o privilégio do outro, porque não cis-tears? (termo que também me desagrada, usado por alguns Queers) e mais além, human-tears? Ter privilégios não nos impede de sofrer em outras dimensões, ricos também sofrem? É, sofrem. O fulano não precisa se preocupar com fatura do cartão de crédito? A cicrana não tem calo nas mãos? Você sabe ler e escrever? Você concluiu o ensino médio? Você já teve que dormir na rua? Você ouve, fala, enxerga, anda sem ajuda de próteses? Você já passou fome? Você já teve de se prostituir? A vida pode ser muito, muito dura, em níveis escabrosos, mas sempre há privilégios para serem revistos, há opressões cometidas mesmo sem querer. Reconhecer privilégios não significa sufocar as próprias dores e mágoas, admitir facilitadores é democratizar a liberdade e o amor-próprio. É desprivilegiar o direito. E agora, se não me sinto totalmente incluída nessa ou naquela vertente, que tipo de feminista eu sou? Oras, a disposta a “ouvir”.

6 Comentários

  1. Ly said,

    Gostei muito do texto, mas não entendi uma frase. “é desprivilegiar o direito”, o que você quis dizer com isso? Reconhecer privilégios não é também entender que nem todo mundo possui os mesmos direitos e certos benefícios que você, e sim, querer que todos possuam os mesmos direitos, então não seria outra frase aí? Desculpa, mas fiquei confusa com a escolha dessa frase.

    Beijos

    • Deborah Sá said,

      Oi, Ly,

      A intenção é tirar o status de privilégio do direito. Ou seja, estudar em uma faculdade pública, por exemplo, é direito, mas acima de tudo é um privilégio, por isso “desprivilegiar o direito”, entendeu?

      Um abraço!

      • lygia said,

        Entendi! Obrigada!

  2. Diana Pessoa said,

    Deborah, no meio de tantos debates e discussões, me senti plenamente representada por esse seu texto.
    Sou feminista já há algum tempinho e tenho visto ultimamente essa “luta” não por melhorias na vida das mulheres (especialmente) e homens (também afetados, em menor grau, evidente) sufocados pelo machismo, mas, sim, uma guerra declarada ao outro que está em condições mais “favoráveis”…..
    Verdade que isso não representa todo o feminismo: o que poderia representa-lo?
    Porém, seu texto foi um refresco pra mim.
    Obrigada!

    • Deborah Sá said,

      Por nada :)

  3. […] a expressar a dimensão do tema, quanto mais de forma competente como retratados aqui, aqui e aqui, textos que condensam tanto do que disse que até servem como glossário para este (e tantos outros […]


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