29 julho, 2013

Joguei meu véu no lixo (e jogaria novamente)

Posted in Crenças, O pessoal é político, Por um Estado Laico às 1:37 pm por Deborah Sá

Em um primeiro momento julguei o quebra-quebra de santos um erro estratégico. Uma peça de teatro, um filme, um videoclipe, uma fotografia com a mesma performance não traria essas dúvidas. A dúvida era, será que as pessoas entenderiam a mensagem? Francamente, o movimento feminista já tem o filme bem queimado, culpabilizar esse ato pela má impressão seria uma injustiça. Mas por que o feminismo não é mais divulgado? Porque não interessa a grande mídia, porque não faz aumentar a venda de cosméticos e cintas modeladoras, porque vai à contramão do sacrifício e da penitência, porque defende o respeito não só pra quem tem dinheiro e supostamente faz jus à dignidade. Aliás, o feminismo rasga em pedacinhos o lema “tem que se dar o respeito”, você não precisa falar baixo para ser respeitado, você não precisa usar uma roupa comportada para ser respeitado, você não precisa ter um diploma para ser alguém na vida. Você deve ter o direito de possuir iguais oportunidades para só então, escolher entre qual caminho escolher e como nem todo mundo tem o mesmo ponto de partida há distanciamentos onde cada um consegue chegar, são essas distâncias que o feminismo pretende encurtar.

Voltemos à santa, como qualquer espaço na grande mídia, ganha flash o que der mais ibope. Se você espera que a TV ou os jornais reportem os eventos como um todo, esqueça, o melhor é tentar ouvir dos envolvidos como as coisas aconteceram. Pesquise blogs, perfis no twitter, portais de notícia além dos tradicionais. Se as pessoas entenderão a mensagem daquela violência simbólica depende de muitos fatores, principalmente de quais são suas fontes de informação.

Tom Regan, em Jaulas Vazias, diz que o erro discursivo dos defensores Direito Animal é dizerem-se “sem violência” e apoiarem a ALF que ataca a propriedade privada (entram de capuz, libertam os animais, pixam e quebram laboratórios). Essa crítica é válida se pensarmos que alguns ativistas tem de fato uma prática de nunca revidar, nunca agredir. Mas eu não sou parte desse grupo, defendo algumas formas de violência, especialmente, as que envolvem grandes corporações e estruturas opressoras. Quando se quebra algumas imagens de santos católicos (comprados) é uma violência simbólica, um revide. Mas o que uma imagem de gesso representa? Representa a fé de muita gente, a bondade e a pureza da mulher, a virgindade. Ao quebrar a santa se pensou para além disso, foram considerados os casos de pedofilia acobertados pela igreja, nas mulheres queimadas em fogueiras, nas negras e pobres que morrem pelo não direito aos seus corpos, enquanto mulheres brancas (e até católicas!) pagam por uma clínica e acobertam o aborto. Por um amontoado de células valerem mais que uma mulher adulta, pela excomunhão de uma menina de nove anos vítima de estupro, pelos filhos jovens que apanham e são expulsos de casa por não ser hétero, pelos milhares de jovens suicidas que tentaram expurgar a culpa de seus desejos e corpos.  Contra a defesa do fiel cordeiro que vai ao abate em resignação ao seu destino.

Cresci em preceitos cristãos, mais precisamente evangélicos, meu destino foi traçado de muitas formas e interligado a esse fato. Somado aos dados de meu gênero e classe, a essa altura estaria com alguns filhos, muito provavelmente indo do culto para casa, limpando e zelando do lar, sem concluir o Ensino Médio, talvez sem nunca conhecer um orgasmo. Eu era infeliz, em Cristo. Mas havia algo pulsando dentro de mim que era sufocado pela religião e por grilhões psicológicos intensos. Tive medo de me soltar e do mundo me engolir, tive medo de buscar o meu prazer e do desconhecido, até onde seria capaz de chegar? Quem seria essa pessoa trancada no armário? Sentia olhos invisíveis pairando sobre o meu sexo, nas primeiras vezes que pratiquei de modo consentido (a minha primeira experiência sexual foi aos dez anos, não consentida, ele acreditava em Deus) tinha de olhar todos os cantinhos do espaço em que estávamos para ter a certeza de não ter câmeras. Aos poucos a vergonha foi trocada pelo orgulho e num dia de cortar laços, juntei as centenas de recitativos, a bíblia pequena e até o meu véu, embolei em uma sacola plástica, fiz o lacinho, desci as escadas e deixei para o lixeiro levar aquela aliança cortada, o pedaço que já não me pertencia. E encontrei um horizonte tão, tão grande, que às vezes me assusto o tanto que avancei e o tanto de carinho e amor que recebo, o quanto estou melhor. Não faço mais qualquer questão de ser barrada no mundo celestial onde flutuam fetos e almas de pessoas tão elevadas, cacos de gesso, tocos de crucifixos, leite e mel (até porque, sou vegan) e trilha sonora gospel. Prefiro extrair da minha breve estadia o máximo de prazer e aprendizado. Faço da minha prática a busca por igualdade, não por medo das labaredas de um carrasco a mando de Deus, mas porque é justo.

21 Comentários

  1. Deborah, concordo tanto com isso: “o feminismo rasga em pedacinhos o lema “tem que se dar o respeito”,”

    Porque é bem por aí mesmo. E, com certeza, se fosse um videoclipe, uma peça, outra ferramenta, talvez não causasse a mesma comoção. mas até que ponto também não temos que propor esse enfrentamento direto e inconsequente para termos espaço (mesmo que negativo) numa mídia corporativa que nos ignora e quer nos varrer para debaixo do tapete?

    • Deborah Sá said,

      Exato! Beijos, querida!

  2. Mandarax said,

    Esqueça a compreensão. Faça.

  3. Pudim said,

    Nesse episódio acabei lembrando varias vezes do movimento de libertação animal, da violência, da não violência e dos avanços e nao avanços. “ai, mas eles destroem os bioterios, que horrooooor”. Que bom encontrar teu texto. Beijo, Terla

    • Deborah Sá said,

      Obrigada, Terla!

      Bom te ver por aqui! Pois é, eu pensei a mesma coisa…”Ué, mas os vegetarianos não ficam ~de boa~ comendo tofuzinho e ouvindo Mutantes?”.

      Um abraço,

  4. Rê_Ayla said,

    “É só um pedaço de gesso” é o novo “é só uma piada”?

    Desculpa, mas é impossível respeitar quem fica indignado quando recebe a resposta “é só uma piada”, mas está por aí entoando mantras de “é só um pedaço de gesso”.

    Não, não é. Acaso fosse, não geraria nenhuma repercussão, positiva ou negativa.

    Ademais, acho bastante burro recorrer ao “olho por olho, dente por dente” – isso só faz sentido se a intenção for se tornar igual àquilo que se combate.

    Martin Luther King, em “Apelo à Consciência”, defende que os oprimidos não repitam a tática e enxerguem nos seus opressores pessoas igualmente fragilizadas. Deve-se garantir seus direitos, não humilhá-los. Até onde se sabe, ele conseguiu resultados impressionantes na luta racial americana – melhores do que quaisquer baderneiros.

    Até onde se sabe, em países desenvolvidos, conseguiu-se melhores resultados em direção à laicidade do Estado com EDUCAÇÃO, não com humilhação da fé alheia.

    Seria muito bom se os ânimos se direcionassem para a Paz e para a luta por uma educação de qualidade – em vez de lutar contra opressão e violência usando exatamente opressão e violência.

    Nota: não acredito em Deus (exceto o Baryshnikov, obviamente), não sigo nenhuma religião (exceto o culto ao chocolate, à pizza e ao café) e tenho muito medo de radicalismos – venham de que lado vierem.

    • Deborah Sá said,

      Rê,

      É claro que quebrar imagens de santos é violento, é uma violência simbólica, reconheço isso plenamente. Faria isso? Não. Me importo com isso? Não (pra mim é só um pedaço de gesso), mas você tem razão quando diz que isso afeta a fé de muita gente, isso magoa. Mas como disse, eu aprovo certas formas de violência, principalmente contra estruturas de opressão e a igreja católica tem um histórico bem pesado nesse aspecto. A Madonna fez o mesmíssimo em Like a Prayer e tão blasfêmico quanto é A Vida de Brian do Monty Python’s. Como você vê essas obras?

      Veja, a minha briga nunca é contra indivíduos isolados, mas contra estruturas, até porque acredito que todos podemos mudar e estamos sempre em movimento (eu inclusa, okey?). Mas ao nos posicionar já chocamos, principalmente em um momento como esse que exige escolher um lado. Ao romper com Deus quebrei meus símbolos e certamente isso faz doer o coração de alguém que me lê (imaginar a bíblia no lixo…). Além disso, não dá pra controlar o que grupos isolados podem fazer em uma multidão. Cada um usa suas armas de combate ideológico, eu costumo usar as letras e as palavras, há quem prefira os punhos. Sobre ser incompreendido, é uma chance que todo mundo corre independentemente da postura que se toma, uma senhorinha pode julgar o ato uma “sem-vergonhice” despropositada, mas essa mesma senhorinha pode ficar tão ou mais chocada com uma pessoa cheia de modificações corporais e até cuspir ao ver alguém assim passar. O choque ideológico ocorrerá, mas em quais termos só o tempo dirá, a cartilha distribuída na JMJ tem um discurso que fere e mata mulheres negras e pobres (as que não possuem dinheiro para pagar a reputação) e ás mulheres transexuais que não querem passar pela cirurgia, oprime tudo o que não sai da forma quadradinha, legitima e cria disparidades entre “bons” e “maus”.

      Nada impede que no bojo de todas essas discussões defenda-se a luta pela educação de qualidade e laica, uma coisa não anula outra.

      “Não lutamos por integração ou por separação. Lutamos para sermos reconhecidos como seres humanos.”
      Malcom X

      • Gustavo said,

        Opressiva, vocês só usam esse adjetivo pra religião? Mas lembrar quem foi a principal instituição que apoiou o fim da ditadura e o Diretas Já ninguém lembra…

        Primeiro que você tem sim que se dar o respeito, segundo, o papo de escolher o caminho sem necessidade de um diploma? Escuta queridinha, por um acaso você se sente tão capacitada pra construir um supercomputador quanto um cientista na NASA?

        E não me taxe de nada que você taxa quase todos, machista, opressor, tradicionalista e o diabo a 4, pois eu sei o que é ser julgado, afinal sou homossexual…

      • Deborah Sá said,

        Gustavo,

        Tudo é socialmente construído, inclusive a supervalorização da cultura legítima. Pelo o que indica, você aprecia leituras acadêmicas e reflexões, esses são alguns teóricos ou ensaístas que exploram o tema de uma maneira que gostei:
        – A distinção – Pierre Bourdieu
        – A noção de cultura nas ciências sociais – Denys Cuche
        – As utilizações da cultura 2: aspectos da vida cultural da classe trabalhadora – Richard Hoggart.
        Não sei porquê supôs que tenho uma relação aversiva com o conhecimento teórico, flerto com ele bem antes de frequentar a faculdade. Adoro livros e aprender, portanto, não sou anti-intelectual como imagina (se explorar mais o blog, notará isso). O que defendo é a democratização do acesso ao conhecimento legítimo sem subestimar as produções não-acadêmicas. Ademais, nem todo mundo quer construir supercomputadores, as funções psicológicas superiores (isso está no Vygostky) fazem parte do desenvolvimento humano, é a capacidade de antever, rascunhar algo na imaginação dentro de uma confluência de saberes. Uma costureira experiente, por exemplo, usa motricidade fina, tem boa noção espacial, antecipa formas e combinações, etc. Não oponho “a escola da vida” ao “o patrimônio intelectual da humanidade”, essas categorias estão para além dos espaços óbvios, isso é, você pode aprender a ler e escrever sem necessariamente frequentar uma escola se outros mediadores (provavelmente com alguma trajetória escolar), intercederem na sua formação. Quanto ao domínio da língua, por exemplo, repentistas e rappers tem uma relação com o corpo e a expressão da palavra, uma capacidade imensa de improvisação. “Qualidade” essa também valorizada em um comediante. O que quero dizer é que diferentes capacidades servem para diferentes propósitos e nenhum corpo vale menos que outro por se sair “bem” em uma coisa e não outra. Todos os corpos são bons (e a mente faz parte do corpo, com uma dor de barriga, o que for, todo mundo fica debilitado). Um corpo ágil de um corredor é diferente de um halterofilista e muito diferente de um contorcionista, cada qual exerce sua ação nos meios produzindo resultados muito diferentes. Um mecânico vai te ajudar em uma coisa, o oftalmologista em outra, cada um com um propósito sem anulação da importância de ambos.

        Sobre ser homossexual, eu não estou julgando o que faz da sua vida/corpo de forma consensual, a argumentação aqui é focada no discurso, logo, esse fator é irrelevante.

  5. Patricia C. said,

    Texto maravilhoso e doloroso em algumas partes. É meio que um caminho sem volta se informar. As vezes o cansaço é grande, penso que seria melhor não saber de nada e seguir minha vidinha, mas né, no final das contas vale a pena ter a consciência de tudo que o feminismo representa. um beijo.

    • Deborah Sá said,

      Obrigada, Patrícia,

      Sim, um caminho sem volta, mas nos faz refletir sobre nossas práticas cotidianamente. Um abraço ;)

  6. Bruno Versiani said,

    A religião é a fortaleza dos ignorantes, covardes e hipócritas.

    • Deborah Sá said,

      Nem sempre.

  7. Natali said,

    Que linda…, lindo e poderoso seu texto.

    • Deborah Sá said,

      Obrigada, Natali :)

  8. Olha,

    eu gosto mais de responder pelo Facebook, mas esse tema eu acho que precisa de um contraponto aqui.

    Como a gente avalia um ato político? Os critérios são os mesmos de um clipe ou de uma obra de arte em geral?

    Claro que não! É justamente esse o problema da tua postagem. Não podemos cair na idiotice pós-moderna e querer apagar as fronteiras entre manifestação e performance. Uma performance expressa uma ideia (por isso, o Like a Virgin é um dos maiores clipes que já foram feitos), a manifestação é pra CONVENCER as pessoas ou pra pressionar alguém.

    Logicamente, quebrar as estátuas não pressiona ninguém. Mas o pior é que, além de não convencer, cria um ótimo pretexto pra igreja atacar o feminismo. Aí você vai dizer: “mas ela sempre faz isso”. Sim, faz, mas sobre temas como camisinha, aborto, e não aproveitando um verdadeiro presente (para a igreja) uma agressão gratuita a um símbolo da fé das pessoas.

    O catolicismo não é um bloco homogêneo. As Católicas Pelo Direito de Decidir, que lutam pela legalização do aborto muito antes dos babacas que quebraram a estátua nascerem, vai ter mais facilidade ou mais dificuldade para convencer as católicas? As militantes orientadas pela Teologia da Libertação e pela Teologia Feminista dentro do MST, vai ser mais fácil ou mais difícil pra elas depois disso?

    Essas questões não dependem da sua opinião pessoal sobre a religião, e nem da minha (que acredito em Deus mas não sou cristão), são simplesmente parte da lógica da política, com que temos que lidar se quisermos realmente mudar alguma coisa.

    Pra terminar, eu não sou contra manifestações violentas, desde que elas ataquem símbolos que a grande maioria da população considera como inimigos (por exemplo, como aconteceu aqui no Rio de Janeiro na manifestação na Assembleia Legislativa mês passado).

    • Deborah Sá said,

      Rodrigo,

      A performance expressa ideias e o mesmo vale para a manifestação, ambas expressam inquietações, desejos e principalmente, intenções. Para discutir a performance como um todo teríamos de discutir o papel da arte e o valor que os grupos atribuem a cada obra em determinado tempo histórico – creio ser essa sua intenção, pois a arte trabalha com signos, tem direção, o espaço que cada ator deve ocupar… – . Um crítico de arte de uma coluna de jornal e alguém que aprecia contracultura terão medidas antagônicas para julgar o que é belo/bom, justo/injusto, útil/insípido, ou seja, o que vale ou não a pena quando se define o que é arte, qual seu propósito e como será seu consumo “correto” (por exemplo, é interativo? Tem de ser feito em silêncio?).
      Muito do que somos é performático (o gênero, inclusive), logo, somos atores sociais em muitas circunstâncias, fazer uma exposição diante de uma sala de aula é uma performance, quando estamos em uma entrevista de emprego até nossa postura muda.
      As manifestações nem sempre tomam as ruas para convencer, mas para principalmente contestar. E isso por si só, faz alguns grupos descontentes, se existe distinção/contraponto (e sempre existe) alguém sentirá no mínimo, desconforto. Não dá pra agradar todo mundo, pois ao se posicionar, se cria a oposição.
      Do ponto de vista dos grandes impactos, não sei até onde esse ato foi de fato marcante, se merece essa preocupação toda. A grande mídia mal falou e ao menos no meu círculo social quem conversa sobre são feministas ou pessoas já engajadas, o resto, nem comenta. Lógico, qualquer erro de uma feminista é ampliado zilhões de vezes pelo fato dela ser quem é, certas pessoas só buscam motivos para culpar um alvo fácil, falar mal de feminista nem precisa de esforço, o movimento feminista por marcar a oposição já nasceu “queimado”. Somos todos humanos e estamos com grande frequência errando, a diferença é que se você pertence a um grupo marginalizado vão usar preconceitos de base esperando um tropeço pra praguejar ainda mais. “Gordo só faz gordice”, etc.
      A maioria das pessoas ainda nem entendeu feminismo, veganismo e uma pá de conceitos, mas mesmo assim os defendo. O trabalho em explicar temas espinhosos faz parte da militância, principalmente nesses fatos tão surpreendentes que pegam todo mundo de calça curta (como o caso da Marcha das Vadias no RJ). Não acredito que as coisas precisam funcionar “redondinho” pra serem ditas/feitas, a gente constrói e descobre como ao fazer, a gente aprende colocando em prática, às vezes dá certo, às vezes não, nem por isso devemos parar. E antes que me esqueça, nem o feminismo é um bloco hegemônico (e acho bom). Se articular ao ataque do óbvio não é necessariamente violento, por vezes é só instinto de manada.

  9. Grace K. said,

    Depois de ler o seu texto e joguei o meu véu, hinário e até a bílblia no lixo. Nem sei porque ainda guardava essas coisas. Concordo com você, de vez em quando é bom dar um “sacode” nesse povo. Todo mundo achou o papa fofo, humilde, humano e tals. Para mim ele não fez e falou mais do que a obrigação dele já que se considera o porta voz da igreja de cristo. Na verdade eu acho que ele prestou foi um grande desserviço, porque com esse disfarce de humildade e humanidade, só fez fortalecer essa onda conservadora que está tomando conta do país nos últimos tempos. Não me enganou nem um pouquinho. Enfim ótimo texto, parabéns!

  10. Carol D. said,

    Gostaria de deixar a leitura desse texto com o que penso ser a verdadeira luta de direitos.

    Uma outra opinião…

    Na sociedade em que vivemos, onde a imensa maioria da população é explorada e tem seus direitos mais elementares pisoteados diariamente, nós, mulheres, somos a parcela mais oprimida e aviltada das classes trabalhadoras. Isto porque, além de sofrermos o peso da exploração capitalista e recebermos menores salários que os homens de nossa classe, recai sobre nós a milenar opressão sexual. As operárias, professoras, camponesas, etc., ou seja, 90% das mulheres em nossa sociedade são duplamente exploradas e oprimidas. Esta opressão sexual surgiu com a propriedade privada e é representada na forma da família monogâmica patriarcal, na qual a mulher é escrava do lar, responsável pelo extenuante e invisível trabalho doméstico e sofrendo infinitas humilhações e formas de violência veladas ou abertas, físicas e/ou psicológicas, sexuais e morais dentro e fora da família.
    (continuação…)

    http://www.anovademocracia.com.br/no-111/4746-nemnvadias-nem-santas-sejamos-revolucionarias

  11. Rose Silva said,

    Cada um tem o direito de se expressar. de dizer como se sente. Mas vou pedir uma coisa: Não digam “nós mulheres” como se todas as mulheres pensassem como vocês, ou como se vocês representassem cada uma de nós. Nenhuma das mulheres que conheço se encaixam em sua definição de mulher. Nenhuma de nós quer ser representadas por vocês. Talvez isso explique porque a mídia não dá mais divulgação a esses teatros de vocês – por que ninguém está nem aí. É desrespeitoso quebrar a imagem de alguém que para nós, católicos, é sagrada? Claro. Foram vocês os únicos, ou pelo menos os primeiros a fazer isso? De maneira alguma! Isso é feito o tempo todo, Não é novidade. Já vimos coisas piores. E sabemos que fazem isso só para chamar atenção. Alguns podem até ficar furiosos ao ver ou ouvir sobre tais incidentes, mas a maioria de nós sacode a cabeça, e segue em frente. A vida continua, com nossas alegrias e tristezas, prazeres e decepções. O que vocês fazem não muda em nada nossa vida. Por acaso o que vocês fizeram vai mudar as leis da Igreja? De maneira nenhuma. E, como vocês não fazem parte da Igreja, não faria diferença nenhuma para vocês, então não vejo a utilidade de atacar a religião de pessoas que nem te conhecem.

    Aqui no Brasil mulheres têm liberdade. Se casam se querem casar, trabalham se querem (ou se precisam), tem uma religião se assim querem. Prova disso é que vocês estão aí.com toda essa liberdade.

    Querem mesmo ajudar as mulheres que são exploradas, reprimidas, escravizadas? Tem muito jeito de fazer isso. Há tantas mulheres que são vendidas como animais, prisoneiras do trafico de pessoas, na maioria das vezes jovens usadas como escravas sexuais. Há países como a China, onde crianças são mortas só por terem nascidas mulher. E não nos esqueçamos de que em muitos países islâmicos, a mulher mal pode abrir a boca. Não pode sair sozinha, não pode dirigir um carro, tem que seguir a religião, tem que casar com quem é escolhido para elas, tem que ter filhos. Não há escolhas, não há opções. Protestar num país onde todo mundo protesta não é nada de mais. É onde não se pode protestar que protestos são necessários. Onde as mulheres podem escolher o que fazer, não é necessário defendê-las. Onde elas realmente precisam de heróis, ninguém vai socorrer.

    Querem representar as mulheres? Então faça algo que realmente ajudaria as mulheres que precisam e querem ser ajudadas.

    Se o que vocês querem é só fazer barulho, então vocês não representam as mulheres: representam somente o seu grupo de feministas que querem aparecer. Eu, e as mulheres que conheço, de diferentes cores, religiões. e classes sociais, dispensamos tal representação. Por favor, não lute pelos meus direitos. Se só querem fazer barulho e escandalizar, sejam honestas com vocês mesmos, e assumam que estão lutando pelos seus próprios ideais. Não me parece que vocês se incomodam nem um pouquinho com as mulheres que pensam diferente de vocês.

    • Deborah Sá said,

      Rose,

      Não me fere saber que outros acreditam em divindades, isso é indiferente. De verdade. Cada pessoa bem intencionada tenta fazer do mundo um lugar melhor, há quem faça sopão e distribua, há quem trabalhe de professor, enfim, há muitas maneiras de ao menos tentar fazer algo, se mover. E é isso que eu tento, sem a pretensão megalomaníaca de salvar o mundo. Bem sei que sou uma em milhão.

      Pode parecer chocante, mas não acredito no feminismo como uma tábua de salvação. Não acredito que exista qualquer tipo de solução mágica para o mundo caótico que vivemos (o caos nem sempre é ruim, ademais, as atrocidades fazem parte de qualquer tempo histórico, felizmente, todos somos influentes e influenciados). Sei que nem todo religioso é igual, talvez seja interessante você saber que a categoria feminista também não é composta por uma massa amorfa e indissociável, há feministas cristãs, há feministas que são mães, as casadas, de todos os tipos.

      Falando em generalizações equivocadas, a percepção de que toda mulher islâmica é uma alienada é uma das grandes inverdades propagadas aos quatro ventos (com uma boa dose de xenofobia). Luto para que as mulheres sejam soberanas sobre seus corpos, de decote, de saia, sem calcinha, com anáguas e conjuntinho bege, de gel ou de barba, a escolha é de cada uma delas. Busco uma sociedade que respeite o corpo alheio e as decisões consensuais. Crianças, mulheres, homens, pessoas não binárias, animais não-humanos… A lista é grande dos sujeitos que julgo dignos de respeito. Não se sente representada, suas colegas também não? Maravilha, consigo conviver com isso, sem crise. Creio que as pessoas não são “chapadas” em meia dúzia de preferências, elas são multifacetadas, complexas. Não há neutralidade nem parcialidade em um sistema político. Não há lavar de mãos.

      Pessoalmente, me preocupa mais o sangue dos crimes de ódio do que os farelos de gesso de uma imagem. Não quero barulho por barulho, tento construir com quem não é meu espelho, com quem não seja “minha imagem e semelhança”. Não se trata de culpabilização, mas de responsabilização, cada um arregaça as mangas como dá. E em uma coisa concordo com você: “Não me parece que vocês se incomodam nem um pouquinho com as mulheres que pensam diferente de vocês.” Verdade, eu não me incomodo.

      Namastê!


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