26 julho, 2013

Lágrimas masculinas – Aos homens de coração partido

Posted in Gênero, O pessoal é político às 3:16 am por Deborah Sá

Ela não quis mais ficar com você, te traiu ou nem deu bola, terminou a relação. A rejeição machuca, se sentir de alguma forma enganado, idem.  Os pombinhos criaram laços e juras de amor eterno e uma hora a coisa se rompeu. Ela não fez isso “na maldade”, “porque é uma vaca”, “porque mulheres são interesseiras”, pelo prazer sádico de quebrar seu coração em pedacinhos. Pelo acaso e uma série de fatores que talvez nem ela fosse capaz de antever com precisão, as coisas mudaram. Sabe esse sentimento de “porque esse outro e não eu?”, “o que ele tem que eu não tenho?”, “fui trocado!”. As mulheres sentem e com freqüência toleram várias formas de violência pelo medo de rejeição. O quanto você aguentaria por dependência financeira, medo da solidão e falta de perspectivas? Muitas mulheres entram em depressão profunda, tentam suicídio, flagelam o corpo.

No entanto, se um homem tem o coração quebrado costuma escutar duas razões básicas e interligadas para a fatalidade: a) A primeira, que a culpa é dele por se entregar “mulher não gosta homem bonzinho”, a segunda, b) responsabiliza mulheres por brincar com o sentimento alheio. Ou seja, de todo modo a culpa deságua na mulher num carma bíblico. As soluções para não quebrar mais a cara e o peito enveredam por dois caminhos: c) Malhar muito, enriquecer e sair com as cocotas sem se apegar ou d) procurar uma moça virgem e submissa para casar.

O primeiro fator (a) supõe que indivíduos não gostam de gentileza e cordialidade (tolice), o que difere de alguém inseguro e controlador que usa sua “fraqueza” de escudo para manter a posse sobre terceiros (o que Nietzsche denomina “moral de escravo” [1]). Todos buscam prazer, satisfação e extrair alguma vantagem, isso é, somos interesseiros em quaisquer relações interpessoais [2]. O segundo tópico (b), ignora o fato das pessoas mudarem de ideia e se afastarem por muitas razões, ao encontrar alguém mais interessante, sentir um forte desejo e satisfazer o impulso, precisar de um tempo para repensar a vida, enfim, a melhor forma de saber o motivo é perguntando para a outra parte envolvida e nem isso garante plena honestidade. Talvez dizer o real motivo magoaria demais (por exemplo, não te achar mais atraente).  O plano de ação (c) pode trazer muita satisfação se é seu referencial de aproveitar a vida, mas nada assegura que não se apaixone ou que se apaixonem por você. O fatídico erro é julgar mulheres com as mesmíssimas expectativas (dinheiro, malhar, ostentação) como inferiores. O que nos leva ao plano (d), a mulher casta e honrada.

A mulher valorosa ou a que traiu o namorado podem se apaixonar e desapaixonar, ferir sentimentos e pedir desculpas, partir sem deixar ao menos um bilhete. É um risco que corremos ao nos relacionarmos com sujeitos em constante movimento, eles repensam a própria história, buscam novos ares, ficam de saco cheio, se decepcionam, querem algo emocionante. Exatamente como você. Um homem de coração partido tem sua raiva e rancor direcionado para todas as mulheres e sufoca ainda mais emoções tão difíceis de exprimir. Sinto informar, te passaram as informações erradas, é o machismo que te impede de chorar e experimentar o próprio corpo, é esse padrão rígido que obriga sua vestimenta ser assim ou assado, o machismo alimenta a vergonha da calvície, o medo de ficar broxa e ser abandonado, proíbe de declamar o amor pela mulher promíscua, gorda e/ou fora dos padrões em nome da sua reputação e virilidade, te faz inseguro. Uma piroca sem qualquer raciocínio e complexidade, sem sentimentos. E para que não reste dúvida, quem dita a regra na qual sem dinheiro você vale menos que merda, é o capitalismo. Remendar seu coração com misoginia é uma bala perdida.


[1]  Os termos “Moral de senhor” e “moral de escravo” detalho melhor aqui

[2]  Que tipo de capital valoriza? Econômico, escolar, cultural? E por que um vale mais que outro? Há esse post onde abordo o tema.

4 Comentários

  1. Antônio Ferreira said,

    Olá, Deborah!
    Gostaria, se possível, que você esclarecesse alguns pontos do seu texto:
    “a) A primeira, que a culpa é dele por se entregar “mulher não gosta homem bonzinho”, a segunda, b) responsabiliza mulheres por brincar com o sentimento alheio. Ou seja, de todo modo a culpa deságua na mulher num carma bíblico.”
    Me parece que você foi um pouco apressada aqui, pois você mesma disse que a culpa em a) era do homem. Além disso, em b) quem comete o ato errôneo também é o homem, responsabilizando várias pessoas por algo que apenas uma fez. De fato as pessoas que pensam dessa maneira (mas não as que simplesmente ouvem essas duas alternativas) vão sempre culpar a mulher, posto que estão tendendo pro machismo, e por isso mesmo deveríamos relutar antes de usar a mesma interpretação dele sobre “culpabilidade”. Penso que ambas as suas razões responsabilizam o homem – e pelo menos deste dilúvio vocês estão salvas. (:
    O que quero enfatizar é que seu esquema está muito limitado. O que dizer dos homens que não culpam as mulheres (gênero)? E ainda, o que você pensa sobre a responsabilidade emocional de um parceiro com o outro? Isso existe, ou sempre que houver uma vontade, não é preciso se preocupar em magoar seu atual parceiro?

    Gostei muito da escolha de temas do seu blog. Estou conhecendo agora, mas vou voltar aqui com certeza. Abraço e boa sorte!

    • Deborah Sá said,

      Olá, Antônio,

      A minha intenção foi dizer que não importa o gênero, as pessoas ficam de saco cheio, querem mudar, o desejo altera a rota. A questão é que não importa de onde olhemos, as pessoas são interesseiras (e não há nada intrinsecamente ruim nesse fato). Não disse que a culpa do coração partido é da própria pessoa (nesse caso, do homem), mas que ele foi enganado pelo machismo e remendar com misoginia, constrói um círculo vicioso que ataca onde não devia inclusive fere a si mesmo.

      A minha ideia não é responder o universo e tudo mais (até porque essa é 42), mas fazer apontamentos de possibilidades, especulações. Homens e mulheres são sujeitos históricos e complexos, não se encaixam em totalidade em uma ou outra teoria, somos sempre miscelânea e justamente por essa falta de controle (e explicações certeiras) estamos sujeitos a errar, magoar alguém. Sobre a responsabilidade, prezo pela franqueza consigo e com o mundo, se a monogamia não é para a pessoa, é melhor procurar alguém que a aceite como é e não tolha sua forma de manifestar o desejo.

      Um abraço!

  2. Ruth said,

    Débora, te leio a um tempinho mas é a primeira vez que comento. Parabéns pelos textos cada vez melhores, bem elaborados e esclarecidos. :)

    • Deborah Sá said,

      Obrigada, Ruth :)


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