22 julho, 2013

Mudar a educação! Mas em qual direção?

Posted in Educação às 10:10 am por Deborah Sá

Dizem que a Educação no país é uma merda. Okey, tem muito que melhorar, mesmo. Mas essa crítica é feita em um discurso vazio como “todo político é corrupto”?. Para estar na escola é preciso, de fato, certa dose de submissão para cumprir prazos, ficar sentado, falar pouco. Porém também é possível defender uma pedagogia ativa, transformadora, que dá mais voz aos sujeitos, pra isso precisamos de menos alunos em sala de aula, saber quem são os professores e além disso, lembrar que são humanos e nem sempre estão a fim de trabalhar em condições tão precárias. Historicamente o Brasil associa a docência ao sacerdócio e a figura do missionário (Jesuítas, lembram?). Esperam um professor de inclinação moral, que ame todos os alunos de forma gratuita, que dê sempre a outra face, seja assexuado, um santo (imagine o furor de vazar o vídeo de uma professora dançando funk no baile). Para lecionar é preciso semi-castidade?

Crianças (na perspectiva do Piaget) se apegam muito as regras que oferecemos a elas, baseada nisso, creio ser fator que contribui para a dificuldade em abordar bullying com os pequenos, são indivíduos e estão sujeitos a transformações, claro (beijos, Vygotsky), mas é difícil pra eles ouvir uma coisa em casa, na rua, no mundo todo (coisas de menino x coisas de menina, pra ficar em um exemplo “menor”) e na escola outra (pode brincar de boneca/carrinho). Se militante que já saiu das fraldas faz tempo tem crise de identidade e auto-estima, imagina uma criança! A escola é um ambiente que passamos vários anos, nos transforma, molda, altera, mas também pode ser a oportunidade para acessar conteúdos que de outra forma não teríamos acesso (nem todo mundo tem família escolarizada, internet – pode parecer bobagem, mas é na escola que as crianças aprendem a respeitar a margem do caderno, escrever na linha…), nos fortificar. E por ser um micro-mundo, não se engane, as brigas nos pegam na saída.

Esse artigo é interessantíssimo e levanta algumas dessas questões.

4 Comentários

  1. Thiago Biá said,

    Na verdade, a ideia de sacerdocio do professor pouco tem a ver com os jesuitas. E o q menos importava na escola republicana era oq o professor e as crianças sentiam. as subjetividades estavam fora do jogo. Depois de Piaget, a criança deixa de ser aquela q deve ser ensinada pelo professor pra se tornar aquela q aprende sozinha. E o professor se transforma naquele q deve amar, entender a subjetividade de seus alunos, mediar o processo…
    Há um problema com as críticas a uma escola dita tradicional, que mais se refere a uma caricatura de uma escola em moldes diferentes.. Vale a pena ler as críticas do campo filosofico à ideia da Escola Nova…

    • Deborah Sá said,

      No paralelo dos Jesuítas escrevi pensando na ideia atual que fazemos da “vocação” em ser professor, como se por amor ao outro e prazer de ensinar o professor aceitasse tudo porque é mais nobre, moralmente mais elevado. Quase um santo, um altruísta acima de tudo.

      E sobre o amor, precisamos mesmo amar todos os alunos? Não é mais importante tratá-los com respeito, mesmo nem sempre gostando de todos? Professor é trabalhador e no trabalho nem sempre estamos felizes ou com disposição para construir afinidades com semi-desconhecidos.

      Quais textos indica com as críticas? Sobre as críticas em geral, ouço mais de uma forma vaga mesmo, do tipo “Eu em casa educo melhor, nenhuma criança precisa de verdade da escola”, etc, etc

  2. Fabi said,

    Olá, as reflexões que traz são urgentes e interessantes.
    Gostei muito do que coloca o Charlot, faz todo sentido pra mim em diversas passagens (em algumas questões dialoga com o Paulo Freire?).
    Chamou-me a atenção a informação de que por aqui utilizamos a palavra “didático” (que na tradição europeia traz a ideia de “confronto com o saber”) como sinônimo de “pedagógico”. Suspeito que o caminho a percorrer para entender o “porquê” pode ser bem esclarecedor.
    Concordo totalmente com vocês, exigir que o professor “ame” o aluno é surreal. Não precisa. Respeitar quando NÃO se ama, aliás, seria bem mais útil praticar e ensinar.
    Inclusive, no outro lado da equação, em se tratando de crianças, vejo até como nociva essa quase obrigatoriedade de uma relação afetiva. O tal amor deveria ser algo libertador, mas, no fundo, inibe o aluno (o “sem luz”) de questionar e confrontar o professor amado. Especialmente no que se refere às posturas e aos aspectos alheios à transmissão do conteúdo formal (e mesmo aqui, a tendência é o aluno aceitar, com pouca crítica o que vem daquele professor; ou, de outra banda, se sentir traindo ou magoando o professor ao confrontá-lo). Não vejo como isso pode ser interessante para a formação de alguém.
    Haverá afetividade? Claro que sim. Afinidades existem. Ou não. E o “ou não” é importante.
    Desde pequenos deveríamos aprender que não precisamos agradar aos outros (necessidade de aceitação que começa com a professorinha da educação infantil, tchau); que gostar é algo que acontece em relação a quem se apresentar interessante aos nossos olhos; que discordar não é falta de respeito; que os outros são obrigados a nos respeitar mesmo que discordemos ou não gostemos deles e o contrário também; que não é preciso dar amor para receber o que é nosso de direito.
    Abs.

  3. Thiago B. said,

    Acho que essa imagem do professor que deva amar tem a ver com a concepção moderna da infância sacralizada. Não tenho problemas em olhar para crianças como seres em formação, ou em processo de humanização. As crianças precisam se apropriar de um mundo complexo, cheio de regras opacas… Mas isso deixa um pouco em choque diante de um mundo onde as pessoas concebem a infância como o símbolo da pureza (na melhor alegoria do bom selvagem do rousseau)..
    Mas tenho poucas certezas. Há muitos elementos em jogo, muitos discursos e muitas concepções sobre educação.. Preciso estudar muito pra conseguir elaborar essa parada.


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