20 junho, 2013

A universidade lembrando meu recorte de classe

Posted in Educação às 2:33 pm por Deborah Sá

AFFF
A internet pode ser espaço de leitura e reflexão e muitos acessos não significam participação. Esse blog, por exemplo, recebe centenas de visitas diárias e em alguns posts não há sequer um comentário. Isso significa que as pessoas não querem escrever, só ler, ou ainda, fazem parte do grupo que prefere comunicar por outros meios a não participação devido a “digerir” as  publicações. Isso é, existem mil razões particulares para se manifestar, observar ou intervir. Isso também é uma ação, escolher o momento de se pronunciar.

A diluição não tão recente entre o espaço público e o privado tem conexão direta com a vida on-line. Nela, as mobilizações se articulam, amizades e amores começam, qualquer um com acesso a internet pode escrever seu relato, criando uma nova roupagem para a aquisição da linguagem e a construção das identidades. Isso também é participação popular. A chamada que faço agora é com o pessoal universitário e/ou com faniquitos ao encontrar erros ortográficos: É frieza desmerecer o relato de alguém em nome da gramática. Ao contrário do que o cartaz da manifestante diz, não há impedimento ao sujeito fora da norma culta em articular e ser entendido. Isso não é aberração e uma vida condenada a falta de “bom-gosto”, impedimento a sensibilidade. A aquisição da escrita  é um poder e um privilégio, não precisa  fazer piada dos que não “sabem”, eles ouvem isso desde a infância e mesmo assim escrevem. Isso é enfrentamento.

Se um morador do Tatuapé (bairro tradicionalmente de classe média) com formação universitária ouve funk proibidão, isso o torna divertido e exótico. Um lelek ao compartilhar o mesmo vídeo no Facebook tem fama de alienado. Para alguém que já viajou de avião e foi ao exterior, isso parece irrelevante, para quem no máximo viajou de ônibus e carro, não. O canudo universitário é dispensável para aqueles que já se afirmam e legitimam como sujeitos “pensantes”. Se você detém esses poderes não parecerá artificial, por isso me enerva ouvir “não precisa forçar colocando palavras bonitas/difíceis”. Não forço, parece mesmo impossível que uma palavra ou uma ordem delas, sejam refinadas demais pra serem ditas ou oriundas da minha cachola?  Sem medo das letras, as coloco na ordem que apraz. Ponto final.  Mas é desse mesmo germe que nasce a insegurança universitária, as demarcações simbólicas.

Ás vezes penso em desistir da Iniciação Científica tamanha ansiedade, até o mês que vem tenho de ler uma porrada de textos para uma espécie de conversa com minha orientadora, nela, saberá se o tema está na ponta da língua. Pode me dar um branco, não conseguir falar nada. Ainda sou uma Outsider. Tenho o pressentimento de que alguém pode não ir com minha cara e estragar a carreira acadêmica, como a atriz que se queima com um diretor e nunca mais consegue papel. Me sinto na mão desses avaliadores, os professores. Muitos são ótimos e gentis, mas eles detém esse outro poder, o sotaque, os doutorados, as nomenclaturas, livros publicados. Abro o jornal e está lá, entrevista com uma professora, gente referência na área. Na disciplina de Filosofia semestre passado, o professor disse “Parsifal” e eu entendi “Percival”. Anotei no caderno. Achei estranho, engraçadinho, joguei no Google, descobri a grafia “certa”. Li mês passado meu primeiro livro em Espanhol para um grupo de estudos, fiquei orgulhosa e feliz (nunca fiz curso de idiomas), mas para minhas professoras isso deve ser muito, muito trivial. Sou a nova rica sentada na mesa de jantar sem saber por qual talher começar, por via das dúvidas aproveito a cara de pau e pergunto em voz alta: É esse?

14 Comentários

  1. luanna said,

    ô menina, você escreve tão bem e é tão articulada que seria um desperdício não aproveitar isso para ir em frente em iniciações científicas, mestrados e doutorados. errando ou não o talher, o importante é seguir em frente e aproveitar o banquete! Ah, eu sou uma dessas pessoas que lê e pouquíssimo comenta.

    • Deborah Sá said,

      Ai, que amor <3

  2. B. said,

    Deborah, reconheço-me numa infinidade de momentos com você! Especialmente nesses relatos sobre a universidade. Não tive tanta claridade quanto você, quando vivi esses momentos. Mas me senti assim, na margem sempre. Parece que você nunca vai atingir um grau de conhecimento igualitário, parece que a gente nunca vai nivelar…

    Vivi momentos constrangedores no primeiro ano, ao receber as primeiras notas (aquele momento em que vc ainda não entendeu muito bem como funcionam as avaliações e o que eles esperam de vc) tive que ouvir de colegas que era natural que o meu desempenho fosse pior que o da média, já que eu vinha de escola estadual…

    Com o tempo, percebi que vários discursos/correntes se repetem exaustivamente durante vários anos, e o conhecimento vai ficando sedimentado mesmo. E todas essas pessoas ilustres, nada mais são, do que pessoas com muita coisa sedimentada, e não por isso, melhores.

    Vamos aprendendo juntinho com esse sistema a como sair bem nas avaliações, entender todas as exigências do percurso acadêmico, e assim, as coisas vão ficando mais estáveis.

    • Deborah Sá said,

      Obrigada, B.

      “O conhecimento ser sedimentado” faz todo sentido! Esse sentimento deve ser bem comum para todos os que tiveram a trajetória escolar nas classes populares e agora entram nesse meio…Obrigada :)

      “[…] Essa forma particular de luta de classes que é uma luta da concorrência, é aquela que os membros das classes dominadas deixam-se impor quando aceitam os desafios que lhes são propostos pelos dominantes, luta integradora e pelo fato da deficiência inicial, reprodutora já que aqueles que entram nessa espécie de corrida de perseguição em que, desde a partida, estão necessariamente vencidos, como é testemunhado pela constância das distâncias reconhecem implicitamente, pelo simples fatos de concorrerem a legitimidade dos objetivos perseguidos por aqueles que os perseguem.”

      BOURDIEU, Pierre. A Distinção: Critica Social do Julgamento. 2ª ed.Porto Alegre: Zouk, 2011 – Pg 159

      Um abraço!

  3. Kah said,

    Culpada por comentar nunca. o/

    Acho você ótima! Escreve muito bem, é descolada, comunicativa, cativante, … Vai fazer Iniciação Científica, Mestrado, Doutorado, Pós e os escambau.
    O importante não é saber por qual talher começar, é ter vontade de aprender e aproveitar a refeição. Aproveitar a refeição é o principal. ^^

    • Deborah Sá said,

      Oi, Kah,

      Você disse tudo, o importante é aproveitar, mas a insegurança faz parte desse processo onde não sabemos qual é a postura correta, o que é grosseria com o anfitrião, etc…sobre o blefe intelectual e o traquejo:

      “[…] Com a única condição de que se possua o conjunto de traços distintivos – postura, garbo, atitude, dicção e pronúncia – maneiras de ser e usos sem os quais, pelo menos, nestes mercados, o valor atribuído a todos os saberes de escola é reduzido ou nulo; além disso, em parte – por nunca, ou nunca completamente, terem sido ensinados pela Escola – esses traços definem, propriamente falando, a distinção burguesa.”

      BOURDIEU, Pierre. A Distinção: Critica Social do Julgamento. 2ª ed.Porto Alegre: Zouk, 2011 – Pg 87

      Beijos :)

  4. Pili said,

    Nunca pare!!!!!! :D

    • Deborah Sá said,

      <3

  5. Thiago B. said,

    Me identifico. Mesmo..
    Acho que começamos nesse percurso meio juntos. Passei na USP no mesmo ano que vc passou na UNIFESP. No mesmo curso.Compartilho a empolgação e a frustração, que é constante… Seja em uma nota baixa (que pode foder o currículo pra concessão de bolsas), seja por nao conseguir acompanhar o ritmo..
    E o que dizem os sociólogos, sobre a nossa desvantagem, nosso atraso..
    Não é raro eu me sentir meio fora do lugar nessa universidade. No primeiro ano, diante da dificuldade (ter que trabalhar, pagar aluguel) me sentia o pior aluno das galáxias. Não conseguia ler os textos, estava constantemente cansado, dormindo nas aulas, notas baixas.. Queria começar uma IC mas com esse ritmo era impossível… Ano passado decidi que ia fazer umas mudanças.. defini prioridades, cortei o orçamento.. Morei na casa da Luiza durante as férias, descolei uma vaga no CRUSP (e divido o ap com mais 12 pessoas) pra me livrar do aluguel. Reduzi horário no trabalho (e o salário tbm)… Escolhi que ia entrar na vida acadêmica e comecei a fazer o que era preciso..

    Consegui um professor pra orientar minha IC. Achei que ia pra sociologia, mas por querer ter um pouco mais de acúmulo (que evitasse a adesão acrítica à teorias marxistas) fui pra filosofia.
    Fiquei de março à junho escrevendo um projeto de IC. Na última revisão, várias linhas vermelhas e vários parágrafos reescritos pelo orientador. A frustração de que eu nunca vou escrever como ele. .
    Mas ele é um cara sensacional. Extremamente exigente com a escrita, com o uso das palavras, com o rigor acadêmico. Mas antes de tudo isso, ele é um professor, que sabe que esse aprendizado é difícil (mas possível), um processo. E esse afastamento temporário (ou não) da sociologia tem sido sensacional, porque evita o aprofundamento naquilo que é só um elemento do jogo. Sei que parece papo de auto-ajuda, do mérito individual e os escambau, mas não é.
    E nesses meses de escrita de projeto pra FAPESP o que eu aprendi é que, sejam quais forem as condições objetivas, a aprendizagem rola.. O crescimento acontece e a gente nem se da conta do processo.. Mas é muito prazeroso.. E vale a pena..

    No fim das contas queria te escrever um texto coerente e bonito mas não sei se consegui. Mas fica aí um projeto de narrativa de quem te entende e sabe com você se sente.. E força aí… É só o que a gente tem mesmo.

    • Deborah Sá said,

      Obrigado, cara!
      E pensar que a gente se conheceu há anos lá no blog da Lola hein? Mas você tem razão, vamos que uma hora a coisa entra no eixo!

      Um abraço ;)

  6. Fabi said,

    Deborah,
    Visito pela primeira vez o seu blog – curiosidade despertada por um texto seu ótimo que acabo de ler no Biscate Social Club – vou digerir o conteúdo aos poucos, devagar e sempre, saboreando.
    Mas, uma coisa preciso dizer já: a Academia é um porre e hipócrita, vai tentar expulsá-la das mais variadas formas, mas… precisa desesperadamente de gente como você! Mesmo. Aquilo está morrendo e se perdendo entre somas de pontinhos, artiguinhos requentados, lugares-comuns e empáfias.
    Do pouco que li, percebi que você articula e expressa muito bem as suas ideias e, principalmente, pensa coisas interessantes! Tudo isso anda muito em falta (e, tá certo, nem é bem visto) por lá, viu?!
    Mas, quer saber? Quem se importa? Eu gostaria que os meus impostos fossem investidos em pessoas que realmente entendessem o papel de transformação social que a universidade pode ter e que contribuíssem para isso. Ideias são poderosas.
    Resista. Enquanto o preço a pagar não for muito alto. Teime o quanto puder. Eu não tive saco e me arrependo um pouco. Às vezes penso que deveria ter insistido mais. Ou não (o distanciamento no tempo afeta os julgamentos que são feitos depois, não é?!).
    Mas, uma coisa é certa: dá pra descolar uns trocados e dizer coisas absurdas cientificamente! Isso deve valer alguma coisa! rs.
    Um grande abraço e boa sorte nas suas escolhas.

    • Deborah Sá said,

      Olá, Fabi!

      Seja muito bem vinda! Pois é, creio que o melhor é insistir mesmo! Muito obrigada pelo apoio e os elogios! Apareça por aqui sempre que quiser!

      Um abraço!

  7. aron said,

    nossa ,hoje foi um dia feliz descobri uma escritora demais
    vc e foda!!! gostei dos seu texto !!!acompanharei
    se puder faz uma visita no meu http://nasarjetas.blogspot.com.br/
    poesia marginal,
    adorei vc !te acompanharei!!!ha e sempre deixarei um comentario rsrsrs

    • Deborah Sá said,

      Obrigada, Aron! :)


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