15 junho, 2013

Medo de multidões – Do lado de dentro, para o lado de fora.

Posted in Desabafos, Eventos, O pessoal é político tagged , às 10:42 am por Deborah Sá

A faculdade é meu novo trabalho, isso consome meus dias mais do que qualquer outra profissão que executei antes e recebo muito menos por isso. Mesmo com o crucial apoio do meu companheiro, familiares e da bolsa auxílio, minha renda mensal teve uma queda de 70%. Isso significa repensar minha relação com o dinheiro, como por exemplo, não comprar um presente para o Yuri no nosso sétimo ano de namoro.

Ainda estou em processo de adaptação, consegui uma orientadora (recebi duas propostas no semestre passado, aceitei uma). O tema é bacana, assim que concluir o relatório final, compartilho com vocês. Segunda-feira terá um evento obrigatório na faculdade, além de um procedimento pré-agendado com a coordenadora pedagógica na escola que acompanho, são compromissos inadiáveis na minha agenda. Porém, sou mais do que uma namorada, amiga, filha e estudante. Sou alguém com medos e inseguranças, uma porção, uns maiores, outros nem tanto. O período que vivo tenciona todos eles. O medo de reprovar nas matérias está no grupo de medos médios, porque embora aprenda na faculdade que avaliações são um meio e não um fim, um bom desempenho acadêmico é o que garantirá bolsas de estudo e pesquisa, o que aliviaria as ajudas de custo que meu namorado oferece (se o patriarcado dá um limão, faço uma limonada). No grupo dos medos maiores, está o maior de todos meus medos: O medo de multidões.

Ele não veio do vácuo, tive uma trajetória de contenções, de represar tudo o que sinto. Talvez por isso não lembre nenhuma ocasião onde senti fúria, só das que deram medo, tristeza, vontade de sumir, culpa. Determino as regras do jogo até certo ponto, mas admito minhas limitações. Uma delas é que ás vezes quando sinto muito medo (como em uma multidão) paraliso e choro, as pernas ficam pesadas, me sinto vulnerável e imagino a cidade engolindo. Tudo começa com um linchamento, por alguma razão absurda todos se voltam contra mim e esse crescente de violência bárbara com direito a estupro e esquartejamento continua com o chão rompendo, os prédios de metros e metros dobrando com o ranger de suas gigantescas estruturas, tudo implode, esse é meu fim. Não alucino enxergando esse cenário aterrador, ele está na minha imaginação, sei que não é realidade. Isso não impede de sentir o coração batendo, a boca seca, o suor, as pernas duras ao ponto de doer quando me movo. Fui incapaz de reagir à violência direta na infância, a violência sexual que passei ocorria no silêncio. Aguentava aquilo pra proteger a família, imaginava meu pai matando meu avô com um instrumento da cozinha que parecia uma machadinha de carne (ou seria um martelo?).  Atacando aquele que como outros indivíduos, humilhava em público como maneira de me controlar. Imagine a tensão que é ter de fingir não demonstrar medo para não causar uma morte, um colapso da estrutura que mantém não só a si, aos dez anos de idade.

A onda de protestos toma o país, não estou lá, mas gostaria. Todas as noites em que ocorrem os atos, choro e torço para que fiquem bem as pessoas que quero bem e as que nem conheço. Fogem de balas de borracha, da tropa de choque, da cavalaria, enfrentam o próprio medo. Armados até os dentes, línguas e gargantas, a imensa maioria dos manifestantes usa apenas a voz como escudo e ataque. Para mim, é um impasse á cada convocação, sinto que meu coração está ali, assisto ás aulas na faculdade com o celular próximo, durmo impaciente. A implosão de sentimentos que desperta esse fantasma e faz regredir sensações de impotência no corpo, tem ligação direta com a implosão violenta imaginada que me mantém rígida. A assimilação ocorreu agora no período de três horas e meia redigindo esse texto, dada todas as pausas necessárias para chorar e retomar a escrita. Só tenho a agradecer a quem toma as ruas. Vocês me enchem de orgulho e deram munição em palavras para racionalizar. É um dos estilhaços brilhantes que saltam da ferida que me fizeram por dentro e agora, posso retirar.

1 Comentário

  1. Pati said,

    Oi Deborah, também já tive ansiedade generalizada/pânico/agorafobia por um período da minha vida, e até hoje tenho um bocado de resquícios. Parabéns por saber lidar com ela de forma tão aberta, sei o quanto é horroroso passar por isso. Espero do fundo do coração que logo passe, e vai passar. :*


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