4 junho, 2013

O (raivoso) admirador secreto e a indiscrição

Posted in Corpo, Gênero, LGBT, Sexo às 10:38 pm por Deborah Sá

As pessoas gostam de fazer sexo. E elas fazem. Nem sempre entre quatro paredes, nem sempre de maneira não subversiva, ás vezes com palavras de baixo calão, outras vezes registrando em imagem ou vídeo. É de uma pequenez tremenda tratar de um tema tão natural como se fosse a polêmica do século. Se você acha humilhante tal prática, palavra ou atitude, não faça nem as diga, simples. Você tem o direito de ser uma pessoa reservada, mas nem todo mundo é assim. Tem quem não se contente, quem cansou de baixar o tom da voz pra não chocar, quem prefira usar dourado e gargalhar alto, quem faça mais sexo que você e não tenha problemas em falar disso. Outros sujeitos que também tem vida sexual: Seus avós, seus pais, o porteiro, a manicure, o advogado, a professora do maternal, a dona-de-casa, os líderes religiosos, os colegas de trabalho e da faculdade, bem, a lista é realmente grande. O mundo continua girando, as pessoas gozam, ficam peladas, introduzem coisas nos seus orifícios, usam suas línguas, dedos e tudo mais. Muito pesado o assunto? Dá tempo de pegar um copo d’água. Vai lá. Sério. Vai lá. O texto não sairá correndo. Pronto. Voltou? Está tudo bem? Espera o choque passar e prossiga a leitura:

Qual é o espanto de uma foto ou vídeo de sexo consensual cair na rede? Foi bom para os envolvidos e uma pica é uma pica, uma buceta é uma buceta e uma bunda, oras, é uma bunda. É tão difícil de entender? Já viu livros de anatomia? Já se olhou nu no espelho? Nunca viu outro corpo nu na vida? Parem de reagir como se não soubessem o que acontece quando as pessoas resolvem dar prazer uma pra outra. Por favor, parem. Está na hora de crescer e entender que o resto do mundo gosta de trepar, ache você absurdo ou não. Essa é outra prova que pornografia não torna as gerações mais esclarecidas, na realidade, ficam cada vez mais impressionáveis.

Tudo em nome de uma boa reputação… Quando se é jovem é a fase de construção, quando adulto e de vida ganha, surge o medo de arriscar tudo o que construiu, mas nem por isso o desejo morre. A maioria das prostitutas atendem homens casados, quantas mulheres tatuadas/modificadas não são assediadas por homens mais velhos e conservadores? Quantas travestis não recebem dezenas de investidas por e-mail com fotos de pintos que prometem uma foda? Quantos gays não recebem ofensivas pesadas daquele sujeito que adora ficar de quatro contanto que não saibam? Quantas gordas não foram assediadas por homens que as menosprezavam em público?

O  sujeito “no armário” que profere ódio em público mas se acaba de desejo (isso é, se masturba) pelas figuras que repudia, é um dos germes do próprio ódio. A inveja de quem pode viver o que desperta vontade, o que desperta tesão. A raiva de sentir um desejo assombroso por aquele que leva a vida que queria ter, quem o lembra o tamanho do medo que carrega nas costas. O furioso vive a admirar e praguejar em segredo. Além de ter a audácia de ser abertamente feliz em suas escolhas, o outro subversivo mantém o observador hipnotizado. Bastava estalar os dedinhos para ver o combatente lambendo botas com prazer suplicante (contanto que não saibam). Perturbador é o fascínio que qualquer outsider causa em alguém que teme a fronteira desconhecida,  o próprio desejo. Sendo a vontade mal digerida a que prevalece, bate como um tambor no peito, nas entranhas, nos genitais.

Essa fantasia secreta de “virar o jogo” (se sentir dominado, tentar dominar) nem é mesmo genuína, esse tesão coberto com três camadas de culpa e uma cereja de submissão só existe quando guardado. Os comentaristas coléricos e anônimos da internet não dão a cara a tapa. Os que vão mais longe e pixam a casa, mandam cartinhas, sequer mostram o rosto. Fazer a vida de alguém um inferno porque fez sexo e gostou é estratosfericamente provinciano. Condenar um sujeito por sexo consensual apenas por sair do esquadro das posições moralmente nobres (quais?) é arcaico. Diferindo de pessoas discretas e que não gostam de expor o que consideram de foro íntimo, os desleais esperam a vez de por os pés fora do armário para serem hipócritas, cruéis, mesquinhos, extremamente covardes. E desses, meu bem,  quero distância.

5 Comentários

  1. Caroline said,

    Onde é que curte esse texto, coloca estrelinha, favorita pra sempre? Fantástico. E vc escreve tão bem. ♥

    • Deborah Sá said,

      Que linda, você! Obrigada e um beijo! ♥

      PS: Há um botãozinho em Curtir isso: “Gosto” com uma estrelinha ;)

  2. Elisa said,

    Verdadeira colocação, sábia exposição e fina verdade. Parabéns !

  3. luanna said,

    ah essa Deborah! que texto bom de ler.

  4. Deborah Sá said,

    Obrigada, Elisa e Luanna. Beijos :)


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