6 maio, 2013

Á última dieta

Posted in Corpo tagged , , , às 12:27 pm por Deborah Sá

Dieta é um plano emergencial que consiste em quebrar o lacre, retirar o martelo, estourar o vidro e pular do ônibus em movimento, um incidente com escoriações. Mas por que atitude tão abrupta? A dieta é movimento desesperado por controle que escapa dos dedos e pula direto na balança. Ah, a temida balança! Nela medimos o tempo, calculamos medidas perfeitas, calorias exatas. É métrica de antever passos, se tornar senhor das próprias pulsões e paixões, refrear. Por meio dela há o pressuposto de uma meta, um plano de ação que controle o futuro e como reagiremos a todas as “tentações” que o horizonte reserva, mas ao fim, é punição de curto prazo. Um rigoroso e quase exclusivo grupo de alimentos nada saboroso é calvário, uma cruz para carregar que quanto mais pesada, maior será a credibilidade, visto que quanto maior o pecado maior a penitência. A dieta serve como uma luva quando se trata de culpa. Por ser meta de curta duração é realizada com pouco prazer, traz no íntimo a sensação de que os resultados não serão duradouros e uma vez que as abstinências desse processo sejam abandonadas, recuperarão todos os quilos perdidos. Logo, a dieta é feita para o fracasso e quando esse término de privações chega ao fim e nos atiramos á forra, o ciclo está completo: Você entrou no projeto que pedia o máximo de comprometimento e “celibato”, depois do resultado alcançado (isso se não houver desistência antes), é hora de voltar com a vida social e sentir prazer novamente. O relógio volta com velhos hábitos e costumes; é dado o momento de procurar a nova dieta, entrar em um novo ciclo de penitência, vigia constante, rigidez.

A punição acontece por nos privar do prazer, tornando possíveis os paralelos com o deleite sexual. Somos todo corpo e em especial, somos estômago. Uma comida realmente fantástica é aquela que nos faz gemer. Guerrear contra a gula não é muito diferente de se opor á luxúria, o corpo nos trai, pede coisas não exatamente apropriadas ao momento ou situação, o núcleo desse raciocínio ocorre quando separamos as urgências da mente e do corpo. Não parece nada nobre se entregar ao prazer fugaz de uma colherada no brigadeiro, ou quem sabe, o sexo casual com o semi-desconhecido, mas o corpo pede e ás vezes, a gente cede. O que proponho é um exercício um pouco mais aprofundado e por essa razão, muito distante da necessidade de seguir uma dieta. Trata-se de ouvir a demanda do corpo ponderando pra depois agir, ir à contramão do plano impulsivo para respostas impulsivas. Combater compulsão alimentar com dieta é colocar fogo contra fogo e nesse embate, sairemos chamuscados seja pela escassez ou pelo excesso.

É possível se alimentar de solidão, mágoa, rancor, desamparo, quem nunca afogou suas mágoas em quantidades extras de açúcar? Se ninguém nos ama o bastante, o tablete de chocolate é carinho quase imediato. Podemos nos alimentar de raiva quando rapidamente e com violência ingerimos uma porção após outra sequer sentindo o sabor, pra sufocar, pra causar mal, de propósito.  Dá pra comer vingança, mostrar á nós e ao mundo que eles têm razão em nos taxar de “um caso perdido”, “Já que sou gorda, vou me entupir”. Conheço e já degluti sentimentos de ódio, piedade, rejeição, medo. Também já os experimentei no outro extremo, privando de comer o que tenho vontade.

Se o corpo marca o tempo, ele também conta as experiências vividas por meio das rugas, sinais, pintas, nas pequenas ou grandes manchas, cicatrizes, na postura, no modo de sorrir, no sotaque. O que somos é denunciado pelos movimentos espontâneos como o tom de voz e a desenvoltura de falar em público. Mas, se nós aprendemos a ser, isso é, se nós nos construímos ao longo dos anos, não significa que esse processo tem data limite para intervenção. Se me construí como uma pessoa gorda pela minha interação social e minha experiência com o mundo até determinada idade, nada impede que mude de direção e busque outra forma de interagir com meu corpo e com quem me cerca. Note que isso demanda extrema franqueza sobre si, conhecer o próprio ritmo, respeito e zelo pela própria história, o corpo como unidade criadora e em permanente movimento. Nesses parâmetros, uma dieta restritiva, impulsiva, pouco reflexiva, que transforma seu organismo em inimigo é uma grande sabotagem. A honestidade com o corpo (e a consciência faz parte dele) permite uma ação bem direcionada e não imediatista. Se seu corpo foi construído (e ele sempre é, mesmo quando tratado de forma displicente) no decorrer das décadas, não é em um dia que recuperará o “tempo perdido”. Aliás, a dieta só considera tempo ganho aquele que acontece sob suas rédeas curtas, é dependência.

Quem se torna refém de uma dieta não trabalha o amor próprio no presente, é apenas no futuro que talvez, seus seguidores arrisquem abandonar inseguranças, só quando suas pernas forem bonitas o bastante, sua barriga estiver seca o bastante. Mas esse futuro nunca chegará, porque a ilusão da dieta é prometer que em algum momento se for realmente determinada alcançará ao corpo ideal. Se isso fosse verdade, modelos, atrizes e cantoras com corpos no padrão não seguiriam dietas restritivas para perder mais dez quilos, a mídia diz o contrário. Em dieta, não há permissão para se divertir ou comer algo realmente saboroso, a ração está suspensa por mau comportamento. A dieta nos transforma em carrascos, para burlar quebram-se as regras trazendo mais culpa e uma vez cansadas, envergonhadas e ansiosas, sairemos em busca por uma solução rápida que sane o aborrecimento e o investimento anterior. Estamos prontas à submissão voluntária de uma dieta mais rígida que a antecessora, a dieta do presente financiará a seguinte em uma hipoteca que consome emoções, esperança e amor-próprio. Nesse dia sem dieta proponho um projeto mais ambicioso que ficar 24 horas sem regimes, a intenção é que nunca mais você precise recorrer a esse sistema auto-punitivo. Parece loucura, eu sei, mas ainda mais ilógico é o fato de que tantos indivíduos vivam correndo atrás da própria cauda, inseguros ao ponto de não sair de casa, de pensarem (e até mesmo tentarem) suicídio, de sentirem vergonha por supostamente não merecer uma vida social, investir em um novo romance, trocar de emprego, terminar um relacionamento abusivo, experimentar novas roupas.

Para tanto, é mais benéfico trocar a dieta por movimento, o que será mais prazeroso cabe a cada um descobrir: Caminhada, natação, esporte, musculação, capoeira, yoga… Se encontrar uma atividade prazerosa e fizer disso uma rotina de amor próprio, a endorfina e o sangue circulando serão bem mais motivadores que um jejum e o sabor de sopa aguada.  E a melhor parte: Não é necessário sentir culpa em comer o que se tem vontade, entrementes, é possível se permitir experimentar coisas diferentes: Legumes, frutas, vegetais e sucos naturais são realmente deliciosos e ajudam no humor. Isso não significa que você só vai comer arroz integral com linhaça até o fim da vida, trata-se de expandir a cartela de cores do seu prato, fazer uma refeição variada oferecerá maior prazer e saciedade. Isso trará emagrecimento? Talvez. Mas a questão é: Você quer emagrecer? Se a resposta for afirmativa, é bom que pondere os modos que conseguirá isso. Se for com dietas, cápsulas e outras fórmulas de resultados bruscos as chances de falha são muito altas, não por culpa sua e falta de determinação, mas porque o corpo busca estímulo e prazer e uma dieta não corresponde a nenhuma dessas especificações básicas. Se você quer emagrecer precisa repensar a forma que lida com a comida, mudar hábitos, fazer exercícios físicos. Se mesmo assim, optar por seguir uma, não esqueça que junto do dinheiro que vai pelo ralo irá mais um pedaço da sua auto-estima que já não anda lá essas coisas. Não há qualquer garantia de que se finalmente vestir um manequim menor será efetivamente mais feliz.

Quem não tem aquela amiga magra com o corpo exatamente como sempre sonhou e que aperta “banhas imaginárias” reclamando que precisa perder medidas? Quantas ex-gordas não ficam em frangalhos se alguém as chama pelos antigos apelidos? A trajetória esperada tem sido se privar e sofrer primeiro para (talvez) se amar depois, porque não descartar a primeira parte? Porque é mais lucrativo para uma indústria bilionária de alimentos, revistas, cosméticos, cintas-redutoras, cápsulas e livros manter consumidores ávidos por soluções mágicas, se há culpa nas pessoas a dieta corrobora para que se expanda. Metaforicamente, é como se convencionasse que um tratamento adequado para um depressivo são terapias depressoras, com evidente falha, a solução seria encontrar outra ainda mais intensa. Ou seja, a dieta não contribui para que seu “quadro clínico” melhore, ela agrava os sintomas e ainda te culpa por isso. Se você quer emagrecer, o faz para que(m)? É o medo do que acontece depois da curva dos oitenta quilos?  Dos três dígitos? Emagrecer para que seja tratado com respeito é comprar o discurso de que gordos merecem o ódio que os atinge. “O gordo é um estorvo para o sistema único de saúde” e todas as outras estatísticas que surgem quando ligamos a TV com matérias mostrando a barriga de pedestres anônimos. Dizem que os gordos são imprestáveis, preguiçosos, nojentos e diante da coação esses se convencem, tentam pedir desculpas pela própria condição emagrecendo para serem dignos de afeto, respeito, desejo. Meu convite é para que os gordos (e os que se sentem assim) saiam das sombras e se movam, disseram que nosso corpo era peso morto e acreditamos, não arriscamos atividades físicas, desconhecemos o tamanho da nossa força, nossa elasticidade, se somos ágeis ou se podemos surpreender com a leveza no requebrar de grandes quadris. Se observarmos atentamente, no verso de cada fita métrica se esconde uma faixa criminal.

5 Comentários

  1. lilu said,

    Escolher um estilo de vida e a maneira como queremos nosso próprio corpo e justo e, inclusive, uma luta feminista. Não vejo diferença em seguir uma dieta de emagrecimento ou vegana, quando ambas são guiadas por desejos e princípios. Essa visão é muito extremista. Não se deve julgar hábitos de ninguém, se estes não prejudicam os outros. Não se deve julgar corpos (gordos ou magros) nem dietas (de emagrecimento ou vegetarianas). O mesmo prazer que uma pessoa sente ao controlar calorias pode ser o mesmo que a outra sente ao controlar tipos de alimentos).
    E não sei porque você acha que dietas envolvem tortura. Tortura eh estar aprisionado a um corpo que não se deseja. e não vale dizer que toda feminista aceita seu corpo porque isso não eh verdade.

  2. lilu said,

    da mesma maneira que devemos aprender a respeitar quem está acima do peso, as feministas (me included) precisam aprender que fazer dieta e escolher como se quer o próprio corpo é louvável. Temos o direito de sermos gordinhas E magras E gostosas se quisermos.

    • Deborah Sá said,

      Lilu,

      Também defendo que escolher como queremos nosso corpo é uma bandeira feminista, em momento algum do texto disse que tomar o controle da sua vida e seu modo alimentar é algo ruim. As pessoas tem todo o direito de escolherem seu modo de se relacionar com comida, mas, a dieta torna o corpo e o desejo em um pecado (comer brigadeiro é pecado, purificação é jejum). Pra mim, o corpo nunca deve ser inimigo mas um aliado, não tem diferença transferir a culpa do corpo cristão pecaminoso, para o corpo laico pecaminoso.

      E há uma diferença abismal em ser vegana e viver de dieta. Veganismo é uma postura ética e política, eu não deixei de comer proteína animal pra privar o meu corpo do prazer (e pode acreditar, gostava de comer carne e laticínios), mas pela liberdade de outros corpos que morreram em sacrifício. Não sou Deusa, não mereço oferenda de quem não se voluntaria a própria morte. Carne de gato e de cachorro pode ser deliciosa, mas não as como por um princípio empático e moral, são coisas muito diferentes.

      Em nenhum momento do texto escrevi “tortura”, mas certamente é uma privação. Se as pessoas querem se cortar, serem anoréxicas ou bulímicas isso é um direito delas. Elas podem auto-punir se desejarem. Ninguém deve se sentir linda todos os dias, mas não estou aqui pra engrossar coro de que além de o mundo oprimir, nós mesmos temos que nos odiar e ferir. Levanto a bandeira do amor próprio, do prazer sem culpa (seja do estômago ou do sexo), de que não vale a pena ser magra a todo custo se isso te deixa mal-humorada, fraca, com a pele ruim, gastrite, anemia, as unhas e os cabelos sem força. É claro que várias feministas tem problemas de auto estima, vivemos em um mundo com várias mensagens de que somos feias, tortas, erradas, imperfeitas, que jamais estaremos boas o bastante. E mais uma vez repito, não espere que eu engrosse esse coro. Estou na contramão, dizendo que é perfeitamente possível se construir de forma tranquila, um dia após o outro. Quer emagrecer? Faça reeducação alimentar, viva com prazer, faça exercícios, procure um médico. Precisamos resgatar os bons clichês feministas, um deles é o empoderamento.

  3. Frida O. said,

    “Dá pra comer vingança, mostrar á nós e ao mundo que eles têm razão em nos taxar de “um caso perdido”, “Já que sou gorda, vou me entupir”. Conheço e já degluti sentimentos de ódio, piedade, rejeição, medo.”
    Me vi em seu texto e ainda me surpreendo em como as histórias acerca de peso, dieta, distúrbios alimentares e baixa auto-estima é comum a nós, mulheres.
    Desde meus 5 anos, não me lembro de um dia em que realmente amei meu corpo.
    O veganismo me deu um pouco mais de paz em relação a comida, pois comer se tornou um ato político em favor daqueles que não tem voz, mas no quesito aceitação do corpo ainda tem muito o que trabalhar.

    Obrigada, por mais um texto tão lúcido!

    • Deborah Sá said,

      Obrigada pelos elogios, querida! Realmente, a construção de aceitação corporal não é simples, somos bombardeadas com mensagens de que somos erradas, indignas. É algo para ser feito aos poucos, um dia após outro <3

      Beijos!


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