27 maio, 2013

Onírico e fudido

Posted in Egotrip às 12:19 am por Deborah Sá

Queria saber qual a lógica por trás dos meus sonhos que repetidamente insistem em frustrar, se é sonho, tenho grande chance de me fuder. Nem em sonhos as coisas caem no colo, é sempre uma odisseia com muitos obstáculos. Geralmente aceito os poucos recursos mesmo sem muita empolgação, fazer o que? Dentro daquele cenário é assim que as coisas acontecem. Uma vez sonhei com uma paisagem rochosa (como aquelas que grupos de leões marinhos descansam) cheia de Cacos Ciocler apenas vestindo jeans, eles estavam lá, esperando por mim, só me restava chegar até cada um deles e opa! As pedras eram escorregadias e se eu caísse, bateria a cabeça. Acordei assustada. E rindo. Teve o dia que interrompi uma reunião de baratas, estava realmente encrencada. Nos meus sonhos vivo em um ambiente hostil e a vida dos outros depende das minhas escolhas, são questionários com luz na cara e uma resposta errada, zás, tudo pode dar errado. Isso, se não sou perseguida por um desconhecido sem rosto. A parte boa é que agora sonho com maior riqueza de detalhes, quando sexuais (e até neles, faço sexo seguro). Em algum momento aproveito aquela realidade com a adrenalina do sexo furtivo (pois quando se trata dos meus sonhos, é assim que as coisas são). Por sorte, ao abrir os olhos e sair daquele mundo a realidade me é mais generosa.

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12 maio, 2013

Lógicas socializadoras e expectativas de aprendizagem nas classes populares

Posted in Educação, Produzidos para faculdade tagged às 11:22 pm por Deborah Sá

O que pais e tutores esperam ao deixarem seus filhos e tutelados na escola? Que tipos de características desejam ressaltar, modificar, aperfeiçoar ou ainda, erradicar em comportamentos de crianças e jovens? Seriam essas as mesmas expectativas de professores? E o modo pelo qual docentes exercem sua autoridade vai de encontro com o modelo parental, ou, sobretudo, o tenciona? Verifica-se que quanto mais se têm acúmulo de capital cultural (isso é, maior familiaridade e apropriação da cultura legítima[1]) em uma família, maiores são as chances de seus membros corresponderem a expectativas de aprendizagem e atenderem a hexis corporal (corporificação do habitus [2]) exigida pela escola. Sobre isso, Thin (2006), ressalta:

[…] Não é, portanto, somente o capital cultural ou o capital escolar que estão em jogo; é o conjunto das práticas socializadoras das famílias que estão implicadas nas relações entre os pais e os professores, e essas práticas devem ser compreendidas por sua distância do modo escolar de socialização, mais do que pelo capital escolar dos pais. Nossas pesquisas sobre as relações entre famílias populares e escola […] nos levaram a entender essas relações naquilo em que elas são urdidas por dissonâncias e tensões entre lógicas socializadoras divergentes, até mesmo contraditórias, e, finalmente, como o lugar de uma confrontação desigual entre dois modos de socialização: um escolar e dominante; o outro, popular e dominado.

Portanto, na medida em que educadores constatam indisciplina em seus alunos, julgam que exista uma suposta falta de comprometimento dos pais em acompanhar esse desenvolvimento, há uma associação de causa e efeito onde a culpa pela indisciplina recai sobre os pais “que pouco se importam”. Em verdade, o educar de pais das camadas populares não é vazio de sentido nem contraditório, tal divergência só existe quando comparada com a cultura escolar, suas práticas e seu modo específico de gestionar o tempo. Em geral, pais das camadas populares esperam que seus filhos adentrem o universo letrado e tenham acesso a saberes que muitas vezes não tiveram na própria trajetória escolar. Porém, isso significa admitir em alguma medida seu insucesso enquanto aluno, a inabilidade para esse exercício intelectual e até mesmo, envergonhar-se do modo brutalizado de exercer a autoridade ao agredir fisicamente os filhos. Conforme Thin:                                                                              

Além do fato de que a ação física corresponde mais à intenção de interromper rapidamente o ato repreensível, seria preciso levar em conta tudo aquilo que os castigos corporais implicam em relação ao corpo das classes populares, que devem sua existência no plano econômico à sua força física de trabalho.

Assim, o modo escolar de socialização (baseado em sujeitos auto-regulados – sem a necessidade de intervenção constante), colide diretamente com os modos de socialização no âmbito familiar (baseado em sujeitos repreendidos pela vigia e intervenção constante). Para a classe trabalhadora, o tempo do lazer não é associado a práticas educativas, mas, ao descanso do tempo do trabalho. Dessa forma, as atividades lúdicas ou interpretadas como demasiadamente abstratas, parecem de pouca aplicação na vida cotidiana (como aulas de Artes, Filosofia e História); e vistas com menor relevância se comparadas a Português e Matemática, ferramentas para o mercado de trabalho (ler, escrever, contar). A importância de exercer um ofício é fundamental para a valorização de toda identidade de classe. Embora esse grupo específico tenha ciência de sua posição desfavorável socialmente, reafirmar-se como um trabalhador é motivo de orgulho, conforme Sarti (1996) “é através do trabalho, então, que demonstram não serem apenas pobres. Ao lado da negatividade contida a noção de ser pobre, a noção de ser trabalhador dá ao pobre uma dimensão positiva” (p.66-67).

Em 2005, Paixão pesquisou o significado da escolarização para um grupo de catadoras de um lixão no RJ, apontando além dos embates econômicos, entraves simbólicos. Em geral, essas mulheres são a principal fonte de renda da família e aprendem o ofício acompanhando familiares que exerciam essa ocupação, sua renda é variável e com o benefício de um horário de trabalho mais flexível quando comparado aos empregos formais nos quais já atuaram (domésticas, babás e faxineiras), com rendimento mensal igual ou superior. Queixam-se da representação negativa na mídia e reclamavam para si o reconhecimento de sua função como labor digno, valor esse, de extrema importância na afirmação da identidade. As que aprenderam a escrever o próprio nome sentem-se aliviadas de escapar da violência simbólica que é assinar documentos com a marca do polegar, sentiam-se limitadas no ambiente escolar e não raro, apanhavam por não atender expectativas disciplinares e de aprendizagem. Esperam que seus filhos aprendam na escola um comportamento polido e ocupem cargos de maior prestigio social, tal desejo de ascensão para a prole é realista: Se desejariam filhos doutores, médicos, advogados? Certamente, mas sabem que esse anseio dificilmente se concretizará. Precipitadamente, a falta de ambição escolar pode ser vista como desinteresse,  no entanto, essas mães mobilizam-se dentro do possível para que seu destino social e o sentimento de inferioridade não atravessem as gerações seguintes, como é explicitado na palavra de uma entrevistada “não quer os filhos burros como a mãe” (Paixão p. 162).

Muitas constituíram família precocemente e valorizam a maternidade como símbolo de estatuto de maioridade. Seu lazer é reservado aos domingos e entre os programas preferidos está assistir TV, receber visitas e ir à igreja, visto como um lugar alegre e evidentemente, repleto de exortações: “Ensinam como lidar com a família, para quem tem esposo, como lidar com o marido; são umas coisas, assim… legal! Às vezes, engraçadas também” (41 anos, dois filhos, 4ª série do ensino fundamental). Segundo Giddens, a alta modernidade conta com sistemas especializados, trata-se de um conjunto de especialistas que dizem como devemos nos comportar e agir em diferentes espaços da vida: Psicólogos, Nutricionistas e livros de auto-ajuda, por exemplo. Entrementes, a igreja e seus líderes cumprem o papel de orientar e instruir seus fiéis no campo afetivo, civil, moral e espiritual, além de reforçarem a importância do trabalho para uma vida mais próspera.

A dificuldade em vislumbrar um futuro que transcenda tais condições materiais, sociais e econômicas não é estreiteza de raciocínio, antes disso, é o pragmatismo da sobrevivência no cotidiano.


[1]Para Cuche (2002), a cultura é histórica e se dá na relação dos grupos sociais entre si. “As culturas de diferentes grupos se encontram em maior ou menor posição de força”. Lembrando que nem o mais fraco está totalmente submetido, a dominância cultural nunca é total e definitivamente garantida.

[2] Ato de um estrutura social ser incorporada pelos seus integrantes e naturalizada no modo de viver, sentir, agir. Nesse caso, um bom aluno é aquele que sabe “se portar” de forma disciplinada.

Referências Bibliográficas:

CUCHE, D. CAP. 5 – Hierarquias sociais e hierarquias culturais; CAP 6. – Cultura e identidade. A noção de cultura nas ciências sociais. Bauru, EDUSC, 2002.

GIDDENS, A. Apresentação; Os contornos da Alta modernidade. Modernidade e identidade, Rio de Janeiro, Jorge Zahar. Ed, 2002

PAIXÃO, L.P.Socialização na escola IN: PAIXÃO, L.P. & ZAGO, N (org.) Sociologia da Educação: Pesquisa e realidade brasileira. Petrópolis. Editora Vozes, 2007.

SARTI, C.A. A família como espelho: um estudo sobre a moral dos pobres. Campinas: Autores Associados, 1996.

PAIXÃO, L.P.Significado da escolarização para um grupo de catadoras de um lixão. Cad. Pesquisa. [online]. 2005, vol.35, n.124, pp. 141-170.  http://www.scielo.br/pdf/cp/v35n124/a0835124.pdfAcessado em 31 de Março de 2013

THIN, D. Para uma análise das relações entre famílias populares e escola: Confrontação entre lógicas socializadoras. In: Revista Brasileira de Educação, vol. 11, n. 32, maio-ago. 2006

Produzindo para faculdade

Posted in Produzidos para faculdade tagged , , , , às 11:07 pm por Deborah Sá

É latente que minha relação com a academia mudou, fiz uma série de suposições, mas tudo muda uma vez que se está inserido nesse ambiente. De modo geral adoro estar lá, me preparar antes de aula, ler os textos, escrever, debater ideias. Claro que ás vezes é sofrido, por exemplo, se é necessário que eu leia cinco vezes o mesmo capítulo pra começar a entender o que o autor diz por trás de palavras e configurações do pensamento inéditas. Mas no fundo isso me estimula. Gosto das devolutivas; por elas percebo se sou objetiva, se corto os assuntos abruptamente (sem costurar as ideias muito bem), se meus títulos estão muito óbvios e assim em diante. Um novo olhar sobre meus escritos que como podem deduzir é meu hobby predileto.

Criei uma nova categoria de posts para organizar e compartilhar alguns dos textos que produzi para faculdade, (“Produzidos para faculdade”), isso incluirá artigos e demais produções que virão. Comecei a iniciação científica o que toma um tempo considerável, mas como sempre, arrumarei um jeitinho de comparecer aqui e dividir algumas coisas com vocês. Por isso, se demorar em responder e-mails, mensagens ou aprovar comentários não estranhem. Estou na reta final do segundo semestre e com certeza, serei outra pessoa ao terminar minha graduação, será interessante arquivar esse processo do mesmo modo que fiz com outras etapas da minha vida. Quando o arquivo escrito ultrapassar três páginas (de Word) em ABNT, compartilharei em links, uma vez que a dinâmica de um blog é diferente e textos grandes raramente são lidos. Dessa forma, sintam-se livres para divulgarem esses textos se assim desejarem, só peço que reconheçam minha autoria ;)

O texto compartilhado de hoje é sobre Nietzsche: Vontade e Dogma

10 maio, 2013

Misandria não serve nem pra piada

Posted in Gênero às 2:09 am por Deborah Sá

Eu, de pijama. Desenhada pela minha irmã

O feminismo e outros movimentos fazem isso há muito tempo, pegam um termo e dão um novo significado. Falar em “feminazi” e “misandria” por brincadeira é o mesmo que dizer que é um soldado da ditadura gay, mostrar o absurdo de não ter conjuntura política, histórica ou social quando se é acusado de promover um regime ditatorial. Simples. Faz alguns anos que não entendo essa brincadeira de “feminazi”, “sou misândrica”, imagens de ~odeio homens~. Quando li  SCUM Manifesto pela primeira vez, ri (conheço alguns homens feministas que também se divertiram), foi o momento de revolta da Solanas. Ela estava “pelas tampas” e resolveu dar um touché no discurso patriarcal mascarado de ciência. Como entretenimento, ótimo, pra levar á sério? Nunca. Compreendo a ironia e o propósito de se dizer misândrica na internet enquanto namora homens, gosta de intercurso, ama o filho, o pai, o irmão, o avô, faz parte da graça da piada, mostrar o disparate. Entre um caminhão de palavras pra ressignificar por que diabos vamos atrelar nossa identidade á esses parâmetros de interpretação obtusa do feminismo? Empoderamento, igualdade, empatia, pluralidade, união são termos que não dão mais conta? “Le Freak, C’est Chic?”

Não sei se é tendência, mas semana passada rolou um texto na internet sobre se assumir feia, parece um movimento similar a apropriação do discurso misândrico “de mentirinha” : Vestirei a carapuça. Percebo a ação mas não acho graça nem vejo o objetivo político. Por exemplo, se a feminista conseguir de fato se apropriar desse discurso e não ter preocupação com a aparência, ótimo. Porém, tenho a intuição de que apenas uma parcela ínfima ficaria satisfeita nesse esquema, se é que alguém realmente ficaria. Detesto ser repetitiva (digo isso há algumas postagens), todavia vejo necessidade de reiterar: Isso é separar mente e corpo. Ademais, saber do Mito da Beleza não implica na obrigação de jogar maquiagens fora, a própria Naomi Wolf usa brincos dourados e batom vermelho, a bunda da Simone de Beauvoir e seus pés em salto alto são de muito bom gosto no sentido mais comum da palavra. Não entendo esse “faz de conta” de “não me importo com beleza”, “odeio homens” e similares porque a maioria das mulheres que conheço que faz esse discurso tem problemas sérios de insegurança e de auto-estima. Não porque são fracas, mas porque são humanas e todo mundo se sente assim ás vezes. Então por que mentir pra si mesma assim? Pra quê passar essa imagem que foge tanto do amorzinho que vocês são na vida real? Qual o alívio de dizer “Ufa, não preciso me sentir linda”, esse não é um dos discursos mais fortes desde a segunda onda do feminismo? Que cada uma tem o direito de se reinventar? De mandar á merda os padrões e descobrir sua forma de ser feliz? Gente, cadê a historicidade?

Outra coisa, se não querem ser chamadas de lindas, deixem isso claro, as pessoas tem de respeitar, mas não é porque alguém te acha linda que está te reduzindo a um pedaço de corpo. Aproveitando a postagem, deixa eu falar uma coisa que mudei e muito de opinião sobre uma interpretação feminista corrente: Ninguém se objetifica. Uma postura corporal, uma roupa, uma dança, nada, nem ninguém, se objetifica, porque acreditar nessa possibilidade é dizer que a culpa do alvo de preconceito é ele mesmo, igual fazem com gay que dá pinta. Quem quer ser fabuloso e se jogar no vestidinho flúor ótimo, quem quer se jogar no xadrez e deixar a perna peluda, idem. Mas voltando ao papo anterior, se “misândricas” usam maquiagem, a maioria se relacionou (ou se relaciona) com homens e obtém prazer disso, qual a finalidade desse discurso? Aproximar uma panelinha como em uma piada interna? É um código interno de uma festa que não me convidaram (vai que…)?.

6 maio, 2013

Á última dieta

Posted in Corpo tagged , , , às 12:27 pm por Deborah Sá

Dieta é um plano emergencial que consiste em quebrar o lacre, retirar o martelo, estourar o vidro e pular do ônibus em movimento, um incidente com escoriações. Mas por que atitude tão abrupta? A dieta é movimento desesperado por controle que escapa dos dedos e pula direto na balança. Ah, a temida balança! Nela medimos o tempo, calculamos medidas perfeitas, calorias exatas. É métrica de antever passos, se tornar senhor das próprias pulsões e paixões, refrear. Por meio dela há o pressuposto de uma meta, um plano de ação que controle o futuro e como reagiremos a todas as “tentações” que o horizonte reserva, mas ao fim, é punição de curto prazo. Um rigoroso e quase exclusivo grupo de alimentos nada saboroso é calvário, uma cruz para carregar que quanto mais pesada, maior será a credibilidade, visto que quanto maior o pecado maior a penitência. A dieta serve como uma luva quando se trata de culpa. Por ser meta de curta duração é realizada com pouco prazer, traz no íntimo a sensação de que os resultados não serão duradouros e uma vez que as abstinências desse processo sejam abandonadas, recuperarão todos os quilos perdidos. Logo, a dieta é feita para o fracasso e quando esse término de privações chega ao fim e nos atiramos á forra, o ciclo está completo: Você entrou no projeto que pedia o máximo de comprometimento e “celibato”, depois do resultado alcançado (isso se não houver desistência antes), é hora de voltar com a vida social e sentir prazer novamente. O relógio volta com velhos hábitos e costumes; é dado o momento de procurar a nova dieta, entrar em um novo ciclo de penitência, vigia constante, rigidez.

A punição acontece por nos privar do prazer, tornando possíveis os paralelos com o deleite sexual. Somos todo corpo e em especial, somos estômago. Uma comida realmente fantástica é aquela que nos faz gemer. Guerrear contra a gula não é muito diferente de se opor á luxúria, o corpo nos trai, pede coisas não exatamente apropriadas ao momento ou situação, o núcleo desse raciocínio ocorre quando separamos as urgências da mente e do corpo. Não parece nada nobre se entregar ao prazer fugaz de uma colherada no brigadeiro, ou quem sabe, o sexo casual com o semi-desconhecido, mas o corpo pede e ás vezes, a gente cede. O que proponho é um exercício um pouco mais aprofundado e por essa razão, muito distante da necessidade de seguir uma dieta. Trata-se de ouvir a demanda do corpo ponderando pra depois agir, ir à contramão do plano impulsivo para respostas impulsivas. Combater compulsão alimentar com dieta é colocar fogo contra fogo e nesse embate, sairemos chamuscados seja pela escassez ou pelo excesso.

É possível se alimentar de solidão, mágoa, rancor, desamparo, quem nunca afogou suas mágoas em quantidades extras de açúcar? Se ninguém nos ama o bastante, o tablete de chocolate é carinho quase imediato. Podemos nos alimentar de raiva quando rapidamente e com violência ingerimos uma porção após outra sequer sentindo o sabor, pra sufocar, pra causar mal, de propósito.  Dá pra comer vingança, mostrar á nós e ao mundo que eles têm razão em nos taxar de “um caso perdido”, “Já que sou gorda, vou me entupir”. Conheço e já degluti sentimentos de ódio, piedade, rejeição, medo. Também já os experimentei no outro extremo, privando de comer o que tenho vontade.

Se o corpo marca o tempo, ele também conta as experiências vividas por meio das rugas, sinais, pintas, nas pequenas ou grandes manchas, cicatrizes, na postura, no modo de sorrir, no sotaque. O que somos é denunciado pelos movimentos espontâneos como o tom de voz e a desenvoltura de falar em público. Mas, se nós aprendemos a ser, isso é, se nós nos construímos ao longo dos anos, não significa que esse processo tem data limite para intervenção. Se me construí como uma pessoa gorda pela minha interação social e minha experiência com o mundo até determinada idade, nada impede que mude de direção e busque outra forma de interagir com meu corpo e com quem me cerca. Note que isso demanda extrema franqueza sobre si, conhecer o próprio ritmo, respeito e zelo pela própria história, o corpo como unidade criadora e em permanente movimento. Nesses parâmetros, uma dieta restritiva, impulsiva, pouco reflexiva, que transforma seu organismo em inimigo é uma grande sabotagem. A honestidade com o corpo (e a consciência faz parte dele) permite uma ação bem direcionada e não imediatista. Se seu corpo foi construído (e ele sempre é, mesmo quando tratado de forma displicente) no decorrer das décadas, não é em um dia que recuperará o “tempo perdido”. Aliás, a dieta só considera tempo ganho aquele que acontece sob suas rédeas curtas, é dependência.

Quem se torna refém de uma dieta não trabalha o amor próprio no presente, é apenas no futuro que talvez, seus seguidores arrisquem abandonar inseguranças, só quando suas pernas forem bonitas o bastante, sua barriga estiver seca o bastante. Mas esse futuro nunca chegará, porque a ilusão da dieta é prometer que em algum momento se for realmente determinada alcançará ao corpo ideal. Se isso fosse verdade, modelos, atrizes e cantoras com corpos no padrão não seguiriam dietas restritivas para perder mais dez quilos, a mídia diz o contrário. Em dieta, não há permissão para se divertir ou comer algo realmente saboroso, a ração está suspensa por mau comportamento. A dieta nos transforma em carrascos, para burlar quebram-se as regras trazendo mais culpa e uma vez cansadas, envergonhadas e ansiosas, sairemos em busca por uma solução rápida que sane o aborrecimento e o investimento anterior. Estamos prontas à submissão voluntária de uma dieta mais rígida que a antecessora, a dieta do presente financiará a seguinte em uma hipoteca que consome emoções, esperança e amor-próprio. Nesse dia sem dieta proponho um projeto mais ambicioso que ficar 24 horas sem regimes, a intenção é que nunca mais você precise recorrer a esse sistema auto-punitivo. Parece loucura, eu sei, mas ainda mais ilógico é o fato de que tantos indivíduos vivam correndo atrás da própria cauda, inseguros ao ponto de não sair de casa, de pensarem (e até mesmo tentarem) suicídio, de sentirem vergonha por supostamente não merecer uma vida social, investir em um novo romance, trocar de emprego, terminar um relacionamento abusivo, experimentar novas roupas.

Para tanto, é mais benéfico trocar a dieta por movimento, o que será mais prazeroso cabe a cada um descobrir: Caminhada, natação, esporte, musculação, capoeira, yoga… Se encontrar uma atividade prazerosa e fizer disso uma rotina de amor próprio, a endorfina e o sangue circulando serão bem mais motivadores que um jejum e o sabor de sopa aguada.  E a melhor parte: Não é necessário sentir culpa em comer o que se tem vontade, entrementes, é possível se permitir experimentar coisas diferentes: Legumes, frutas, vegetais e sucos naturais são realmente deliciosos e ajudam no humor. Isso não significa que você só vai comer arroz integral com linhaça até o fim da vida, trata-se de expandir a cartela de cores do seu prato, fazer uma refeição variada oferecerá maior prazer e saciedade. Isso trará emagrecimento? Talvez. Mas a questão é: Você quer emagrecer? Se a resposta for afirmativa, é bom que pondere os modos que conseguirá isso. Se for com dietas, cápsulas e outras fórmulas de resultados bruscos as chances de falha são muito altas, não por culpa sua e falta de determinação, mas porque o corpo busca estímulo e prazer e uma dieta não corresponde a nenhuma dessas especificações básicas. Se você quer emagrecer precisa repensar a forma que lida com a comida, mudar hábitos, fazer exercícios físicos. Se mesmo assim, optar por seguir uma, não esqueça que junto do dinheiro que vai pelo ralo irá mais um pedaço da sua auto-estima que já não anda lá essas coisas. Não há qualquer garantia de que se finalmente vestir um manequim menor será efetivamente mais feliz.

Quem não tem aquela amiga magra com o corpo exatamente como sempre sonhou e que aperta “banhas imaginárias” reclamando que precisa perder medidas? Quantas ex-gordas não ficam em frangalhos se alguém as chama pelos antigos apelidos? A trajetória esperada tem sido se privar e sofrer primeiro para (talvez) se amar depois, porque não descartar a primeira parte? Porque é mais lucrativo para uma indústria bilionária de alimentos, revistas, cosméticos, cintas-redutoras, cápsulas e livros manter consumidores ávidos por soluções mágicas, se há culpa nas pessoas a dieta corrobora para que se expanda. Metaforicamente, é como se convencionasse que um tratamento adequado para um depressivo são terapias depressoras, com evidente falha, a solução seria encontrar outra ainda mais intensa. Ou seja, a dieta não contribui para que seu “quadro clínico” melhore, ela agrava os sintomas e ainda te culpa por isso. Se você quer emagrecer, o faz para que(m)? É o medo do que acontece depois da curva dos oitenta quilos?  Dos três dígitos? Emagrecer para que seja tratado com respeito é comprar o discurso de que gordos merecem o ódio que os atinge. “O gordo é um estorvo para o sistema único de saúde” e todas as outras estatísticas que surgem quando ligamos a TV com matérias mostrando a barriga de pedestres anônimos. Dizem que os gordos são imprestáveis, preguiçosos, nojentos e diante da coação esses se convencem, tentam pedir desculpas pela própria condição emagrecendo para serem dignos de afeto, respeito, desejo. Meu convite é para que os gordos (e os que se sentem assim) saiam das sombras e se movam, disseram que nosso corpo era peso morto e acreditamos, não arriscamos atividades físicas, desconhecemos o tamanho da nossa força, nossa elasticidade, se somos ágeis ou se podemos surpreender com a leveza no requebrar de grandes quadris. Se observarmos atentamente, no verso de cada fita métrica se esconde uma faixa criminal.