25 março, 2013

O aluno não sabe fazer “O” com o copo?

Posted in Educação tagged , às 1:05 pm por Deborah Sá

A escola que já era vazia de sentido para alunos e um trabalho pesadíssimo para professores estende seu expediente. Imagine um emprego estafante onde você se sente apenas um número e as tarefas propostas (em sua grande maioria) são completamente monótonas, uma cantilena sem fim e então, é aumentada a carga horária. Você que me lê, certamente passou décadas dentro dessa instituição então diga com sinceridade: Você não se sentia um lixo nos bancos escolares? E você, educador comprometido, também não se sente um lixo pela péssima infra-estrutura, pela pressão em fazer mágica em 12 meses com a tarefa hercúlea de “melhorar” a “bagagem do aluno” (ou seja, o acúmulo até aquele momento específico da vida), ao mesmo tempo em que prepara ele para os anos seguintes?

As escolas de tempo integral se forem apenas uma extensão do que a escola já é, pioram o quadro geral. É preciso investir na formação de professores, tornar esse trabalho mais valorizado, fazer o professor se sentir menos vulnerável. Sim, porque o professor em muitos momentos se sente extremamente vulnerável. Ele “tem que” responder as recomendações da Diretora, da Coordenadora Pedagógica, do Plano Nacional de Educação, dos alunos com cara de bunda (quando sacrificou o fim de semana planejando aula e corrigindo provas), dos pais dos alunos que acham que fariam o trabalho melhor que ele (mesmo que malemá aguentem dois filhos em casa por algumas horinhas, quem dirá prender atenção de dezenas de crianças).

Explicando melhor o tamanho da bucha: Os alunos chegam e é necessário traçar um perfil para saber “em que pé está” essa formação. Nada garante que o que você ensinou será “reaproveitado” pelos professores que receberão esses alunos nos anos seguintes. Há evasão, eles mudam de estado, de escola, enfim, muitos são os motivos para que talvez você não veja boa parte deles nos anos que seguem. Recentemente, Alckimin acabou com aulas de Geografia, História e Ciências no Ensino Fundamental. O que isso significa? Que os índices de desempenho estão baixíssimos. A escola cada vez mais explicitamente é feita para o escrever-ler-contar. Esse déficit é culpa de quem? Certamente não é só do professor, nem dos alunos, nem só dos pais. É da forma escolar como um todo. Mas uma coisa é certa, professores e tutores não são idiotas, mais ainda, sei que isso pode chocar alguns mais sensíveis por isso peço licença para ir mais fundo: Sequer os alunos são estúpidos.

Nem aquele aluno que escreve “alfasse”? Pois é, nem o aluno que escreve “derrepente”. Digo mais, os erros ortográficos dizem muito sobre como estruturamos nossa língua, sobre sua fluidez e uso, prosódia, fonética e fonologia. Um erro de grafia ou uma série deles, não é um ato de preguiça, antes disso, é reflexão que busca dentro de todas as variantes possíveis uma resposta mais adequada para a escrita de um enunciado. Isso significa que temos de abolir o ensino da “forma culta”? Não. Mas tratar o aluno como alguém que precisa ser medicado, que vê espelhado, que não sabe processar informações, não ouve corretamente, enfim, que é um sujeito torto e que o problema é de uma suposta estreiteza de raciocínio categoriza como patologia, além de ser uma inverdade. As pessoas têm que perder o medo das palavras, elas não mordem. Se você não sabe escrever tão bem quanto gostaria não importa. Coloque no papel, na tela do computador, na máquina de escrever, no papel de pão, no guardanapo.

As palavras estão aí para ser usadas e corremos atrás delas todas as vezes que tentamos dizer o que sentimos, seja em uma conversa de bar, seja na sala de aula. Ou seja, não tenha medo porque você já faz uso das palavras e de uma maneira refinada o suficiente para que ao receber sua mensagem, terceiros sejam capazes de te entender. A escrita e a leitura devem ser instrumentos para a autonomia e desenvolvimento, inclusive para o mercado de trabalho, mas não só para ele.

O perigo do discurso de uma educação voltada principalmente para o mercado de trabalho; é de que tudo que importa é ser produtivo. A produtividade em sua maioria quando para filhos da classe trabalhadora, é sinônimo de um trabalho mecânico, manual ou braçal, mau remunerado e de fácil substituição. O aluno da classe trabalhadora tem o direito de ter acesso a bens culturais diversos, música, leitura, escrita, arte, atividade física que vá além de “futebol para os meninos, vôlei para as meninas”. Ele precisa ter acesso a Filosofia, História, Ciências, Geografia, Biologia, Literatura, porque talvez esse seja o único momento que ele tenha acesso aos livros e a esse tipo de discussão. É patrimônio intelectual que deve ser oferecido não só a quem tem dinheiro a pagar por ele. A educação não deve bastar quando “ao menos um” presta atenção na aula, a educação de qualidade é um direito para todos, sem exceção (e um entre quarenta e cinco é “A” exceção).

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Erro ortográfico, irreflexão do emissor ou do leitor?

Posted in Educação, Produzidos para faculdade tagged , às 12:39 pm por Deborah Sá

Invariavelmente somos expostos a erros ortográficos, quer seja em letreiros, livros ou até mesmo em mídias impressas. Toda manifestação da escrita é passível de conter tais “deslizes”. Usualmente, a primeira reação diante desses “atos falhos” é um misto de perplexidade e curiosidade. Quem será o emissor da mensagem? Por que troca, omite, inventa, inverte as letras? Será que transcreve apenas o modo de falar? Por que insere ou suprime espaços em branco na construção de frases? É mais fácil se precipitar na suposição dessas respostas quando, antes de atentar para a mensagem escrita, se faz juízo de valor de quem a escreve. Dessa maneira, infelizmente, muitos professores subestimam e taxam alfabetizandos de um suposto “déficit” ou de uma “incapacidade generalizada” de estar, sentir e perceber o mundo. Debruçar-se sobre um texto e analisar esses “porquês” demanda o empenho de despir-se de tais pré concepções. Segundo Cagliari (1999, p. 121):

 “[…] Uma outra maneira de “ver” tais “erros” é considerá-los não uma mera transcrição dos sons da fala, mas o resultado de uma reflexão produtiva (e construtiva) a respeito de fatos do próprio sistema de escrita com o qual se está começando a lidar”.

Ainda de acordo com Cagliari, o princípio acrofônico (no qual cada letra corresponde tão somente a um som) é insuficiente para analisar um texto produzido por alfabetizandos, isso porque, outro fator é detectado: A busca pela forma congelada das palavras. Trata-se do acúmulo ortográfico que cada um desenvolve ao longo da vida e uma vez munidos dessa “gramática internalizada”, o processo de alfabetização e da linguagem como um todo, estará em constante atualização. Ou seja, ao escrever temos uma intuição (resultado do acúmulo da gramática internalizada) de como determinadas palavras devem ser escritas independentemente do seu som. A palavra “carrossel”, por exemplo, poderia ser escrita como “carrocéu”, “carrosel” (nem sempre a tonicidade é grafada com acentuação, em exemplo, a palavra “mel”). Contudo, a escrita é uma representação da fala, logo, muitas dúvidas podem surgir na combinação desses dois fatores (o que ouvimos e como registramos a escrita).

Certa vez, notei em um anúncio de almoço a seguinte expressão “Macarrão alho e olheo”, ambas as palavras são similares na sonoridade, porém, com distintas formas congeladas de escrita. “Alho” não possui acento no “a”, mas “Óleo” possui em “o”. Com base no som poderia se escrever igualmente “Áleo e Óleo”, “Alho e Olho” ou ainda “Alhio e Olhio”. Essa pluralidade de opções é disponibilizada toda vez que vamos escrever, como uma paleta de cores que se expande em dezenas de combinações quando solicitada, levando em consideração, inclusive, a ortografia como neutralizadora das variações linguísticas. Portanto, isso não significa que quem escreveu na lousa do restaurante não soubesse diferenciar um macarrão de condimentos e demais ingredientes. O que fez foi escolher uma única combinação dentre tantas outras, se aproximando do que acreditava representar mais assertivamente a escrita do prato do dia. Nosso sistema de escrita demanda a separação entre uma frase e outra pelo uso do espaço em branco. Isso nem sempre é fácil perceber, dado o modo que falamos devido à prosódia. Segundo Tenani (2011, p. 94):

A segmentação não-convencional de palavra gráfica é definida quer a partir da ausência, quer a partir da presença do espaço em branco que delimita a palavra em local não previsto pelas convenções ortográficas. Quando há ausência do espaço em branco, trata-se de hiposegmentação, como em “ajudime”, “porfavor”. Quando há presença do espaço em branco, trata-se de hipersegmentação, como em “na quela”, “cava lo”.

É preciso cautela para analisar hiposegmentações, hipersegmentações e a mescla dessas categorias (híbridos), quando o texto é manuscrito. A caligrafia, por exemplo, mesmo quando realizada sem esse propósito, pode separar letras, uma das outras. A segmentação não-convencional ocorre com recursos gráficos como espaçamentos e hifens. Divergindo do que ocorre na translineação sem hífen (a passagem de uma palavra entre uma linha e outra), uma vez que a ausência nesse caso, não se trata de segmentação não-convencional das palavras. Assim, cada palavra do texto deve ser interpretada como um signo que existe em relação com as demais partes da estrutura. Para tanto, cabe analisar como a grafia dessas mesmas letras bem como seus espaçamentos se desenvolvem ao longo do texto.

Uma hipótese levantada por Tenani, é que tais registros gráficos são motivados por possíveis estruturas prosódicas da língua, como a palavra prosódica, o grupo clítico e o pé métrico. Sendo que: “[…] Nas hipersegmentações, há evidência do pé troqueu dissílabo e, nas hipossegmentações, do grupo clítico (com predomínio de próclise)” . São, portanto, indícios de uma prática dialética entre fala e escrita onde um elemento não se sobrepõe a outro, mas em verdade, se constituem enquanto peças imbricadas e suplementares. Superficialmente, essas segmentações não-convencionais podem levar a crer que seu emissor possui uma espécie de “iletramento”, o que é uma inverdade, pois, ao construir esses enunciados, quem escreve demonstra repertório fonológico e como esse se manifesta e desenvolve.

A partir da amostra realizada por Chacon (2005, p. 86), com hipersegmentações extraídas de 451 textos produzidos por alunos da primeira série de uma escola municipal de ensino fundamental do interior de São Paulo, constatou-se que dos 136 trissílabos hipersegmentados ocorreram: ”[…] ou em limites de sílabas (e só nesses limites) ou em limites de sílabas e pés […] a ruptura promoveu uma curiosa e bastante recorrente combinação entre uma sílaba e um pé, ou entre um pé e uma sílaba”.

Esse exercício demanda uma reflexão sobre a correspondência entre grafema e fonema. Constatou-se em algumas amostras que esses espaços em branco delimitavam pedaços de palavras ou mesmo palavras inteiras, além de expor, sobretudo, as demarcações de limites prosódicos. Assim sendo, durante a elaboração de um enunciado não há aleatoriedade ou leviandade. Seu arcabouço é construído com os parâmetros que sustêm uma língua viva, cuja movimentação se dá entre práticas orais e letradas. É verbo que se faz carne e carne que se faz verbo.

Referências Bibliográficas:

CAGLIARI, L. C. O que é preciso para saber ler. In. MASSINI-CAGLIARI, G & CAGLIARI, L. C. Diante das letras: a escrita na alfabetização. Campinas-SP: Mercado das Letras, 1999, 131-159.

CHACON, L. “Hipersegmentações na escrita infantil: entrelaçamentos de práticas de oralidade e de letramento”.Estudos Lingüísticos XXXIV, p. 77-86, 2005. [ 77 / 86 ]

MASSINI-CAGLIARI, G. “Erros” de ortografia na alfabetização: escrita fonética ou reflexões sobre o próprio sistema de escrita? In. MASSINI-CAGLIARI, G & CAGLIARI, L. C. Diante das letras: a escrita na alfabetização. Campinas-SP: Mercado das Letras, 1999, p.121-129.

TENANI, L. “A segmentação não-convencional de palavras em textos do ciclo II do Ensino Fundamental”. Revista da ABRALIN, v.10, n.2, p. 91-119, jul./dez. 2011.

20 março, 2013

– Inteligente – Quem? Eu?

Posted in Desabafos às 10:54 am por Deborah Sá

Uma vida ordinária numa história que poderia ser a de qualquer um. Os fatos que me abateram são aqueles que as estatísticas produzem aos milhões. Por me sentir parte de uma verdadeira massa que se vê em nada excepcional, não conseguia me aceitar como “inteligente”. Em tempo algum me percebi como exemplo pra alguém, já que aquelas pessoas que gostamos de nos inspirar são as que mais se aproximam de uma não-humanidade. Aí está, sou humana até o talo, tropeço demais, admito demais. Guardo segredos dos outros aos montes, mas os meus? Esqueça! Morro pela boca! Não consigo segurar uma tristeza, um rancor, uma admiração por mais tola que seja. Distribuo elogios e abraços quase gratuitamente, quase, porque há dias que acordo azeda (humana que sou). Isso até ver um gato na janela, uma criança acenar, um abraço quentinho me surpreender. Sou fácil até demais.

A crença de que a inteligência é só para as pessoas sólidas e isentas de erros, me deixa confusa. Se me chamam de inteligente, oras, então não é a esse tipo que classificam: A enciclopédia sem sangue nas ventas.  Já desejei não levantar da cama para não expor a fraude que sou, pois, durante décadas, me disseram que gente torta feitassim só quebra a cara e não dá certo. Se “toda a rosa é rosa porque, assim ela é chamada”, que faz a rosa após ser chamada por outro nome, senão olhar para os lados e procurar por quem invocam? É a sensação de que aquele aceno do outro lado da rua pode ser pra qualquer um, menos pra você. E eis que o quadro se inverte. Desse modo, não é que não saibam como me chamar, eu que ainda não aprendi a ouvir em outro adjetivo. Onde charmosos desarranjos de formas estão, é onde também faço morada, isso não faz de mim uma fraude, sou antes, um ensaio permanente com a franqueza de suas rasuras.

1 março, 2013

Perdeu, Playboy!

Posted in Cotidiano tagged , , às 11:16 am por Deborah Sá

O Lelek, a Piriguete e a Bicha Poc Poc, são versões não aceitas do mauricinho, da patricinha e do viado culto. Todos brancos e instruídos, claro. Daí nasce aquele horror nem sempre dito: “Não que não goste de viado, mas tem que ser culto, parecer hétero, falar o português muito bem”. As maquiagens desejadas, são aquelas ensinadas pelas meninas de cabelos castanhos no You Tube, definitivamente, a sombra azul da caixa de supermercado e o batom da Vult da mulher do Hot Dog, não são um exemplo a seguir. As roupas da adolescente na Oscar Freire e até seu sapato sem salto, são uma inspiração, ao contrário da moça de igual idade que passeia no Largo Treze, de piercing no umbigo. O mesmo vale pro Lelek, todos seus cortes de cabelo são considerados esdrúxulos e essa vertente metrosexual não é reconhecida. E a Bicha Poc Poc, que usa Avon e fragrância genérica de Carolina Herrera? Ca-fo-na. Não que seja revolucionário cantar de ostentação, carros de luxo, ser “patrão”, mas isso está em quase todo gênero musical, o desejo de uvas na boca. Porém, a crítica que se faz a essa juventude cabeça oca (aparentemente não importa a época, são sinônimos), não é tanto o vazio das letras, mas o divertimento em rir do “primo pobre”. Quando a mocidade branca e de classe-média celebra o consumismo é chamada de fútil, mas ao menos “serve de exemplo” nem que seja pelos sapatos. 

A intuição é que por não ter pais endinheirados, Leleks praticam furtos enquanto Piriguetes e Bichas Poc Poc saem a caça por homens que os banquem, como se não existissem jovens de outros extratos sociais que fazem exatamente o mesmo. Talvez, essas piadinhas sirvam pra disfarçar o medo de perder a marca que adora, a exclusividade daquela estampa, as bugigangas tecnológicas, as visualizações do Vlog para um vídeo de Funk e até a fila no Starbucks, conservando a esperança que sejam modas passageiras e que com o passar dos anos, não tenham de ouvir em ritmo de funk “Jorge Maravilha” da boca do futuro genro.