11 fevereiro, 2013

Um feminismo de sangue?

Posted in Corpo, Gênero às 12:09 am por Deborah Sá

A escrita é uma espécie de ensaio pra vida pública, o momento de admitir pra nós mesmos o que borbulha do lado de dentro. E o que estoura nessa ampola são discordâncias com certas concepções do feminismo. Por exemplo, a busca por um retorno matriarcal idílico, como na citação de Monique Wittig:

Houve um tempo em que tu não eras escrava… lembra-te disso. Um tempo em que caminhavas sozinha, cheia de riso, em que te banhavas nua no mar… Podes ter perdido a lembrança desse tempo, mas procura lembrar-te… Podes dizer que não há palavras que descrevam esse tempo, podes dizer que ele não existe. Mas recorda. Faz um esforço para o relembrares, ou, se não conseguires, inventa-o!

Embora reconheça a beleza de imaginar um tempo de liberdade, isso não me basta. Assim como não basta existir em busca de um paraíso além-matéria. Desanima viver com os pés no passado em um saudosismo de um tempo onde a opressão inexistiu. Até porque, duvido que houve um momento de comunhão unânime, a Age of Aquarius¹ não parece factível. Da mesma forma é improvável uma origem ou produção “pura” sem intervenção do meio. Em uma metáfora, faço uso do embate Cultura Dominada X Cultura Dominante² levantada por Cuche. É um erro supor que a Cultura Popular (feita pelas massas), é um simulacro mal acabado da classe dominante, porém, também é ato falho acreditar que tudo o que é produzido pelas massas não possui certa margem de autonomia e contestação. Dentro de um feminismo mais maniqueísta, o que é produzido por homens é naturalmente ruim e perverso enquanto o que produzido por mulheres é praticamente… Mágico! Ao ponto insólito de enxergarem em um ato não-humano (um leão mordendo a leoa ao acasalarem, por exemplo), como amostra clara do desejo natural de homens dominarem mulheres. Entra o sentimento essencialista de “ser mulher”, como se uma mulher que um dia possuiu (ou ainda possui) um pênis fosse de alguma forma “menos mulher”. Como se “ser mulher” fosse uma espécie de qualidade hereditária e  tivéssemos o tal “sangue azul” ou como prefiro chamar o “sangue roxo”. Quando pensei em cursar História (nem faz tanto tempo assim)³, foi pra realizar pesquisas na área de gênero e combater a idéia da História considerada relevante, aquela que vira estátua (como a pavorosa de Borba Gato, incrustada em SP). Essa percepção é parcialmente verdade, em linhas gerais, as pessoas tem uma visão de que “grandes nomes” compõem a História, mas qualquer Historiador(a) minimamente comprometido(a) sabe que novas concepções não são rompantes que brotam de mentes “iluminadas” do dia para a noite. Os valores do Século XVIII não mudaram instantaneamente com o raiar do Século XIX. Percebendo que já havia um número considerável de produções acerca do tema, desisti de estudar as mulheres (que mulheres? De qual período?), não invalido quem trilha esses caminhos na Universidade, nem desdenho do Feminismo que se faz muito pertinente, mas não o vejo com os mesmos olhos de antes.

Ainda há muito o que conquistar: Os índices de violência contra mulher permanecem altos, os salários baixos, ainda vivemos, oras, em um patriarcado que limita a todos. Por essa mesma razão, defendo espaços exclusivamente femininos, ainda há mulheres que não se fortaleceram em sua condição, que precisam de espaços de segurança para desabafar e se fortalecer. Todavia, não considero essa ancestralidade, a sisterhood feita de sangue roxo (herdado) e de sangue uterino (binário e biológico). O feminismo por si só, não basta para explicar a opressão que atinge a cada grupo minoritário de forma específica, ser cis-mulher tem suas desvantagens, porém, se levarmos em conta a vivência de uma mulher transexual percebemos que terá dificuldades distintas, a começar por conseguir um emprego de carteira assinada, ser apresentada para os pais como namorada, ter um círculo de amigos para se relacionar e andar em via pública sem ser importunada 4, etc. Isso não pode ser desconsiderado. Já que as estruturas de poder são múltiplas não podem ser sintetizadas em um ponto de vista somente. Não se trata de uma olimpíada pra ver quem sofre mais, por vezes é o mesmo peso que nos esmaga, mas nos fere produzindo marcas diferentes. Fazer parte de uma estrutura dominante não nos converte imediatamente em calhordas da pior espécie, se pode não compactuar com o modo como os privilégios são distribuídos socialmente, ou ainda, se sensibilizar e reverter posturas. No primeiro caso temos o Dr. King Schultz de “Django Livre” e no segundo, Wiesler do excelente “A vida dos Outros”. Ou seja, refutar um argumento com “claro que você não achou machista, você é homem”,  é encerrar a discussão ali. Pois se a relevância for um parâmetro essencialista, é como se não existissem mulheres mal intencionadas e sádicas, como se todo proletariado fosse o bom selvagem que não despertou seu senso de coletividade, é imaginar que a arte e a música “em seu estado puro” só podem surgir desses grupos como flor de lótus. Essa distinção polarizada, essencialista e saudosista não me comove. Meu feminismo não se ancora em Éden passado ou futuro, ele é feito da construção permanente daqueles que se levantam contra a injustiça que fere a própria carne, mas também por meio dos que renunciam o comodismo para estender a mão.

Fontes

¹ Me refiro a Era de Aquário, a idéia de que uma nova era de alinhamento entre os planetas culminará na fraternidade de todas as nações. Como a presente no ótimo musical Hair

² CUCHE, D. Cap. 5 – Hierarquias sociais e hierarquias culturais. In: A noção de cultura nas ciências sociais. Bauru, EDUSC, 2002

³ Guest Post que escrevi em 2011 para a Lola – Invadindo um espaço que não me pertence

4 Há esse vídeo excelente sobre a Invisibilidade Trans e o mercado de trabalho

2 Comentários

  1. Lex said,

    Se você pensa assim, garota, sinto lhe dizer: você não é feminista. O feminismo existe tal como você o critica. Não perca tempo defendendo um feminismo subjetivo, que só existe na sua cabeça.

    Se você realmente entrou em contradição com as linhas de pesquisa universitárias, então trate de procurar outras alternativas na vida. Não tenha a ilusão de que você conseguirá espaço com um pensamento independente. Essa ilusão custa MUITO, MUITO caro.

    • Deborah Sá said,

      Seu comentário é tão absurdo que não sei se é uma espécie de troll (ás vezes uns aparecem por aqui). Mas vamos supor que por um acaso você esteja realmente levando a sério as coisas que escreveu:
      Meu feminismo não é subjetivo, aliás, é bem material. Dizer que as linhas de pensamento que defendo só existem na minha cabeça demonstra quão parco é o seu conhecimento sobre a história do feminismo, para não dizer das lutas sociais e ideais de igualdade como um todo. Seu comentário ainda reforça um elitismo evidente, como se o baluarte feministas estivesse dentro da Universidade. Em primeiro lugar, o feminismo não está só dentro do ambiente acadêmico, ele é feito por pessoas empáticas espalhadas em todos os contextos sociais, em segundo lugar, o que é produzido dentro da academia está sujeito a crítica porque as ciências (todas elas) não são neutras ou imparciais. Não preciso lutar “pra conseguir espaço dentro do feminismo” quando já estou dentro dele, dialogando com feministas das mais variadas vertentes, ademais, toda relação entre sujeitos e o que deles advém é dialética e não estanque, tal qual a própria História, ou seja, o Feminismo não parou nos anos 70, ele se transforma com o passar do tempo.
      Em tempo, recomendo que leia: https://aqueladeborah.wordpress.com/2012/08/29/a-feminista-perfeita/


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