5 fevereiro, 2013

O pastor da dominância pelo grito

Posted in Crenças tagged às 11:17 pm por Deborah Sá

Nem em meus tempos de cristandade gostava desse tipo de pregação e oratória. Por certo muitos preferem e acham louvável uma liderança masculina que fala aos berros, que não abre espaço pro diálogo. Basta ver a entrevista no De Frente com Gabi dessa semana, se ela não interrompesse o pastor durante suas falas ele continuaria o monólogo. Uma pessoa que não aprendeu a ouvir não respeita a dialética, não é ponderada ou sensata, está absorta em sua própria torrente de egolatria. De igual modo apresentadores sensacionalistas são populares, é a afetação masculina de terno e gravata. Se uma mulher se porta assim (mesmo que usando louboutin) é tida como “sem classe”, espalhafatosa. Um homem no molde colérico ganha um BBB, vira líder, tem fama de polêmico e supostamente tem o poder de persuasão. O que é um equívoco, esses líderes não persuadem, eles metem medo, eles coagem. Um discurso cristão que afirma que Deus manda para o inferno quem não o ama é uma pronúncia de medo e dominação, de posse. “Se você me abandonar  mando te torturar”.  Nessa lógica cristã de rolo compressor Deus não suja as mãos mas manda seu parceiro, o Diabo, fazer o trabalho sujo no porão de tortura chamado inferno. Eu já amei a Deus mais do que amei minha própria vida, ao ponto de silenciar meus desejos, ao ponto de pedir a ele com todo coração que se fosse pra perder minha fé, que me levasse antes. A fé se foi aos poucos e tive medo de raios na cabeça, perdas na família, castigos eternos e terrenos, de pesares e angústias. Hoje além de gozar das delícias da coerência entre consciência e prática, não acredito em nada além desse plano terrestre, em vidas vindouras, em espíritos, anjos ou demônios. Mas creio que se Jesus caminhasse por entre as ruas ele estaria com os excluídos, os de cabelos coloridos e black power, fazendo rimas de rap e grafitando paredes, com as putas, com os viados, com as lésbicas, com transexuais e travestis. Ele defenderia o amor. Ele pegaria ônibus ou dormiria em um papelão com os pés sujos para fora. Ele defenderia justiça e igualdade social para humanos e também para os animais. Sobretudo creio que se Jesus estivesse entre nós, não comungaria entre os endinheirados, engravatados, arrogantes, tirânicos, tampouco com os que usam o seu nome para deferir maldições.

10 Comentários

  1. naquele tempo, Jesus não comungava com as práticas de líderes religiosos, moralistas, prontos para apontar o dedo e atirar pedras. pq o faria hoje? Lindo post!

  2. Chico said,

    “Creio que se Jesus caminhasse por entre as ruas ele estaria com os excluídos, os de cabelos coloridos e black power, fazendo rimas de rap e grafitando paredes, com as putas, com os viados, com as lésbicas, com transexuais e travestis. Ele defenderia o amor. Ele pegaria ônibus ou dormiria em um papelão com os pés sujos para fora. Ele defenderia justiça e igualdade social para humanos e também para os animais. Sobretudo creio que se Jesus estivesse entre nós, não comungaria entre os endinheirados, engravatados, arrogantes, tirânicos, tampouco com os que usam o seu nome para deferir maldições”. É isso!

  3. gabi xavier said,

    caramba,curti muito esse post,falou tudo Deb

  4. renardfox said,

    Acho que é por essas e outras coisinhas que tenho dificuldade com a fé movida a gritos: eu acredito em ouvir.

  5. Natália said,

    Essa retórica cruel e opressora, devia ser regulamentada, vez que em diversas situações vê-se que se aplica à seres completamente indefesos disso. Esse poderio sem freio devia acabar.
    Olha aí a proposta de um estuto do nascituro que não nos deixa mentir.

  6. Ana said,

    Ganhou uma admiradora.

  7. songa said,

    Gostei do que li, só não entendi sobre os endinheirados…é como se todos aqueles que tem dinheiro, não tivesse sido resultado de conquista através de trabalho. Parece que é como demonizar todos os que possuem recursos materiais.

    • Deborah Sá said,

      Minha intenção foi dizer que Jesus andaria com quem é marginalizado. Dentro do capitalismo quem tem dinheiro não é marginalizado, simples assim.

  8. Clayton said,

    Eu acredito muito na relação que estabelecemos com as pessoas. A mensagem de Jesus fazia efeito porque ele estabelecia a relação com as pessoas, principalmente com os marginalizados. Ele sabia que de nada adiantaria infindáveis discursos se não estabelecesse esta relação com as pessoas. A lógica do rolo compressor é aplicada constantemente entre os religiosos: Não me segue, virá maldição! Gente, por favor, o que há de mais valioso do que estabelecer relação com as pessoas e saber lidar com as diferenças?

  9. Isabela said,

    Quando cristã mais assídua, nunca entendia isso: as pessoas despejavam aos montes que devíamos respeitar os mandamentos de Deus, respeitar uns aos outros, nos entregar a fé. Mas o fato é que eu não conseguia ver elas praticarem isso, e ficava ali perdida naquela incoerência toda questionando algumas vezes, com esse exato pensamento de que ” creio que se Jesus caminhasse por entre as ruas ele estaria com os excluídos”. Lindo texto!


Os comentários estão desativados.

%d blogueiros gostam disto: