23 fevereiro, 2013

Para contar tudo que eu vi, fotografei e não mostrei

Posted in Cotidiano às 10:38 pm por Deborah Sá

Evitava espelhos como quem sai de perto no momento da foto. Dado tempo ao tempo, a escrita e a fotografia foram exercício de distanciamento para ser vista por outros ângulos. Comecei com o uso de diários, certas mensagens eram cifradas de modo que eu entendesse mais tarde, as letras dos primeiros amores estavam todas lá. O escrito íntimo é ensaio pra vida pública, uma espécie de armário, a prece que carrega algo que relutamos em admitir até para a sombra, o palco pra ser quem gostaríamos de ser, o registro para voltarmos quando surge a necessidade. Por ser um ensaio, são muitos os desenvoltos na vida on-line que emudecem ao saírem de suas baias. Não é apontamento de dedos, trata-se da condição em que estive. Escrevendo, juntei coragem como alguém que toca sem saber ler partitura, não sei bem onde colocar os pontos, as vírgulas, a hora certa do ponto final. Só sei que faço pra que tenha um som agradável quando as palavras repetem, repetem, e mais uma vez repetem. Essas, nem sempre são lidas no tom que imagino e as ironias e intenções ganham outro rumo que não dá pra precisar. Mas tudo bem, pois quando publico sei que não crio sozinha, aliás, só sou escritora porque tenho um leitor, ou seja, você.

Eis um rótulo que evitei tal e qual as fotografias e os espelhos. O escritor usualmente é aquela figura que desperta interesse e domina a técnica, vira colunista de jornal, publica livros, sabe dizer seu próprio estilo. Quando me perguntam o que escrevo não sei exatamente o que dizer. Tem quem diga que sou poeta, cronista, autobiográfica. Um escrito íntimo publicado é a porta de entrada de um jardim secreto, a exposição para um grupo de estranhos. O que ganho com isso? Um verdadeiro tesouro para todo aquele que escreve: O espelho que responde com silêncio de leitor. Talvez porque somos anônimos, talvez por nos sentirmos igualmente diluídos, talvez por um motivo que só você saiba e goste de guardar em particular, como o prazer de ver sem ser visto.

Horas atrás ao abrir a gaveta de roupas velhas vi as estampas de um passado e me vesti delas, o incrível é que ainda caibo nas mesmas roupas que usava há dez anos. A primeira saia mais curta (que vai até o joelho), foi um marco e ainda serve como se fosse segunda pele, o chinelo com os sulcos dos dedos afundados no solado fino e até mesmo o sol que bate na casa de meu pai lembra aquele tempo, aquelas primeiras fotos, os primeiros espelhos, as primeiras vezes. Olhei no espelho e percebi que o cabelo que está tão sem tinta quanto antes, mudou sua estrutura. Dantes, lisos, longos e um tanto sem forma, agora, curtos e em crescimento, mechas virando em mais de uma direção como a planta que ramifica para aproveitar o espaço. Diante da iluminação peculiar debrucei sobre a janela e tirei alguns retratos desse corpo que só se cabe em sorriso descabido.

Esse post teve influência direta do livro que li semana passada “Blog : Comunicação e Escrita Íntima na Internet” de Denise Schittine.

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17 fevereiro, 2013

Mais desejosos que desejáveis

Posted in Corpo às 2:36 am por Deborah Sá

Mais desejosos que desejáveis são os corpos gordos e flácidos. Neles há movimento em um mundo que pede rigidez e contenção. Desejosos, são todos os corpos feitos pela ânsia de existir, contrariando as previsões de baixa expectativa para um ponto fora da curva. Mais desejosos que desejáveis são os corpos modificados, tatuados, alargados, decotados, perfurados. Mais desejosos que desejáveis são os fios de cabelos volumosos e coloridos, espiralados em cachos de nuvem, trançados em volta de tecidos. Mais desejosos que desejáveis são os ventres que fazem dobras, os pelos que nascem na virilha. Ao contrário do que diz a precipitação, nem todo corpo desejoso é entorpecido. Ele é eletrizante de vontade, pela luz e pela indiscrição. Seu oposto, o corpo fatigado, se alimenta de solidão e tédio, sofrendo de um refluxo quase involuntário da auto-punição. Esse, vê na entrega não uma oferenda, mas um castigo merecido de desconforto. Corpos desejosos, ao contrário, não fogem do próprio prazer, celebram a própria condição.  Corpos desejosos afrontam só por estarem perto, pois não se contentam em roupagem comum, quebram protocolos, silêncios, vazios. Corpos desejosos são excêntricos e não raro, extravagantes e teatrais. Debochados, sarcásticos, feito um palavrão. Corpos desejosos preenchem o imaginário e despertam o estranhamento de cobiça e vertigem, como a altura que convida com frio na barriga. Corpos desejosos são lâmpadas, com mariposas que dançam em sua volta. Corpos desejosos são frutas mordidas por elas mesmas, o empoderamento sem qualquer vestígio de remorso por ter o domínio de si, refestelar-se. Corpos desejosos são a melancia no pescoço que para de pesar.

11 fevereiro, 2013

Um feminismo de sangue?

Posted in Corpo, Gênero às 12:09 am por Deborah Sá

A escrita é uma espécie de ensaio pra vida pública, o momento de admitir pra nós mesmos o que borbulha do lado de dentro. E o que estoura nessa ampola são discordâncias com certas concepções do feminismo. Por exemplo, a busca por um retorno matriarcal idílico, como na citação de Monique Wittig:

Houve um tempo em que tu não eras escrava… lembra-te disso. Um tempo em que caminhavas sozinha, cheia de riso, em que te banhavas nua no mar… Podes ter perdido a lembrança desse tempo, mas procura lembrar-te… Podes dizer que não há palavras que descrevam esse tempo, podes dizer que ele não existe. Mas recorda. Faz um esforço para o relembrares, ou, se não conseguires, inventa-o!

Embora reconheça a beleza de imaginar um tempo de liberdade, isso não me basta. Assim como não basta existir em busca de um paraíso além-matéria. Desanima viver com os pés no passado em um saudosismo de um tempo onde a opressão inexistiu. Até porque, duvido que houve um momento de comunhão unânime, a Age of Aquarius¹ não parece factível. Da mesma forma é improvável uma origem ou produção “pura” sem intervenção do meio. Em uma metáfora, faço uso do embate Cultura Dominada X Cultura Dominante² levantada por Cuche. É um erro supor que a Cultura Popular (feita pelas massas), é um simulacro mal acabado da classe dominante, porém, também é ato falho acreditar que tudo o que é produzido pelas massas não possui certa margem de autonomia e contestação. Dentro de um feminismo mais maniqueísta, o que é produzido por homens é naturalmente ruim e perverso enquanto o que produzido por mulheres é praticamente… Mágico! Ao ponto insólito de enxergarem em um ato não-humano (um leão mordendo a leoa ao acasalarem, por exemplo), como amostra clara do desejo natural de homens dominarem mulheres. Entra o sentimento essencialista de “ser mulher”, como se uma mulher que um dia possuiu (ou ainda possui) um pênis fosse de alguma forma “menos mulher”. Como se “ser mulher” fosse uma espécie de qualidade hereditária e  tivéssemos o tal “sangue azul” ou como prefiro chamar o “sangue roxo”. Quando pensei em cursar História (nem faz tanto tempo assim)³, foi pra realizar pesquisas na área de gênero e combater a idéia da História considerada relevante, aquela que vira estátua (como a pavorosa de Borba Gato, incrustada em SP). Essa percepção é parcialmente verdade, em linhas gerais, as pessoas tem uma visão de que “grandes nomes” compõem a História, mas qualquer Historiador(a) minimamente comprometido(a) sabe que novas concepções não são rompantes que brotam de mentes “iluminadas” do dia para a noite. Os valores do Século XVIII não mudaram instantaneamente com o raiar do Século XIX. Percebendo que já havia um número considerável de produções acerca do tema, desisti de estudar as mulheres (que mulheres? De qual período?), não invalido quem trilha esses caminhos na Universidade, nem desdenho do Feminismo que se faz muito pertinente, mas não o vejo com os mesmos olhos de antes.

Ainda há muito o que conquistar: Os índices de violência contra mulher permanecem altos, os salários baixos, ainda vivemos, oras, em um patriarcado que limita a todos. Por essa mesma razão, defendo espaços exclusivamente femininos, ainda há mulheres que não se fortaleceram em sua condição, que precisam de espaços de segurança para desabafar e se fortalecer. Todavia, não considero essa ancestralidade, a sisterhood feita de sangue roxo (herdado) e de sangue uterino (binário e biológico). O feminismo por si só, não basta para explicar a opressão que atinge a cada grupo minoritário de forma específica, ser cis-mulher tem suas desvantagens, porém, se levarmos em conta a vivência de uma mulher transexual percebemos que terá dificuldades distintas, a começar por conseguir um emprego de carteira assinada, ser apresentada para os pais como namorada, ter um círculo de amigos para se relacionar e andar em via pública sem ser importunada 4, etc. Isso não pode ser desconsiderado. Já que as estruturas de poder são múltiplas não podem ser sintetizadas em um ponto de vista somente. Não se trata de uma olimpíada pra ver quem sofre mais, por vezes é o mesmo peso que nos esmaga, mas nos fere produzindo marcas diferentes. Fazer parte de uma estrutura dominante não nos converte imediatamente em calhordas da pior espécie, se pode não compactuar com o modo como os privilégios são distribuídos socialmente, ou ainda, se sensibilizar e reverter posturas. No primeiro caso temos o Dr. King Schultz de “Django Livre” e no segundo, Wiesler do excelente “A vida dos Outros”. Ou seja, refutar um argumento com “claro que você não achou machista, você é homem”,  é encerrar a discussão ali. Pois se a relevância for um parâmetro essencialista, é como se não existissem mulheres mal intencionadas e sádicas, como se todo proletariado fosse o bom selvagem que não despertou seu senso de coletividade, é imaginar que a arte e a música “em seu estado puro” só podem surgir desses grupos como flor de lótus. Essa distinção polarizada, essencialista e saudosista não me comove. Meu feminismo não se ancora em Éden passado ou futuro, ele é feito da construção permanente daqueles que se levantam contra a injustiça que fere a própria carne, mas também por meio dos que renunciam o comodismo para estender a mão.

Fontes

¹ Me refiro a Era de Aquário, a idéia de que uma nova era de alinhamento entre os planetas culminará na fraternidade de todas as nações. Como a presente no ótimo musical Hair

² CUCHE, D. Cap. 5 – Hierarquias sociais e hierarquias culturais. In: A noção de cultura nas ciências sociais. Bauru, EDUSC, 2002

³ Guest Post que escrevi em 2011 para a Lola – Invadindo um espaço que não me pertence

4 Há esse vídeo excelente sobre a Invisibilidade Trans e o mercado de trabalho

8 fevereiro, 2013

La Mirada Circular

Posted in Animais, Curtas/Documentários às 12:29 pm por Deborah Sá

Mirada
Está disponível on-line¹ o premiado curta espanhol “La Mirada Circular” que trata de Direito Animal. A diferença está no método de abordagem que difere de outros filmes ou documentários sobre o assunto. Nele, a vulnerabilidade animal é associada a infantil.  Cenas “fortes” (no sentido de abate e morte) são pontuais com fundamento na trama. Aviso esse dado de antemão, pois há quem não veja filmes como o nacional Amarelo Manga (que nada tem de vegetarino), por imagens assim. Ademais, a morte de não-humanos precisa ser encarada como o que é, a morte de um ser com coração, músculos e sangue. Querer que toda abordagem do tema seja asséptica tal e qual um bife na bandeja de isopor do supermercado, é como esperar que a martelada no seu dedo seja tão divertida quanto a que acerta um personagem de desenho animado.

5 fevereiro, 2013

O pastor da dominância pelo grito

Posted in Crenças tagged às 11:17 pm por Deborah Sá

Nem em meus tempos de cristandade gostava desse tipo de pregação e oratória. Por certo muitos preferem e acham louvável uma liderança masculina que fala aos berros, que não abre espaço pro diálogo. Basta ver a entrevista no De Frente com Gabi dessa semana, se ela não interrompesse o pastor durante suas falas ele continuaria o monólogo. Uma pessoa que não aprendeu a ouvir não respeita a dialética, não é ponderada ou sensata, está absorta em sua própria torrente de egolatria. De igual modo apresentadores sensacionalistas são populares, é a afetação masculina de terno e gravata. Se uma mulher se porta assim (mesmo que usando louboutin) é tida como “sem classe”, espalhafatosa. Um homem no molde colérico ganha um BBB, vira líder, tem fama de polêmico e supostamente tem o poder de persuasão. O que é um equívoco, esses líderes não persuadem, eles metem medo, eles coagem. Um discurso cristão que afirma que Deus manda para o inferno quem não o ama é uma pronúncia de medo e dominação, de posse. “Se você me abandonar  mando te torturar”.  Nessa lógica cristã de rolo compressor Deus não suja as mãos mas manda seu parceiro, o Diabo, fazer o trabalho sujo no porão de tortura chamado inferno. Eu já amei a Deus mais do que amei minha própria vida, ao ponto de silenciar meus desejos, ao ponto de pedir a ele com todo coração que se fosse pra perder minha fé, que me levasse antes. A fé se foi aos poucos e tive medo de raios na cabeça, perdas na família, castigos eternos e terrenos, de pesares e angústias. Hoje além de gozar das delícias da coerência entre consciência e prática, não acredito em nada além desse plano terrestre, em vidas vindouras, em espíritos, anjos ou demônios. Mas creio que se Jesus caminhasse por entre as ruas ele estaria com os excluídos, os de cabelos coloridos e black power, fazendo rimas de rap e grafitando paredes, com as putas, com os viados, com as lésbicas, com transexuais e travestis. Ele defenderia o amor. Ele pegaria ônibus ou dormiria em um papelão com os pés sujos para fora. Ele defenderia justiça e igualdade social para humanos e também para os animais. Sobretudo creio que se Jesus estivesse entre nós, não comungaria entre os endinheirados, engravatados, arrogantes, tirânicos, tampouco com os que usam o seu nome para deferir maldições.